quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

Adosinda, de Almeida Garrett



A ELISA

Thus, while I ape the measure wild,
Of tales that charmed me yet a child,
Rude though they be, still with the chime
Return the thoughts of early time;
And feelings, roused in life's first day
Glow in the line, and prompt the lay.

Walter Scott

Campo da lide é este; aqui lidaram,
Elisa, os nossos quando os nossos eram
Lidadores por glória, – aqui prostraram
Soberbas castelhanas, e – venceram;
Que pelo rei e pátria combatendo
Nunca foram vencidos portugueses.
– Este terreno é santo; inda estás vendo
Ali aqueles restos mal poupados
Do tempo esquecedor,
Dos homens deslembrados;
Nobres relíquias são de altas muralhas
Forradas já de lúcidos arneses,
De tresdobradas malhas.
Talvez flutuava ali naquele canto,
Soberbo e vencedor
Das Quinas o pendão vitorioso;
E juntos ao redor
Desse paládio augusto e sacrossanto,
Invencível trincheira lhe faziam
Toda a flor dos mais nobres e esforçados;
Que à voz da pátria (voz que nunca ouviam
Sem sentir redobrados
Do nobre coração os movimentos)
Heróis são todos, fácil a vitória,
Fáceis as palmas que lhe enfeixa a glória.

Ah! – paremos aqui: – vê quais na frente
As artérias violentas me rebatem:
Febril, descompassado corre e ardente
E me angustia o sangue...
– Ah! sim paremos
Aqui... Não, aqui não; esse outeirinho
Depressa o descemos.
Faz-me bem esta vista: – essas arcadas
Soberbas, elevadas,
Que uniram monte a monte e serra a serra,
Acaso não serão
Tão ilustres talvez, – não lembram guerra,
Glória não lembram; nem com sangue lívido
A morte da vitória companheira
Para o erguido padrão
O cimento amassou.
Um rei que amou as artes, rei pacífico,
A quem amor fadou
Que se eu fosse e das musas, – que fugidas,
Da pátria há tanto, à pátria as volveria;
Do povo à utilidade
Este sublime monumento erguia
Para a posteridade
Isto só lhe apurou o nome e a glória,
E lhe ganhou as páginas da história.

Inda é multa opressão; inda me acanha
Tanta arte humana o coração no peito.
Tão grandes massas, fábrica tamanha,
Absorto deixarão – mas satisfeito
O ânimo, os sentidos?... Não, Elisa,
Não satisfaz ao homem a arte humana;
Por mais que ela se ufana,
Que aos abismos o centro oprime e pisa
Com os fundamentos de eternais pirâmides,
Ou com os erguidos vértices
Às nuvens rasga o seio tempestuoso.
Nem assim: – à tristeza ou à alegria,
E àquele estado de inefável gozo
Que entre a dor e o prazer a alma suspende
Brandamente e se diz melancolia,
Oh! nada disso o excita.
Oh! nada disso o coração entende!
Oh! nada disso o espírito nos move
Se a natureza, a pura natureza
Por sua ingênua atração nos não comove.
Posso admirar o homem e a grandeza
De suas nobres feituras,
Mas somente admirar;
Mais não pode excitar
Mesquinha criação de criaturas.

Vamos por essa encosta
Subindo.
– Eu gosto do alto das montanhas,
Dos picos das erguidas serranias,
O avaro à terra mãe abra as entranhas,
Cave oiro e crimes, com que encurte os dias
Seus e dos seus, e a sombra da virtude
Acabe de varrer da face dela.
Mas o que, em paz comigo e com a existência,
Ainda ama a inocência,
Inda se apraz com a natureza bela,
A seus quadros sorri, com seus dons goza,
Oh! esse venha ao cume do alto monte,
Venha estender a vista saudosa
Pelo vale que à falda lhe verdeja,
A messe que loureja,
E a despenhada fonte
Que vai garrula e trépida saltando
Até que se junta em cava pederneira.
Donde sai, o arco-íris imitando
Na espadana da férvida cachoeira.
Venha na solidão – e o só dos montes
É mais só que nenhum, – o silencioso
Mais augusto, solene e majestoso!
Venha na solidão
Consigo conversar, falar uma hora
Com o seu coração.
– Quantos há que anos longos hão vivido
Com os outros sempre, sempre com os de fora
Sem viverem consigo nem um dia,
Nem um momento só!
Tenhamos deles dó;
Viver não... têm apenas existido.
Tua meiga companhia
É doce, Elisa; e sempre na minha alma
Foi teu brando falar – e quantas vezes!
– Celeste orvalho que abrandou a calma
De paixões, que adoçou o agro a revezes:
Porém a minha solidão querida,
De vez em quando, lá quando alma o pede,
Oh! não ma tirem que é tirar-me a vida.
Agora conversemos: eu ignoro
A arte das vãs palavras que bem soam;
Ouço-as, e não demoro
No ouvido os sons que de per si se escoam.
O sol declina; – temos largamente
Hoje filosofado.
Na viva flor da idade e da saúde
Nem de todos seria acreditado
Que tão suavemente
Em austeras conversas de virtude
Nos fosse o tempo.
– Crê-me, Elisa amável,
Tem muito mais prazeres a amizade
E mais doces que amor:
Para todos os sexos, toda a idade,
Em todo o tempo a mesma, sempre afável,
Sem o cancro roedor
Do ciúme voraz que no mais puro

De amor, no mais seguro
Suas raízes venenosas lança,
E com a mais branda flor
Seus mordentes espinhos lhe entrança.

Detestemos, Elisa, essa funesta
Paixão brutal que a tudo e em tudo dana,
Da virtude a tirana:
Não nos iluda a tão comum cegueira;
Detesta o crime quem amor detesta.
Crimes! – vê a amizade prazenteira,
Que nenhuns tem; – e amor, ai! quantos, quantos?
Honras perdidas, tálamos violados,
Os vínculos mais santos
Dos homens e de Deus, da natureza,
Da própria natureza – espedaçados
Por esse amor, que era tocha acesa
Do vivo fogo traz do Averno imundo
Para de crimes abrasar o mundo.

