domingo, 12 de janeiro de 2020

Algas e Musgos, de Luís Delfino (Poesias)



ALGAS E MUSGOS

 

Não prima esta obra de ourivesaria
Por leve, caprichosa e delicada,
Como devera ser, como pedia
Pequena tela de ouro trabalhada...

Nem de ouro sempre: a lâmina talhada
Foi do metal que às mãos acaso havia,
Logo que me soava uma harmonia
E eu via a frase em mole dança enleada.

Casando o ritmo ao frêmito das cores,
Vergéis em vale estreito enchi de flores,
Sob a cúpula azul de um céu ardente:

E indo gravar as mais triunfantes gemas,
Para as pôr dando luz em meus poemas,
Algas e Musgos burilei somente.

OMBREIRA

 

Vagas cheirando a brisas das balseiras
Que vêm do oceano, num suspiro apenas,
E trazem conchas de ouro e de açucenas,
À flor da areia, expondo-as em fileiras,

Grutas soltas de nácar: mais não queiras
Nestes poemas ter; — são vãs falenas,
Que, para ir iludindo algumas penas,
Ato às asas da noite, e aí vão ligeiras.

Verás algumas pérolas, se fores,
Quando as ondas não crespas vão rolando,
Quando da tarde a luz cambiando as cores,

E ora azul e ora verde o mar baixando,
Têm nas escamas trêmulos fulgores,
E abrem-se às praias num bocejo brando...



O PERFUME DE UM HINO


Se alguém me vir perenemente moço,
Ou como um deus de Hesíodo ou de Homero,
Alta a cabeça, o olhar radiante e fero,
É que eu em toda parte a vejo, e a ouço;

Que em vê-la, e ouvi-la, eu sinto-me um colosso,
Pois tenho nela tudo quanto quero;
Nem temo a inveja a uivar, como um mar grosso,
Dizer que minto, que não sou sincero.

Nela eu vejo a mais nova irmã da Aurora,
Ela em mim o irmão gêmeo da Harmonia;
Não precisamos de mais nada agora.

Nossos filhos, o Sonho, o outro a Alegria,
Como eu os amo, a mãe como os adora!
E ambos são para nós a luz do dia...



PIGMALIÃO


Sinto-me todo em ti, tendo-te perto;
Prendes-te a mim num forte e estranho laço;
Vamos: quem acha o paraíso aberto,
Faz o que fazes tu, faz o que eu faço.

E enquanto o corpo teu osculo, e abraço,
Novos sóis anda um deus a urdir decerto;
E ouvem-se, a um pólen vasto enchendo o espaço,
Édens florir, cantando, em nu deserto.

É a ventura triunfal do malho,
Que bate o bloco, e o embebe, e o anima, e a ideia
Lhe põe, mordendo-o todo, a talho e talho:

E é do amor, que o buril fecunda e ateia,
Que entre gritos do mármore em trabalho,
Nasce Vênus, ou nasce Galateia.



TELA APAGADA

Tecum vivere amem.

Horácio

Como isto aqui mudou!... Agosto, o ano passado,
Tinha mais sol, mais luz, mais calor, menos frio;
Mas tudo o mais é o mesmo: a água do mesmo rio,
A ponte de madeira, as mangueiras, ao lado,

Velhas, grandes, em flor, o lanço esburacado
Do muro, e o líquen nele, e a avenca, e o luzidio
Lacrau, que salta, e vira, e já volta ao desvio;
O cão ganindo; e a um canto, à esquerda, ao longe, o prado;

Bambus em renque, em meio o caminho, e no espaço,
Longe do morro, ao fundo, a casa; e no terraço
Sobre o jardim, talhando o ar cintilante, a imagem

De um anjo, — um áureo nimbo à coma, o olhar humano
Como jamais pintou Corregio ou Ticiano:
Quem, levando-a, apagou a esplêndida paisagem!...


PALIDA VICTRIX


A fronte cheia de uma dor sonora
Na mão aberta tristemente pousas,
E a estrela de uma lágrima demora
Sobre um dos cílios... mas chorar não ousas...

Pasmas às triviais, pequenas coisas!
Vês manchando de larga sombra agora
A luz do céu, e pelo campo em fora,
Um bando azul de lindas mariposas.

Acaso abres o leque, e lentamente
Olhas sem ver dois calmos chins à beira
Dum rio argênteo; a rútila corrente

Mete-se em pontes de ouro, a luz a empoeira...
Que dor faz pois mais pálido e doente
Teu belo rosto pálido de cera?



NUM TURBILHÃO DE ESTÁTUAS

At the mid hour of night, when stars are weeping...

