domingo, 12 de janeiro de 2020

Poemas de Luís Delfino (Algas e Musgos)

 

A ETERNA VÊNUS


Quando, nos ricos panteões, procuras
Mármores vivos de mulher, ao vê-los,
Não sentes inda o susto de perdê-los,
Oh! mágoa! nas catástrofes futuras?

O que Atenas legou de ideais modelos,
Tipo de raça, em grandes formosuras,
Quando nos dava as suas criaturas,
Envoltas só no véu dos seus cabelos!...

O gênio grego límpido e quieto,
Como o céu e o seu mar, guarda no menos
Trabalhado pedaço o mais completo

Que a arte tem em pentélicos serenos;
E a flor nos deu das filhas de Japeto,
Perfeita, eterna, e imaculada em Vênus...



TRAQUINAS


Com vestido de branca musselina,
A farta trança negra derreada,
Sem uma joia, ou brinco, ou flor, sem nada,
Era de uma riqueza peregrina.

Tinha a idade da aurora essa menina,
Magra e forte, serena e descuidada;
Cada pé numa concha nacarada...
Creras, ao vê-la débil e franzina.

Na fronte riam desmaiadas cores;
Dava de um anjo a tímida lembrança...
Das asas dela ouviam-se rumores.

Como uma borboleta que não cansa,
Tornava a casa num vergel de flores...
Lembrava ainda a virginal criança.


SUNT ANIMAE RERUM


Estrelas, que loucura e garridice
As vossas danças esta noite têm?!...
E quem, há muito tempo, se não risse,
Vendo-vos rir, deitara a rir também.

Arroios desgrenhados de doidice,
Por entre seixos, que buscais além?
Beijam-se os velhos troncos!... E há quem visse
Fremindo um lírio ao pé de uma cecém!...

A noite é um ninho; o amor uma doçura;
E quando a brisa pelo azul murmura,
Soluça o bosque... e há beijos pelo vale!...

Deuses e deusas turbulentamente
Passam a rir no laranjal florente...
Ou chora... ouvis?... ou chora o laranjal?...



QUE VOS DARIA?...


Se tiverdes, um dia, um capricho, Senhora,
Um capricho, um delírio, uma vontade, enfim,
Não exijais o carro azul, que monta a aurora,
Nem da estrela da tarde o plaustro de marfim.

Nem o mar, que murmura e aí vai por mar em fora,
Nem o céu doutros céus, elo de céus sem fim;
Que se isto fosse meu, já vosso há muito fora,
Fora vosso o que é grande e anda em torno de mim...

Mostrasse num só gesto ingênuo um só desejo...
O universo, que vejo, e os outros, que não vejo,
Sofreriam por vós vosso último desdém.

Que faríeis dos sóis, grãos vis de areias de ouro?
Mulher, pede-me um beijo e verás o tesouro
Que um beijo encerra e o amor que um coração contém.



QUAND MÊME


Minha alma anda a voar pelo ambiente
Com o adejo sem fim da mariposa,
Que a flor do paraíso em torno sente,
Mas roubar um aroma à flor não ousa.

Ela quer... quer, anseia, e não repousa,
Sem saber uma vez, uma somente,
Que tu entendes seu amor ardente,
E que dele te orgulhas qualquer coisa.

Podem outros, que não te entendem tanto,
Julgar que não mereces o meu canto,
Que é demais ver-te sol doirando azuis,

Que é meu amor o equívoco de uma hora:
Que importa? Eu vejo em ti meu céu, embora
Creiam-te o lume errante dos pauis...



ILUMINAÇÃO INTERIOR


Fitas de ouro bordando o morro e a encosta!...
Veio argênteo que a cinge, e ondula e bolha!...
Ígneas rosas que o céu sobre ele esfolha!...
E ante isso a alcova, a um claro-escuro exposta.

Tens medo? O amor deste silêncio gosta...
Que suor frio a tua fronte molha!...
Encosta a boca à minha boca, encosta...
Oh! que o beijo murmure apenas, olha...

Baixo, carícias; ouvem-nos fazê-las:
Põe o dedo de rosa ao lábio, aurora;
Deuses e sóis, passai, passai, sem vê-las.