Honesto, justo, santo, consagrado,
Nada respeita: – o sangue, o altar em meio
De seus desejos não é termo ou freio;
Não há pomo vedado
No Éden da virtude
Que a mão perversa e rude
Tocar não ouse, – árvore da vida
Que dos grifos mordida,
Em peçonha de morte não converta,
E a seiva salutar já corrompida
Em letal benefício não perverta.
Lembra-te aquela história
Que ingênuo o povo em seus trabalhos canta,
E de longa memória
Entre eles perpetuada,
É singela legenda de uma santa,
Que por brutal amor sacrificada,
Desvalida virtude,
Só do crime escapou no seio à morte?
Eu a canção magoada
Em verso menos rude,
Mais moldado verti, dei novo corte
Ao vestido antiquíssimo, à simpleza
Que há séculos lhe deu
De nossos bons maiores a rudeza.
Sereno está o céu,
Tranquilo o vento, a calma descaída;
E, pois que não te enfada
A singela toada
Do bardo alaúde que sem arte soa
E a rima desgarrada
Da popular canção rústico entoa,
Aqui ta cantarei; ouve: e se ao pranto
Te comover a saudosa endecha,
Na selvagem bonina,
Na campainha agreste desse mato
Arrociá-lo deixa;
São lágrimas sinceras, própria fonte
Para regar as inocentes flores
Que arte não sabem nem conhecem arte;
Flores como os meus versos não variados
De refinadas cores
Em que alma só e coração tem parte.
Não por clássica música modulados
Ao graduado som de grega lira,
De citara romana.
A minha é melodia que só mana
Dos íntimos acordes só do peito;
Nem há corda que fira
Em meu alaúde rústico
Tom menos natural, mais contrafeito.

Em soberbos canais, alto empedrados
Por engenhoso hidráulico,
Vão da arte subjugados
Os caudais da torrente conduzindo
Riquezas de preciosa mercancia:
E o arroio, que serpeia entre pedrinhas
Pela relva macia,
Bordado em torno sinuosamente,
Que pode ele levar
Em sua doce e trépida corrente?
– Alguma folha de silvestre rosa
Que, ingênua divagando
Pastorinha formosa
Lhe foi acaso à margem desfolhando.


 

CANTIGA PRIMEIRA


No, I'll not weep:
I have full cause of weeping; but this heart
Shall break into an hundred thousand flaws
Or ere I'll weep.


Shakespeare


I

Onde vais tão alva e linda,
Mas tão triste e pensativa
Pura, celeste Adozinda,
Da cor da singela rosa
Que nasceu ao pé do rio?
Tão ingênua, tão formosa
Como a flor, das flores brio
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
A doce manhã de abril!
– Roupas de seda que leva
Alvas de neve, que cega
Como os picos do Gerês
Quando em janeiro lhe neva.
Cinto cor de violeta
Que à sombra desabrochou;
Cintura mais delicada
Nunca outro cinto apertou.
Anéis louros do cabelo
Como o sol resplandecentes
Folgam soltos; dá-lho vento,
Dá no véu ligeiro e belo,
Véu por suas mãos bordado,
De um santo ermitão fadado
Que vinha da Palestina;
Passou pelo povoado,
Foi-se direito ao castelo
Pediu pousada, e lha deram
Porque intercede a menina:
Que o pai soberbo e descrido,
– Nessa gente peregrina,
Disse, quem sabe o que vem?
– Mas pede Adozinda bela,
Tão virtude e formosura,
Quem lho há de negar a ela?
Não pode o pai nem ninguém.

II

Mas o outro dia, à luz nada
Houve quem visse Adozinda
Debruçada em seu balcão
Haver prática alongada
Com aquele velho ermitão.
Quem sabe o que lhe ele disse?
Ninguém no castelo ouviu:
Mas daquela ocasião,
A alegria lhe fugiu
Dos olhos e do semblante:
Ficou triste, sempre triste;
Mas em seu rosto divino
Fez-se formosa a tristeza.
Como olhos de amor quebrados
Disseras os olhos dela;
Mas não tem de amor cuidados,
Que a ninguém conhece a bela.

III

Qual semente arrebatada
Da flor de vergel mimoso
Pelos furacões do Outono,
Vai no encosto pedregoso
Cair de serra escalvada;
Vem abril, e a seu bafejo
Brota e nasce a linda flor,
De ninguém vista ou sabida,
Nem de damas cobiçada
Nem de pastores colhida,
E o vento da solidão
Lhe bebe o perfume em vão.

IV

Quinze anos tem Adozinda;
E desde a vez que o romeiro
Do saio pardo e grosseiro
Lhe falou ao seu balcão,
Faz três para o São João.

V

E Adozinda sempre triste
Vai sozinha pelo eirado,
Pelo jardim, pelo prado;
Nem já a divertem flores
Em que punha o seu cuidado
Pelos sombrios verdores
De sua espessa coutada
Vaga à toa e derramada,
Como a novilha perdida,
Como a ovelha desgarrada
A quem o tenro filhinho
Lobo do mato levou:
– Desfaz-se a mãe em balidos,
Que de ninguém são ouvidos,
E o filhinho não tornou!

VI

Que tem Adozinda bela
Que em tal desconsolo a traz?
Serão saudades do pai
Que anda com os Mouros à guerra
Por defender sua terra
Mais a santa lei de Deus?
Três anos há que se foi;
E dois filhos que levou,
A cada qual sua espada
Com juramento entregou
De lha tornarem lavada
No sangue mouro descrido:
E assim cada um jurou.
Fizeram gente em suas vilas,
(Que preito muitas lhe dão)
E guiaram seu pendão
Para terras de Moirama.
Já vejo chorar donzelas,
Vejo carpir muita dama,
Que onde chega Dom Sisnando,
Com sua espada portuguesa,
Não há lanças nem rodelas
Que sirvam para defesa.

