domingo, 15 de dezembro de 2019

O “Fausto” de Goethe (Resenha)


O “Fausto” de Goethe

Resumir o “Fausto” de Goethe, é tarefa dificílima, dada a complexa simbologia da obra. Procuramos dar aqui aos nossos leitores menos informados, uma ideia do desenvolvimento do poema, sem nos atermos à sua exegese. Goethe consumiu quase  toda a existência — sessenta e cinco anos — na elaboração do "Fausto", iniciado na mocidade e terminado na velhice. Como se sabe, o poema, composto de duas partes, baseia-se na lenda do Doutor Fausto, que o autor vira representar em 1773, num teatro de bonecos. Daí lhe nascera a inspiração enriquecida por outras sugestões. Lera, naturalmente, o "Livro Popular do Doutor Fausto", impresso em 1587 e conhecia decerto o drama de Marlowe sobre o assunto. Pudera remontar, enfim, à história autêntica do sábio, de nome Fausto, que estudou ciências em Cracóvia, praticou a magia, percorreu parte da Europa e morreu assassinado.

Nenhum assunto era mais célebre, na época, nenhum tentara maior número de escritores; todo mundo na Alemanha estava familiarizado com essa lenda que se reduzia, em suma, salvo no drama de Marlowe, a um pacto entre Fausto e o diabo, a uma tentativa de arrependimento do primeiro, seguida por sua dominação, que demônios burlescos carregavam para o inferno. Se Goethe se aproveitou desse personagem popular e de um argumento um tanto grotesco, foi porque apreendeu o que tudo isso podia encerrar de profundo no seu sentido humano e filosófico.


O PRIMEIRO FAUSTO

O Primeiro "Fausto", terminado em 1808, começa com um prólogo no céu, em que assistimos a uma aposta entre Deus e o Mefistófeles. Este obtém a permissão para tentar Fausto e se regozija, antecipadamente, de arrastá-lo ao inferno. Deus deixa entender que Fausto, apesar de suas faltas, mas porque se empenhou na procura da verdade, resistirá à tentação e salvar-se-á.

O Fausto de Goethe é um sábio atormentado pela sede de tudo saber, desesperado por haver chegado à velhice sem haver arrancado à natureza nenhum dos seus segredos, e por outro lado, arrependido, ante esse fracasso, de haver consumido no estudo a juventude e a maturidade. Expõe ele sua  crise moral ao discípulo Wagner, no qual não encontra senão formalismo estéril. Então, vem-lhe o desejo de envenenar-se. Mas os sinos da Páscoa chegam-lhe aos ouvidos e com eles o coro dos anjos: "Cristo ressuscitou!” Fausto chora e renuncia ao suicídio. Sai a passear com  Wagner e nota um cão negro que se aproxima de ambos, envolvendo-os num círculo cada vez mais estreito. Fausto leva o animal para casa, dando-lhe um leito perto da lareira. E ali, enquanto o sábio lê o Evangelho, o cão começa a roncar e transforma-se em Mefistófeles, personificação do diabo, mas um diabo elegante e gentleman. Mefistófeles apresenta-lhe uma proposta: restituir-lhe-á a mocidade e servi-lo-á docilmente na terra, facultando-lhe meios para conseguir a ventura que até então não lograra, com condição de ganhar-lhe a alma, no momento em ele, Fausto, disser à hora que passa: "Para tu, que és tão bela!”. O sábio aceita o contrato  e assina-o com o próprio sangue. Saem, então, ambos pelo mundo. Mefisto conduz, primeiro, Fausto a uma taberna de estudantes cm plena orgia, mas essa grosseira bacanal não conquista a alma do sábio que aspira prazeres mais nobres. Mefisto terá de recorrer ao amor. Leva-o, agora ao antro das feiticeiras, onde uma bebida mágica rejuvenesce-o, e estendendo-lhe um espelho encantado, lhe faz ver nele o rosto de uma jovem de uma beleza ideal: Margarida. Fausto fica imediatamente apaixonado.

O poema torna-se nessa altura um idílio. Fausto, vê, pela primeira vez, em pessoa, Margarida, saindo da missa; encontra-a, depois, no jardim de uma vizinha, passeiam juntos e juram um amor eterno. Fausto associa a natureza à felicidade que o embriaga. Margarida é um tipo encantador, simples e inocente e inteiramente inventado por Goethe, pois não figura na lenda. Já antes, em "Egmont", o poeta havia criado um personagem semelhante. Clara, modesta operária, transfigurada pelo amor.

