domingo, 12 de janeiro de 2020

Niâni (Poemas), de Machado de Assis


NIÂNI
(HISTÓRIA GUAICURU)

Desde então cobriu-se Nanine de uma mortal
melancolia, sendo seus olhos sempre chorosos. Assim
se passaram três meses, quando um dia, estando
deitada na sua rústica cama, lhe deram a notícia
que seu desleal marido se tinha casado com uma
rapariga de menor esfera. Senta-se então Nanine
na cama, como arrebatada, chama para junto de
si um pequeno índio que era seu cativo, e diz-lhe
na presença de vários antecris: “És meu cativo;
dou-te a liberdade, com a condição de que te
chamarás toda a vida Panenioxe”.
F. RODRIGUES PRADO, HIST. DOS ÍNDIOS CAVALEIROS

...che piange
Vedova sola.
DANTE

I
Contam-se histórias antigas
Pelas terras de além-mar,
De moças e de princesas,
Que amor fazia matar.

Mas amor que entranha n’alma
E a vida soí acabar,
Amor é de todo o clima,
Bem como a luz, como o ar.

Morrem dele nas florestas
Aonde habita o jaguar,
Nas margens dos grandes rios
Que levam troncos ao mar.

Agora direi um caso
De muito penalizar,
Tão triste como os que contam
Pelas terras de além-mar.

II
Cabana que esteira cobre
De junco trançado a mão,
Que agitação vai por ela!
Que ledas horas lhe vão!

Panenioxe é guerreiro
Da velha, dura nação.
Caiavaba há já sentido
A sua lança e facão.

Vem de longe, chega à porta
Do afamado capitão;
Deixa a lança e o cavalo,
Entra com seu coração.

A noiva que ele lhe guarda
Moça é de nobre feição,
Airosa como ágil corça
Que corre pelo sertão.

amores eram nascidos
Naquela tenra estação
Em que a flor que há de ser flor
Inda se fecha em botão.

Muitos agora lhe querem,
E muitos que fortes são;
Niâni ao melhor deles
Não dera o seu coração.

Casá-los agora, é tempo;
Casá-los, nobre ancião!
Limpo sangue tem o noivo,
Que é filho de capitão.

III
“— Traze a minha lança, escravo,
Que tanto peito abateu;
Traze aqui o meu cavalo
Que largos campos correu”.

“— Lança tens e tens cavalo
Que meu velho pai te deu;
Mas aonde te vais agora
Onde vais, esposo meu?”

“— Vou-me à caça, junto à cova
Onde a onça se meteu...”
“— Montada no meu cavalo
Vou contigo, esposo meu.”

“— Vou-me às ribas do Escopil,
Que a minha lança varreu...”
“— Irei pelejar na guerra,
A teu lado, esposo meu.”

“— Fica-te aí na cabana
Onde o meu amor nasceu.”
“— Melhor não haver nascido
Se já de todo morreu”.

E uma lágrima, — a primeira
De muitas que ela verteu, —
Pela face cobreada
Lenta, lenta lhe correu.

Enxugá-la, não a enxuga
O esposo que já perdeu,
Que ele no chão fita os olhos,
Como que a voz lhe morreu.

Traz o escravo o seu cavalo
Que o velho sogro lhe deu;
Traz-lhe mais a sua lança
Que tanto peito abateu.

Então, recobrando a alma,
Que o remorso esmoreceu,
Com esta dura palavra
À esposa lhe respondeu:

“— A bocaiúva três vezes
No tronco amadureceu,
Desde o dia em que o guerreiro
Sua esposa recebeu.

Três vezes! amor sobejo
Nossa vida toda encheu.
Fastio me entrou no seio,
Fastio que me perdeu.”

E pulando no cavalo,
Sumiu-se... desapareceu...
Pobre moça sem marido,
Chora o amor que lhe morreu!

IV
Leva o Paraguai as águas,
Leva-as no mesmo correr,
E as aves descem ao campo
Como usavam de descer.

Tenras flores, que outro tempo
Costumavam de nascer,
Nascem; vivem de igual vida;
Morrem do mesmo morrer.

Niâni, pobre viúva,
Viúva sem bem o ser,
Tanta lágrima chorada
Já te não pode valer.

Olhos que amor desmaiara
De um desmaiar que é viver,
O choro empana-os agora,
Como que vão fenecer.

Corpo que fora robusto
No seu cavalo a correr,
De contínua dor quebrado
mal se pode já suster.

Colar de prata não usa,
Como usava de trazer;
Pulseiras de finas contas
Todas as veio a romper.

Que ela, se nada há mudado
Daquele eterno viver,
Com que a natureza sabe
Renascer, permanecer,

Toda é outra; a alma lhe morre,
Mas de um contínuo morrer,
E não há mágoa mais triste
De quantas podem doer.

Os que outrora a desejavam,
Antes dela mal haver,
Vendo que chora e padece,
Rindo se põem a dizer:

“— Remador vai na canoa,
Canoa vai a descer...
Piranha espiou do fundo
Piranha, que o vai comer.

Ninguém se fie da brasa
Que os olhos veem arder,
Sereno que cai de noite
Há de fazê-la morrer.

Panenioxe, Panenioxe,
Não lhe sabias querer.
Quem te pagara esse golpe
Que lhe vieste fazer!”

V
Um dia, — era sobre tarde,
Ia-se o sol a afundar;
Calumbi cerrava as folhas
Para melhor as guardar.

Vem cavaleiro de longe
E à porta vai apear.
Traz o rosto carregado,
Como a noite sem luar.

Chega-se à pobre da moça
E assim começa a falar:
“— Guaicuru dói-lhe no peito
Tristeza de envergonhar.

Esposo que te há fugido
Hoje se vai a casar;
Noiva não é de alto sangue,
Porém de sangue vulgar”.

Ergue-se a moça de um pulo,
Arrebatada, e no olhar
Rebenta-lhe uma faísca
Como de luz a expirar.

Menino escravo que tinha
Acerta de ali passar;
Niâni atentando nele
Chama-o para o seu lugar.

“— Cativo és tu; serás livre,
Mas vais o nome trocar;
Nome avesso te puseram...
Panenioxe hás de ficar.”

Pela face cobreada
Desce, desce com vagar
Uma lágrima: era a última
Que lhe restava chorar.

Longo tempo ali ficara,
Sem se mover nem falar;
Os que a veem naquela mágoa
Nem ousam de a consolar.

Depois um longo suspiro,
E ia a moça a expirar...
O sol de todo morria
E enegrecia-se o ar.

Pintam-na de vivas cores,
E lhe lançam um colar;
Em fina esteira de junco
Logo a vão amortalhar.

O triste pai suspirando
Nos braços a vai tomar,
Deita-a sobre o seu cavalo
E a leva para enterrar.

Na terra em que dorme agora
Justo lhe era descansar,
Que pagou foro da vida
Com muito e muito penar.

Que assim se morre de amores
Aonde habita o jaguar,
Como as princesas morriam
Pelas terras de além-mar.

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