VII

Mas não são do pai saudades,
Que sempre a lidar com armas
Como elas duro se fez;
Mais lhe importam do que a filha
Seus ginetes, seu arnês.
E até – quem diria tal!
– Quando a mãe, por diverti-la,
Lhe fala do pai ausente
E lhe diz que há de voltar,
Parece que se lhe sente
O coração apertar.
Suspira em silêncio
Ausenda, Ausenda tão bela ainda
Que ao pé da bela Adozinda
Mais irmã que mãe parece
De filha tão moça e linda
Suspira em silêncio a triste,
Porque suspira não diz:
– Filha amante de seu pai
Conceder-me o céu não quis!”
Ai! que sem razão se chora!
Ai! Ausenda malfadada,
Tem de vir minguada hora
Que à filhinha desgraçada
Darás mais razão que agora.

VIII

Que tropel que vai nos Paços
De Landim ao pé dos rios!
Sons de festa e sons de guerra
Em seus muros e alta torre?
Geme a ponte, treme a terra
Com o peso de homens armados.
Cavalos acobertados
Trotam ligeiros; – e corre
O alferes que tremulando
Vai guião de roxa cruz...
Já chegado é Dom Sisnando.
Entre os cavaleiros todos
Sua armadura reluz:
E o penacho flutuante
Das plumas altas de neve
Sobre o elmo rutilante
De longe a vista percebe.

IX

– “Portas do castelo, abri-vos,
Correi, pajens e donzelas,
Que é chegado meu senhor,
Meu esposo e meu amor!”
Ausenda bradava e corre.
Portas se abrem, soam vivas,
E o eco da antiga torre
Com o som festivo acordou.
– “Viva, viva Dom Sisnando!”
E o tropel que dobra e cresce,
E às portas que chega o bando
Dos guerreiros triunfantes.
Do corcel soberbo desce
E aos braços anelantes
Da cara esposa voou.
Doce amor que os apertou
Não lhes deixou mais sentidos
Que para se ver unidos,
Ajuntar-se peito a peito,
E em laço tão brando e estreito
Longa saudade afogar.
A Ausenda goteja o pranto,
Pranto que é todo alegria;
E o rosto que nunca enfia
Do esforçado lidador,
Também sentiu – mais que a dor
Pode o gozo! – descuidada
Uma lágrima sensível
De seus olhos escapada.

X

Mas as lágrimas de gosto,
Como as de mágoa, têm fim;
Dom Sisnando enxuga o rosto,
E tomando a mão à esposa:
– Donde vem, lhe diz, senhora,
Que a joia mais preciosa
Não vejo destes meus paços,
Donde vem que aos meus braços
Minha filha?... – A filha bela,
Pasmada, trêmula, a um lado,
O rosto ao chão inclinado,
Parecia humilde estrela
Que ao primeiro ralo vivo
Do sol que no alvor reluz
Não fica, não, menos bela,
Porém pálida e sem luz.

XI

Três anos já são passados
Que Dom Sisnando a não via,
Nessa jovem, linda dama
Sua filha não conhecia.
– “Ei-la aqui, senhor”, dizia
A mãe, que dum braço a trava,
“Ei-la aqui”.
– Os olhos crava
O pai na formosa filha,
E de assombro e maravilha
Mudo, extático ficou.
Cora Adozinda, suspira,
E “Pai!” disse em voz tremente
Submissa... languidamente
Ajoelha, ósculo frio
Na paterna mão imprime:
Pranto que até ali reprime,
Corre agora em solto rio.
– “Que tens tu, filha querida,
Que assim choras tão carpida?
É teu pai, que há de querer-te,
Que há de amar-te como eu te amo”.
E tomou-a nos seus braços,
E a levanta Ausenda bela.
Pasma o pai, suspira ela;
E a custo os doces abraços
De pai, de filha se deram.

XII

Pouco alegre a companhia
Entrou nos paços brilhantes;
E os atabales soantes
Pregoaram festas e alegria
No castelo de Landim.

 

CANTIGA SEGUNDA


But yet thou art my flesh, my blood, my daughter.


Shakespeare

I

Oh! que alegrias que vão
Pelos paços de Landim!
Que magníficos banquetes
Que suntuoso festim!
Junto ao valente campeão,
À cabeceira da mesa
Ficou a bela Adozinda.
A tão celeste beleza
Estão todos admirando;
E o embevecido Sisnando
Não se farta de abraçá-la,
De beijar filha tão linda.
Ausenda de gosto chora,
E abençoa a feliz hora
Em que tanto amor nasceu.
– “Inda bem” – diz – “que a rudeza
De tanto lidar com armas
À inocência, à beleza
Da amada filha cedeu!”
Ela às carícias paternas
Já não ousa de esquivar-se,
Cora, mas deixa abraçar-se;
Vê-se que tantos afagos
A repugnância venceram
Da timidez natural,
Ou, se outra causa fatal,
Mais encoberta ela tinha.
Ao menos lha adormeceram.

II

Já de esquisitos manjares
Os convivas saciados,
De folias e cantares
Pajens, donzelas cansados,
E dos brindes amiudados
Finda a primeira alegria,
Doce repoiso pedia
Quanto esta noite em Landim
Velou em baile e festim.
A seus nobres aposentos
Adozinda retirada,
Com permissão outorgada
A custo – do pai, se foi.
Ausenda, em grave cortejo
De suas damas rodeada
Deixou há muito o festejo,
E em seu camarim deitada
Espera o momento ansiosa
Em que a sós a amante e a esposa
Nos braços de Dom Sisnando
Se hão de em breve confundir.

III

Como um tapete mimoso,
Junto ao paço de Landim
Se estende jardim formoso,
De boninas arrelvado
Da verde grama e de flores:
Remata em bosque frondoso
Cujos opacos verdores
Eternas sombras acoitam,
De pesados sentimentos
Opresso o peito fremente,
A respirar livremente
O ar puro da noite fria
Entrou insensivelmente
Dom Sisnando em seu vergel.
Jamais tão rico dossel
De azul bordado de estrelas
Se estendeu sobre a terra
Do estio nas noites belas.

IV

Alta a lua vai no céu,
E as sombras leves e raras
Não impedem às florinhas,
Não tolhem às águas claras
De brilhar com a luz noturna,
Menos resplendente e fúlgida,
Porém mais suave e plácida,
Mais amável que a diurna.
Manso o vento, que murmura
Entre as folhas brandamente,
Convida suavemente
A respirar, a bebê-la,
Essa fresca viração,
Das flores exalação,
Tão doce como o bafejo
De dois amantes queridos
Quando por amor unidos
Se dão mútuo e doce beijo.

