sábado, 25 de janeiro de 2020

Alexandre Herculano: um monumento português



ALEXANDRE HERCULANO: UM MONUMENTO PORTUGUÊS

Alexandre Herculano é uma dessas figuras esculturais que, antes de desaparecerem em pó, reaparecem em bronze. Ainda vivo, nos últimos anos, adquirira na penumbra heroica do seu isolamento, como que a imobilidade sagrada de uma estátua. Desde o dia em que, velho leão ensanguentado, se retirou de uma luta sem tréguas que durara quarenta anos, para se ir esconder na benigna e pacificante tranquilidade da natureza, desde esse dia em que para quase todos começa o esquecimento, começou para Alexandre Herculano a projeção gloriosa do seu gênio – a imortalidade.” E a sua rude figura valorosa irá sucessivamente aumentando de proporções à medida que for correndo o tempo, esse filtro desapaixonado, que separa a verdade cristalina, límpida, inalterável dos venenos da inveja, das fezes da calúnia, da baba hidrófoba dos rafeiros magros e pestilentos.

Para medir a estatura de Herculano será necessário vê-lo de longe, a distância de um século. As grandes montanhas não se veem ao pé.

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Alexandre Herculano, antes de ter pegado numa pena, tinha pegado numa arma. O escritor não foi mais do que o prolongamento do soldado. Nos seus panfletos vulcânicos ouve-se a cada momento a detonação formidável da pesada clavina de pederneira do cerco do Porto. Deu ainda mais tiros com a pena do que com a espingarda. A tinta com que escreveu essas polêmicas era feita com o sangue dos adversários e com o resto da pólvora que lhe tinha ficado das campanhas da liberdade. Às vezes, depois de levar os inimigos a tiro, perseguia-os, lívidos, em debandada, às coronhadas. Defendeu a liberdade contra a tirania e contra o jesuitismo, contra o cutelo e contra o hissope.

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O estilo de Alexandre Herculano é, permita-se-me a expressão, a onomatopeia do seu caráter: grandioso, leonino, apaixonado. É bronze torcido. Às vezes dentro de um período ha um aríete. Quando corta é um machado; quando ruge é um trovão. A cólera de Herculano é uma espada de fogo com uma bainha da justiça. Herculano só tinha fúrias quando tinha razão. Matava um inimigo? Era para salvar uma vítima. A vítima era esta: a liberdade. Quando a atacavam, Herculano transformava-se em um tigre com a alma de um anjo. Rasgava, esmagava, esfacelava. Às vezes ria. Os seus sarcasmos fulminantes caíam sobre os preconceitos, como um cáustico sobre ama chaga. Aquele riso era a gargalhada transformada em azorrague; era a alegria ao serviço da indignação. Quando Herculano se ria de um adversário fazia-o chorar.

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A história de Portugal era como um enorme palácio desmantelado, com as janelas trancadas, as paredes fundidas pelos raios, cobertas de lepra, e onde ninguém ousara penetrar com medo que desabassem aquelas podres escadarias monumentais, que contavam já setecentos anos de existência. Inspirava terror. Andavam lá dentro lobisomens, aparições lúgubres, fantasmas com sudários. As corujas e os milagres esvoaçavam sinistramente naquelas escuridões supersticiosas. Os ratos tinham feito o ninho nas estantes e roíam os arquivos. Ouvia-se o piar dos mochos e os assobios das cobras.

De quando em quando dizia-se que era preciso restaurar o grande monumento nacional, mas não havia artistas, não havia pedreiros que quisessem aventurar-se no meio daqueles entulhos tenebrosos.

Foi então que apareceu um homem extraordinário — Alexandre Herculano, que abriu a porta desse pardieiro monumental, que andou lá dentro durante vinte anos consecutivos a levantar as escadas, a limpar os móveis, a abrir as gavetas, a consultar os livros, a erguer as paredes, os tetos, as colunas, e que, depois de um trabalho incalculável, sobre-humano, em que ele tinha sido tudo ao mesmo tempo — arquiteto, pedreiro, carpinteiro, paleógrafo, limpa-chaminés, depois de ter reconstruído enfim a parte mais deteriorada do edifício, veio à rua dizer com simplicidade aos transeuntes estupefatos: Podem entrar.

E sabeis o que aconteceu?

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As cobras que Herculano matara lá dentro não ficaram bem mortas, e abriram coroa, vestiram batinas, e foram espirrar o veneno dos púlpitos para baixo, sobre a alma mais sinceramente religiosa, sobre o espírito mais verdadeiramente cristão que eu tenho conhecido. As corujas que, sentindo os passos do grande historiador, tinham voado espavoridas, foram pousar nos campanários e nas sacristias segredando ao beatério, que costuma fornecer-lhes o azeite — que um desalmado iconoclasta as tinha expulso do ninho em que viviam regaladamente há mais de setecentos anos.

