quinta-feira, 7 de novembro de 2019

João do Rio (Ensaio)



João do Rio

Com essa luminosa bondade, em que a sua razão pratica metamorfoseou a sua ironia fundamental, João do Rio ou Paulo Barreto, da Academia Brasileira e da Academia de Lisboa, vem oferecer-me a prova definitiva de um novo livro — Crônicas e Frases de Godofredo de Alencar. Evocadas à luz pelo gênio da espécie, ressaltam assim as flores da mesma circulação universal de seiva, e aflorando à publicidade, neste ocaso de ano dramatizado e escurecido pelo Destino, o livro encantador semelha um dom necessário, como todos os dons reais da Inteligência voltada para o Belo, à plenitude harmônica do nosso próprio ser. Vislumbra-se a alma do leitor, entre as páginas de Crônicas e frases, tão perturbada e tão possuída quanto Dânae sob o granizo de ouro, em cuja cintilação ardia o beijo fecundante.

Honoré de Balzac, dentre os colossos da Arte escrita o mais complexo e ao mesmo tempo o mais infantil, remirava-se por vezes no espelho da sua obra, envaidecido como se fora um escolar premiado, em face dos seus temas. Devaneador e complacente, acariciava nesses momentos o ideal de um gigante rabelaisiano: improvisar na cimalha do alteroso palácio, construído em longos anos com Estudos de costumes, Estudos filosóficos e Estudos analíticos, o friso hilariante dos Cent contes drolatiques. "E sobre os fundamentos desse palácio (confidenciava o semideus, em 1834, a Mme. Hanska), eu, pueril e jovial, deixarei traçado o imenso arabesco de cem contos facetos..."

 Em meio de uma literatura já numerosa, arquitetada já por trinta volumes de inquéritos e comentários sociais, novelas, teatro, conferências, viagens e traduções, João do Rio prefere helenicamente dar-lhe a nobreza escultural das Crônicas e frases por emblema e resumo. Nenhum dos livros, soando como disco ou luzindo como dardos no tumultuar da sociedade contemporânea, de que eles são produtos imediatos, revela a preocupação de número e simetria, com que as páginas de agora surpreendem o leitor. Quatro formosos tríticos — o dos Símbolos, o da Natureza, o do Desejo, o do Amor — constituem e ordenam a perspectiva helênica, entremeados de frases, remordentes umas, relumbrantes outras, que diríamos fios de pérolas vinculando grupos amáveis. Da crença e do sonho, da fábula grega e da miragem atlântica emergem quatro novas alegorias, uma para cada inierniezzo. E a Harmonia dispõe no seu quadro essas figuras, sob a influência benigna de Cronos, entre duas fantasias que nos dizem alacremente, gêmeas de Ariel voando na mesma claridade, sobre os mesmos rosais, a ilusão do mês de dezembro e a esperança da hora final do ano — mutável a primeira e eterna a segunda como o tempo, sorvedouro em que se levantam e se desfazem os sóis, à maneira de bolhas iriantes e vãs...

A complexidade estética de João do Rio, natureza vertuniana exuberando em transfigurações imprevisíveis, desde o apólogo ao drama, já o tornou criticamente um problema insolúvel, cada vez mais desesperador para os amigos de etiquetas literárias. Entre as Religiões no Rio e a Bela Mme. Vargas, entre a Alma encantadora das ruas e a alma viciosa ou enferma que rasteja Dentro da Noite, quanta diferença, quanta mudança, quantos aspectos! Como que esse Vertuno das nossas letras, porém, se configura omnimodamente no caleidoscópio das Crônicas e Frases, localizando o enigma de todas as suas metamorfoses. Páginas revividas e repensadas, fora da torturante vulgaridade jornalística, encerram aí o dedutivo e o analista, o sarcasta e o poeta, o elegante e o evocador, mas deveras com outra amplitude, outro colorido, outra visão dos homens e das coisas. Sentimos que o artista fez a sua peregrinação aos lares santos da Arte, desde o mosteiro da Batalha às ruínas clássicas de Atenas, e compreendeu melhor a Beleza. Sentimos que o observador fez o seu curso no "vasto livro do mundo", elogiado pelo sublime Aristóteles, e compreendeu melhor a Verdade. Cronologicamente, a autobiografia intelectual e emocional de Goethe nomeia em Wilhelm Meister duas partes: anos de aprendizagem, anos de viagem. Paulo Barreto aprendeu e viajou intensamente como Wilhelm Meister, chegando, através da maturescência, à perfeição. E o seu último livro é bem a sinopse do esteta, a suma do pensador.