V

Na feiticeira beleza
Da noite, do céu, das flores
Várias de aroma e de cores,
Sisnando todo embebido,
No seio da natureza
Do resto do orbe esquecido,
Pouco a pouco a agitação
De alma lhe foi abrandando,
E o pesado coração
Do afogo desapertando:
Já pode gemer, – suspira,
E como que se lhe tira
Um peso de sobre o peito,
Que a suspirar foi desfeito.

VI

Por que geme, por que anseia
Dom Sisnando, o lidador?
Sisnando, o triunfador,
Cujo alto pendão campeia
Vitorioso e senhor
Por tanta soberba ameia
De nunca entrado castelo,
De jamais vencida torre!
– Dor que lhe nasce no peito
É dor que no peito morre;
Ânsia que lhe rala a vida
Não é para ser sabida.
– E desde quando? há tão pouco
Feliz e ditoso ainda,
Com tanta alegria e júbilo
Festejada sua vinda!...
Vassalos, esposa, filha...
Filha!... A filha é tão formosa!
Oh! essa Adozinda bela
Nos olhos encantadores
Tem com que matar de amores
A metade dos humanos!
Não, não é peito sensível
Peito que lhe resistir:
Mas o pai!... não é possível.

VII

Não é, não é.
– Mas Sisnando,
Sem saber onde caminha,
Melancólico e pesado.
Insensível foi entrando
Pelo bosque emaranhado
Que ao jardim avizinha:
E o silêncio, que o seguiu,
Que no espesso coito habita,
Nem um verde ramo agita,
Nem uma folha buliu.
À toa por entre as árvores
Sem seguir carreiro ou trilho,
Nem guiado de um só brilho
De froixa estreia que entrasse
Por tão medonha espessura,
Ora lento e vagaroso,
Ora os passos apressura,
Já por caminho fragoso,
Já por vereda macia.
Até que num claro onde os troncos
Escasseiam de repente,
E onde pálido e tremente
Seu reflexo a lua enfia,
Sem o saber, foi parar.

VIII

Agreste, não feio é o sítio
Medonho, horrível de ver;
Porém tem a natureza
Horrores que são beleza,
Tristezas que dão prazer,
Mão de arte ali não chegou;
A virginal aspereza
Ficou em toda a rudeza
Que a criação lhe deixou.
De um lado, choupos anciãos
Seus ramos lúgubres pendem,
E o vivo seixo fendem
Crespas raízes nodosas
Das sovereiras anosas
Que as cortiças remendadas
Têm dos estilos lascadas
A pedaços a cair.
Do outro, altivos rochedos,
Como do céu pendurados,
Difundem pálidos medos
Que em funda gruta acoitados
De espectros a povoaram.
– Di-lo toda a vizinhança,
Que ou são sombras de finados,
Ou de negras bruxas más
Ali há noturna dança.
Redobra do sítio o pavor
Um jorro alto que despenha
Saltando de penha em penha,
E os ecos em derredor
Vai temeroso acordando,
Este único som de horror
À calada solidão
Da mudez quebra o condão.
Sisnando, o ardido Sisnando,
O do forte coração,
Sentiu soçobrar-lhe o ânimo:
Uma voz dentro do peito
Lhe diz que não passe avante;
Mas outra voz mais possante,
Outra voz que é voz do fado,
Voz que ao mortal desgraçado
Não deixa força ou razão,
Lhe brada: Persiste, segue...
– Ai do que a ela se entregue,
Que se entrega à perdição!

IX

No seixo cavada gruta
Tem escassa entrada aberta,
Quase de todo coberta
De festões de hera lustrosa
Que cingindo a rocha bruta
Pende em grinalda ramosa.
Entre as folhas, que meneia
Ligeiro sopro de vento,
Viu Sisnando – e alma lhe anseia
– Um lampejar vago, incerto
De luz fraca, – ouve um acento
De voz doce mas gemente,
Voz que se ouve e que está perto,
Que entoa suavemente
Uma angélica harmonia,
Tão triste que faz chorar!
E esta voz assim dizia
Em seu lânguido cantar:

“Anjos do céu, acudi-me,
Valei-me, santos do céu,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.

“Santo ermitão, que me deste
Aquela esperança ainda
Que a desgraçada Adozinda
Viria a ser venturosa
Após de longo penar...
Sorte que vieste
Sobre mim deitar,
Sorte desastrosa
Vem ver começar.

“Anjos do céu, acudi-me,
Valei-me, santos do céu,
Que me rouba mais que a vida
Quem só a vida me deu.

Mas ah! tão negro crime,
Tão hórrida paixão
De um pai no coração...
De um pai...
– Como é possível!
Não, não, não há de entrar.”

X

– “Pois treme, infeliz, e sabe
Que essa horrorosa paixão
Aqui neste coração...”

Sisnando, a quem já não cabe
No peito a angústia o tormento
De tão criminoso amor,
Nestas vozes de terror
Rompendo, a caverna entrou.

XI

Oh que pavoroso instante!
Os anjos todos cobriram
Seus rostos com a asa brilhante;
Sem vento os troncos de em torno
A ramagem sacudiram;
A lua no céu mais pálida
Como de susto enfiou
E para trás da montanha
Foi correndo, e se eclipsou.

XII

Quem há de a filha chorar
Que está nos braços paternos!
Oh! quem se há de horrorizar
Dos beijos doces e ternos
Que o amor...
– Que amor é esse?
De ouvir tão medonho horror
O próprio inferno estremece
E só lá... há tal amor!

XIII

Oh! como hei de eu cantar
Se no peito a voz me treme!
História que é de chorar,
Quem a diz não canta, geme.
– Só não gemia Adozinda,
Que toda morta, gelada,
Santo Deus! – mais bela ainda,
Na viva rocha, estirada
Como um cadáver ficou.