T. Moore — Irish Melodies

Quando os formosos mármores de Atenas,
Brancos, como os luares transparentes
Desmanchando seu feixe de açucenas
Na limpidez sonora das correntes,

Murmuram suas doces cantilenas
Pelas suaves curvas esplendentes,
Mas como um sonho, um vago sonho apenas,
Que embala a noite em páramos silentes...

Numa ebriez de luz, turbado e incerto,
Entre o alarido de rosais desperto,
Via erguer-se, surgir... ficar só tu.

Do turbilhão de estátuas fugidias
Restavam só as formas luzidias
Do teu corpo orgulhosamente nu.


VÊNUS MARINHA


Quem és tu? — Serás tu o que pareces?
Mármore duro, opaco, e resistente
Mármore vivo, cuja voz tremente
Vem de uns lábios, que sempre imploram preces,

Onde começas tu, onde feneces?
Onde pode a ti mesmo achar-te a gente?
Bela esfinge terrível, que mais cresces
Quanto mais desço em ti profundamente.

És uma imagem sob um véu de bruma:
Tu tens os grandes gestos de rainha,
E não sei de tua alma coisa alguma.

Tortura-me esta grande angústia minha;
Deusa, e pombas, e concha, e mar, e espuma...
Nada mais vejo em ti, Vênus marinha...



NUDAQUE VERA


Por quê?... Bem vejo o gosto, o esmero, o tino
Com que no escrínio luxuoso fechas,
Ora a nuvem das rútilas madeixas,
Ora do corpo o mármore divino.

Cinzelo, lavro, junto, ato, combino
Frase e frase, e engrinaldo-te de endechas:
Como és formosa assim!... Mas imagino
Abismos, céus... os céus que ver não deixas...

Oh! nua!... nua é que te quero!... nua...
Igual à rosa, ao lírio, à estrela, à lua,
No brilho astral dos monólitos nus!

Em rico estofo um corpo não escondas,
Onde por linhas ideais, redondas,
Cantam os sóis a Ilíada da luz.



CARROS QUE SE ENTRECRUZAM


Como serpente enorme, então a natureza
Enroscava-se ao meu espírito abatido:
Assobiava o sul no céu, como um bandido
Em caverna onde há sombra, ar úmido e tristeza.

E enquanto o frio, como um ferro agudo e buído,
Perfurava-me a carne, a mente inquieta e acesa
Arranjava uma alcova, um fogo, um livro lido
Na intimidade ideal de uma gravura inglesa.

Eis que perto de mim surge, irrompe, fulgura
Como fugida a um quadro, uma branca figura,
Como só Greuze e Holbein as sabiam pintar.

A cabeça gentil punha apenas de fora...
O seu carro voava arrebatando a aurora:
Um furacão de luz levava-a pelo ar...



AD ASTRA


... tu pudica, tu proba
Perambulabis astra sidus aureum.

Horácio

Estes anões são vis, são pó: — deixá-los.
Vem tu comigo acima, alma divina;
Era demais, deusa do bem, odiá-los;
Tu, a quem só o amor do bem domina,

Vem. — Eu já lanço os rápidos cavalos
Pelo meio da estrada cristalina,
E em cada sol, que ao ver-me a fronte inclina,
Tens o meu povo de ouro, e os teus vassalos.

A cada beijo, hemos de ouvir cantando
Os deuses logo, as deusas logo, em bando,
Cada um de nós em rútila curul.

Lá tu serás a minha loura Circe
Dentro em meu colo a rir-se, a rir-se, a rir-se,
Como uma estrela na lagoa azul.


ACORDO


Dizes que te não dê este amor, que é meu gozo,
E é o abismo estrelado em cujas bordas piso,
Que vive do clarão sonoro do teu riso,
E da luz que enluara o rosto teu formoso;

Este amor, que vê sempre aberto um paraíso
Em qualquer parte do teu corpo astral e ondeoso,
Que, como o vento ao mar, não me deixa em repouso,
Do qual, para o meu céu ser céu, ter sóis, preciso:

Este  amor não to dou. — Os astros resplendentes,
Um mar preso a outro mar, ilhas e continentes,
O espaço, e o que ele tem, o que é, e o que inda for.

Deuses, e turbilhões fantásticos... pudera!...
Dera-te tudo, tudo, oh! tudo!... e não te dera
Este amor, este amor, este meu louco amor!...



