segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Pilhérias Poéticas: "Álbum Chulo-Gaiato"

A TENTAÇÃO DE SANTO ANTÔNIO(Fantasia burlesca)
“O mundo acabar
Penso que vai,
Ai ai! ai ai!
Vou apitar!
Tão rodeado
Estou de diabos
Com unhas e rabos
De assarapantar!
Raios, coriscos,
Bombas e traques
E mais petiscos
A rabiar
E a estourar
Em torno de mim!
Zás catrapaz!
Se Deus piedade
Não tem do frade,
Grande caurim
Me vai pregar
Dom Satanás!”
Todo a tremer, Santo Antônio
Assim se pôs a gritar
Quando o travesso demônio
Em pessoa o foi tentar.
Sai do inferno
Troça bravia
De quantos demos
Por lá havia.
Em vassouras
Veem montados,
Com tesouras
E machados
Sobraçados;
Bem armados
De escopetas,
Estes coçam as carecas,
Aqueles fazem caretas,
Tocando grandes trombetas,
Cavaquinhos e rebecas.
Vem um tocando fagote,
E outro com um chicote
Já começa a sacudir
O hábito empoeirado
Do alegre frei Antônio;
Mas o frade atomatado
Logo se põe a fugir
De tão chibante demônio,
Correndo conforme pode
E gritando todo aflito:
“Aqui del-rei, quem me acode!
Ó da guarda! Eu apito!”
Dois feios diabos
Mui cabeludos,
Cornos agudos
E longos rabos,
Entram na cela
Do bom santinho;
Vão-lhe à panela
Que ao lume tinha
Como uma galinha
Paio e toucinho,
Tiram-lhe a tampa,
Comem-lhe tudo,
Deitam-lhe trampa;
Vão-lhe à borracha
Que tem o vinho
Num
esconderijo;
Bebem-lhe tudo
Deitam-lhe mijo.
À tal cambada
Não escapa nada
Tudo se acha
Quebra e estraga
Mija e caga.
Uma pequena bonita
Também lhe entra na caverna
Toda lépida e catita,
E começa a levantar
O balão, e linda perna
Logo se põe a mostrar...
“Ai Jesus! diz Santo Antônio
Vai-te daqui ó demônio
Não me estejas a tentar...”
“Façam dançar
Contradançar
Pular
Cantar
Saltar
Esse santinho”
Já diz gritando
Um diabinho
Que está tocando
A desgarrada
Num cavaquinho.
Eis toda aquela
Endiabrada
Troça bravia
O bom do Santo,
Que já num canto
Se escondia,
Vai buscar.
E a tocar
Numa panela
Com a tranca
Da janela,
Numa banca
O faz dançar
Pular
Saltar
Cantar.
Até Plutão, o rei demônio,
Quis assistir à função,
Pois quer ver se frei Antônio
Se livra da tentação;
E pro que der e vier
Consigo traz a mulher.
O Santo todo encolhido
No meio daquela canalha
Cada vez mais se atrapalha;
Um demo mais atrevido,
Dá-lhe muita bordoada,
E outro feito cupido
Vem por traz com uma seta
E no coração lha espeta...
A nada se move o frade
Modelo de castidade!!
Vendo porém
Que fim não tem
A seringação
Forma tenção
De se esconder;
E mui calado
Vai-se a meter
Dentro da cama;
Mas lá recua
Todo espantado
Pois uma dama
Toda janota,
(Ainda que nua,
Mesmo em pelota)
Acha deitada
Em seu lugar...
A concubina
Com uns olhinhos
Muito espertinhos
A cintilar
Já o fulmina
E quer tentar...
A tal menina
É mesmo boa;
Se Prosepina
É em pessoa!
Santo Antônio atrapalhado
Contempla incendiado
Aquela erótica cena,
E em frente da beleza
De coisas que nunca viu...
Ao poder da natureza,
Com bem custo resistiu...
Mas quando quase tentado
Com os olhos da pequena,
Vai a cair na esparrela
De saltar a cima dela,
Lembra-lhe Deus de repente
Que vai cair em pecado,
Fica todo aforçurado
E como que inspirado,
Vai buscar muito apressado
D'água benta seis canadas
E nos demos imponente
Ferra boas hisopadas.
Estoura que nem castanhas
Toda aquela diabada,
Cada demo dá um tiro
Que nem uma peça raiada;
E fugindo a bom fugir
Tudo vai em debandada,
Santo Antônio de contente
Dá tamanha gargalhada
Que até no traseiro sente
A fralda toda cagada.
“Se não vou buscar
Logo tão depressa
A tal água benta,
Decerto me tenta
Aquela travessa...
Olhem que é ladina,
Mesmo de tentar,
A tal Prosepina!
Mal empregado peixão
Para o dente do Plutão!”
Lamenta tão pesaroso
A má sorte da pequena
O famoso Santo Antônio,
Que parece já ter pena
De se mostrar tão teimoso
Em resistir ao demônio...