XIV

E o pai ousou levantá-la,
E apertar junto a seu peito
Aquela morta beleza!
– Repugnou a natureza:
E, da paixão a despeito,
De si a afasta, vacila...
O anjo da sua guarda
Inda um momento o resguarda...
Mas há na terra ou no céu
Força maior que a paixão,
Que subjugue um coração
Que de amor endoideceu?
Se a há, não lhe acudiu Deus,
Venceram pecados seus.
Lembrou-lhe fugir... ficou:
Sim, lembrou-lhe a salvação...
E à sua condenação
O infeliz se votou.

XV

Geme, chora; altos soluços
Do peito lhe vêm bradando;
Porém fugir de Adozinda
Não pode o triste Sisnando,
Ela acorda, e em voz sumida:
Piedade, senhor, piedade!...
Só pôde dizer: perdida
Nos ecos da soledade
Vai soando e murmurando
A voz triste e condoída.
Ouve-a ele; e o coração
No peito lhe estremeceu;
Na execranda pretensão
Recua, – mas não cedeu.

XVI

Palavras que lhe ele disse
Respostas que lhe ela deu,
Oh, não as contarei eu,
Não as contará ninguém...
Quis que lhe ela prometesse
(E a terra ali não se abriu
Quando tal a um pai ouviu!)
Que para a noite seguinte,
Quando tudo em paz jazesse
Em seu leitoso recebesse...

XVII

Chora a infeliz, chora, geme,
De horror e de pasmo treine:
Insta o perigo iminente,
A esperança na demora...
Com voz cortada e gemente:
“Senhor, não insteis agora,
Deixai-me cobrar alento,
E amanhã responderei.”
– “Pois, solene juramento
Farás de que...”
– Sim, farei...
– “Que amanhã, antes que o dia
Do horizonte desapareça,
Darás resposta final
E ai de ti, ai do mortal
A quem ousasses!... – Pereça
O infeliz nesse momento:
Só a morte, só o inferno
De meu cru ressentimento
O poderiam salvar.”


CANTIGA TERCEIRA


I must a tale unfold whose lightest word will harrow up thy soul; freeze thy blood; Make thy two eyes, like stars, start from their spheres.


Shakespeare

I

Que mau fado, que hora má,
Oh! qual agoirada estrela
Levou Adozinda bela
À fadada gruta escura?
Que foi ela fazer lá?
No mais denso da espessura,
A tão aziagas horas,
Só, alta noite, a desoras,
Sem donzela ou escudeiro,
Como o pedia a decência,
Sem levar mais companheiro
Que sua débil inocência,
Que seu jovem coração!

II

Quem o sabe? – No castelo
Nem a própria mãe, que a adora,
Que pela filha querida
Dera tudo, dera a vida...
Nem a própria mãe sabe-lo!
E como é que Ausenda ignora,
Por que encanto ou maravilha,
Que ao pino da meia-noite
Todos os dias a filha o escuro parque atravessa,
E tenteando a treva espessa
Vai sozinha àquela gruta
Que no mais claro do dia
Ninguém a entrar ousaria?
– Mas vai; não o sabe Ausenda:
Neste segredo fatal
Coisa sobrenatural,
Coisa medonha, tremenda
Há por certo... Oh! que inda mal!

III

Desde aquela madrugada
Que Adozinda em seu balcão
Falou com o velho ermitão,
De noite à gruta fadada
Sempre vai. Sibile o vento
No bosque medonho e feio,
Às nuvens o pardo seio
Rasgue horríssono trovão,
Nada teme; a passo lento,
Só, para ali se encaminha
E em rezas, em penitência
Horas longas jaz sozinha.
Talvez daquele romeiro,
Por salutar providência,
Seu fado lhe foi predito;
Talvez lhe fosse prescrito.
Por tão santo conselheiro
Que passasse em oração
Naquelas medonhas fragas
Certas horas aziagas
Em que a fatal conjunção
De um astro seu inimigo
Maior fizesse o perigo
Da terrível maldição
Que a persegue, – ela inocente!
– Que tão injusta caiu
Naquela votada frente...
Mas diz que não há condão
Pior que o da maldição!
E quantas não atraiu
Sobre a família inculpada
A soberba despiedada
Desse orgulhoso Sisnando?
Quantas vezes o infeliz,
Com os filhinhos expirando,
À porta do seu castelo
Se viu gemendo e chorando,
E o desalmado senhor
Essa gentalha atrevida
Escorraçar a mancou!
Tais pecados não guardou
Para os punir na outra vida
O supremo Arbitrador.

IV

Mas já despontava o dia,
Que tão alegre hoje vem,
Tão risonho parecia,
Que não dissera ninguém
Senão que trás alegria:
– E tantas, tão negras mágoas,
Nunca as trouxe o sol nascente
Desde que assoma no Oriente
E se sepulta nas águas.
Toda a noite longa, imensa,
Ausenda velou chorando,
De suas lágrimas regando o leito viúvo e só;
A ninguém sua dor intensa
A desgraçada confia:
Ninguém da triste ouve dó,
Que do esposo em companhia
Todo o castelo a julgou.
Porém a noite passou,
E por fim, do novo dia
Já o alvor vinha ralando,
Sem aparecer Sisnando,

V

É manhã; – tênue ainda a luz,
Mas vê-se que é madrugada
Ausenda ainda acordada
Sente abrirem-lhe com tento
A porta do aposento,
E entrar... – “Será ele?... Oh vem!
És tu, suspirado esposo?!
Disse ela em tímida voz:
Não lhe responde ninguém.
Um suspiro doloroso
Lhe dissipou a ilusão.
Oh quem se há de enganar
Com aquele suspirar!
É Adozinda, – voaram
Do maternal coração
Toda a mágoa e dissabores;
E os sentidos que ficaram
Foi para amargar as dores
Que naquele ai a assaltaram.

