sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Antônio Ferreira da Cruz




ANTÔNIO FERREIRA DA CRUZ
(1876-?)

Antônio da Cruz, nasceu em 14 de janeiro de 1876, em Riachão do Bacamarte, no município do Ingá, no Estado da Paraíba.

 Até os trinta anos de idade, foi operário contramestre de tecelagem de uma Fábrica de Tecidos. Depois, dedicou-se à profissão de cantador. Foi bom repentista e muito adestrado no martelo em decassílabo. Publicou diversos folhetos, das suas produções poéticas.

Dispondo de muita verve, em Guarabira, por ocasião de uma dessas loucuras das multidões sugestionadas por exploradores, ele atacou o pseudo inventor do motu continuo com os seguintes versos:

HISTÓRIA DA MÁQUINA QUE FAZ O MUNDO RODAR

Morava na Paraíba
Lá nos confins do agreste
Um homem de pouca idade;
Que tinha saber por peste;
A ponto até de querer
Vencer o plano celeste.

Descrevo dele um tratado
De um mistério profundo,
Que se for aparecido,
Tem de ficar sem segundo,
É a tal máquina inventada
P ’ra fazer rodar o mundo.

Esse homem diz que vai
Certa máquina preparar
Por meio de eletricidade
Para o mundo rodar.
De acordo com a atmosfera
Derramando a água do mar.

Chama-se Manoel Galope,
Nome que adquiriu
Devido essa vantagem
Que o povo lhe atribuiu,
E por ser muito andador;
Pois ao vento competiu.

Dizem que ainda menino,
Por duas vezes tentou
Pelo espaço sair voando,
Ainda experimentou.
Por meio de azas supostas;
Porém não continuou...

Vendo que era impossível
Ao céu poder subir
Ficou com a pretensão
De tudo querer descobrir,
Começou a andar no mundo
E até a ladrões perseguir.

Não houve lugar esquisito
Que ele não percorresse,
Nem coisa misteriosa
Que ele a não vencesse;
Nem ciência nem ideia
Que ele a não conhecesse.

Aos 20 anos de idade
Teve um sonho demasiado,
Para perseguir ladrões,
Por um caminho desusado
Conseguiu a tal viagem
E nisto ficou firmado.

No sonho entrou no mato
E uma serra encontrou,
Ali viu a grande furna
Por onde o ladrão entrou.
Seguiu pelo rastro dele
25 anos andou.

Chegou no final da terra
Da qual o segredo viu.
Deu com um certo lugar
E ao tal se dirigiu,
É aqui o eixo da terra,
Foi o que ele atribuiu.

Verificou bem o eixo
Aonde estava sentado.
Tirou de tudo o desenho
Com toda calma e cuidado.
Descrevendo o maquinismo
Fez de tudo um apanhado.

Voltando para o agreste
Meteu-se na construção,
De uma máquina igual
Aquela que viu então
Quando no centro da terra
Fizera sua excursão.

No sonho ele ainda viu
Na bola do mundo inteiro,
Padre, estudante, doutor.
Lhe oferecendo dinheiro
Depois diziam a ele:
 — Vamos com isso ligeiro!

No sonho ele fez a conta
Da soma que precisava.
Meteu-se a tirar dinheiro.
Até nas feiras andava,
Toda espécie de mendigos,
Na dita máquina jogava.

No sonho ele dizia:
 — Qualquer um pode jogar,
Com um tostão tira um conto
Quando a máquina rodar.
Os que jogarem comigo
Vão milionários ficar.

Aí, desperto do sonho
Começou a vacilar,
Sobre as ideias da máquina
Como devia formar,
Dirigiu-se a população
Foi o dinheiro arranjar.

Então de posse dos cobres
Começou ele andar,
Adquirindo alguns sócios
Em todo e qualquer lugar.
Garantia um bom salário
Para o que nela jogar.

O que jogar seu dinheiro
Só esperance o ganhar.
Há dois partidos no povo;
Um para acreditar
E 0 outro diz que a máquina
Ele não pode formar.

Diz um, assim como o rei
Salomão pensou nascer,
Outra vez quando era vivo
Ele a máquina há de fazer,
Só se saberá no fim,
Quem for vivo tem de ver...

Outro diz: eu tenho fé
De ver a máquina rodar,
Como a Enoque e a Elias
Nós esperamos voltar
Assim também nós veremos
Ela no espaço dançar.

Cego, aleijado e moleque,
Padre, doutor e soldado,
Inspetor, Juiz de direito.
Comandante e delegado,
Tudo joga seu dinheiro
Esperando um resultado.

Matuto, senhor de engenho,
Praciano e mandioqueiro,
Do agreste ao sertão
Todos jogam seu dinheiro
Se um diz, ele é mentiroso:
Outro diz: é verdadeiro.

Na opinião do povo
Não tem quem possa mandar,
Faça ou não faça a máquina
O povo tem que esperar.
Por que quem joga dinheiro
Só espera mesmo é ganhar.

Assim é que alguém pensa
Que no abismo não cai,
Que quem não for no Juazeiro
Depois de morto inda vai.
Assim também é a crença
Que a dita máquina sai.

