domingo, 8 de setembro de 2019

O maçom Saldanha Marinho



O maçom Saldanha Marinho
(Artigo publicado pela Maçonaria

No dia 27 de maio, às 11 horas da noite, faleceu o nosso ilustre irmão, Dr. Joaquim Saldanha Marinho, grau 33, membro efetivo do Supremo Conselho, Grão-Mestre e Grande Comendador Honorário do Grande Oriente e Supremo Conselho do Brasil.

Nasceu na cidade do Recife em 4 de maio de 1816, e foram seus progenitores o capitão Pantaleão Ferreira dos Santos e D. Augusta Joaquina Saldanha.

Em 1836 formou-se em ciências jurídicas e sociais, cujo grau de bacharel ali lhe foi conferido.

Exerceu os cargos de Promotor Público do Icó e Fortaleza, no Ceará, sendo depois professor de Geometria nesta última cidade.

Foi também inspetor da tesouraria de fazenda do Ceará.

Administrou as províncias de Minas Gerais e São Paulo, no regime passado, e reais e relevantes foram os serviços que prestou em tão difíceis cargos.

No foro era a sua opinião respeitada e acatada e foi advogado do Conselho de Estado do Império.

Na imprensa foi também um valente batalhador e ainda estão bem presentes as campanhas que sustentou redigindo por largos anos o Diário do Rio e mais tarde a série de artigos sob o título A Igreja e o Estado que traziam a assinatura de Ganganelli.

Como político esteve filiado ao Partido Liberal e nessa qualidade teve assento em diversas legislaturas e fez parte de listas tríplices para Senador.

Uma vez escolhido Senador e anulada pelo Senado a respectiva eleição, Saldanha Marinho compreendeu que a monarquia era um obstáculo ao progresso deste grande país e, divorciando-se do seu partido, declarou-se republicano, publicando nessa época o seu celebre livro A Monarquia ou a Política do Rei.

Relator do importante manifesto republicano de 3 de dezembro de 1870, foi então sagrado chefe do partido que se formava, e de cuja direção só o afastaram mais tarde os seus graves incômodos de saúde.

Proclamada a República em 15 de novembro de 1889, teve Saldanha Marinho a grande alegria de ver realizados os seus desejos e por essa ocasião ainda lhe foi dada uma prova de confiança, qual a de organizador do projeto da Constituição que tinha de ser submetida à Assembleia Constituinte da República.

O Distrito Federal, onde ele mais largamente havia prestado o concurso da sua inteligência para a grande obra que se realizou, conferiu-lhe o honroso encargo de seu representante na Assembleia Constituinte como senador, mandato este renovado na eleição de 1º de março de 1894.

Como maçom, Saldanha Marinho fez o quanto era humanamente possível para reerguer a Instituição que desde 1831 arrastava uma vida quase efêmera e inglória.

Após os acontecimentos políticos de 1831, diversos corpos superiores maçônicos se arrogavam a supremacia e a legalidade e entre eles o Grande Oriente do Brasil, ao Valle do Lavradio, do qual fazia parte Saldanha Marinho.

Sucessivas reformas da Constituição Maçônica foram intentadas sem que se conseguisse uma reforma liberal, dando a Instituição maior campo de ação.

Em 1863, quarenta e cinco maçons do Grande Oriente do Brasil, entre os quais Saldanha Marinho, separaram-se e foram constituir um outro corpo que funcionou sob a denominação Grande Oriente do Brasil ao Vale dos Beneditinos.

Esses dois corpos não podiam viver em harmonia embora trabalhando para o mesmo fim.

A ideia democrática prevaleceu e prosseguiu no seio do Grande Oriente dos Beneditinos, e a sua primeira conquista foi a eleição do Grão-Mestre e seu adjunto por todos os maçons ativos. Era o sufrágio geral posto em prática.

Saldanha Marinho, desde 1863, havia recebido a honrosa incumbência de exercer o cargo de Grão-Mestre, e tal impulso deu ao corpo que dirigia, que a Maçonaria começou a sentir-se de novo respeitada e com forças para agir em auxílio do seu inteligente e dedicado chefe.

Para isso o seu principal empenho foi fazer a unificação da família maçônica brasileira e esse fato realizado em 20 de maio de 1872 tornou-se uma burla pela luta íntima devida à eleição para o cargo de Grão-Mestre.

O Grande Oriente Unido do Brasil, o novo corpo resultante da fusão dos dois Grandes Orientes, voltou a trabalhar no Vale dos Beneditinos, continuando, entretanto, o antigo Grande Oriente ao Vale do Lavradio, embora um tanto enfraquecido pela adesão de diversas oficinas ao novo corpo.

Aí começa o período mais glorioso da Brasil depois de 1831, e todas as honras da vitória conseguida cabem inegavelmente a Saldanha Marinho, que soube bem cercar-se de verdadeiros auxiliares nessa pugna valente.

Começou nessa época a denominada questão religiosa e Saldanha Marinho, sob o pseudônimo Ganganelli, bateu-se valorosamente na imprensa, em nome da Maçonaria, pelas grandes reformas sociais por que anelava esta grande e generosa Nação.

É esse certamente o período mais glorioso de sua longa vida pública e maçônica.

Foi nesse período que vimos levantarem-se numerosíssimas oficinas, em que se congregavam aqueles que em torno do chefe, faziam a resistência ao clericalismo insolente e ao fanatismo pernicioso.

Foi ele, pois, quem deu nova vida a Instituição, já desalentada.

Em 1882, ainda veio Saldanha Marinho demonstrar o seu grande amor à Maçonaria, empregando todos os meios para a sua unificação, efetuando-se a fusão dos dois Grandes Orientes, o que decretado e aceito pelos dois corpos em 21 de dezembro de 1882, foi realizado em janeiro seguinte.

Só então foi-lhe dado resignar o malhete do grão-mestrado. Só então foi-lhe concedido o repouso da longa luta que dirigia.

A Maçonaria tudo devendo aquele que a dirigiu durante dezenove anos, confessa-se reconhecida e grata e disso dá as mais sinceras provas quando o eminente cidadão baixa à tumba, chorado e pranteado por sua família e pela Nação inteira.

O Estandarte da Ordem envolve-se em crepe e nos choramos o chefe e amigo.

Vale!

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Boletim "Grande Oriente do Brasil", maio de 1895.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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