domingo, 12 de janeiro de 2020

Assembleia das Aves (Poesia), de Marcelino Dutra


CANTO I

ARGUMENTO

Em singela alegoria
De um Cisne pinto a candura;
Das aves canto a ventura
A paz, sossego, harmonia.
Vitupero a rebeldia
De certo grupo traidor:
Louvo um gentil beija-flor,
Mimoso, nobre, e sincero;
Pinto enfim um Quero-quero
Turbulento, e piador.

Aos graus vinte sete e trinta
Para o Sul do Equador,
No mundo, de que Colombo
Foi feliz descobridor.

Novecentas e setenta
Léguas para o ocidente
Do Bretão meridiano,
(Se nauta regra não mente)

Sítio jaz, que o mar se ufana
De assíduo em torno beijar;
Pleiteiam zéfiros brandos
O prazer de o bafejar.

Quando a todos os viventes
Fala os deuses concediam,
Plumosos, bípedes bandos
Aí felizes viviam.

Ao volátil, dócil povo
Presidiam mansidão,
Concórdia, paz, doces frutos
Que produz a solidão.

O plúmeo bando feliz
Da paz os gozos fruía,
Até que veio a cobiça
Plantar a desarmonia.

Alguns se alegram com isso!
Tal é a facilidade,
Com que no mundo se aplaude
Tudo quanto é novidade!

Eis o caso: pelas aves
Sábio Cisne fora eleito
Para sustentar na corte
Do plúmeo povo o direito.

Que bem o cargo servira
Não sofre contestação;
Porque das aves tivera
Constante reeleição.

10ª
Também cabe apresentar
Por documento em favor,
Tê-lo chamado a conselho
Das aves a Superior.

11ª
Sem ambição, sem riquezas,
Sem brasões de fidalguia,
Honra tal só o talento
Conferido ter podia.

12ª
Rancores, ódios, vinganças,
Nem contra o próprio inimigo
Em seu peito generoso
Jamais tiveram abrigo.

13ª
Entretanto volta à terra,
De que saíra a estudar,
Um Quero-quero dizendo
Que vinha os seus libertar.

14ª
À maior parte das aves
Causou isto expectação;
Porque dar a liberdade
Pressupõe a escravidão.

15ª
A uma linda saíra
Perguntou um beija-flor,
Se é certo sermos cativos,
Quem será nosso senhor?

16ª
Não sei (responde a mimosa),
Mas tenho ouvido dizer,
Que o jugo do cativeiro
Faz suspirar, faz gemer.

17ª
Até hoje (aos Céus louvores!)
Não suspirei, nem gemi,
Portanto julgo-me ainda
Ser livre como nasci.

18ª
Ai! tristes! já lá no peito
Dos inocentes plumosos,
A discórdia acerba e dura
Os faz menos venturosos.

19ª
Assim foi, que certo bando,
Levado de fanatismo,
Toma do Libertador
A inveja por heroísmo.

20ª
De incenso pobre aturdido
Se infatua o novo herói,
Concórdia, paz, e sossego,
Em breve o tempo destrói.

21ª
Adeus ternas amizades,
Boa fé, leda harmonia,
Quietação doce, e mais doce
Inocência de algum dia.

22ª
Pairam nuvens de discórdia
Sobre o sítio encantador,
Ninguém mais de ser escapa
Delatado ou delator.
23ª
Tal quando em Mavórcia lide
Soa a voz de combater,
Entre o ataque e defesa
Por força se há de escolher.

24ª
Por iludir os incautos,
Que do seu partido são,
Ardilosos planejaram
Noturna reunião.

25ª
Os ódios, que em muitos peitos
Existiam sufocados,
Nela acharam sítio, ensejo
Os mais bem apropriados.

26ª
Ali sandices vomita
O fofo Libertador,
Em camisas de onze varas
Foi meter-se o falador.

27ª
Seu alvo (diz a Gazeta)
Foi deprimir o rival,
Quero-queros, que imitam
As gralhas em falar mal.

28ª
E não deu baldado exemplo,
Pois logo surgiu dali
Um Tiê, que vira tudo,
Como qualquer Bem-te-vi.

29ª
Sobre as aves inocentes
Esvoaça o detrator,
Fere a todos sem piedade,
Sem respeito, e sem pudor.

30ª
Não houve aí Tico-tico,
Papa-arroz, ou Tangará,
Pobrezinho, que escapasse
À língua ferina, e má.

31ª
Não prossigas, maldizente!
Não difames a ninguém!
De dizer-se mal dos outros
Qual o lucro, que provêm?

32ª
Sobre esta terra de dores
Infelizes companheiras,
Leis de amor unir-nos devem,
Leis do Céu, leis verdadeiras.

