domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto: "Cultura e opulência do Brasil" (História do Brasil)



“Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas”

De 1711 é este livro, inventário documentado do país no começo do século XVIII. Escreveu-o o Padre Jesuíta João Antônio Andreoni, identificado, por Capistrano de Abreu, como André João Antonil, que o subscreve, usando de criptograma, só esclarecido em 1886. Impresso com todas as licenças do tempo, chegando o revisor do Santo Ofício a escrever que se poderá estampá-lo com letras de ouro, foi tão bem sequestrado e supresso, que caiu sobre ele o silêncio, e só ressurgiu, pelos raríssimos exemplares escapados, mais de século depois. É que o livro é repositório de informações sobre o Brasil, a causar cobiça e fazer iniciativas malfazejas... Antonil descreve por miúdo a lavoura da cana e a indústria do açúcar... Do que padece o açúcar desde o seu nascimento na cana, até sair do Brasil! E vêm as mais pertinentes informações sobre o senhor de engenho, a escravatura, os feitores, o produto obtido, seu trato, acondicionamento, tipos, o que custa e o que produz. Havia então, em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro 528 engenhos que produziam 37.020 caixas de 35 arrobas cada uma (mais de meia tonelada). Mas não fica aí. Antonil trata de minerações, cujo defeito reconhece, (são as melhores minas do Brasil os canaviais e malhadas em que se planta o tabaco); o quinto, que justifica, história das entradas e bandeiras, o modo de tirar o ouro e a prata, não esquecendo a moral, os danos que tem causado ao Brasil a cobiça, depois do descobrimento do ouro nas minas. Nem há pessoa prudente que não confesse haver Deus permitido que se descubra nas minas tanto ouro para castigar com ele ao Brasil, assim como está castigando no mesmo tempo tão abundantemente de guerras, aos europeus com o ferro (Antonil é historiador moderno e clarividente). Não falta o tabaco. Hábito indígena, levado à Europa, apesar dos protestos dos moralistas (o bispo Sardinha excomungou o donatário Vasco Fernandes Coutinho por fumar...). Já em 1693 é tão urgente, que na América, diriam a um piedoso, com desejos de fundar universidade para salvação de almas: Damn your immortal soul. Grow tobacco! O fumo era a volúpia universal um século mais e Antonil já estuda a planta, como se semeia, se limpa, tiram e curam as folhas, as cordas, os modos de uso, etc. (Fumar era então “beber fumo”, tragar a fumaça, como ainda se diz. O cachimbo, o rapé, os usos médicos do tabaco, os abusos...)
O seu melhor editor, Afonso de Taunay, conclui sabiamente: encerrando o seu trabalho, faz Antonil o resumo — de tudo o que vai ordinariamente cada ano do Brasil para Portugal e do seu valor, discriminando a valia das diversas grandes verbas, açúcar, tabaco, ouro, couros e pau-brasil, num total de 3.743:992$800, quase nove e meio milhões de cruzados. Guardadas as proporções e levando-se em conta a capacidade de aquisição da moeda, então e agora, e computando-se a população do país num milhão de civilizados, talvez, era a exportação brasileira, per capita, muito mais elevada que hoje (Afonso de E. Taunay, prefácio, in André João Antonil — Cultura e Opulência do Brasil, São Paulo, 1923). Não deixará (isso) de causar a maior admiração, diz Antonil, o que é verificação e profecia.

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