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1/24/2020

Poetas Populares: Pelino Guedes




PELINO GUEDES
(1858-1919)

Pelino Guedes é natural dos sertões da Paraíba do Note; ainda moço, mudou-se para o Rio de Janeiro onde fixou residência.

Foi no Rio que Pelino escreveu a inspirada e sentimental poesia “Recordações do Sertão”, que vai publicada nas páginas a seguir.

Apesar de ele não ser um poeta popular, inseri aqui, o seu poema por se tratar de versos genuinamente sertanejos e que pela sua beleza poética servem de chave de ouro para encerrar este livro.

RECORDAÇÕES DO SERTÃO

Oh! que ciudosas lembranças
Que profundo sentimento
Refluem nesse momento
No meu triste coração;
Só tenho no peito a sombra
Das minhas perdidas flores,
Saudades dos meus amores
Recordações do sertão.

Oh! serras, vales, montanhas,
Rochedos, penhas, cascatas.
Florestas, bosques e matas.
Gênios maus das solidões!
Vinde, vinde visitar-me,
Minh’alma por vós suspira.
Geme por vós minha lira,
Nas suas tristes canções.

Oh! azuladas campinas,
Jardins de minha existência;
Ali minha adolescência
Passei em sonhos gentis...
Qual criancinha travessa,
No cume das serranias
Ao sopro das ventanias,
Em busca das juritis.

Oh! quantas flores esparsas
Nas fraldas daqueles montes,
Quantos suspiros nas fontes,
Das brisas ao perpassar,
O vento geme na gruta,
A onça abala a cascata,
O touro estremece a mata,
A rola estremece o ar.

Erguem-se além os rochedos
Sombrios, alcantilados,
Cujos píncaros nevados
Parecem de ouro e cristais;
Lá onde brincam os bodes
À tarde aos saltos berrando,
Onde se ocultam rosnando
De noite os maracajás.

Canta na várzea o craúna,
No curral berra o garrote.
Salta o preá no serrote,
Aos gritos dos bem-te-vis;
Vagam no campo os pastores,
Nos pátios os bezerrinhos,
Nos vales os cordeirinhos
Nos prados os colibris.

Ainda uma vez, quisera,
Nas penedias e matas,
Ouvir o som das cascatas
E as vozes do furacão
Orquestra de harpas agrestes
Cujos divinos acentos
Vibram as nênias dos ventos
Uivando pela amplidão.

Sim! eu quisera de novo,
Como outrora inda criança,
Cheio de vida e esperança
De crença, de luz, de amor;
Fruir sonhando as delicias
Daquele campo odorante,
À sombra refrigerante
Das oiticicas em flor.

Quem me dera, se eu pudesse
Pelas encostas dos montes,
Ver inda beber nas fontes
O bezerrinho a berrar,
Da tempestade o rugido,
Do jumento o feio ornejo
E o grito do sertanejo
Nos campos a vaquejar.

Ainda uma vez sozinho
Visitaria as campinas,
Aquelas verdes colinas,
Aqueles lagos gentis;
Em cuja face argentina
Tantas vezes delirante
Retratei o meu semblante
Contemplando os pastoris.

Em tardes de primavera
De brisas frescas serenas,
Aquelas saudosas cenas
Ah! quem me dera rever;
À sombra dos juazeiros!
No sopé das cordilheiras
Contemplando as ipueiras,
Onde o gado vai beber.

Ah! nessas horas saudosas
Quando o menino aboiava,,
Eu nos mourões me assentava
Da porteira do curral...
Às vezes, também cantando,
Para ver quando voltavam
As vacas que ali pastavam
Nos arredores do vale.

Era também nesse instante
Que a seriema cantava,
Enquanto o tetéu gritava,
Fugindo dos furacões;
E que as serpes venenosas,
Traiçoeiramente agarradas,
No ar passavam enroscadas
Nas garras dos gaviões.

Ah! quem me dera um momento,
Naqueles vales sombrios
A margem daqueles rios,
Que descem lá do sertão...
Ao ronco das cachoeiras
Quando a chuva alaga o prado,
Ver nas colinas o gado
Saltando ao som do trovão.

Oh! como é belo no inverno,
Quando o vaqueiro à carreira,
Persegue a vaca ligeira,
No seu campeão audaz!
Parece rubro corisco
Das ventanias nas asas,
Do chão arrancando brasas,
No seio dos matagais.

E quando em grutas medonhas
Se encontra o touro bravio
Saltando à margem do rio
Em busca do boqueirão,
Como é sublime a vitória,
Das serras no despenhado,
Quando 0 vaqueiro encourado
Derriba o touro no chão.

