domingo, 29 de setembro de 2019

Virgílio Várzea, o poeta do mar (Resenha)



Virgílio Várzea, o poeta do mar

O tempo é o único fator absoluto,por isso que julga os homens com justiça irremediável. Somos escravos desse absoluto que nos limita a existência, que nos julga a nós e as nossas obras, que nos esquece ou nos faz participar da sua essência: a eternidade.

Virgílio Várzea, espírito de notáveis e particulares qualidades literárias, é um escritor que viverá pelos séculos em fora porque o tempo já o perfilhou e embora haja um esquecimento aparente, os seus trabalhos surgem à tona, e o escritor catarinense ressuscita para ocupar o lugar a que tem direito. A Ilha de Santa Catarina; veleiro ancorado no Atlântico Sul, berço desse apaixonado dos oceanos; apresenta uma conformação irregular, com enseadas, baías, pontas e extensas praias rendadas, que a adornam e despertam, nos que a visitam e nela moram, emoções vivas e quentes.

Filho de comandante de navio, João Barbosa Várzea e de D. Júlia Alves de Brito, nasceu Virgílio Várzea, no dia 6 de janeiro de 1863, em Canasvieiras, uma dessas belas praias de mar grosso, de onde se avista os dois infinitos, mar e céu, sugerindo êxtases e mistérios. Teve, antes de tudo, uma educação maruja, a bordo de brigues e veleiros que então visitavam a ilha.

O meio, a educação que teve, antes das primeiras letras, a profissão do pai, a vida praieira, sempre olhando as distâncias e o longe, todas as relações atávicas, nunca impulsionaram tanto um escritor para um gênero de literatura, como no caso de Virgílio Várzea, para o gênero marinhista. Ele é o representante, mais em evidência, no cenário literário americano. A sua obra é um marco na literatura brasileira e causa estranheza obliterarem-lhe o nome e negligenciarem sobre o valor de seus escritos. E se esse fato não for suficiente para lembrar-lhe o nome, como escritor brasileiro, dos mais conceituados, acrescentaremos que Virgílio Várzea, com o seu trabalho "A Ilha de Santa Catarina", foi o pioneiro da Geografia Humana, estudo de grande importância e interesse que constitui, hoje, cadeira de relevância nos Colégios e Faculdades dos países civilizados.

A particularidade, no seu gênero literário e o estilo impressionista, delicado, eivado de saudade e de sabor melancólico que só o binômio, mar imenso e céu limpo, sabe provocar nas almas simples, dão direito a Virgílio Várzea de viver com os tempos...

 Eis a sua obra: Traços Azuis (versos), Tropos e Fantasia (em colaboração com Cruz e Sousa), Rose Castle (novela), Mares e Campos (contos), Contos de amor (contos), George Marcial (romance), A Ilha de Santa Catarina (geografia); Histórias rústicas (contos), Os argonautas, O Brigue Flibusteiro (romance); além de colaborações em jornais e revistas da província e da capital da República.

A detentora do prêmio Nobel de literatura, a sueca Selma Langerloff, escolheu um conto de Virgílio Várzea, "Natal do Mar" para figurar na sua coletânea, preferência que prova o valor universal do escritor catarinense. O nome de Virgílio Várzea ficará na eternidade dos tempos e na universalidade do espaço.

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ANÍBAL NUNES PIRES
Revista "Sul", abril de 1951.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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