sábado, 25 de janeiro de 2020

Adolfo Caminha: a Província e a Corte (Resenha)


Adolfo Caminha: a Província e a Corte

De Adolfo Caminha são conhecidos apenas os romances “A Normalista” e “Bom Crioulo”, ambos reeditados ainda há uns quatro ou cinco anos. Mas “Tentação”, publicado em 1896, depois daqueles dois livros, é raridade bibliográfica. Lúcia Miguel Pereira, na sua “História da Literatura Brasileira”, limita-se a uma ligeira referência, considerando-o obra secundária, e apenas Saboia Ribeiro no “Roteiro de Adolfo Caminha” (1957) dedica-lhe quatro páginas, resumindo-lhe o enredo e fazendo-lhe uma rápida apreciação. Atribui-lhe muito acertadamente um “incontestável valor documental”, acrescentando que não sendo um livro romântico não possui, no entanto, passagens proibidas. Chega a ver nele um teste de Adolfo Caminha para mostrar “que as mesmas mãos que tinham escrito o “Bom Crioulo” também podiam escrever um quase inocente livro de amores burgueses”. Creio que Saboia Ribeiro usou lentes muito róseas para distinguir no esforço de sedução exercido por Furtado sobre Adelaide, a esposa do amigo íntimo, naquele beijo que ele lhe roubou e na ligação adúltera de D. Branca com o Visconde de Santa Quitéria apenas “inocentes amores burgueses”. Evidentemente, “Tentação” não encerra as cenas eróticas, descritas com todo rigor da técnica naturalista na “Normalista” e no “Bom Crioulo”, mas não chega a ser um romance para menores de dezoito anos, segundo a classificação adotada no teatro e no cinema.

Tomando, porém, a deixa de Saboia Ribeiro, quando diz não tratar-se de um livro romântico, quero tecer aqui alguns comentários em torno de “Tentação”. É que, no fundo o enredo dessa obra me parece justamente inspirar-se numa ideia romântica, que esteve muito em voga nos fins do século passado: o da superioridade da vida rural sobre a vida urbana e da província sobre a metrópole. Já me referi detalhadamente a essa ideia, quando num artigo publicado alhures, em que estabeleci um paralelo entre o romance “A Capital Federal”, de Coelho Neto e a comédia-burleta do mesmo título de Artur Azevedo, mostrando a semelhança dos temas de ambos. Pois “Tentação”, guardadas certas distâncias, pode ser colocada na mesma linha. Eis, em duas palavras, o enredo. Casando-se, depois de formado em Direito, Evaristo vai viver em Coqueiros, um recanto de província do Ceará. Inconformado com aquela existência mesquinha e sem horizontes, resolve, abalar para a Corte, prevalecendo-se das facilidades que lhe faculta o amigo íntimo e ex-condiscípulo, Luís Furtado. Na Corte, depois da emoção da chegada, começam logo as decepções. Tanto Evaristo como a esposa vão sentindo o artificialismo do meio, os recursos de que seria preciso valer-se para impor-se na sociedade, a hipocrisia e o cabotinismo reinantes por toda parte. Tornava-se necessário, no entanto, adaptar-se à nova vida; ninguém conseguia progredir num recanto de província. E num piquenique promovido por Furtado no Jardim Botânico, Adelaide é surpreendida pela audácia do amigo do marido que, depois de uma declaração indireta, rouba-lhe um beijo. Mulher honesta, sente-se com forças para reagir; mas os dias vão passando, o sedutor, embora com cautela, continua a assediá-la e ela só vê um meio para fugir ao cerco: propor ao marido o regresso à província. Nessa altura, Evaristo já farto dos engodos falazes da metrópole e indisposto com o amigo, também não alimenta outra ideia senão a de procurar o retiro provinciano de Coqueiros, onde não havia tanta maldade e os espera a preta velha Balbina, fiel e amorosa, por eles tão ingratamente abandonada.