33ª
Somos corruptível massa,
Que Deus serviu-se animar.
Assim mimosa avezinha
Findou seu triste cantar.


CANTO II

ARGUMENTO

Para ao Cisne disputar
Populares afeições,
Chamam às reuniões
Negras aves d’ultramar.
Vão ali fezes vazar
Aves de bico daninho;
Aos Céus invoca um Arminho
Que à terra o Cisne trouxesse;
Uma corveta aparece;
Traz o Cisne ao pátrio ninho.

Já da Capricórnia meta
Se afasta o grande luzeiro;
Eis o Outono, em frutos fértil
Sobre o solo brasileiro;

Lá vai Febo auriluzente
Curar com tépida mão
Os danos, que em sua ausência
Sofrera o Setentrião.

Multidão de esparsas folhas
Junca a terra em parda cor;
A saudade de seus ramos
Lhes murcha o lindo verdor.

Desmuciados, grossos troncos
Distendem tortas raízes.
Tardo auxílio!... Nada sentem,
São mortas as infelizes!

Mas vai já tudo animar-se
Da febeia proteção,
As selvas amortecidas
Que lindas florescerão!

Pelas aves, entretanto
Prossegue o pleito odioso;
Nelas abre a vil intriga
Cavo sulco abominoso.

Negras aves africanas,
Que de — Anus — o nome têm,
Aos Sericuás, e Tucanos
Se reuniram também.

Desta liga monstruosa
Fez-se um clube eleitoral;
Temeu logo as consequências
O poder policial.

Eis ordena que de dia
Só se possam reunir,
Pois da noite o negro manto
Sói os crimes encobrir.

10ª
Tinha a Fama por cem bocas
Falsamente apregoado
Todo o caso; até se afirma
Que mentira seu bocado.

11ª
Se uma boca só que mente,
Muito mal faz produzir,
Que de males não resultam
De cem bocas a mentir?

12ª
Soube o eleito na corte
Do trama na terra urdido
Por muitos, que só favores
Dele haviam recebido.

13ª
Sobranceiro a tanta infâmia,
No seu forte coração,
De algumas aves mesquinhas
Desprezando a ingratidão;

14ª
Veio ver essas que firmes,
Com fé, amor, lealdade,
Sacros deveres cumpriram
Da justiça e da amizade.

15ª
Vem, sábio legislador,
Que honras teu país natal,
Vem trocar com teus amigos
Um abraço fraternal.

16ª
Vem saber que as mais sensatas
Das aves tuas patrícias,
Por ti afrontam perigos,
Por ti rejeitam delícias.

17ª
Que a parte sã da província,
Por teu mérito, e primor,
Te vota mais que amizade,
Muito mais, te vota amor.

18ª
Vem, saber, que tu não deves
Recear calúnias vis.
Refalsada e baixa intriga,
Baixos manejos sutis.

19ª
Despreza esses, que vivem
Só de embuste e falsidade,
Que parecem proibidos
De dizer uma verdade.

20ª
Tens um trono em nossos peitos,
Baseado em puro amor.
Anda, vem testemunhar
Nossa fé, nosso valor.

21ª
Enquanto gentil Arminho
Pousado numa figueira,
Isto diz; lá se levanta
Avermelhada bandeira.

22ª
Após esta outra subia
De várias listadas cores;
Era a Corveta fendendo
Pelos mares interiores.

23ª
Nela vem Ave escolhida
Dentre muitas aves mil,
Daquelas, que mais ilustram
As florestas do Brasil.

24ª
Com geral contentamento
Em veloz celeridade
Percorre a fausta notícia
Os subúrbios da cidade.

25ª
Bem como os sons da trombeta
Fazem saber aos guerreiros,
Que no perigo iminente
Às armas corram ligeiros:

26ª
Tal este deixa apressado
Aberto o livro em que lia;
Aquele, de tinta cheia
A pena com que escrevia.

27ª
Um que escuta o terno canto,
Da mais delicada amante,
Deixa; parte, e leva a nova
Ao companheiro distante.

28ª
Outro, que no altar de amor
Ia dar um juramento,
No caminho a nova sabe,
Volta, e falha o emprazamento.

29ª
Alguns partem duvidosos;
Todos à praia caminham
Alegres aves aos centos
No desembarque se apinham.

30ª
Ao longe avança um batel,
Que lhes ocupa os sentidos;
Ele chega; e veem seus olhos
O que ouviram seus ouvidos.

31ª
Aquilo que se deseja
Com sincero, e puro ardor,
No momento em que se alcança
Tem mais que humano valor.

32ª
A chegada de um amigo
Por longos tempos ausente,
Transforma mágoas passadas
Em puro gozo presente.