Luz, fica à porta, espera-nos lá fora:
Rolai ao fundo de minha alma, estrelas,
Onde ela está, onde a festejo agora.


ESCRÍNIO


Eu imagino pérolas perfeitas,
Que inda dormem nos mares do Oriente,
E diamantes de esplêndidas facetas
A rir nos seios do Brasil ardente.

Veludo cróceo, deslumbrante, quente,
Cheio da alma odorosa das violetas;
Ouro, piropo, e as rútilas palhetas
De artista raro, grande, onipotente...

Cinzel de Fídias, tinta de Murillo
Para uma joia lúcida e sonora,
Para um escrínio de divino estilo,

Onde a guardasse, onde, entre pasmo e assombro,
Ninguém a visse um dia pôr de fora
A asa que eu lhe conheço em cada ombro.



VIA SMARRITA

Che la diritta via era smarrita.

Dante — Inferno

Ela vendo-se só comigo, teve medo.
Estávamos num bosque à noite: o escuro intenso,
Apesar do luar belíssimo, o arvoredo
Lançava em torno, — um muro em ruínas suspenso.

Na relva aberta, aos pés, havia o olho de um tredo,
Um carreiro assassino, a iludir-nos propenso:
Atrás da serra o sol caía então mais cedo;
Ao meu lado tremia a folha, ou ela, eu penso.

Vinham três ébrios dando urros, enchendo o espaço
De gritos; os perfis de quem foge à procela,
Que ruma; uma mulher bufando de cansaço.

O vento uivando: — ao longe, ao menos à janela
Da casa, a luz a rir?  não ria: e ela ao meu braço
A ter terror de mim!... e eu a ter terror dela...


O MAL DA VIDA

Amor, pois, é a esplêndida loucura,
E a miséria de um sol que nos invade?
Caiu alguém aos pés da formosura
Que lhe não deixe aos pés razão, vontade?

Este delírio vem da eternidade,
Vem de mais longe, eu sei: — quem o procura
Acha-o mais velho do que Deus: quem há de
Fugir do mal da vida porventura?

E o amor é o mal que acaba em paraíso;
E para dar-nos céus num só lampejo
Basta-lhe um pouco, um nada é-lhe preciso:

De sonhos de ouro e luz calça o desejo:
E então, de dia, em rosa abre o seu riso,
E em ampla estrela, à noite, abre o seu beijo...


TRIUNFO


Deixo as torcidas, hórridas carrancas
Da inveja e do ódio, — um vesgo, outra impotente, —
E encontro ao ver-te (ó deuses bons!) em frente
Abertos, como largas asas brancas,

Teu santo olhar, o teu sorrir clemente:
À sombra deles que alegria franca!
E à mão, como ave tímida e fremente,
Meu pobre coração à dor arrancas.

Bebo o céu com seus sóis em ti num beijo;
Eu acho em ti o que amo e o que desejo;
Tu achas tudo quanto em mim esperas...

E em minha audácia, em meu orgulho dantes,
Após meus grandes sonhos triunfantes,
Marcho ao hino das rútilas quimeras.


A INVESTIDURA


Quando o grupo invencível dos gigantes,
Ao som da lira harmônica tangida
Movendo os rubros, triunfais descantes,
Parou na minha incógnita guarida,

E a púrpura de estrelas guarnecida,
E laços de ouro, e rendas deslumbrantes,
Me fez vestir... tremi e a minha vida,
Não maior, não mais calma a vi, que dantes.

Então roncaram por meus pés as setas;
E ouvindo urrar aos hinos de vitória
A plebe vil das ambições inquietas,

Eu sopesava as páginas da história,
Rijas, de bronze, e lendo a vida aos poetas,
Ia-os seguindo à apoteose e à glória.


IN FIDE


O lindo barco da gentil rainha,
De estrelas a granel colmado e ufano,
As sonorosas vagas do oceano
Com proa de ouro retalhando vinha,

E, como um lírio, à flor d’água marinha
Abria as vastas pétalas de pano:
De Nereidas azuis um grupo insano
Em torno dele canta e redemoinha.

