domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto: Jesuítas (História do Brasil)



Jesuítas

Ora, ao sul da Colônia, e no Reino, fator novo vem complicar tudo e dar aspecto trágico à situação. O comissionário português enviado para demarcação e posse, Gomes Freire de Andrade, nada conseguindo, retira-se, em 59, para o Rio. É que os Sete Povos das Missões do Uruguai, dirigidos por Jesuítas espanhóis, não podiam ver com bons olhos uma dominação portuguesa, num sítio, tão cruel e barbaramente devastado pelos Paulistas de Antônio Raposo, desde o século anterior (1629) e consecutivamente. O confessor de Fernando VI na carta ao Cardeal Porto Carrero, embaixador da Espanha junto à Santa Sé, informava que os portugueses (para a atual glorificação dos “bandeirantes” são agora “Paulistas”) saíam todos os anos à caça de índios para escravos supondo que no espaço de cem anos tinha morrido mais de 300.000 e autores havia que os calculavam em 500.000. Daí a justa oposição que fizeram esses “povos” e com eles os Padres seus imediatos missionários. Oposição, pois, dos índios e dos Jesuítas espanhóis de Guairá, e, na sombra, oposição de Espanha. Para Portugal, a oposição era, complexivamente “dos Jesuítas”, o que foi monstruosa injustiça. Ao norte o velho conflito dos reinóis contra os padres, protetores dos índios, sempre reaberto pela contínua escravização deles, ia novamente acender agora, aí também, a oposição a esses Jesuítas, “culpados” de tudo.
Esta Companhia de Jesus, milícia do Papa, instituída para fortalecê-lo e como reação anti-herética ao Protestantismo, adquirira imenso prestígio, fora e dentro da Igreja. Um voto especial ao Pontífice; confessores dos reis e das cortes; mestres dos sábios e da nobreza, e de quantos contavam no mundo, — aos próprios religiosos de outras ordens monásticas eles faziam sombra. Donde inimigos por toda a parte, os raios que as eminências desafiam. Os tempos de liberalismo, Aufklärung ou iluminismo, de falência da autoridade, iam indispor esses Jesuítas com o mundo moderno. A luta, latente na Europa, acende-se no Brasil.
Em 55 Pombal anula a jurisdição dos Jesuítas sobre os índios, acusados os padres de impossibilitarem a execução do tratado de limites, tanto no Maranhão, como no Paraguai e Uruguai. Obtém da Santa Sé um breve, de 1º de Abril, encarregando o Cardeal Saldanha de visitador e reformador da Companhia de Jesus em Portugal. A 15 de maio este Cardeal ordena que os padres não possam fazer comércio. Era canônica a regra, mas o comércio era das colônias de índios, elementos vitais a produção e a troca, e isso dava-lhes invejável prosperidade: é o golpe de morte nas missões jesuíticas do norte do Brasil. Não eram apenas Jesuítas: eram 60 as aldeias do Pará e Maranhão: 5 administradas pelos religiosos das Mercês, 12 pelos Carmelitas, 15 pelos Capuchinhos e 28 pelos Padres da Companhia. (Essa acusação, de comércio, pesou no tempo, apenas julgadas as colônias jesuítas “religiosamente”: como fazer prosperar um agrupamento humano, organizado e crescente, sem produção e portanto sem indústria, comércio, troca e aquisição de bens? É infantil a acusação. Esse escambo não era para os Jesuítas, senão para os colonos: é toda a defesa deles). Em Lisboa, é retirada aos Jesuítas a faculdade de confessar e pregar no Patriarcado. Em 20 de abril de 59 Dom José escrevera ao Papa, acusando os Jesuítas de persuadirem com as suas doutrinas e de promoverem com os seus conselhos e promessas o horroroso insulto do atentado contra a vida de El-Rei, ocorrido a 3 de Setembro de 58, pelo que resolve mandar sair, sem maior dilação, os sobreditos Religiosos destes Reynos, Congregação que tantas e tão custosas e decisivas experiências tem mostrado incompatível com a paz e a tranquilidade pública... É consumada a expulsão dos Jesuítas. Os do reino e colônia são presos, maltratados, guardados à força antes de embarcados para Itália; os do Brasil vão por aí: do Pará e Maranhão, 115; 119 de Pernambuco; da Bahia 117 ou 177; do Rio e São Paulo, 199; somam os números de Varnhagen  550 a 610. Que imenso prejuízo, esses mais de seiscentos professores e administradores, ao Brasil, deles sempre escasso!