PAUCA


Oh! triunfar, dar corpo a ideais mais caros,
Haréns possuir, como um Sardanapalo;
Pôr no mármore o gesto e alevantá-lo,
Bem como um Pigmalião dando alma ao Paros;

Dormir nos ostros dos triclínios raros;
Prender o mundo à cauda de um cavalo,
Ou, como Orfeu, à lira de ouro atá-lo,
Que importa?  Uns bens tão vãos, eu do alto encaro-os.

Mesmo, se isto é ventura, e isto preferes,
Num turbilhão de esplêndidas mulheres
Ir pela vida inteira arrebatado,

Vive assim, morre assim; eu cá desejo
Ao colo de uma só viver num beijo,
De uma ao colo morrer num beijo, e amado.



A VALSA


Move-se, treme, anseia, empalidece,
Cai, agoniza; acaba-lhe nos braços:
Resfolga, arqueja, torna, reaparece,
Solda-lhe o seio, a boca, as mãos, os passos...

Gira, volta, circula... Os olhos lassos
Têm langue, mole, voluptuosa prece:
A fronte branca ao colo dele esquece...
Atam-lhe as carnes invisíveis laços...

Na sala, a um vão, inquieto a vejo... e o vejo!
Sofrer?!... não sei... mas toma-me um desejo,
Ao ver um só nos dois, o grupo enleado...

Rojar-me ao chão, à terra de repente,
E nas voltas daquela valsa ardente
Morrer embaixo de seus pés calcado!



A VIDA E A MORTE

Para que serve a vida? — me disseste:
Tremi, como haste ao vento, assim te ouvindo,
Mas pela sombra do teu rosto lindo
Vi pranteando o teu olhar celeste.

A vida é isto, o beijo, que me deste,
Que a impregnou toda de um olor infindo:
E a morte, o incêndio de um silvado agreste,
Onde há ninhos e pássaros dormindo.

Do ninho em breve os pássaros cantando
Surgem de asas e de ouro enchendo a esfera,
Brincam flores ao sol, no vale, em bando.

E a morte diz à vida extinta: — Espera!
E em carro azul irrompe, inda chorando,
O Riso e o amor puxando a Primavera...



SACRA FAMES


Como um falerno, és tu, rubro e sublime,
Espumaroso e quente, que conserva
A áscua da lava, o verde aroma da erva,
E o ardor, que a terra em fogo, e a arfar, lhe imprime,

Que mal se bebe um gole ou dois, deprime,
Endoida, cansa, ensonolenta, enerva...
— Quisera ver, perto de ti, Minerva
Pura sair do meu divino crime.

E tens talvez no escrínio inda áureo pomo...
Que fome grande eu sinto dele... como
Enche-me todo este desejo, e o quero...

Foi desta angústia e deste amor, criatura,
Que a Grécia viu o gênio e a formosura,
Vênus na vaga, e ao pé da vaga, Homero...



SURGIT STELLA


Chegou? Mas em que concha a deusa veio?
Que onda azul a deitou na fina areia?
Que branca ondina, que ao luar vagueia,
Disse-lhe adeus do mar num doce enleio?

De mole brisa o perfumado seio
Ela abandona, e dele, enfim, se apeia,
Como da concha desce Citereia
Contendo as pombas com delgado freio.

Milhões de olhos de luz na sala, — ao vê-la,
Abrem os candelabros, desatando
Rolos de ouro sutil, para envolvê-la.

Nos quícios riem as portas recuando;
E deixa um rastro luminoso a estrela,
No etéreo azul da alcova enfim baixando.



ÂNGELA — SIRENA


Tinha doze anos; chego; de repente
Enlaça-me com força: vou fugi-la;
Aperta-me inda mais, feroz, tranquila,
Como uma fera angélica e inocente.

Quase achei-me sem mim no atrito quente;
E ao ver-lhe o azul da límpida pupila
Molhar-se todo de um vapor luzente,
E uma inquieta tristeza enfim cobri-la,

Lento e lento arranquei-me dela, e a custo,
E sem que disso ideia exata forme,
Logo um pouco a tremer, num vago susto,

Como cansada de um trabalho enorme,
Sobre o meu colo reclinando o busto,
A face em fogo, e soluçando, — dorme.



A MULHER
(A Guimarães Passos)

She was false as water.

Shakespeare — Othelo

Amo a mulher, que o etéreo fogo ateia
Em Fídias, Sanzio, Gluck e Donatello,
Porque em si tem o filtro, o encanto, o elo,
Que o céu aos seus dois pés prende e encadeia.

Anda-me a vida do seu culto cheia;
E inda na morte em meu sepulcro, anelo
Vênus, filha do mar, como a sereia,
Em Serravezza ou Paros do mais belo.