Como em tela de artista, a recortada
Montanha, envolta em luz do sol mais puro,
Enchia o fundo, túmida, aprumada.

E eu a esperava em terra... e tão seguro!...
Ai! e ainda te espero (e em vão!) amada
Rainha, ó Glória, ó Ânsia do futuro...


EM PLENO AZUL


Voa, meu galeão fantástico; galeras
Companheiras, abri as deslumbrantes velas;
Rumo ao país azul e ideal das quimeras,
Temporais, vede-os ir; vede-os ir, ó procelas.

Praias de jalde, e de ouro, e nácar tendes belas
Ilhas, que vejo ao longe!... E eu quero-vos deveras;
Aproaremos a uma onde as doidas querelas
Rujam dos Imortais, repartindo as esferas.

Deixo-te, terra, velha eivada de pesares,
Que a invisível bordão já trêmula se arrima;
Alga podre do céu, morta estrela dos ares;

Destroço vão de um mundo, o teu fim se aproxima:
Nutriste vermes só aos seios seculares...
Foge, meu galeão; acima, acima, acima...


PRIMEIRA MISSA NO BRASIL
(A Victor Meirelles)

Céu transparente, azul, profundo, luminoso;
Montanhas longe, encima, à esquerda, empoeiradas
De luz úmida e branca; o oceano majestoso
À direita, em miniatura; as vagas aniladas

Coalham naus de Cabral; mexem-se inda ancoradas;
A praia encurva o colo ardente e gracioso;
Fulge a concha na areia a cintilar; grupadas
As piteiras em flor dão ao quadro um repouso.

Serpeja a liana a rir; a mata se condensa,
Cai no meio da tela: um povo estranho a eriça;
Sobre o altar tosco pau ergue-se em cruz imensa.

Da armada a gente se ajoelha; a luz golfa maciça
Sobre a clareira; e um frade, ao ar, que a selva incensa,
Nas terras do Brasil reza a primeira missa.


A CRISÁLIDA

(A Capistrano de Abreu)


Cai das pedras a fonte: iria o chamalote
D’água arrufada ao sol — a joia do seu manto;
E uma mulher, quebrando o belo talhe, entanto
Parece que procura apanhá-lo num pote.

A atitude em que está levanta-lhe o saiote,
E desce-lhe o corpete; é vê-la assim um encanto;
Tem a moleza e o ardor da barra de ouro, enquanto
Coalha na lingoteira o fúlvido lingote.

São amplos os quadris; os dois pequenos peitos
Têm brancuras e azuis, são duros e perfeitos;
Sai do colo o fulgor da porcelana fina.

Crisálida ideal, donde irrompe a Frineia,
Tem a força que doma, a graça que fascina...
E na carne a rugir panteras de alcateia...


SANGUÍNEA

(A Alberto de Oliveira)


Longe... vasto horizonte retalhado
De serras cor de um glauco-azul, distantes;
Brumas por cima, como véus flutuantes;
Perto... o fragor das músicas do prado.

O acre, o intenso bálsamo exalado
Da mata, onde andam Faunos, como dantes;
Rochedos ideais, e as espumantes
Águas do rio às cristas pendurado.

Um cheiro bom das coisas, que embriaga;
A luz que sobe, sobe, embebe, alaga
O azul enorme; a gárrula manhã,

Correndo a ouro e pérolas as nuvens...
Ora!... Deus plagiando um quadro a Rubens?!...
Quando isto vir, o que dirá Rembrandt?!



GRAVURA MISTERIOSA


Por quê? Não sei: mas tu entras nesta gravura.
Olha. — Um torso auroral de deusa, o oval nitente
Da alva barriga, o incêndio, o alarido, a fartura
Da trança, em que ela esconde o que tem de serpente.

Há na tela, em cada ângulo, o esboço inteligente
De um sileno, os dois pés de cabra, a catadura
Impossível, grotesca e austera, impertinente
E lasciva, obliquando o olhar à formosura.

Mato; anões; grifos maus entre enigmas; orgias
De quimeras floreando uma banalidade;
O infinito a fugir por baixo de arcarias

Finas, atorçalando o vago e a obscuridade...
E eu quantas vezes vi que tu dali saías,
Como um silfo atravessa o aranhol de uma grade!