Os mochos, que saíram pela janela quando Herculano entrou pela porta, andaram a piar em voz baixa pelos concessionários que aquele homem devia ser entregue ao ódio dos cristãos, já que infelizmente o não podia ser ao baraço da forca.

O milagre de Oarique, desalojado da sua toca subterrânea, andou pelas igrejas, pelos campos, pelos jornais, pregou sermões, escreveu artigos, fez comunicados, pediu assinaturas, debateu-se enfim com um Tartufo energúmeno, a que acabassem de por a calva à mostra.

E os ratos? Estes espalharam-se pela península inteira, fizeram-se curas, missionários, sacristães, jornalistas, e não satisfeitos de terem roído Herculano durante a vida, ainda agora, depois de morto aparece um desses animaizinhos odiosos e infectos, um velho rato carlista— "El siglo Futuro" — a enterrar os dentinhos anavalhados no cadáver ainda quente do grande historiador português. Será bom que junto da sepultura de Herculano se mande colocar um prato com arsênico.

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Foi então que Herculano partiu para Vale de Lobos. Vale de Lobos é o exílio dentro da pátria. Emigrou da sociedade para a natureza. O formigueiro humano incomodava-o. A personalidade de Herculano era feita como uma estátua: de um só jato, de uma só peça. Não compreendia as nossas transigências, os nossos oportunismos, as nossas restrições, enfim esta sociedade decadente e utilitária baseada sobre o interesse, o egoísmo, à letra de câmbio.

Herculano era da raça dos gigantes de 1830. Depois disso viera uma raça dos agiotas. Havia mais estradas, mais dinheiro, mais polícia, mais tranquilidade, mais conforto, mas o nível da moralidade, o caráter, esse foi descendo, descendo, até que parou exatamente na linha divisória em que termina a virtude e começa o código penal. Os grandes sentimentos, os rudes heroísmos, as nobres abnegações dormiam — e quem sabe se talvez para sempre! — nas campas obscuras em que estavam deitados os titãs da epopeia da liberdade.

Herculano sentia-se só. Ele era no meio de tudo isto como um roble no meio de uma charneca. Os seus compatriotas davam-lhe pelo joelho. Depois tanto o morderam, tanto o contrariaram, que um belo dia Herculano, que estrangulara panteras, mas que não estava disposto a catar pulgas, tomou a resolução inabalável de se recolher dentro do silêncio, como dentro de uma fortaleza. Às vezes de longe a longe ainda s sentia trovejar lá para as bandas de Vale de Lobos. Mas era um momento, passava. Herculano fora definitivamente vencido Por quem? pelos pigmeus. O rato matara o elefante.

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O enterro do primeiro cidadão português foi tão pobre e miserável, como o seria o do último. Os extremos tocam-se. Não censuro a falta de pompa teatral, de mágica fúnebre. Quem foi simples na vida devia sê-lo na morte. Não são os lacaios agaloados que fazem o luto.

O féretro de Herculano tinha obrigação de ser humilde, mas tinha também obrigação de ser acompanhado por uma mulher vestida de negro, banhada em lágrimas, que antigamente se chamava pátria — e que hoje já não sei bem como se chama, porque nem tenho mesmo à certeza de que ela ainda exista. Vergonha eterna. A pátria não chorou a morte de Herculano; a mãe não chorou a morte do filho. Se ainda aqui houvesse porventura um forte e grandioso sentimento de nacionalidade, a morte desse impecável cidadão, deveria ter produzido em todos os espíritos um abalo tremendo, um terremoto de angústias

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Vai, espírito sublime, que não cabias em Portugal e cabes em sete palmos de terra! vai despir no leu sepulcro ignorado os andrajos efêmeros, com que a Providência veste as nossas almas imorredouras, e, como uma águia branca e gloriosa, some-te nessas alturas inacessíveis donde se não pode ver as grandíssimas misérias dos pequenos vermes deste pequeníssimo grão de areia.

E enfim se os teus compatriotas à míngua de dor, por um sentimento de ostentação te quiserem levantar um monumento grandioso, já lhes deixas preparado o material suficiente para que o possam fazer ainda maior do que a mais alta das pirâmides do Egito. Basta que reúnam para isso todas as pedras com que te apedrejaram.

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GUERRA JUNQUEIRO
O Cearense, 18 de novembro de 1977.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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