E Portugal, Dom José, Pombal, os portugueses, seus colonos, continuavam nas práticas católicas, servidos pelas outras ordens monásticas e com um clero secular obediente e, às vezes, exultante. Mas não só em Portugal a tempestade: em 61 a França, e em 67 a Espanha e Nápoles, expulsam os Jesuítas. Finalmente, o Pontífice Clemente XIV, em 73, extingue a Companhia de Jesus... Pombal não seria o autor disso tudo.
Não se podendo cumprir o Tratado de Madrid ao sul, a posse nominal da Colônia do Sacramento fica portuguesa, pelo acordo de 61. Ao norte os limites não são mais felizes, mas Francisco Xavier de Mendonça Furtado empreende, sem proveito, por leigos, refazer as colônias florescentes dos Jesuítas: o norte, que teve efêmero prestígio econômico outrora, para, em breve decadente. Os Jesuítas foram os educadores do Brasil infante. Durante duzentos e dez anos (1549-1759) — diz Capistrano de Abreu — a sua atividade em nossa terra deve ter sido considerável. Deve ter sido, porque no atual estado de nossos conhecimentos, é impossível determiná-la com precisão. Uma história dos Jesuítas é obra urgente; enquanto não a possuirmos, será presunçoso quem quiser escrever a do Brasil. Pouca, muito pouca inteligência revelam os ataques dirigidos contra ela, a Companhia de Jesus. Instintivamente a simpatia volta-se para os discípulos e companheiros de Nóbrega, Anchieta, Cardim, Vieira, Andreoni, os educadores da mocidade, os fundadores da linguística americana. Muito mais: a moral da colônia nos primeiros dias, a fundação das cidades, da Bahia, São Paulo, Rio, com o conselho e o auxílio dados a Tomé de Sousa e a Mem de Sá; a defesa contra os Franceses; a prosperidade das Missões no Maranhão e no Pará; a penetração no vale e na selva do Amazonas; sempre, e por toda a parte, a cultura, o ensino primário, o de humanidades, o superior. Em Minas até 1776, diz Pedro Calmon, não havia uma escola, porque lá não foram os Jesuítas. Vergílio já no século XVI era ensinado no Brasil e com o que, no começo do século XVII, aqui aprendeu Vieira, daria para ofuscar os púlpitos da Europa. Os Jesuítas foram vítimas da inveja universal, bem humana, a que não escaparam — quem o diria!? — os mesmos leigos católicos, o mesmo clero regular e secular da Igreja... Um exemplo só e simbólico dessas injustiças: quem queima vivo o pobre Padre Malagrida, velhinho místico, sem importância política, é o Santo Ofício da Inquisição. O protestante Southey na sua História do Brasil não poupa elogios a esses Jesuítas...
O introdutor à tradução brasileira dessa obra, o Cônego Fernandes Pinheiro, não perde ocasião de os achincalhar e acusar, nas suas notas (História do Brasil, 1862). A penitência não deve ser apenas leiga.
Mas, demos seguimento às pendências hispano-portuguesas. Em 54 na confluência do Jauru e do Paraguai, latitude 16º24’, um marco limitante é plantado entre posses portuguesa e espanhola, mas não acabou. Durante quinze anos é a guerra (61-77) e é a ocupação do Sul pelas forças de Cebalos, que chegam ao Rio Grande (62) e Santa Catarina (77). Enfim, nesse ano, o Tratado de Santo Ildefonso arruma as coisas: restituem os Espanhóis Santa Catarina e Rio Grande, mas conservam a Colônia do Sacramento. Não é a última palavra, mas, ao cabo, será a definitiva.

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