A FONTE QUE EXTASIA

(A Arthur Azevedo)


Por soberbos degraus de mármore luzente
Sobe-se ao chafariz de bronze; e despenhada
Em pérolas sutis e em grãos de ouro a corrente
D’água cai como gaza apenas arrufada.

De um lado a embebe, a doira, a iria o sol cadente,
E doutro a fere a sombra aérea e desmaiada,
Que vem de uns véus de opala, em que anda envolto o ambiente...
Afoga-se em silêncio a abóbada azulada.

Duas pombas irmãs na nítida brancura,
Tendo os pés cor-de-rosa à borda da bacia,
Bebem, rugando o colo: — enquanto a água murmura,

E um amor de metal, que encima o aquário, espia...
Uma linda mulher, que a jarra encher procura,
Deixa que ela transborde e ante o amor se extasia.



PAISAGEM NOS ALPES

(A Garcia Redondo)


É noite. — Invade a tela a luz azinhavrada.
Água larga, folheada em mica iriante e aço,
Vem de longe: após lambe astrágalos da arcada,
Que uma ponte romana ergue aos ombros no espaço.

A lua, como uma ave imensa depenada,
Paira sobre a torrente; em monte enterra o braço
Na água, que foge, espuma, urra, ulula entalada,
Enquanto a um tempo a envolve em sombra de espinhaço.

O leito é abrupto, vasto, os ângulos cosidos
De raquítica relva, e o vento, que murmura,
Anda no pinheiral, vê-se aos ramos torcidos.

Sobre a ponte um chalé das rochas se pendura,
E ouve-se um grande cão enchendo o ar de ladridos,
E um lobo a uivar, que surge a meio da espessura.


CÃO DA TERRA NOVA

O pai saiu: a mãe sai, e o filhinho deixa
No berço, um anjo rubro em céu do Espanholeto;
E vai serena e forte, e vai sem uma queixa,
Com seu amor, que é de ódio e de ternura feito.

A um Terra-Nova escuro, um cão à casa afeito,
Fia a flor dessa carne, e o ouro dessa madeixa:
Ai! de quem nesse lírio, o seu tesouro, mexa;
Ai! de quem se aproxime, estranho e alheio, ao leito!

E enquanto dorme e ri, e ri e dorme a criança,
Como em torno de um barco o mar as vagas lança,
Cerca-a do seu olhar, e interroga-a... O que quer?...

E o paternal carinho o engrandece e ilumina,
Como auréola ardente em cabeça divina,
Como em virgem, que sonha, um sonho de mulher...



UM TIGRE AO LUAR
(A Felix Ferreira)


Cai no bosque o luar... Como o luar é lindo!...
A abóbada do céu tem os leites da opala.
Um cheiro penetrante e doce a mata exala,
Nuns fantásticos véus os ombros encobrindo.

No silêncio, em que jaz, contudo está-se ouvindo
A meiga voz, a voz de amor, com que ela fala;
A sombra, que soluça, a luz num beijo embala...
Desce um vago tremor do firmamento infindo.

Como numa aquarela, escoam-se os caminhos...
Há passos no moital... há barulho nos ninhos...
Há Dríades na relva... há deuses pelo ar...

Um sabiá rompe o canto à beira da floresta,
Enquanto um tigre vem solenemente à festa,
E escuta-o sob o pálio aberto do luar...



RUBENS


Um conde italiano, moço e airoso,
Enfim suspende o toque da guitarra;
E inda retalha a esplêndida fanfarra
O ambiente morno, lúbrico, cheiroso.

Um negro esbelto, fino e musculoso,
Vermiculada de ouro argêntea jarra
Sustém na salva; impertinente gozo
Lança ao vestido da duquesa a garra.

Pinta Rubens a eleita: — aí vem, aí passa;
Olha-a, erguido o pincel; passou; — mistura
Nova tinta; compõe: a doma, a enlaça.

Palmas ao mestre; a triunfal pintura
Venceu: de hoje em diante à eterna graça
Junta o poema da cor a formosura.