VI

– “Filha, filha... a esta hora!
Que sucedeu?... que tens tu?”
Calada Adozinda chora
“Ai, não me chameis filha!”
Rompe enfim, a soluçar,
Nadando num mar de pranto.
Pasmo, terror, maravilha.
Susto, medo, horror, espanto
No peito da triste Ausenda
Em confusão estupenda
De tropel foram quebrar.
– Que será? – E esse tirano
De todo o sossego humano,
Dúvida, o monstro fatal.
Que até nos deixa a esperança
Para que do incerto mal
Seja maior a pujança,
Venha mais fino o punhal
Quando na alma se nos crava,
Esse do peito lhe trava,
E ao cruel padecimento
Dobra angústias e tormento,

VII

Adozinda, ajoelhada
Junto ao leito onde convulsa
Jaz a mãe atribulada,
Do coração, que lhe pulsa
Como se fora quebrar,
Traz de amargo pranto um rio,
Que dos olhos vem a fio
As maternas mãos banhar;
As mãos que ela aperta e beija,
E que o pranto que goteja
Já não sentem derramar.

VIII

Volve a ti, mãe desgraçada,
Volve, que o morrer agora
Tamanha ventura fora
Que da sorte despiedada.
Concedido não será
Vem ouvir tua sentença
De morte... pior que morte,
Vergonha horrorosa, ofensa...
E de quem!... de teu consorte.
Do pai monstro, monstro esposo...
Ai! para o tormento odioso,
Para tamanha aflição
Não tem força o coração.

IX

Tudo lhe conta Adozinda,
Tudo... tudo interrompendo
A horrorosa narração
Ora as lágrimas fervendo,
Ora os soluços rompendo
Do rasgado coração,
Ora os lábios descorados
De pejo e terror gelados,
Sem poder nem balbuciar
O que é força revelar

X

– “Irás” disse Ausenda enfim,
E a voz, que treme, assegura:
“Irás, a teu...” – pai não disse,
E um som rouco lhe murmura
Nos lábios onde a meiguice,
Onde a maternal ternura
Procuram em vão sorrir:
“Irás, filha, a Dom Sisnando
E lhe dirás que...”
“Senhora!” Interrompe ela chorando
– “Que” torna a mãe quando a hora
Da meia-noite soar,
Em teu quarto o hás de esperar.
Não tremas, filha, não tremas,
Não chores, minha Adozinda,
Querida filha, não gemas,
Que hás de ser feliz ainda.
No angustiado seio
Guardemos inda a esperança:
Do céu mandada me veio
Uma ditosa lembrança
Que nos poderá salvar.
No teu leito de ouro fino
Sou eu que me hei de ir deitar;
Tua camisa de holanda
A meu corpo hei de lançar:
E quando ele nos seus braços
Ter Adozinda julgar...
Ah! que o céu há de abençoar
Este engano virtuoso,
E a ser pai, a ser esposo
Dom Sisnando há de voltar.

XI

O dia em rezas passaram
Em devotas orações;
Mas quando as trevas pousaram
Sobre as muralhas da torre,
Voltaram as aflições:
E o tempo – que leve corre
Para todos os viventes
– Só àquelas inocentes
Acintoso parecia
Que da ampulheta fadada
Bago por bago espremia
Cada hora minguada.

XII

Enfim meia-noite soa:
Dom Sisnando, aguilhoado
Do torpe amor – do pecado,
Impaciente ao prazo voa
Que ele de amor julga dado.
Como louco, arrebatado
Corre ao leito de Adozinda,
Cego beija a face linda,
Que decerto não é dela,
Mas que não é menos bela;
Ao convulso peito aperta
Aquele peito formoso...
– Desgraçado, é tempo ainda,
Do cruel sonho desperta,
Que ao precipício horroroso
Já te vai a despenhar!...

XIII

Dom Sisnando é criminoso
Quanto o podia ficar
Do intento abominoso
Nada resta consumar.
Já tristemente acordou
De seu delírio fatal.
E sorrindo amargamente,
À infeliz assim falou:
– “E era por isto... inocente!
Que tanto se recatava
Tua virtude fingida?
Ah! essa alma corrompida
Mais do que teu corpo estava. E tu...”
Não pôde ouvir mais
A triste mãe; não lhe sofrem
As entranhas maternais
Ouvir a filha adorada
De tal modo caluniada,
E por quem, e em que momento,
Com um sufocado lamento,
Que do peito rebentando
Trouxe aos lábios alma e vida,
Quebra o silêncio:
– “Ah, Sisnando!
Ah, senhor, matai-me embora;
A desgraçada sou eu.”
E a terra naquela hora
Rasgada não soverteu
O infeliz, que meio morto,
No abismo do crime absorto,
Deste golpe inesperado
À violência cedeu!

XIV

Silêncio largo, mortal
Foi a única expressão
Que por longa duração
Naquele estado fatal
Entre esses dois foi ouvida.
Porém no perdido peito
De Sisnando atribulado
Foi a vergonha vencida
Pelo irritado despeito:
Dos remorsos avexado,
Porém mais pungido ainda.
De seu crime malogrado,
Brada em cólera abrasado:
– “Pereça a filha descrida
Que desonrou seu pai”
Pai não ousa proferir
A palavra, suspendida
Por fria, pesada mão
De remorso insubjugado,
Lhe voltou ao coração
A lacerar-lho, a vingar-se
Da malsofrida opressão.

XV

– “Ouvi-me, senhor, culpada
Sou eu só...” a triste esposa
Lhe diz, mas não ouve nada
Aquela alma furiosa,
Já neste mundo ralada
De quanta pena horrorosa
No inferno está guardada
Para crimes como o seu.

XVI

Parte; corre; – o brado horrível
Por todo o castelo soa
Tão medonho como troa
Medonho trovão de outono
Despertos do brando sono
Todos são: – ordem que deu.
São tais, que de horror tremeu
A gente absorta pasmada.
Tristemente obedecendo,
Com a face ao chão inclinada
Se vão a medo, e mal crendo
Que não seja sonho vão
O que ouvindo e vendo estão.

XVII

Do castelo para um lado
Uma antiga torre havia
Cercada de largos fossos,
Que é memória haver fundado
Um rei mouro que vivia
Há muito, de quando os nossos
Mourisca gente regia.
Ali uma esposa sua
Que ele achou ser-lhe infiel,
Sete anos e mais um dia
Fechada a teve o cruel,
Sozinha, a grilhões e nua;
E só pão seco lhe dava,
Mas água não consentia
Que nunca ninguém lha desse
Para que à sede morresse.
Valeu-lhe quem tudo pode,
Que ao infeliz sempre acode:
Vinha-lhe orvalho do céu,
De que os sete anos bebeu
E enfim o sétimo ano
De tal milagre vencido
Foi o próprio rei tirano,
Que a liberdade lhe deu,
E do crime cometido,
Se o havia, se esqueceu.

