domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto: Os franceses (História do Brasil)




Os franceses

A 10 de novembro de 1555 chega à baía do Rio de Janeiro Nicolau Durand de Villegaignon, cavaleiro de Malta, Vice-almirante da Bretanha, provado em guerras, e a quem o poeta Ronsard chama “douto”. Talvez já conhecedor da costa do Brasil por viagem anterior, propusera-se trazer, ao novo-mundo, huguenotes perseguidos na Europa, para fundarem aqui uma “França Antártica”: dois navios partidos do Havre, com 600 pessoas, aventureiros e colonos, a 12 de julho, andaram por tormenta às costas de Inglaterra, para tornarem a Dieppe, e, refeitos repartirem em começos de agosto. Desembarcaram no ilhéu da Laje, que chamam Ratier e depois em Serigipe, ilha que virá a ser chamada dos Franceses e, mais tarde, de Villegaignon, onde constroem o forte Colligny. As cartas são datadas de Ganabara na França Antártica. (Guana-pará, enseada, rio-grande, ou lagamar, era o nome selvagem, que os Franceses escrevem dessa maneira por não terem necessidade de acentuar o último a, todos longos na sua língua: lido por portugueses, sem acento, fez “Guanabara”, que é, assim, um galicismo grafo-prosódico...)
Villegaignon, cavaleiro de Malta, era católico e ainda aqui se confessava ao franciscano André Thevet, sábio autor de obras dignas de menção; dois terços dos colonos eram também católicos, embora gente de maus costumes, apanhados na ralé. Desejando mais gente, e melhor, dirigiu-se Villegaignon aos Calvinistas em Genebra, tendo sido mesmo correspondente de Calvino. Partiram, pois, de Genebra, a 16 de setembro de 56, 14 protestantes, teólogos, pastores e artistas, para a conversão moral e religiosa dos colonos americanos; com eles, 290 pessoas mais, soldados, marítimos, artífices, a bordo de três navios, que, de Honfleur, veio comandando Bois-le-Comte, sobrinho de Villegaignon, e chegaram ao Rio a 7 de março de 57. Veio então João Cointa, senhor de Bolés, muito falado nas crônicas e cartas do tempo, como relapso e traidor aos seus.
As disputas, católicas e reformistas, agitaram a vida da jovem colônia, oscilante Villegaignon entre os dois credos. Daí, vieram a injuriá-lo, Caim da América. Retiraram-se os Genebreses em 58, depois de algum tempo estabelecidos no continente, na Briqueterie, ou Olaria, e, por fim, o mesmo Villegaignon, em 64, para a França. Se falhou com os compatriotas, teve, ou tiveram, os Franceses, êxito com os selvagens. Mem de Sá o depõe, escrevendo à Rainha D. Catarina: Ele (Villegaignon) leva muito diferente ordem com o gentio do que nós levamos; é liberal em extremo com eles, e faz-lhes muita justiça; enforca os franceses por culpas sem processos; com isto é muito dos seus e amado do gentio: manda-os ensinar todo o gênero de ofícios e de armas; ajuda-os nas suas guerras: o gentio é muito e dos mais valentes da costa; em pouco tempo se pode fazer muito forte (Anais do Rio Janeiro, 1934).
De André Thevet publicam-se em Paris, em 57 e 58, as Singularitez de la France Antarctique, que teve numerosas edições e traduções, precedida por uma “Cosmografia Universal”. João de Lery, seu êmulo e a quem precedera na viagem ao Brasil, não perde ocasião de o ridicularizar, oficial do ofício. Além de plagiado, foi mesmo roubado, pois na Europa, pelo menos em França, é dele a introdução do tabaco: Colombo descrevera índios fumando; Hans Staden reproduzira a cena, em gravura do seu livro; foi Thevet que o levou a França em 57, chamada “erva de Angouleme” (de onde ele era originário), e “catherinaire”, em honra de sua rainha, Catharina de Médicis. Entretanto é a Jean Nicot, embaixador de França em Portugal, que a levou depois, também, a Paris, que cabe a honra de dar o nome à planta, Nicotiana tabacum e ao princípio ativo, “nicotina”. Diz Damião de Góes (Crônicas del-Rei D. Manuel, Lisboa, 1566-67) que foi Luiz de Góes, de Santos, ao depois jesuíta, o que deu o brado de alarme contra os Franceses a D. João III, em 48 (Varnhagen) quem trouxe primeiramente a Portugal a erva do tabaco; Luiz de Góes viera do Brasil, com o irmão Pero de Góes, um dos donatários de capitania, a da Paraíba do Sul.