Não que indo, como aos sóis vai a andorinha,
Desse acaso com uma, que seria
A parte da alma que faltou à minha:
Pôde encontrá-la alguém?  Não sei: diria,
Achando-a, achar a pérola marinha,
Mas, — como toda pérola, vazia.



APONTAMENTOS


Quarto azul como o céu; uma janela,
Uma porta; alto, grande, longo, estreito;
Dois espaçosos quadros, mesa, leito,
Pequeno espelho, e a um canto uma aquarela.

Tapete pérsio, a lâmpada singela,
Divã de um róseo-negro; em meu conceito,
É quanto basta; e procurar o efeito
Deixando encher-se o mais, tão só com ela.

Para lhe dar um toque ainda, eu ouso
Lembrar que o sol não entre aí; seria
Perder do luar, que o envolve, o estranho gozo.

A sombra quente; a luz um pouco fria...
Eu sei, como seu corpo esplendoroso
Melhor se enquadra, e nu melhor radia.



EPITALÂMIO


Deixa lançar-te ao colo o meu hálito quente,
Derreter-lhe com o lábio em fogo, e em torno, a neve.
O tempo, que nos dão, é curto, é pouco, é breve,
É nosso o instante só, e lá vai de repente.

Quem este epitalâmio, amor, cantar se atreve?
Como o vento demora e arrasta a asa fremente!
Como é alegre a luz mesmo do sol ao poente!
Como a noite aparece alta, estrelada, leve!...

Depois que minha boca encontrou tua boca,
Depois que eu fiquei louco, e tu ficaste louca,
Os grupos de ilusões, mandemo-los embora....

Pede coisa melhor ao universo; — e ei-lo mudo:
Olha: este último beijo é tudo, é tudo, é tudo!...
Qualquer deus não tem mais, não tem mais outra aurora!

 

ARIANA SOBRE A PANTERA


Vejo-a de um ponto, e vai numa brilhante esfera,
Como num plaustro de ouro imperatriz romana;
E doutro, reclinada, augusta e soberana,
Voa no dorso nu de terrível pantera.

Dizem que um fresco achado em Pompeia assim era:
Nereida conduzida ao dorso de uma fera;
De Dannecker também a marmórea Ariana
De um monstro faz o seu palanquim de sultana.

És sempre a mesma filha amada do meu sonho,
Ou vás no monstro, que é o olvido, a que me votas,
Ou na estrela do amor, por céus em que te ponho.

Mas eu sou o coral perdido em fundas grotas,
E enche o abismo em que vivo, imenso, atro, medonho,
O marulho de um mar de lágrimas ignotas...


IDÍLIO À MESA


Lembras-te? O idílio? Escrevo ao pé de ti, à mesa.
Falas: suspendo a pena, e respondo-te. — Jura?
Tornas. — Ergo a cabeça,  olho, e rio. — A ventura...
Interrompo-te: Está entre nós. — Tem certeza?

Calo-me. Enquanto a renda anda a cantar na alvura
Da luz: há drama; há cena: a sua mão acesa
De estranhos sóis corusca, e agarrando (surpresa!)
Prende o luar que há no linho ao charão da costura.

Pausa. Abrupto: — Ao entrar escrevias: eu vejo
O papel, olha... — Estava há muito tempo escrito.
Leio o fim de uma linha: O céu tenho em teu beijo...

Isto é meu. Mas por que choras?... Estranho mito!...
Deuses, para apanhar-lhe as pérolas, desejo,
Quero, dai-me, trazei-me o escrínio do infinito...


NUDA PUELLA


Soltas de leve as roupas, uma e uma
Caem-lhe: assim a camélia se desfolha;
E quando na água o belo corpo molha,
A água soluça, e o enleia, e geme, e espuma.

Logo que ela no banho, que perfuma,
Como ao luar um cacto, desabrolha,
Envolve-a o céu radiante, e a luz em suma
Põe-lhe o véu de ouro em cima, e a afaga, e a olha.

Ao sair, molemente em ondas frouxas
À nuca, à espádua, às nádegas, às coxas
Vão rolando os cabelos abundantes:

Cobrem-lhe um pouco o rosto, o seio, o flanco...
E ei-la, bem como à sombra um lírio branco,
No orgulho astral das deusas deslumbrantes!...


APRÈS LE BALLET


Vi. — Um deslumbramento, que irradia,
Fulgura, luz, cintila, arde, flameja,
Ora a cachoeira de ouro fugidia,
Ora a iriante agulha de uma igreja;

Ora um salão luxuoso, em que dardeja
A orquestra doida, a triunfante orgia
Dos sons, enquanto voa, ala-se, adeja
A turba astral, que a dança enrola e ebria.