XVIII

Para esta torre deserta,
No verão ao sol exposta,
Que abrasado a queima e tosta,
No rigor do inverno aberta
A chuvas, à ventania,
Sisnando – quem tal diria!
Mandou a filhinha linda,
Que ali fechada gemesse,
A virtuosa Adozinda!...
E ai de quem água lhe desse,
Lhe desse vestido ou cama,
Que da sede à morte crua
– Qual o mouro a sua dama
– Ali quer que morra nua,
De todos desamparada,
De seu pai amaldiçoada,
Só da triste mãe chorada!

XIX

Sem dar somente um gemido,
Sem se carpir, nem queixar,
Como a ovelhinha tremente
Que sem dar nem um balido
Se deixa à morte levar,
Vai Adozinda inocente
Para aquela feia torre.
Pranto que furtivo corre
De quantos olhos a viam,
A acompanha tristemente,
E o pai!... Ânsias que o remordem
Ninguém as sabe nem vê.
Num aposento encerrado,
Onde nem do mais privado
Concedido é meter pé,
Só ficou, só permanece:
Só! – antes acompanhado
De quem os seus não esquece
Do remorso, – do pecado.

 

CANTIGA QUARTA


You do me wrong, to take me out o'the grave:
– Thou art a soul of bliss: but I am hound
Upon a wheel of fire, that mine own tears
Do scald like molten lead.


Shakespeare

I

Sete anos e um dia
Foi a sentença cruel
Que Adozinda cumpriria
Naquela torre fechada.
E o tirano bem sabia
Que nem três dias somente
Viver podia a inocente
Com a sede, a desnudez.
Uma semana é passada
Passado é um mês e outro mês,
Ano e anos decorreram;
E os sete anos feneceram
Sem que Adozinda formosa
Em tal míngua perecesse,
Sem que ao menos desmerecesse
Em seu rosto uma só rosa.

 

II

Veio um dia – nesse dia
O cativeiro acabava
– No mais alto o sol ardia
E a terra toda abrasava.
Na torre uma voz se ouvia,
(E é esta a primeira vez)
Era uma voz que pedia,
Que suplicava piedade:
“Uma sede, uma só de água,
Uma só por compaixão,
Que me abraso nesta frágua,
Que me estala o coração”.

III

A voz de Adozinda bela
Todos clara conheceram;
Com os olhos na alta janela
De toda a parte correram:
– “Vive, inda vive! bradavam,
A inocente! vinde vê-la.”
E uns aos outros recontavam
Das virtudes, da paciência
Daquele anjo de inocência
Que, há muito, morta julgavam.
Outra vez se torna a ouvir
O mesmo clamor sair
Da torreada prisão:
– “Uma sede, uma só de água,
Uma só por compaixão,
Que me abraso nesta frágua,
Que me estala o coração?”

IV

A todos se comoveu
O mais íntimo do peito,
Mas não ousam a afrontar
Do pai o sevo despeito.
– “Tem paciência, anjo do céu!”
Com lágrimas responderam
“Que já não pode tardar
O pai que te vem soltar.
Os sete anos decorreram,
O dia está a acabar;
Sofre mais este momento,
Que hoje acaba o teu tormento.”

V

– “Oh! como hei de eu suportar,
Amigos meus da minha alma,
Se a vida sinto acabar,
Sinto abrasar-me da calma!
Sete anos me acudiu Deus,
Que por milagre vivi,
Dava-me orvalho dos céus,
De que sete anos bebi.
Do estio ardentes queimores
No meu corpo os não senti,
Do inverno os frios rigores
Também esses não tremi.
Mas há três dias que a mão
Do Senhor me abandonou.
Tudo, tudo me faltou...
Oh! tende de mim piedade!
Uma sede, uma só de água,
Uma só por compaixão,
Que me abraso nesta frágua,
Que me estala o coração!”
– De novo alto choro ergueram,
Lastimado pranto gemem;
Mas de seu tirano tremem,
Só a chorar se atreveram.

VI

Soa a nova no castelo,
Vai correndo em derredor,
De que por fim fora ouvido
Aquele anjo sofredor
Soltar queixoso gemido,
Piedade enfim suplicar.
Só a Ausenda, que expirando
No leito da morte jaz,
Para que morresse em paz
Vão a noticia ocultando.
Mas soube tudo Sisnando,
E no duro coração
Já vacila a crueldade, já vislumbra a compaixão:
Dos secos olhos covados,
Que inspiravam medo e espanto,
Como que da mão tocados
De algum anjo punidor,
Salta repentino o pranto.
Qual onda que estala em flor
Sobre o penedo ouriçado,
Todo em lágrimas sanguíneas
O infeliz debulhado,
Para aquela infausta torre
Com incerto passo corre
Em altos gritos bradando:
– “Água! trazei água, vinde,
Acudi à desgraçada,
A uma filha malfadada
Que por mãos de seu pai morre!”

VII
Assim correndo e gritando
Chegava à horrível prisão
Em que gemia Adozinda:
– “Filha, filha, é tempo ainda;
Perdão, á filha, perdão
Para este algoz...”
– Cortou-lhe
O excesso da paixão
Língua e força; a voz quebrou-lhe,
E por morto cai no chão.

VIII

Oh! que povo se ajuntava
No Castelo de Landim!
E com que horror que ele olhava
Para aquele triste fim
De tamanho cavaleiro
Tão rico e grande senhor,
Tão esforçado guerreiro!
A Ausenda chega o rumor
Do sucesso inesperado,
Dá–lhe força e vida amor;
O fio meio cortado
Da existência lhe atou.
Ei-la se ergue, e em mal firmado
Passo corre – e lá chegou.