Quando um diz: ele não faz,
Já outro fica zangado,
Dizendo: assim como Cristo,
Morreu e foi ressuscitado.
Ele também faz a máquina
E meu dinheiro é lucrado,

Como Maomé dos turcos
E el-rei D. Sebastião,
Que encantados no espaço
Subiram para a amplidão.
Também se verá a máquina
Mover toda rotação.

O que é incrédulo diz:
Ele é um explorador,
Se ele fizer a máquina
O frio vira em calor.
Gafanhoto é secretário.
Burro se vira em doutor.

Diz o povo: vamos ver,
Pode ser que ele faça.
De um ano para outro
O tempo logo se passa,
Tem que vagar a notícia
Do sertão até na praça.

Diz alguém; Santos Dumont
Preparou o seu balão
Em todo nosso Brasil
Ninguém lhe deu atenção.
Porém a Europa aprovou
A sua grande invenção.

Diz outro: Augusto Severo,
Também pensou de subir
Num balão até o céu
Para com Deus competir,
Antes de chegar nas nuvens
Viu-se foi ele cair.

Diz um: não tem a ciência
De fazer máquina falar?
E o telégrafo sem fio
Fala p’ra qualquer lugar?
Assim também essa máquina,
O homem pode formar...

Diz outro: eu sei que existe
Algum mistério profundo,
O Lopes do Paraguai
Também quis vencer o mundo.
Porém terminou vencido
Pelo D. Pedro segundo.

Diz um: já não se tem máquina
De fazer o morto andar.
Sem ser preciso de esquife
Nem o povo o carregar.
Assim também pode ser
Ele a máquina apresentar.

Diz outro: Antônio Conselheiro
Determinou-se a brigar
Prometendo ao seu povo
Que havia de ressuscitar,
Assim como ele fez isso
A máquina tem de rodar.

O tal de Antônio Silvino
Dizia de boca cheia
Que brigava com o mundo
Da cidade até aldeia,
Mas a sua arte diabólica
Não o livrou da cadeia.

Afinal no velho mundo
Breve há de aparecer,
Velho virando menino,
Morto tornando a viver.
A terra criar lavoura
Sem ser preciso chover!...

No fim do mundo há de vir
O capa-verde pregando,
Iludindo a quem for bobo
Da parte dele ficando.
Talvez seja anuncio dele
Que já ande transitando.

Desta máquina aparecer
Não há quem tenha certeza,
Não só devido o preparo.
Como devido à grandeza,
Salvo se for um prodígio
Do autor da natureza.

Mas, é que Deus não consente
A um mancebo vagabundo
Conhecer o eixo da terra
Que faz rodar todo mundo,
Ainda sendo um seu servo
Não tem o saber profundo.

Lusbel foi aquele anjo
Que de Deus tinha caderno,
E Deus confiou-lhe o trono
Como um pai reto e eterno,
Porém ele adiantou-se
Foi terminar no inferno.

Isto são segredos uteis
Que só vêm na escritura
E muitos não acreditam
Porque têm a vista escura;
Quanto mais nessa tal máquina
Que inda não s’tá segura.

Não posso crer que um homem
Que come carne e farinha.
Possa fazer essa máquina
E depois ela sozinha
Rode todo o mecanismo
Deste mundo em sua linha.

Nada p’ra Deus é difícil
Mas, isso ele não consente,
Um homem mover o mundo
Do levante ao poente,
Faz causar admiração
A todo cristão vivente.

O mundo tem 5 partes
Com rio serra e pináculo
Para mover o seu eixo.
Precisa um bom sustentáculo;
Isto depois vem tornar-se
É num bonito espetáculo.

Voltemos agora ao homem.
Vamos ver sua ingrizia,
Vamos saber o que fez
Depois de uma romaria,
Da qual ainda não voltou,
Mas, voltará algum dia.

Ele juntou o dinheiro
De toda a população
Construiu a dita máquina,
Com a melhor perfeição!
E disse: agora sou rico
Igual ao rei Salomão!

Quando ele findou a máquina,
Achou o trabalho bonito;
Disse: enrico desta vez
No lugar em que habito...
Na primeira experiência
Subiu para o infinito...

Depois que ele subiu
Ficou o povo olhando
Cantando Serena Estrela,
E o tempo foi se passando,
Ainda hoje não voltou,
Mas, o povo está esperando...

Voltará como o Viríssimo
Da grande barca “Minerva”
E quando ele chegar
Trará dinheiro em conserva,
Aí prova seu trabalho
Que ficará de reserva.

Quem não lhe acreditava
Vai lhe render homenagem
Porque aí ele prova
Que não tinha pabulagem,
Pois, tem dinheiro de trouxa
Com sobra e muita vantagem.

Antes do dia de juízo
A sua volta se verá
E entre festa desusada
O povo o receberá,
E um pobre para semente
Caçando não se achará...

Mas, leitor eu aconselho
Que uses de precaução
E lembro que o Viríssimo
Também fez a embarcação
E depois voou no espaço,
E pela mesma rotação.

Quem tiver o seu dinheiro
Vendo que já lhe faz mal,
Dê de esmola aos pedintes
Da feira e do hospital,
Que lhe servirá de glória
Na vida espiritual.


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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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