Oh! quem não deseja ao menos
Gozar na vida um momento,
Do doce contentamento,
Que ali se desfruta então;
Só quem não presa o sublime
Da inocência e da pureza;
Só não ama à natureza
Quem nunca foi no sertão.

Cante quem quiser as luzes.
As riquezas, as vaidades,
Que se encontram nas cidades
Que se ostentam nos salões;
Para mim têm mais encantos
Essas festas soberanas,
Que se fazem nas choupanas
Dos filhos das solidões.

E quando no pátio imenso
Da casa dos fazendeiros.
Vão se avistando os vaqueiros
Já regressando do vale;
Como é belo contemplá-los
Audazes, loucos, feridos
Com os gibões todos rompidos
Guiando o gado ao curral.

Fui contemplando essas cenas,
Na solidão isolado,
Cantando o céu estrelado
E as matas virgens em flor...
Foi no sussurro das fontes,
No alfar da rola gemente,
Que ouvi O som inocente
Da voz do primeiro amor.

Foi nesses sítios agrestes
A minha mansão de outrora...
Lá onde o regato chora
E se ouve a ave cantar...
Foi nessas rochas tristonhas,
Que eu vi como as fontes nascem
E vi que as flores renascem
Sem ser preciso plantar.

Foi então que eu vi que as aves,
De paixão também perecem,
Como as roseiras fenecem,
Se o orvalho do céu não têm;
Beijam-se os rios e os mares,
Beijam-se as árvores e as flores,
Porque de beijos e amores,
Como nós, vivem também.

Ah! meu Deus quanta inocência
A vida do campo encerra,
Ali não fulmina a guerra
Nem reina a vil traição;
As feras são menos bravas,
Nos homens há mais pureza
Na vida, há mais singeleza.
Mais vigor na criação.

Ali, a terra é mais fértil,
É mais vasto o firmamento,
É mais livre o pensamento.
As crenças têm mais fervor.
Os próprios astros, mais luzes.
Os ares mais harmonias,
Os cantos, mais melodias,
Os corações, mais amor.

Há mais fragrância nos prados,
Nas florestas mais frescura,
Nos bosques, mais formosura,
Nas campinas, mais verdor;
Há mais meiguice nos vales.
Há mais ternura nas fontes.
Há mais beleza nos montes.
Há mais perfume, na flor.

Se o céu me ouvisse, eu quisera
Rever de novo as campinas,
Aquelas verdes colinas
Que eu tanto desejo ver...
As aves que eu vi cantando,
As fontes que eu vi gemendo
Os rios que eu vi correndo,
As flores que eu vi nascer.

Mas dessas cenas risonhas.
Desse meu sonho inocente,
Conservo apenas na mente,
Tristonha, e pálida flor...
Eis porque guardo saudades
Desses idílios queridos,
A causa dos meus gemidos
A origem da minha dor.

Tenho saudades das selvas,
Das borboletas dos campos,
Das luzes dos pirilampos,
Que vagueiam na escuridão;
Do eterno bramir dos ventos.
Corcéis bravios que correm.
Rolas dolentes que morrem
Gemendo na solidão.

Tenho saudades dos vales,
Das serras, das cordilheiras,
Das fontes, das cachoeiras,
Do aroma dos roseirais;
Das flores mortas no campo,
Do cordeirinho inocente.
Aos raios do sol luzente.
Perdido nos bamburrais.

Do eco das arapongas,
Do triste gemer das emas,
Do canto das seriemas,
Do grito das araquã
Dos periquitos jandaias,
Dos papagaios pairando,
Das sericoias voando,
Da voz das maracanãs.

Tenho saudades de tudo,
De tudo guardo a lembrança,
Mas, já o sol da esperança
Não brilha em meu coração;
Só tenho no peito as sombras
Das minhas perdidas flores,
Saudades dos meus amores
Recordações do sertão.

Ah! meu Deus fazei que eu goze
Inda um momento dos sonhos.
Celestes, meigos, risonhos,
Da minha quadra infantil;
Eu quero morrer cantando
O berço dos meus amores,
O céu, o campo e as flores
Dos sertões do meu Brasil.



---
Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Poetas Populares: Antônio Correa Bastos


ANTÔNIO CORREA BASTOS

Antônio Corrêa, nasceu em Mogeiro, do Estado da Paraíba, em 1887. Era maquinista e carpinteiro. Apesar de não ter sido cantador de profissão e ter poucos conhecimentos das letras, era excelente repentista.

