sábado, 30 de novembro de 2019

Quanto aos Sonetos de Florbela Espanca (Resenha)



 Quanto aos Sonetos de Florbela Espanca

O renome da poetisa portuguesa Florbela Espanca cresceu depois de sua morte. Os críticos se ocuparam então com a sua curiosíssima bagagem poética, e os intérpretes dessa suavíssima tecedora de ritmos se multiplicaram em Portugal. Descobriram, então, as profundas reservas humanas e panteísticas dos versos de Florbela Espanca — e sagraram o seu posto preeminente na poesia portuguesa contemporânea.

“Quase desconhecida em vida (diz um desses lúcidos intérpretes, o Sr. Diogo Ivens Tavares), depois de morta a artista, a sua obra começou a avultar. Lembra um pouco uma parcela de estrela, ignorada enquanto volteou na sua órbita, mas, quando de lá se deslocou riscando o infinito de um sulco luminoso, todos os olhares se volveram para ela, deslumbrados. Florbela Espanca não se debruçou contemplativa às profundezas trágicas da alma. É lírica e pagã, imensamente panteísta. Tudo no mundo é motivo de enaltecimento. A luz dos seus olhos tem o poder de dourar as paisagens do Universo, que é o próprio Deus que ela venera. É que o maior culto que se dedica a uma divindade é o da admiração”.

Os “Sonetos Completos”, de Florbela Espanca, editados em Coimbra, em 1934, dão uma imagem meridiana dos altíssimos recursos da grande voz da poesia portuguesa em que terá havido, porventura, uma irmã espiritual daquela estranha e prodigiosa condessa de Noailles também há pouco desaparecida.

Florbela Espanca preocupava-se, acima de tudo, com a sua própria vida no conjunto de todas as vidas. O narcisismo que os críticos encontram em seus versos, contudo, é ingênuo poderosamente humano, porque reflete apenas a singeleza de uma alma sem mácula a bondade de um coração frágil e agitado. Seus quartetos são claros, fluentes, inesquecíveis:

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de raros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

A fascinação das paisagens espanholas é frequente nos versos de Florbela Espanca: a figura de Boabdil, os pátios de Granada, tudo se mira nos  olhos vivos da poetisa emocionada.

Florbela Espanca cantou alto a beleza e glória. Seus olhos, suas mãos, seus “gritos de amor cruzando o espaço”, seus versos, tudo o que no mundo possua uma referência pessoal mereceu alguns dos mais belos versos já escritos por mulher em língua portuguesa.

A memória de Florbela Espanca, desse modo, jamais perecerá no espírito dos que amam a literatura portuguesa e acompanham a sua pujante evolução. A alma de Florbela Espanca vive, pura e emocionante, nesses seus “Sonetos Completos”, que são a biografia lírica de uma profundíssima sensibilidade feminina.


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Revista "Vamos Ler!", 29 de fevereiro de 1940.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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