33ª
Esses, que no peito abrigam
Corações cheios de fel,
Não podem sentir as coisas,
Que escrevo neste papel.


CANTO III

ARGUMENTO

Saudoso, fagueiro, e terno
Chega o Cisne aos pátrios lares;
Vêm as aves a milhares
Com prazer o mais interno,
Em dar o abraço fraterno,
É quem primeiro será;
Pelo povo que ali está,
Em sinal de saudação,
A mais bela alocução
Faz ao Cisne um Sabiá.

Musa amiga, que por vezes
Nas minhas vicissitudes,
Mil endechas me inspiraste
Saudosas, se bem que rudes;

Que às ingratidões de Márcia,
Que aos encantos de Delmira,
Sons maviosos tiravas
De uma só corda da Lira;

Outorga-me neste empenho
Os teus encantos divinos,
Com que outrora da Estige
Venceste acerbos destinos.

Se me não for permitido
Encantar jovens leitores,
Que na flor da mocidade,
Só se encantam por amores;

Se agrados não excitar
À sabujenta velhice,
Que só crê nas priscas eras
Tendo horror à modernice;

Se o belo sexo enfim
Não me der nenhum apreço,
Porque as belas só se enlevam
Nas aras do Deus travesso;

Nem por isso me denegues
Teu auxílio altipotente,
O que não agrada a uma,
Satisfaz a outra gente.

Alguns sobre o pobre vate
Talvez louvores espargem,
A esses voto meu canto,
A esses rendo homenagem.

Mal que o pátrio solo amigo
Nosso herói ledo pisou,
À multidão, que o saúda,
Enternecido abraçou.

10ª
No prazer, em que transborda,
Arrebatado assim diz:
Ó minha pátria adorada,
Torno a ver-te; sou feliz.

11ª
Notou certa ansiedade,
Nas aves, e a razão,
Não sabia, sendo ela
De bem fácil solução.

12ª
Quando tisnar se procura
O crédito, a quem o tem,
A sustentá-lo se prestam
Todas as aves de bem.

13ª
Mas já nos montes embaçam
Os raios do etéreo lume;
Faz na areia inquieta vaga,
Brando som, quase queixume.

14ª
Nas folhagens ciciando
Tênue aura suestina;
No céu fulge do Oriente
A rósea luz matutina.

15ª
Já trinam lindos Canários,
Gaipavas, e Gaturamos;
Sanhaços, Cambaciquinas,
Saltando por entre os ramos.

16ª
De sonoros Sabiás,
Alegre bando chegou,
E deles o mais sabido
Desta maneira cantou:

17ª
Presta ouvidos aos meus acentos,
Modesto Legislador,
Atende aos votos humildes
De um selvático cantor.

18ª
Viste a luz em nossa terra,
À corte foste estudar
Ciências com que vieste
Teus patrícios ilustrar.

19ª
Diva luz da liberdade
Para nós veio raiar.
Abusos velhos cumpria
De sobre o povo tirar.

20ª
Inda El-rei Nosso Senhor
De Deus se não distinguia;
E dizer-se — Liberdade
Era dizer — Rebeldia.

21ª
Teus discursos, teus escritos
De animada erudição,
Nossos direitos defendem,
Velam no bem da Nação.

22ª
Quando do povo aterrado
Tristes clamores ouvias,
Em tal crise combateste
Suspensão de garantias.

23ª
Muitas leis, que feitas foram
Por bem nosso, e do país,
Nasceram, e sazonaram
Na tua mente feliz.

24ª
Associada união,
Política e fraternal,
Tudo criaste; e também
Uma imprensa liberal.

25ª
Conseguiste, enfim, que breve
Priscas preocupações,
Não tivessem mais guarida
Nem mesmo em nossos sertões.

26ª
Pelo público serviço
Desvelado, e diligente,
Mil bens de ti receberam
Nossa terra e nossa gente.

27ª
Eleger-te deputado,
Fora em nós quase um dever,
Porque juntas aos serviços
Patriotismo e saber.

28ª
Foste assim por nós eleito
Em missão legislativa;
Não erramos, preencheste
A geral expectativa.

29ª
No Parlamento composto
Dos mais sábios da Nação,
Teus discursos, teu bom senso,
Mereceram atenção,

30ª
E na corte o teu prestígio
Honra faz à nossa aldeia;
Se lá te elege o Monarca,
O povo aqui te nomeia.

31ª
Como ministro da Coroa
Gerindo a pasta da guerra,
Findaste a luta de irmãos,
Deste paz à nossa terra.

32ª
Com este ato sublime
Tua missão acabaste;
Se ao entrar pobre subiste,
Ao sair pobre ficaste.

33ª
E os louros querem tirar-te
Tão nobres, tão merecidos?...
Os feitos de Coriolano
Também foram esquecidos!!!...