A ideia romântica a que aludimos está aí perfeitamente configurada. E como no romance de Coelho Neto, publicado em 1894 e na peça de Artur Azevedo, em 1897, ambos mais ou menos da mesma época, em que apareceu o livro de Caminha, o tema pode ser caracterizado no seguinte esquema: sedução da metrópole, desilusão e regresso à província.

Não obstante, distinguimos um traço naturalista do romance do escritor cearense. A pressão do ambiente sobre Adelaide, procurando levá-la ao
adultério lembra a conhecida teoria zolesca, segundo a qual o procedimento dos personagens resultava das tendências hereditárias somadas com as influências do meio social. Se o autor não nos esclarece sobre os ascendentes de Adelaide, dá-nos a entender que ela conseguiu resistir à tentação do adultério, porque era uma criatura pura, sem nenhuma inclinação viciosa. Mesmo assim lhe atribuiu o desabafo de um ataque histérico, no momento, em que ficando decidido o regresso à província da esposa de Evaristo, compreendera que jamais veria o homem que lhe perturbara os sentidos. Eis, portanto, como a ideia romântica do tema prevalece em função de uma coordenada naturalista. 

Saboia Ribeiro, considera, com muita razão, a “Normalista” um ajuste de contas de Adolfo Caminha com o meio cearense: o ambiente provinciano de Fortaleza que tanto se escandalizara,quando ele tivera a ousadia de afrontá-lo, unindo-se livremente a uma mulher casada. Sim, podem os dizer, sem exagero, que a “Normalista” é um romance escrito contra a província, em que Fortaleza aparece como um antro de maledicência e coscovelhice, dominado peio preconceito e onde quase somente destacamos criaturas mesquinhas e sem beleza moral. Em “Tentação”, Adolfo Caminha fez justamente o contrário: fez a apologia da província: Coqueiros é um lugarejo nos arredores de Fortaleza, como se depreende do texto do romance. Devemos admitir que “Tentação” tenha sido escrito antes de “A Normalista", e portanto antes do fato que provocou a repulsa do Caminha pelo meio cearense?

Saboia Ribeiro, autor da mais detalhada biografia do romancista até agora escrita, nada nos adianta nesse sentido. Mas de algumas das “Cartas Literárias” de Caminha e mesmo de alguns dos seus contos inéditos, que tivemos ocasião de ler, podemos concluir de que ele não experimentara nenhuma simpatia pelo meio literário do Rio, onde os “novos” recém-chegados da província eram sempre hostilizados pelos “donos” da rua do Ouvidor. Assim aconteceu com Sílvio Romero: assim teria acontecido com o autor da “Normalista”. O não-conformismo, a índole rebelde e independente de Caminha, que concorria para torná-lo tão pouco feliz na província, como na metrópole, devia levá-lo a voltar suas armas contra ambas. Ou talvez, depois de abandonar Fortaleza, sentisse ele que o Rio era, apesar de tudo, muito pior do que a província.

A intenção de sátira na pintura de vários tipos da Corte, em “Tentação”, deixa transparecer o ressentimento do escritor. Sob esse aspecto é deliciosa a caricatura de Valentim Magalhães na figura burlesca de Valdemiro Manhães, ou o “Dr. Condicional”, “Baixo, pequenino, metidinho a crítico, um bigodinho quase imperceptível, sempre de lunetas — era conhecido por Dr. Condicional, porque nunca dizia as coisas em tom afirmativo: tinha sempre um mas..., um talvez..., um se..., quando criticava as obras alheias”.
  
Adolfo Caminha, como, aliás, vários escritores na época, devia razões de queixas de Valentim Magalhães para caricaturá-lo impiedosamente. Nas “Cartas Literárias” já lhe atirara algumas farpas. E Valentim por seu lado lhe pagava na mesma moeda. Se nas conferências que realizara em Portugal em 1894, sobre a literatura brasileira, não deixara de citar Caminha — então estreante, apenas com o romance “A Normalista” julgando-o o verdadeiro continuador de Aluísio de Azevedo, mais tarde, em artigos na “Notícia”, passara a hostilizá-lo com frequência.

---
BRITO BROCA
Revista Leitura, setembro de 1959.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...