segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

"Crucifixo", de Lamartine


Poema: "Crucifixo..."
Autor: Lamartine
Tradutor: Joaquim Serra
Ano: 1868
Revisão ortográfica: Iba Mendes (2020)

O CRUCIFIXO
(LAMARTINE)

Ó tu, que de seus lábios expirantes,
Recolhi com o alento e extremo adeus,
Símbolo santo duas vezes: dom de um anjo,
Imagem de meu Deus!

Em teus pés quantas lágrimas eu verto,
Desde que, de seu seio em aflição,
Inda morno do último suspiro,
Passaste a minha mão!

O padre murmurava um triste canto,
Espalhavam os brandões funéreo brilho,
E do levita o canto semelhava,
Da mãe que embala o filho!

A esperança do Céu, que cabe ao justo,
Brilhava do seu rosto na beldade,
Nele a dor imprimira as graças suas,
A morte a majestade!

Com os cabelos esparsos, vinha o vento,
Por momentos velar o rosto seu:
Assim sombreia a coma do cipreste
O branco mausoléu!

Fora da cama um braço pendurado,
Langue o outro no peito sem calor,
Parecia buscar, e dar aos lábios,
A cruz do Redentor!

A boca se entreabrira para beijá-la,
Mas fugira-lhe a alma nesse instante;
Qual perfume sutil, que, entregue às chamas,
Extingue-se fragrante!

Tudo agora é silêncio nesses lábios!
Calou-se o respirar daquele seio!
E dos olhos sem luz a frouxa pálpebra
Descai, fecha-se a meio!

Eu, transido de dor, não me atrevia
De perto a contemplar o corpo amado,
Dir-se-ia que da morte a majestade
O havia consagrado!

Mas o padre, entendendo o meu silencio,
Tirou-lhe o crucifixo dentre a mão,
E disse: “eis o conforto e a lembrança,
Guardai, guardai, irmão!”

Ai, sim, te guardarei, fúnebre herança!
A árvore plantada em seu jazigo
Sete vezes mudou já de folhagem,
E tu inda és comigo!

Bem unido a meu peito tu proíbes
Que o tempo à sua memória ponha fim!
Gota à gota meu pranto amoleceu-te,
Gravou-se no marfim!

Ó confidente extremo desta vida,
Fica sobre o meu peito, e diz clemente
Quanto disse sua voz, quando já débil
Chegava a ti somente!

Nessa hora em que os sentidos são gelados,
Nem busca o olhar as cenas mais queridas.
E, pouco a pouco, a alma vai fugindo,
Já surda às despedidas!

Quando, incerta entre a vida e entre a morte,
Qual fruto, que do galho se desprende,
Para a tétrica noite do sepulcro
A alma o voo estende!

Afim de que o caminho se ilumine,
Por onde sobem as almas dos felizes,
Consolador divino, ao moribundo,
Ai, diz o que tu dizes!

Sabes morrer; tuas lágrimas divinas
Correram nessa noite de ansiedade
Em que oraste no horto de Oliveiras,
De manhã até a tardei

Da cruz viste sofrer a Mãe Santíssima,
E a natura subir da dor ao cumulo;
Deixaste, como nós, na terra, amigos,
E o teu corpo no túmulo!

Por graça de tua morte, que eu consiga
Sobre teu seio a vida desprender,
Quando chegar minha hora, lembra a tua,
Ensina-me a morrer!

Buscarei o lugar onde seus lábios
Colados murmuraram o último adeus,
E sua alma há de vir guiar a minha,
Para o seio de Deus!

Ai! possa, possa então, junto à meu leito
Vir alguém muito triste e consternado,
Recolher de meus lábios ressequidos
O fúnebre legado!

De tanto amor emblema, ó crucifixo!
Na dor nos refrigera e fortifica;
Sê penhor de esperança e de saudade
Do que vai ao que fica!

Até o dia em que a voz altiva e forte
Soar, vinda do céu, envolta em luz,
Despertando os que dormem junto à sombra
Da sempiterna Cruz!

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