Sendo um emotivo e um imaginativo, com essa imaginação entre plástica e vaga, fatal aos utopistas, ele adquiriu na vida vertiginosa e devoradora, que é o jornalismo, a frase mais relampeante para os conceitos mais leves ou mais graves. Escravo da atualidade, condenado a exprimir por instantâneos a sua percepção dos fatos e das formas, individuou-se artisticamente, a despeito do mecanismo e da urgência profissionais. Desenleado, assim, de ornamentos e floreios inúteis, evoluiu para a celeridade e a precisão, mas evoluiu conforme o seu próprio ritmo, quebrando moldes imprestáveis, fundindo com energia um estilo seu, direto, penetrante, acerado, gravativo como o buril no metal. Reduzido a fórmulas para o automatismo dos copistas, o seu estilo é desolador. Animado pela sensibilidade, pela imaginação, pela graça e pela flama de um artista como João do Rio, é o maior encanto do nosso momento literário.

O atualismo profissional, tendência motriz desse escritor, vem acercar o Trítico dos Símbolos, inesperadamente, do seu primeiro livro. Com As Religiões no Rio, visionara Paulo Barreto a urbs carioca do século XIX encadeada, apesar de todos os progressos e requintes, ao fundo comum de superstições da cidade antiga, mesmo da barbaria feudal, nas extravagâncias litúrgicas, no uso dos talismãs, nos êxtases e nos delírios, nas práticas rituais agravadas pelo fetichismo africano. Quinze anos após, a leitura da Bíblia e de Homero, dos poemas indianos e das crônicas árabes, textos veneráveis que a psicologia, a história e a observação lhe confirmaram, sugere ao escritor a identidade e a perpetuidade dos nossos estados d'alma entre o Ignoto e o Destino. E eis que os símbolos, depois das cerimônias, perpassam agora, modernizados, nas Crônicas e Frases: o poder de ressurreição, pelo qual se afere em literatura o sentimento do Passado, é aqui um poder de transposição, atualizando imagens ou ideias, canários ou episódios em que se mesclam ao nosso materialismo e ao nosso ceticismo, que eram já os da Grécia, a poesia helênica e a poesia cristã — Maria e Afrodisia, os magos e Orfeus. Da antiguidade religiosa, interpretada psicologicamente, saem Pilatos e Judas nossos coevos, porque em dois mil anos variam só as datas e os acontecimentos, não as paixões e os instintos do homem, cuja estrutura é obra de períodos incalculáveis. Quando lhe surgem no campo da visão Ídolos crepusculares, em vez de figuras oblíquas ou hediondas, a ironia de João do Rio não os amortalha em púrpura, como a de Renan: combina as suas origens e os nossos prejuízos, os seus mitos e as nossas duvidas, a sua transcendência e a nossa frivolidade. É uma das combinações mais perversas e raras, que nos pôde oferecer no seu laboratório a química sutil dos ironistas.

Com o Trítico da Natureza floresce uma qualidade inédita na obra de João do Rio, toda ela social, cruamente analítica, preocupada até hoje com os fatos, as sensações, os desequilíbrios, as torpezas, as variantes anormais da espécie classificada entre os lobos pelo amoralismo inglês. Vede aqui o primeiro enlace do artista com a natureza. De onde em onde, unem-se os dois no mesmo prodigioso amplexo, e é tudo, esquecida a gravitação humana para o mal, paisagem lírica, sussurro de árvores beijadas pelo vento, oceano, luar.. Depois de algumas paginas como No Miradouro dos Céus, respira-se algo desse livro, esparsamente, na translucidez e na doçura do ar, na curva telúrica das nossas montanhas e na curva atmosférica dos nossos horizontes, no azul imensurável para a liberdade e intangível para a adoração, no mistério umbroso dos vegetais, no mistério ondulante das águas.

