domingo, 8 de setembro de 2019

Saldanha Marinho (Aspectos Biográficos)


Saldanha Marinho

Nenhum outro nome, entre os contemporâneos, representava de mais longe e com mais prestigio a ideia republicana no Brasil, que o de Saldanha Marinho. Desde que se organizou o partido, que chegou a realizar o seu ideal, foi ele o chefe, até que a idade e a moléstia que o minava, obrigaram-no a ceder o seu posto a Quintino Bocaiuva, que foi o chefe dos últimos tempos, — dos tempos mais ativos da propaganda, e que é hoje o sucessor do que se poderia chamar a representação simbólica da ideia.

Em Saldanha Marinho encarnou-se por muito tempo a aspiração democrática. Tinha servido o império, mas rompeu com ele, e antes como depois foi sempre um puro. Na imprensa travou lutas gigantescas que o popularizaram, e manejou também o que já foi uma arma nesta terra, a maçonaria.

A sua recente eleição para senador pela Capital Federal já foi pura homenagem aos serviços passados, à tradição gloriosa do seu nome, porque não havia mais a esperar daquele espírito alquebrado; e o sentimento geral que despertou a notícia de sua morte é bem significativo do respeito que a todos inspirava a sua inquebrantável dedicação à causa pela qual renunciara a honras e proveitos que os partidos monárquicos não cessaram de oferecer-lhe.

Advogado, gozou de reputação entre os mais notáveis, jornalista, deixa volumosos atestados da sua atividade, mas o  que há de perpetuar o seu nome é esta probidade de chefe republicano, que concretizou as primeiras aspirações do partido que chegou a fundar as instituições atuais.

Para a fração de homens políticos e jornalistas que hoje ocupam os lugares de combate, Saldanha Marinho era o mestre venerado, que a todos se impunha pelo exemplo de sua vida, a todos atraía pela afabilidade fraternal com que acolhia quem quer que precisasse de um conselho ou de um estímulo.

Acompanham-no à derradeira morada as lágrimas de todos que com ele lidaram, a saudade de quantos o conheceram, e o respeito de todos os filhos desta terra, que ele tanto amou, de todos os adeptos da ideia republicana, pela qual ele tanto se bateu.

Nasceu no Recife a 4 de maio de 1816. Seu pai, Pantaleão Ferreira dos Santos, foi uma das vítimas da revolução que rebentou no ano seguinte.

Matriculou-se na Faculdade de Direito em 1832, formando-se a 15 de novembro de 1835.

Em 1837, nomeado promotor de Icó, embarcou para o Ceará, que considerava sua segunda pátria, e onde residiu durante anos. Foi professor de matemáticas no Liceu, curador de órfãos, secretário do governo, inspetor de tesouraria, deputado provincial em três legislaturas, deputado geral na Câmara dissolvida em 1848.

A revolução que então rebentou em Pernambuco e prometia estender-se a outras províncias do norte mostrou-lhe a conveniência de fixar-se no sul. Foi para Valença, no Estado do Rio, onde ficou até 1860, deixando as maiores simpatias na população, vinculando seu nome a melhoramentos da cidade. Diversas vezes foi eleito deputado à Assembleia provincial do Rio de Janeiro.

Em março de 1860 mudou-se para a Capital do Império, onde assumiu a redação do Diário do Rio de Janeiro. É este o período mais brilhante de sua vida, sempre na brecha cercado de homens como Machado de Assis, Quintino Bocaiuva e Muzio. A sua popularidade atingiu a proporções extraordinárias ganhando com Teófilo Ottoni, Martinho Campos e Francisco Octaviano eleições disputadíssimas contra o governo.

Mais de uma vez foi eleito pela Capital. Em 1867 o foi por sua terra natal. Duas vezes entrou era listas tríplices por Pernambuco; eleito em 1868 pelo Ceará, foi o escolhido, mas o Senado anulou a eleição.

De 1865 a 1867, governou Minas Gerais, prestando muitos serviços e agenciando voluntários para a guerra do Paraguai. Em 1867, governou São Paulo, onde deixou o maior entusiasmo, e abriu a era nova que levou aquele Estado à culminância que hoje atingiu.

Quando em 1870 organizou-se o partido republicano, foi o chefe reconhecido por todo o Brasil.

Em 1873, ao rebentar a questão religiosa foi a verdadeira alma deste movimento. Andam reunidos em quatro volumes os artigos vibrantes e apaixonados que então escreveu nos jornais sob o pseudônimo de Ganganelli.

Em 1878 foi eleito deputado geral pelo Amazonas.

Com a proclamação da República foi nomeado para a comissão encarregada de redigir o projeto da Constituição. Eleito para a constituinte pela Capital Federal, tomou depois assento no Senado. Nas últimas eleições foi reeleito senador por 9 anos.


---
Boletim "Grande Oriente do Brasil", maio de 1895.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...