VAN-DYCK
(A Arthur Barreiros)

Tintinam taças dos cristais mais finos
Da Boêmia no mármore da mesa;
Fervem ainda os vinhos purpurinos
Das jarras de ouro; a sala esplende acesa.

Principescos senhores, femininos
Rostos, que fulgem de ideal beleza,
Juntos, e em vários grupos peregrinos,
Conversam: canta entanto uma duquesa.

Enquanto mãos de artista e de fidalgo
Tiram de um cravo a música escolhida,
Brincam sobre o tapete um negro e um galgo.

A sala é um céu, um firmamento a vida...
E entre eles, — grave a pálida figura, —
Van-Dyck estuda uns toques de pintura.


ALBERTO DURER


Mas... por que Durer dava a eternidade
Do seu nome imortal, com tanto esmero,
Para salvar do olvido a fealdade,
Como que diz: eu devo, eu posso, eu quero?

Dele se ouvia: — O tempo é meu, quem há de
Erguer o tempo contra mim? — E o Homero,
E o Hesíodo da cor, tremendo e fero,
Enchia o monstruoso de verdade.

E viva horrivelmente a natureza
Se estorcia na tela e na gravura
Do grande artista, a um fogo enorme acesa.

Quem nos explica pois essa loucura,
E a causa dessa intérmina tristeza?
Que mal lhe fez, um dia, a formosura?...


OVÍDIO


Com que dor tu deixaste Roma, e em Roma
O coração, que em ti foi tudo, ó poeta!
A glória ia a embalar-te a vida inquieta,
E um belo sol de amor, que a doira, a soma.

Teu plectro a Orfeu os sons mais doces toma;
Tem o teu surto incircunscrita meta;
A inveja, um cão sem asas, jamais doma
A uma águia o voo, a um gênio obra que enceta.

Ao exílio embora o ódio te sagra, o exílio
Dá mais doçura ao hexâmetro latino;
Há todo um campo em flor num teu idílio.

Na dor, que em ti pranteia, alvora um hino;
Fulge a lágrima dele em cílio e cílio;
Cantar, sofrer, ser deus, foi teu destino.



DANTE
GRAVURA DE BOTTICELLI
(A Luiz Murat)

Sobe de um vão tonilho ao estrondear de vozes,
Que urram, rangem mordendo a lôbrega floresta:
Na clâmide romana, e sob os louros resta
Parado o mantuano ante as bestas ferozes.

A púrpura, que rola até aos pés, empresta
Uma austera tristeza ao companheiro; atrozes
Gritos golpeando o ar, que a noite em pranto infesta,
Dão-lhes ao rosto a cor das lívidas cloroses.

Pragueja, ulula o horror do desesperado eterno:
Sombras em multidões regougam, rugem... O inferno
Entornou sobre a tela o escopro de um gigante.

Embalde!... A tela, a pedra, o bronze não aguenta
Os sóis negros chispando em meio da tormenta,
Em que andam gênio, amor, e as cóleras de Dante...



NÚPCIAS DE ARTAXERXES

(A Valentim Magalhães)


O sândalo, que enerva, o nardo, que embriaga,
Nas caçoulas queimado em fumo se desata,
Que se enrosca em festões na vasta colunata;
A harpa curva estremece à fina mão que a afaga.

Dentre as colunas vê-se o azul, que em luz se alaga,
Tamareiras gentis, nopais de sombra grata:
O alto estrado real de mármore e de prata
Mancha um jorro de sol, como uma enorme chaga.

Artaxerxes de pé ao lado da judia
Tem o prazer da fera, — uma calma sombria. —
Dá tons de sangue a luz à festa nupcial.

Da África e da Ásia a força e o orgulho aos pés avista:
E o seu olhar, que lambe a esplêndida conquista,
Darda em torno a algidez aguda do punhal.



UM CRISTO ALEMÃO


Há um Cristo alemão de um cunho peregrino:
Fronte espaçosa sob uma cabeça loura,
Escrínio que o ideal puríssimo entesoura,
Barba bem penteada, e rosto feminino,

Longo cílio, que adoça a luz do olhar divino,
Pele branca, que o sol do Oriente apenas doura,
Uma boca gentil, que para o beijo fora,
Se ela não fora para outro melhor destino.

