domingo, 29 de setembro de 2019

Sobre “Mares e Campos”, de Virgílio Várzea



Sobre “Mares e Campos”, de Virgílio Várzea

Um bom livro, oque sob o título de “Mares e Campos”, Virgílio Várzea acaba de publicar.

O trabalho literário do jovem escritor é deveras apreciável.

Se ainda é um puro, Virgílio Várzea é um caprichoso nesta bela arte de fazer contos literários, que ele procura honrar e dignificar haurindo ensinamentos na lição dos bons mestres.

Possui já um poder descritivo muito notável, e as suas passagens demonstram a observação e o sentimento sugestivo de um artista delicado.

Estas mesmas qualidades de observação e sentimento aparecem com bastante relevo na exposição da ação e no caráter individual dos personagens, nos contos de assunto nacional, mormente nos de costumes marítimos, pelos quais mostra Virgílio Várzea decidida e louvável predileção.

Uns laivos da escola nefelibata a derramarem aqui e ali escusadas exuberâncias de frases e de ideias adjetivadas, empalidecem às vezes o brilho da ideia principal do período, tirando-lhe, não raro, a expressão e a espontaneidade.

Estamos certos, porém, de que e jovem escritor ir-se-à libertando do domínio excêntrico dessa escola literária — em busca da suprema qualidade dos bons conteurs: a simplicidade natural, espontânea, no sentir a emoção e no dizê-la.

Temos essa esperança, porque Virgílio Várzea, disposto como parece a dar-nos quadros de costumes nacionais é assaz inteligente e sensato para compreender a necessidade de abandonar os processos complicados e extenuantes da mencionada escola, a bem da poesia adorável dos seus assuntos prediletos.

Quem considera "ínclito mestre” a Eça de Queirós e escreve trabalhos como o Mestre de redes, A vela dos náufragos e outros, não pode nem deve seguir orientação literária que porventura concorra para ficar aquém... de si mesmo.

Virgílio Várzea não é, felizmente, um ortodoxo da Estrada de São Tiago e o seu livro Mares e Campos faz-nos antever um escritor de pulso e de alma.

Ponto é que ele não descanse sobre os louros da crítica, nem se agaste com alguns de seus espinhos, e que o púbico o anime, como merece.

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Revista "Dom Quixote" (1895)
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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