Mem de Sá, de acordo com o Padre Nóbrega, começara a pôr ordem no gentio da Bahia, promovendo a concentração em grandes aldeias, fusão de menores convizinhas, estabelecendo-se cerca da Bahia as quatro, a de São Paulo, onde hoje é Brotas; a do Espírito Santo, a três léguas do Rio de Joane, depois Abrantes; a de Sant’Iago fundida com S. Sebastião, a três léguas, perto de Pirajá e a de São João, no interior da Bahia, onde hoje é Plataforma. Um índio grande, principal, meirinho, tinha poderes de polícia e governo; residentes jesuítas tinham direção temporal e espiritual. A quando da insurreição dos índios nos Ilhéus e Espírito Santo, o Governador deu o encargo de os reduzir à obediência a seu filho Fernão de Sá, flechado e morto por eles no rio Cricaré, em Porto Seguro: é cumprida, depois a missão de os destroçar.
Em 59 chegam o 2º Bispo, D. Pedro Leitão e a IV Missão Jesuíta, com os padres João de Mello e João Dício e os irmãos Rui Pereira, José Crasto e Vicente Mestre: os religiosos da província, cujo provincial agora é o Padre Luiz da Grã, passam de 40, padres e irmãos.
Em novembro de 59 chega na armada do Capitão-mor Bartolomeu de Vasconcelos da Cunha, reforço e ordem para o Governador empreender a expulsão dos intrusos, no Rio de Janeiro. O cuidado do Brasil não está nele, senão em Lisboa. A 16 de janeiro de 1560, parte o Governador geral contra os Franceses do Rio, a cuja barra chega a 21 de fevereiro: vinha com ele o Padre Nóbrega, doente; no dia da chegada tomam uma nau inimiga, que carregava. Esperam reforços que vinham de São Vicente e, estes recebidos, a 15 de março é dado o ataque aos Franceses, expulsos de suas posições e refugiados no continente, arrasado o forte Coligny, defendido por 74 franceses e alguns escravos. Obtida a vitória, Mem de Sá rumou a São Vicente, onde deu várias providências. Nova estrada para o planalto; expedição pelo Tietê, de Braz Cubas e Luiz Martins, em busca de ouro; mudança da vila de Santo André da Borda do Campo para São Paulo, pedida pelo povo de São Vicente e Santos, pelos Jesuítas e pela mesma gente de Santo André, por motivos de mantença e de melhor defesa. O pelourinho foi transportado em 60; já tinha foral, que vinha de 58; em 62 João Ramalho juraria o cargo de capitão-mor de São Paulo, designado “por vozes e eleição”.
Volvera Mem de Sá à Bahia, onde chegou a 29 de agosto de 1560, trazendo o Padre Luiz da Grã. No Espírito Santo, recebendo o ato de renúncia de Vasco Fernandes Coutinho à capitania, providenciou para a sucessão, aceitando a indicação do povo, de Belchior de Azeredo, para o governo. Daí mandou, como exploradores ao sertão, Antônio Dias Adorno, Vasco Rodrigues Caldas e Antônio Ribeiro; expediu contra os índios de Porto Seguro Braz Fragoso e escreveu para o reino sobre a colonização do Rio de Janeiro.
Em 62, índios confederados reuniram-se para o ataque a São Paulo, defendido pelos Jesuítas, cujos fiéis amigos, Uibiriçá à frente, obraram proezas contra os canibais. Esse Tibiriçá que, com as suas mãos, levantou o colégio de São Paulo, expondo a vida, defenderá dos seus parentes a vila em torno construída pelos seus amigos: vindo a falecer de um andaço, no natal de 62, foi enterrado na igreja do Colégio e está hoje na Catedral de São Paulo, honrado na vida e na morte pelos seus parciais, os Padres. A dissensão dos índios esmoreceu e acalmou, com a ida de Nóbrega e Anchieta a Iperoigue, entre os Tamoios. Na igreja de Itanhaém, Uupis e Tamoios abraçaram-se. A Piratininga vieram, para as pazes, 300 Tamoios do Paraíba. Tanto e tão bem que, dois anos depois, já os Tupis de Piratininga iam, a pedido dos Padres, bater-se contra os Franceses no Rio de Janeiro (Serafim Leite). Neste ano de 65 grande peste de bexiga na Bahia, andaço para o norte e o sul, escassamente deixou viva a quarta parte dos moradores; orçou-se o número dos mortos a passante de trinta mil almas (S. de Vasconcelos, Crônica).
A Coroa não aprovara o ato de Mem de Sá, vencedor dos Franceses em 60, no Rio de Janeiro, de logo deixar a terra, dando ocasião a que tornassem, com os índios fiéis, a tomar conta das posições abandonadas. A Rainha Regente confiou a Estácio de Sá a incumbência de os erradicar definitivamente em 64, como Capitão-mor de frota e milícias, recebendo recursos do Governador Geral seu tio, do Espírito Santo e de São Vicente. Acometeu o Rio em 6 de fevereiro e, depois de porfiar por dois meses, foi a São Vicente. Nóbrega, chamado, acorre com Anchieta. Em Villegaignon (ilha) celebra-se missa do domingo de Páscoa. Tornam a São Vicente, a preparar o acometimento contra Franceses e índios do continente.