A FRANCISCANADA(Conto)
Que grande franciscanda
Vai fazer com frei Bento
Frei João e frei Monteiro
Pra longe do convento?
Bom alforje levam cheio,
Recheado de finório
Presunto, e grosso paio,
Furtados no refeitório.
Frei Bento vai ajoujado
Com tremebunda borracha;
Chega o rancho a uma tasca
Para a horta lá se encaixa.
Frei João despindo o hábito
E de manga arregaçada
Tempra e meche aforçurado
Um alguidar de salada.
Frei Monteiro pisca o olho
À moça, que é rapariga,
E frei Bento sem cerimônia
Um chouriço já mastiga.
Voam paios e presuntos
Tal é a gula e a gana,
Torna-se logo a borracha
Em famosa carraspana.
Depois alegres cantando
Lá se vão abarrotados
Ao convento recolhendo
Pelos muros encostados.
Chama a campa ao refeitório,
Pois são horas de cear,
A fradalhada aparece
Mas não acha que trincar.
— “Que pouca vergonha é esta?”
Grita logo frei Martinho,
“Que é dos nossos grossos paios,
O presunto e mais o vinho?”
— “Fomos roubados”, responde
O padre refeitoreiro,
“Tudo lambeu frei João
Com frei Bento e frei Monteiro!”
— “Ah! bêbedos! ah glutões!
Ah! cambada de marotos!...”
Berra o padre provincial
Dando cinco ou seis arrotos.
— “Hão de caro pagá-lo!”
Brada em peso o convento,
“Hão de levar bons açoites
Frei Monteiro e frei Bento;
E Também Dom frei João
Há de levá-lo o diabo!
Tudo quanto nos comeram
Há de lhes sair do rabo!”
Todos logo bem armados
De sandálias gigantescas
Tratam de por à vela
As seis nádegas fradescas.
E depois sem mais demora
Pé atrás e furibundos
Tocam todas as matinas
Nos traseiros rubicundos.
Eis no meio da batalha,
Quando tudo em confusão
Está batendo a bom bater,
Dá um peido frei João!
Mas não é peido de medo
É um peido tremebundo,
Peido de frade, que é
O maior que há neste mundo.
Se o famoso Garibaldi
Um tiro destes lhe escapa
Lá se vão com mil diabos
Os exércitos do Papa.
Foge tudo com o estouro
E ainda mais com o cheiro,
Aqueles que mais gritaram
São os que fogem primeiro.
Frei João põe em derrota
O resto da fradalhada,
Dizendo-lhe que ainda tem
A peça bem carregada...



A UM ZELADOR DOS MIJADEIROS
O incauto saloio, o venal galego
Espreitas esfaimado atrás da esquina,
Armado de catana serpentina
Vermelho como um paio de Lamego.

Tão ufano estás com teu sujo emprego,
Que pareces uma ave de rapina,
Prendendo a trouxe mocho quem urina
Com a velha chibança dum morcego.

Não sejas papelão, pesa as razões,
Olha que se a fortuna não sorri,
Falta o mijo e adeus os dez tostões!

Por isso vou um conselho dar-te aqui:
É que respeites todos os mijões
Enquanto mijando forem pra ti.


CONSEQUÊNCIAS DE NÃO SER BACHAREL

Quer ser guarda de comuas
Certo João Rafael,
Mas fica a chuchar no dedo
Visto não ser bacharel.



UM DEPUTADO DA MODA

Ontem estava em minha casa,
E por sinal a dormir,
À porta sinto bater,
Levantei-me e fui abrir.

Era o doutor Gatázio,
Bacharel e fidalgote,
— Vai torta! digo comigo,
Vem ferrar-me algum calote!

Eis entra com ar risonho
E sentando-se ao meu lado,
“Amigo, diz, dou-te parte
Que estou feito deputado.”


UMA VALENTONA

A honra de Elisa bela
Atacam quinze soldados,
Vence um a cidadela
Quatorze são derrotados.


NOZ E A MULHER

Como a noz foi a mulher
Neste mundo fabricada,
Não se conhece que é podre
Senão depois de rachada.



EPITÁFIO PARA UM PAI DA PÁTRIA

Aqui jaz dormindo a sesta
Um bacharel formado,
Foi barbeiro, deputado,
Caloteiro e grande besta.



OUTRO PARA UMA MULHER FELIZ

Dona Justina de Sousa
Nesta campa aqui repousa,
Foi no mundo afortunada
Visto que até morrer
Passou sempre por honrada
Tendo a dita de o não ser...



UMA MULHER COMO TODAS DEVIAM DE SER

Das misérias deste mundo
Se compadece Maria,
E cheia de dó profundo
Seis ditosos faz por dia...



UMA VIÚVA JUDICIOSA

A viúva dum entrevado
Já novo marido tomar
Queria, passados dois meses
Do velho marido enterrar.

É cedo, lhe diz um vizinho,
Homem de agudo pensar,
Sem estar uns dez meses viúva
Assento não deve casar.

Essa é boa! diz a matrona,
Então não se devem contar
Oito meses que estuporado
Na cama ele esteve a penar?


A OPINIÃO PÚBLICA
Depois de longo derriço
Casou João com Maria,
E passados quatro meses
Tem um filho já Maria.
Falam do caso as vizinhas
Chora João, ri Maria.
“Casei bem tarde, já vejo”,
Diz o coitado a Maria,
“Fui eu que cedo pari”
Ao marido diz Maria.
O mundo ri de João
E acha razão a Maria.

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