segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

"Eu não era nada...", de Saint-Germain


EU NÃO ERA NADA...
(SAINT-GERMAIN)

Eu não era nada! Simples gota de orvalho,
Que a noite derramou na pétala da flor;
Mas quando o sol ergueu-se, as flores dando vida.
Torrentes espargindo de luzes e fulgor,
Então ficaram pálidas, perante a pobre gota,
A pérola e a safira, a opala e a esmeralda...
Mas, se não fosse o sol, tu sabes, minha amada,
Eu não seria nada!

Eu não era nada! Pequeno insetozinho,
Que algum caminho busca na relva do jardim,
Mas inclinou-se a rosa um dia para o solo,
No cálice oloroso, cedeu guarida a mim!
N'um leito tão mimoso tomei mimosas cores.
De escura a minha pele tornou-se azul-dourada.
Mas se não fosse a rosa, tu sabes, minha amada,
Eu não seria nada!

Eu não era nada! Brinquedo de crianças,
O globo de sabão que ao ar se eleva e cai;
Um dia tu quiseste me erguer com o sopro brando:
Subi, subi... ao céu o lindo globo vai!...
Levava no meu seio teu hálito celeste,
Deixei-o lá, que ele era essência delicada,
Mas, se não fosse o anélito, tu sabes, minha amada,
Eu não seria nada!

Eu não era nada! Salgueiro solitário,
Vivendo sobre um túmulo, por inflexível lei,
Mas, quando a virgem hera por sobre a minha coma
Lançou seus lindos braços, com ela me abracei!...
Abraços tão ardentes trouxeram vida nova
À árvore funérea, já triste e amarelada,
Mas, se não fosse a hera, tu sabes, minha amada
Eu não seria nada!

Eu não era nada! Uma alma em triste exílio
Errante, desolada, gemendo na aflição;
Na borda do caminho caí, já moribundo,
E tu me deste o braço, ergueste-me do chão!'
Por ti reanimado, sentindo um doce beijo,
Vivi, e a minha lira cantou mais afinada...
Mas, se não fosse o beijo, tu sabes, minha amada,
Eu não seria nada!

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