IX

E já por ordem de Ausenda
Com a porta negra e tremenda
Investem da torre erguida:
Range o ferro, os gonzos gemem,
Parece que já rendida
ai de todo; – à roda tremem,
Do fundamento aluída
A torre, os sólidos muros.
Mas em vão de centenares
Dos mais rijos braços duros
Se movem os instrumentos
Que em muralhas mais valentes
De castelos regulares,
De mais sólidos cimentos
Têm a miúdo triunfado.

X

Parece encanto; – será?
O povo maravilhado já por tal, tremendo, o dá,
Cessam todos, encantado
É o negro portão ferrado...
E o povo desanimado
Da empresa desiste já.

XI

Arreda, arreda, infanções,
Cavaleiros, dai lugar,
Com licença, nobre dama,
Que aí vem um santo ermitão:
Com as suas orações
Este encanto há de quebrar,
Ou, se do demônio é trama,
Com o seu bento condão
Ele o há de desmanchar.
– Ei-lo chega: – este semblante
Não é aqui desconhecido...
Esta barba, este vestido...
É ele o mesmo ermitão
Que a noite de São João
(Não há dez anos ainda)
No castelo pernoitou,
Que Sisnando maltratou,
Mas, por a bela Adozinda
Pedir muito, lá ficou.

XII

Com a cabeça coberta
Do seu agudo capuz,
Os olhos de cor incerta.
Pasmados, fixos... e a luz
Que deles sai é tão viva
Que a espaços da vista priva
Quem de perto os quer fitar!
As mãos cruzadas rio peito,
Vagaroso seu andar,
Tão pesado e de tal jeito
Que faz um eco tremendo
Quando os passos vai movendo,
E como que a terra e o ar,
Com o peso vão gemendo...
– Foi seu caminho direito
Da torre à porta ferrada;
Sem atender a mais nada,
Sem olhar nem para Ausenda,
Que em lágrimas debulhada
Súplices mãos lhe estendia,
Chega à porta, e em voz horrenda
– “Abre-te!” – disse. Estalou
O ferro medonhamente,
E a porta se escancarou;
– Mas ele subitamente,
Voltando-se para a turba,
Que alto alarido alevanta
E em redor se perturba,
Com gesto que aos mais ousados
Todo o ânimo quebranta:
– “Emudecei!” – lhes bradou.
Ficaram todos calados;
E – emudecei – revibrou
De ecos em ecos dobrados
Pelo castelo e jardim;
Pelos soutos ao redor,
Pelos campos dilatados
Que a Dom Sisnando obedecem
E por senhor reconhecem
Ao rico-homem de Landim.
– Depois estendendo a mão
Ao lugar onde jazia
Por morto no frio chão
O desgraçado Sisnando,
Estas palavras dizia
Que em rouco som vão soando:

– “Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te à vida!”

“Que o teu pecado,
Abominado
Do próprio inferno,
Só tem perdão
Com longa vida
De penitência,
De contrição,
Que a alma perdida
Salve do inferno,
Da maldição.

“Eu te esconjuro,
Alma perdida,
Volta-te à vida!

“O anjo celeste
Na hora última
Te perdoou,
E ao Pai Eterno
A tua vítima
Por ti rogou.

“Lázaro imundo,
Nesta grande hora
Volve-te à vida,
Vem, surge fora!”

XIII

Em pé esta Dom Sisnando:
Vivo está, morto parece,
Tão negro véu lhe enoitece
O verde-pálido rosto,
Onde o seu selo já posto
Tinha o arcanjo da morte.

XIV

De joelhos o ermitão,
Com a cabeça coberta,
À porta da torre aberta
Faz breve e baixa oração
Eis violento repelão
A terra, tremendo, deu.
E de alto abaixo a muralha
Largamente se fendeu.
Viram todos claramente
O interior patente
Em que jazia Adozinda,
Donde há poucas horas inda
Sua voz se ouviu chamar.
E por uma sede de água
Ao seu algoz suplicar.

XV

Num leito de frescas rosas,
Que aromas do céu recendem
Morta Adozinda jazia:
Suas feições mais formosas,
Mais angélicas resplendem.
Uma suave harmonia
Tão brandamente soava,
Que ao coração parecia
Que por piedade o afagava
A quem saudoso gemia.
– A alva frente, não tocada
Pela mão da morte lívida,
De lírios do céu coroada
Brilhava com luz tão vivida
Que parecia toucada
De puros raios do Sol
As mãos postas sobre o peito
Para o céu se alevantavam,
E como que de alma justa
Para a morada apontavam.

XVI

Oh! que vista, oh! que momento
Para a triste mãe! – Faltava
Só este último tormento.
A malfadada cuidava
Que nenhum padecimento
Para gemer lhe sobrava!
Era este. – E a dor ignora,
Não sabe o que é padecer
Quem o filhinho que adora
Não viu ainda morrer...

XVII

Levantou-se o Ermitão
E bradou: – “Ajoelhemos,
E a mão de Deus adoremos.”
Submissa resignação
Pode a voz tolher à dor,
Não tira do coração
Seu espinho pungidor,
Que em silêncio é mais cruel,
Rasga mais e na ferida
Mais acre derrama-o fel.
A paciência sofrida
Da triste Ausenda cedeu;
Não exclamou, não gemeu,
E em tributo de respeito
Sua mágoa fechou rio peito.

XVIII

E Sisnando? – O desgraçado
No pó da terra humilhado,
Só lhe conhece a vida
Na agitação comprimida
Do convulso soluçar.

XIX

Para a ermida do castelo
Enfim o corpo levaram
E num cofre de ouro fino
Como relíquia o guardaram.
– Muito a não carpiu Ausenda,
Que a morte compadecida
Cedo a libertou da vida.
Porém a longa existência
De remorso e penitência
Sisnando foi condenado:
Coberto de horror e opróbrio
Cumpriu seu mesquinho fado;
Onde? – Ninguém mais o soube

Do castelo aquela noite
Com o Ermitão se sumiu:
Nunca mais dele se ouviu.
Mas à meia-noite em ponto
Na capela de Landim
Se ficou sempre escutando
Gemer uma voz medonha,
Que pede perdão bradando;
E essa voz diziam todos
Que era a voz de Dom Sisnando.

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