No norte, depois da peste de 63, foi em 64 a fome. Acossados por ela, desertam os índios de suas aldeias, aconselhados por seus feiticeiros. Assim em Nossa Senhora da Assunção (Camamu), São Miguel (perto de Ilhéus), Santa Cruz de Jaguaripe, perto de Itaparica: os padres residentes veem-se arriscados a perder a vida. Fome também no sul, “até todo o ano de 66”, dizem as Informações, de Anchieta.
Em 65 está preparado Estácio de Sá, reforçado de índios e mamelucos, mandados com ele dois jesuítas, Anchieta e Gonçalo de Oliveira. A 1º de março, na entrada da baía do Rio de Janeiro onde desembarcaram, funda a cidade de São Sebastião (nome del-Rei de Portugal), entre o Morro Cara de Cão (onde está a fortaleza de São João) e o penedo do Pão de Açúcar. Será a “Vila Velha” mais tarde, “na ilha da Carioca”, diz o Padre Antônio de Matos, pois entre a pedra da Babilônia e a da Urca, pela Praia Vermelha, entrava o mar. O resto do ano passa-se na consolidação das posições e cautelosa penetração no interior da baía. Nóbrega, sobrevindo do sul, envia Anchieta à Bahia a ordenar-se e pedir auxílio ao Governador. À chegada de tropas da Metrópole, Mem de Sá, acompanhado do Bispo e do Visitador Inácio de Azevedo, rumo para o sul e, a 18 de janeiro, apresenta-se na baía do Rio de Janeiro. O ataque é dirigido contra o forte dos Franceses no Uruçu-mirim, à foz do rio da Carioca, perto do Morro da Glória, onde o Capitão Estácio de Sá é ferido no rosto por uma flecha. Batidos os Franceses, a perseguição continua no interior da baía, até Paranapecu, a ilha depois chamada do Governador.
Depois de 20 de janeiro data da vitória da Glória, e da morte de Estácio de Sá, um mês depois, Mem de Sá muda o sítio da cidade para o morro depois, ou daí, chamado do Castelo, lugar mais forte e acomodado, continuando o nome, agora sob a invocação do santo daquele dia que era o do nome del-Rei. Como Estácio de Sá morrera do ferimento recebido, o outro sobrinho, Salvador Correa de Sá, é o capitão-mor da nova povoação. Southey escreve: Jamais guerra, de tão pequenos esforços, e tão poucas forças, de parte a parte, foi tão fértil de consequências... Tivesse Mem de Sá sido menos enérgico no cumprimento dos seus deveres ou Nóbrega menos incansável, esta cidade, que é hoje a capital do Brasil, seria agora francesa.
Os Franceses que escaparam, com quatro navios que tinham no porto, fugiram, tentando desembarcar no Recife, onde foram rechaçados. Diz Rocha Pitta (História do Brasil) que um deles deixou escrita, numa pedra, esta melancólica confidência: Le monde va de pis ampi, de mal a pior. Doze anos durara a aventura. No Rio cuida-se logo de fortificar, para defesa, os dois lados da barra. Todas estas obras foram feitas pelos índios, sob a direção dos Jesuítas, sem que o Estado nada despendesse. No meio da cidade assinou-se à Companhia terreno para um colégio, dotado, em nome do rei, com bens suficientes para sustentação de cinquenta irmãos, dotação que bem haviam merecido e que, no ano imediato, seria confirmada em Lisboa (Southey). Foi o destino de Nóbrega ajudar a fundação da Bahia e do Rio, fundar São Paulo, e nelas instalar os três primeiros colégios da Companhia no Brasil (São Paulo e Bahia em 63, Rio de Janeiro em 67). Esses colégios educam reinóis e índios nas aulas de ler, escrever e contar; em humanidades, os irmãos, órfãos vindos de Portugal e jovens brasileiros, em estudos teológicos superiores aqueles que vão ser jesuítas. Neles, desde 60, pela artinha de Anchieta, todos são obrigados a estudar o “grego”, como chamam à língua difícil do país, livro ainda inédito, e que só em 1595 será impresso.
Ararigboia, chefe temiminó, acolheu-se a Guanabara, fundando a aldeia de São Lourenço, na Praia Grande, depois Niterói, “água escondida”, outro nome índio da baía do Rio de Janeiro, ajudando Salvador de Sá a expulsar os últimos franceses de Cabo-Frio. Livre de intrusos, o Rio de Janeiro iria edificar-se e crescer no seu outeiro, a derramar-se nas encostas. A cidade de Estácio de Sá ficou, daí, a “Vila Velha”. Cristóvão de Barros, — filho de Antônio Cardoso de Barros, companheiro do 1º bispo no seu naufrágio, — depois dos cinco anos de Salvador de Sá, sucedeu-lhe no governo, em 1571.

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