Nada altera esse gesto eterno de bondade;
Guarda ainda a beleza, a graça, a majestade,
Entre dois homens vis, nu, em sangue, na cruz.

Gosto deste ideal: a dor mais o levanta.
Por seu suplício, por sua obra grande e santa...
Merecia ser Deus o pálido Jesus.


A APANHADEIRA DE CONCHAS

Fantástica explosão de ouro e pedrarias!...
Rendilhados Kremlins em chama... O sol declina...
Soprando torto búzio, impa o vento, e na fina
Areia arrasta à dança as nereidas bravias.

Recortam-se num fundo azul as serranias,
E os navios aquém arfam, e os ilumina,
Esculpindo-os no ar, a tarde purpurina,
Na nota escura das ígneas oleografias.

Pobre mulher na praia, acaso, neste instante,
Colhendo conchas, só, — ouvindo a cantilena
Das vagas, com um sorriso agarrado ao semblante,

Como a alga ao seixo, alvar, vil, mesquinha, pequena,
Pelo oceano estendendo a sombra de um gigante,
Dava um toque de vida humana à vasta cena.


EFEITOS DE LUA
(Ao paisagista Décio Freire)

Há nas serras, em arco, a forma da moldura
Que fecha em roda a vasta e límpida aquarela:
O claro-escuro é bom; tem perspectiva a tela;
Vibram toques de luz no céu de tal doçura

Que a mesma noite ri e aos astros se mistura;
Dorme-lhe o oceano aos pés, como o leão da novela;
Ao terral, que chegou, a água apenas murmura;
Duas barcas de pesca arfam por cima dela.

Da indolência em que a vaga embala-se e flutua;
Como um corcel do mar, que o dorso de repente
Dardo em chama feriu — salta, avança, recua...

Do alto viso do monte, entre árvores, em frente,
Fisga-lhe as flechas de ouro a caçadora nua,
E ao largo-verde flanco as torce lentamente...


GAIVOTAS

Do crespo mar azul brancas gaivotas
Voam — de leite e neve o céu manchando,
E vão abrindo às regiões remotas
As asas, em silêncio, à tarde, e em bando.

Depois se perdem pelo espaço ignotas,
O ninho das estrelas procurando:
Cerras os cílios, com teu dedo notas
Que elas vêm outra vez o azul furando.

Uma na vaga buliçosa dorme,
Uma revoa em cima, outra mais baixo...
E ronca o abismo do oceano enorme...

Cai o sol, como já queimado facho...
Do lado oposto espia a noite informe...
Tu me perguntas se isto é belo?... e eu acho...


SURPRESA

Dorme a cidade. A noite à fronte dela assenta
O áureo resplendor de estrelas, com que c’roa
Os mártires também; a brisa sonolenta
Perpassa, e ouve-se quase o cair da garoa.

À pesca. — Enche a maré ruflando: esta hora é boa.
A vaga oscila, vem, cai, soluça, rebenta,
Como um beijo de amor na areia, em doce e lenta
Carícia: a água festeja a alígera canoa.

O pescador então, fincando o remo, lança
O pássaro marinho à vaga azul, que range,
Ferve: canta-lhe após a rir uma esperança.

Mas súbito pegão, que as asas foscas tange,
Nos anéis de uma serpe invisível, que avança,
Vibra-lhe a lua, como ensanguentado alfanje...



PINTURA A FRESCO

Como um cisne pousado na lagoa,
Por onde as asas cor de neve estende,
E que, se ao fundo azul do céu não voa,
O fundo azul das mansas águas fende...

Assim a fina, a quérula canoa,
Que lado a lado as duas velas prende,
Talha, como estilete, o mar com a proa,
Que todo em ouro e pérolas se acende.

Sentado ao leme o canoeiro aspira
A acre aragem, que vem como uma lira
Cantar-lhe à marcha doce e preguiçosa.

Fundem morros e céus num arabesco...
E o quadro assim ao sol parece um fresco
Que um Rubens pinta ouvindo um Cimarosa.

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