Mas o idílio não tarda a transformar-se em drama. Fausto depois de haver seduzido Margarida, abandona-a. Um irmão dela retorna da guerra e ouvindo dizer mal da irmã, quer vingar-lhe a honra. Fausto, impelido por Mefisto, provoca-o a um duelo e mata-o. Para o cúmulo da desgraça, Margarida mata o filho, que lhe dera Fausto, e é conduzida à prisão, onda se debate no maior desespero.

Enquanto isso, Fausto assiste o “shabat das feiticeiras”, na noite de Walpurgio. Em vão Mefisto se esforça para arrancar-lhe do coração a lembrança de Margarida e destruir-lhe o lado ideal da personalidade. Fausto não consegue esquecê-la. Corre ao cárcere; ela se enternece ao  vê-lo, mas recusa-se a acompanhá-lo. No momento em que Fausto, assistido por Mefisto vai arrebatá-la à força, a pequena morre. Logo urna vez celeste se faz ouvir: "Salva! Salva!" Margarida fora redimida de suas culpas pelo arrependimento e pelas lágrimas.


O SECUNDO FAUSTO

O "Segundo Fausto" é uma continuação do poema, composto por Goethe nos últimos anos de vida. No primeiro, o herói, conduzido por Mefistófeles, percorrera o "pequeno mundo"; a ciência desiludira-o; o prazer não lhe deixara senão remorsos.  Agora, vai percorrer o "grande mundo”, o da atividade da vida de ação.

No começo do poema, dividido em cinco atos, encontramos Fausto, depois da morte de Margarida, estendido num leito de flores, em meio de uma bela paisagem. Os cantos de Ariel o dos espíritos que o acompanhara acalmam-lhe os remorsos. Vemo-lo, em seguida, na corte de um imperador da Idade Média, que se debate numa penosa crise financeira. Fausto aconselha o imperador a fabricar moeda cujo valor será lastreado pela exploração de minas de ouro. O imperador pede a Fausto e ao  diabo, para ressuscitar em carne e osso Helena e Páris, as duas famosas figuras da guerra de Troia. Mefistófeles não pode senão destruir; é-lhe impossível criar. Mas Fausto vai procurai entre "Ideias Mães" (ideias tipos das coisas), alusão à teoria de Platão, um tripé mágico, de onde faz surgir Páris e Helena. Torna-se, porém, logo apaixonado pela formosura de Helena, personificação da beleza clássica e procura arrebatá-la a Páris, no que é impedido por uma intervenção misteriosa.

Depois do episódio do Hormunculus criado por Wagner, Fausto parte em companhia deste à procura de Helena, e conseguindo encontrá-la de novo, desposa-a, dando-lhe um filho, Euforion, que depois de esvoaçar às tontas pelos ares, como um novo Ícaro, cai, vinde morrer aos pés dos pais. Essa união de Fausto com Helena encerra, como quase todos os episódios do poema um símbolo. Aqui — pode-se ver a aliança da arte clássica com o espírito moderno, engendrando a poesia nova — transposição do que se deu com Goethe que se libertou do culto dos exageros românticos.

A trama do poema se complica, tornando-se difícil resumi-lo. Fausto, sem ter aplacado sua inquietude, decide-se a procurar a felicidade na ação prática; e com grandes sacrifícios consegue recuar as águas do oceano, conquistando ao mar uma região que deverá fertilizar e povoar. Velho e cego, ele saberá que não chegará a terminar tão gigantesca obra. Que importa? Aquela atividade não será vã.  Trabalhou para o futuro. E sentindo por antecipação o deslumbramento do seu sonho realizado, exclama, dirigindo-se à hora que passa: "Para! tu, que és tão bela!'' Chegara o momento longamente esperado por Mefistófeles; este corre para arrebatar a presa; ruas Deus intervém. O espírito do Mal perdeu a aposta, porque, apesar dos seus erros e de suas faltas, Fausto será salvo, graças à suprema virtude de haver conservado um IDEAL.


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"Letras e Artes", 28 de agosto de 1949.

Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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