E antes quisera uma palavra tua,
Um riso, um gesto, ou num silêncio apenas
Ver-te a andar pela alcova, a espádua nua,

Aos beijos só das lúridas melenas,
E eu a olhar como haver o sol e a lua
Para encher deles tuas mãos pequenas.



NA ALCOVA


Na alcova pequenina e carinhosa
Cabia um leito; o leito era gentil;
E eu falava com ela, — a descuidosa!
Em nada, o que sei eu? e em coisas mil...

Estava deitada, e o rosto de perfil
Enterrava-o na fronha cor de rosa,
Numa espuma abundante e deleitosa
De rendas brancas de um lavor sutil.

Era-lhe o olhar inquieto e voluptuoso,
Guardando-o à fronte uma severa prega,
Como num nicho à argola um cão raivoso,

Que uiva, cai, late, investe, e não sossega:
Porém o lábio trêmulo e queixoso,
Vencida e inerme, ao meu desejo a entrega...


PÓLEN DE UM BEIJO


Não; eu não sei se lhe furtei um beijo,
Ou se ela a boca me entregou, enquanto
Vacilava entre a dúvida e o desejo.

Vi-lhe nos olhos constelar-se o pranto,
Toldar-lhe o rosto a palidez do pejo,
Torcer-lhe o corpo um lânguido quebranto,

E, como Ofélia à margem da corrente,
Cantar, chorar, sorrir, sem voz, sem cor;
Sofre, senhora? — eu disse — então que sente?
E ela me respondeu: — Estranha dor,

Pela qual o maldigo eternamente,
Porque de um beijo rápido e traidor,
Sinto que em mim gerou-se de repente
Um monstro grande, como o céu e o amor...


MITO


Sejas quem fores, doce criatura,
Nume casto, a quem sigo em azul profundo
Como um diamante que encontrei no mundo,
E que meu canto em céu triunfal pendura,

Taça em que bebo líquida a ventura,
De ti me vem à luz, de que me inundo,
Mar virgem, que de longe olho e circundo,
Sem lhe tocar na vaga imberbe e pura:

Deste-me, para ir ao imo oceano, o alento,
Pérolas mil colhendo ao pensamento,
Para delas encher-te as mãos ideais.

Ficarão, sabes, nus todos os mares,
Se um só desses teus límpidos olhares
Disser: — São poucas, vê, quero inda mais...


ALMA VIÚVA


És uma alma viúva e perturbada:
Foi-te a paixão um vento de passagem,
Que, indo, lançou do céu na tua imagem
Luxos da noite e joias da alvorada.

A flor de amor, macia e perfumada,
Não foi de oásis, foi de uma miragem;
Anda por ti, como um rumor de aragem
A um rosal, que deu rosas, pendurada.

Teu negro olhar... o teu olhar esconde
Lasciva flauta de dois tubos, onde
Pã tocara, cantando a selva em coro:

Dentro, o desejo, como instável onda,
Dorme fremindo, quando alguém o sonda,
Como um leão ao sol nas garras de ouro.



CONTRARIEDADE


Pois sai do banho agora? Então vim cedo.
Crê bem inopinada esta visita!...
Encontrá-la com menos uma fita,
Na rosa de ontem ler-lhe algum segredo...

Julga vossa excelência infame e tredo...
Mas... vê?... nesse abandono é mais bonita:
Deu-lhe um toque de deusa que tem medo;
E animou-me o terror com que me fita.

Por que de longe aquele espelho sonda,
E cora, e empalidece, e enfim se enleia,
Buscando uma asa, um raio, em que se esconda?

Como se acaso alguém achasse feia
A pérola arrancada, há pouco, à onda,
Inda molhada, inda atirada à areia!...

 

BANHO AO LUAR


Foi uma noite à límpida lagoa,
Que para recebê-la se enfeitara:
Não é que o Olimpo inda hoje se esboroa,
E dele cai um deus, que lá ficara?

E ao saber que ela iria ao banho, voa,
E forra o lago, e acende-o, como uma ara;
Azuis lá dentro, e os astros arranjara,
E clarões moles, que por selvas coa.

Ela nas margens deixa a roupa: nua,
Como quem entra numa festa lauta,
Lasciva, entre o tinir dos sóis, flutua,

Com um e outro correndo inerme e incauta;
Cai-lhe aos pés Pã, lacera-a a unha da lua,



E há uns ais pelo céu de sons de flauta...

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