Em pleno Trítico do Desejo reaparece o Paulo Barreto invejado e familiar dos paradoxos, das audácias verbais, dos juízos insólitos, cuja singularidade atrai o esnobismo e o preciosismo cariocas, à maneira do cravo verde de Oscar Wilde, impressionando estaticamente Londres. Passemos com o mesmo sorriso do autor, enquanto os salões do Rio aplaudem Salomé e o seu mundanismo, a volúpia que eu chamaria d'annunziana, se tropical não fosse, do Coração e a Nuvem. Contrastando formas ligeiras de prazer sociável, irrompe com estridor, pesadamente, o símbolo do prazer atordoante, obtuso, violento, o formidável símbolo carnavalesco do Todo urbano — Zé Pereira — , que faz ressoar na pele de um bombo a alma coletiva, inflada pela jactância, endurecida pelo egoísmo, e é quase uma vingança de artista encolerizado. Não verte menos fel contra o meio hostil, nas suas intenções, a grave placidez conceituosa das Ideias de Esopo.

Mas o homem chegará sem azedume ao Trítico do Amor. Pelo caminho excelso dos bosques onde a lira órfica desperta os rochedos, enleva as plantas, subjuga as feras, não tardará João do Rio a encontrar, sorrindo e benfazendo, a clara piedade que vem estender sobre a inocência de Maria Rosa, num bordel, as azas protetoras do anjo da guarda, e salva da miséria inenarrável, com a mais linda crônica de que tenho notícias no Brasil, a cegueira de Maria das Dores.

Como as ideias, para a Inteligência criadora, são afinal os germens de que se originam as formas, bem podemos aqui surpreender ao escritor a direção e a síntese do seu pensamento. À semelhança da raiz que vai buscar o alimento mineral no húmus, essa literatura imerge na vontade nietzschiana de Poder, e toda se enflora e se esmalta, fixando luz, para exaltar no Sonho da Atlântida a energia que arranca aos mares tenebrosos a ilha da Felicidade, em César onipotente, herói ou deva, super-homem necessário à beleza do mundo. Frederico Nietzsche, porém, viu apenas o desencadeamento das forças humanas, ultrapassando o Bem e o Mal, traduzindo valores novos, e é preciso ver- lhes, por outro lado, a correspondência, a limitação, o equilíbrio, sem confundir super-humanidade e inumanidade. O culto de Zaratustra deve coexistir, e em Paulo Barreto coexiste magnificamente, com o de Orfeus revelador. Ele avista no progresso, desde o ciclo industrial da Fenícia ao da Germânia, o carro de triunfo manchado pelo sangue dos escravos, mas ouve também nesse fragor a divina lira que instrui, redime, aperfeiçoa os homens. Compreendendo o heroísmo social da Bondade, paralelo ao da Força, escreve com a sabedoria digna de um forte: "Cristo era Orfeu. Davi foi Orfeu. São Orfeus os apóstolos, os que ensinam um bem novo, os poetas que mostram uma beleza nova, os homens que trazem mais um clarão de poesia à continua revelação da sempre incompleta verdade". Esse nietzschiano, aceitando embora a Verdade de poder e a Genealogia da Moral, repudiou O Anticristo.

Morficamente, não sei bem se as Crônicas de Godofredo de Alencar ainda são exemplares do obsoleto gênero fradesco, modernizado e aligeirado, há cinquenta anos ou mais, pelos folhetinistas parisienses. Creio na incessante evolução dos gêneros literários, e outras variedades, outras espécies repontam aos meus olhos, aguardando um Linneu classificador, no Jardin d'Epicure, de Anatole France, nos Rameaux d'olivier, de Maurice Maeterlinck, em algumas páginas ilustradas de João do Rio. Concentram essas miniaturas, de quando em quando, intuições e lampejos tais, que a sua matéria prima, em vez do mármore e do bronze clássicos, deveria lembrar analogicamente o radium. A trama diamantina, fúlgida, inquebrantável — ce réseau de diamant, — atribuída ao sistema das próprias ideias pelos hegelianos, só rebrilha nesses cristais minúsculos da Arte.

Lapidado por símios que o arremedam, João do Rio continua a ser triunfalmente o esplendor e o orgulho da sua geração. Ante o seu novo livro, não haverá entre os homens de bom senso e bom gosto senão um movimento de sinceridade intelectual: correr para o vocabulário, como para um jardim, e atirar-lhe mancheias de rosas.

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CELSO VIEIRA
"O Semeador" (1911)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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