CANTO IV

ARGUMENTO

Ao Congresso, que se instala
Marcha o Cisne sem demora;
Um certo grupo descora
Quando o vê entrar na sala.
Com graça discute e fala;
Desbarata a oposição:
Volta à corte; e foi então
Que nobre, grave, e severo
O Guará no Quero-quero
Deu formal repreensão.

Calou-se o plúmeo cantor,
E as aves, que o escutavam,
Fôlego tomam, que há muito
De atentas nem respiravam.

Só então parte das aves
Com mágoa ficou ciente,
Que haviam tantos ingratos
Com cara de boa gente.

Que tal grupo de invejosos
Na pátria terra existia;
Houve quem se indignasse,
Mas o nosso herói sorria.

A coral e a jararaca
Mansas pombinhas serão,
Se com elas se compara
A inveja e a ingratidão.

Porém de humanas paixões
O Cisne conhecedor,
Nada disto lhe causava
Nem vislumbre de rancor.

Ingratos zoilos mesquinhos,
Vosso afã, e pouco siso,
Com desdém, são condenados
Ante o público juízo.

Aves vinte anualmente
Em congresso se juntavam;
Sobre os públicos negócios
Do seu país legislavam.

Um vinte avos do congresso
Era o Cisne de direito;
E no dia imediato
Nele achou-se com efeito.

Musa, tu, que me inspiraste
Este humilde canto meu,
No mais difícil do canto,
Me privas de auxílio teu?

10ª
Agora, que eu pretendia
Do meu herói descrever,
O estilo, o garbo, e modo,
E graça no discorrer;

11ª
É então que me abandonas,
Por que vás saborear,
Seus discursos maviosos,
Tão difíceis de imitar?

12ª
Sua voz serena, e firme
Acaso te encantaria?
Tens razão; do Cisne o canto
Tem sonora melodia.

13ª
Vou também ouvir atento
As frases da pátria amigas;
Contigo juro cantá-las
Por quem és, não me desdigas.

14ª
Ei-lo; em torno a vista lança,
Tranquilo pede a palavra;
Certo terror macilento
Nos rostos inimigos lavra.

15ª
Oferecera o Quero-quero
Uma felicitação;
Peça mesquinha, e pejada
De servil adulação.

16ª
O eloquente orador
Com discreto analisar,
Castigando a ruim doutrina,
Fez a peça reprovar.

17ª
Era notável a graça,
A finura e cortesia
Com que a jeito lhes lançava
Delicada zombaria.

18ª
Entoou loquaz Gansete,
Acusação muito antiga;
Cediça, e falsa provou-se,
Voltou ao bucho a cantiga.

19ª
Dos contrários a conduta,
Manda a prudência calar;
Seus atos causam desdouro;
Nem se devem divulgar.

20ª
Certas gralhas, que na ausência
Tanta grasnada faziam,
Caladinhas, acanhadas
Nem palavra proferiam.

21ª
Exclamou o Cisne vendo
Tão mofinos contendores:
— Honro-me pouco vencendo
Tão fracos opositores.

22ª
E dos seus se despedindo
Fez à corte o seu regresso,
Novos deveres o chamam
A mais luzido congresso.

23ª
Adeus, ó ave adorada,
Mimosa, e cândida flor;
O nosso pranto saudoso
É teu cântico de amor.

24ª
Então vistoso Guará
Ao Quero-quero exprobando,
Da província amotinada
O estado miserando.

25ª
Assim diz: — Tu que tens feito
Ao Cisne tão crua guerra,
Não dirás que benefícios
Já fizeste à nossa terra?

26ª
Dize mais: — que bens lhe podes
Para o futuro trazer?
Pelas provas que tens dado,
Só males podes fazer.

27ª
Por ora, o que nos tens feito
E’ profunda divisão,
Entre amigos, e parentes
Da mais íntima união.

28ª
Até ao seio das famílias
Tens a discórdia levado;
Em mil pleitos, mil demandas,
Tens o povo emaranhado.

29ª
De Pandora a caixa iníqua
Destampaste em nosso dano,
Que maior mal nos faria
A subida de um tirano?

30ª
Quanto a ti, Cisne famoso,
Sinceros votos aceita,
A outrem, que tu não sejas,
Nossa gratidão rejeita.

31ª
E quando austeros destinos
Contigo sejam fatais
Honra mais descer contigo,
Que subir com teus rivais.

32ª
Findarás, Cisne querido,
Pois não hás de ser eterno,
Mas teu canto de agonia
Há de ser saudoso e terno.

33ª
Disse: e logo abrindo as asas,
Fendendo os ares, voou;
Disse pouco; mas que puras
Verdades articulou!!!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...