Publico, a seguir, seguida uma peleja que ele teve com o cantador João Benedito. Este natural dos brejos da Paraíba, apesar de ser quase analfabeto, era muito bom repentista.

Antônio Correa — Senhor João Benedito
Que veio ver neste lugar?
Foi iludido por alguém,
Que foi por pouco pensar?
Está desgostoso da vida
E quer mesmo se acabar?

João Benedito — Vim porque tive notícia
Que eras bom cantador;
E que aqui na capital
Estavas sem competidor;
Quero ter disso a certeza,
E te mostrar meu valor.

Antônio Correa — O senhor só fala assim
É porque vive enganado;
Se contra mim se destina,
Diga em que está confiado?
Que eu lastimo a sua sorte
E o seu triste resultado.

João Benedito — Senhor Antônio Corrêa,
Deixe desse seu orgulho;
Pabulagem é uma coisa
Que se atira no basculho;
Você procura embrulhar-me
Mas é quem vai no embrulho.

João Benedito — Benedito, eu fiz um forte
Guarnecendo esta cidade,
Onde há perigos enormes
Com grande rigoridade,
Aqui prendo cantadores,
Sem escolher qualidade.

João Benedito — Antônio, eu nunca encontrei
Forte que eu não destruísse,
Nem peso que eu não erguesse
Perigo que eu não investisse,
Nem cantador de seu jeito
Que uma hora me resistisse.

Antônio Correa — O forte ninguém derriba,
Que eu fiz muito seguro;
Em largura tem cem braças.
Só a parede do muro;
Fiz assim por segurança.
Prevenindo o meu futuro.

João Benedito
— Essa tua fortaleza
É bastante eu me encostar.
Botarei ela por terra,
E depois que eu derribar,
Faço as minhas transações
E em paz hei de voltar.

Antônio Correa — A estrada do sertão
Que atravessa o Sanhauá.
Cantador que se atrever
Passar p’ra o lado de cá,
Cai nas unhas de um gigante.
Que o liquida mesmo lá.

João Benedito — Eu derribando o forte
Se o gigante me enfrentar
Com tenção de dar-me fim,
Com um murro hei de o matar;
Caso você esteja em casa.
Trate de se arretirar.

Antônio Correa — Se você escapar desse perigo,
E vier atacar de frente a ruim,
De uma forma ou de outra leva fim,
Porque tem de encontrar outro castigo;
Um cárcere escuro muito antigo,
Ficará lhe servindo de prisão;
Logo aí perde a sua pretensão
E começa na vida o seu sofrer,
E, se acaso tardares a morrer,
És lançado nas chamas de um vulcão.

João Benedito — Tenha lá os perigos que tiver
Mão me assombra, p’ra mim tudo é asneira
Tudo eu vencerei na brincadeira,
Você traga o reforço que trouxer,
Tenho jeito p’ra tudo que quiser;
O seu plano para mim será errado;
Se vier atacar-me com soldado,
Inutiliza-se a sua munição;
Com dinamite derribo-lhe a prisão
E no vulcão eu o deixo sepultado.

Antônio Correa — Se escapares te prendo em alçapão
Que da face da terra vai ao centro;
Infeliz do cantor que cair dentro
Nunca mais ele sai dessa prisão!
Ninguém dele terá mais compaixão,
A desgraça lhe dá logo um aviso
De que será total seu prejuízo;
Se despeça dos filhos e mulher,
E a algum camarada que tiver,
Diga adeus até dia de juízo.


---
Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Poetas Populares: Romano Elias da Paz




ROMANO ELIAS DA PAZ
(1903)


Romano Elias nasceu a 25 de janeiro de 1903, no Município de Mamanguape. Adotou a profissão de cantador, em 1919. Atuou com os melhores cantadores da Paraíba, do Rio Grande do Norte e do Ceará. Escreveu alguns folhetos de versos que que os vendia, ambulantes, pelas feiras.

Romano tinha boa voz e improvisava com muita facilidade.

Neste livro o leitor encontrará uma longa peleja de Romano Elias com o cantador azulão realizada em Fortaleza capital do Ceará.


Azulão era natural de Pernambuco e residia no estado do Ceará.

VERSOS DE ROMANO ELIAS

“AI, SE O PASSADO VOLTASSE!”

Eu gozei, na meninice,
O quanto pode gozar-se;
Me lembro quando mamãe
Beijava na minha face!
Hoje, sozinho me vejo,
Sem carinho e sem beijo.
Ai, se o passado voltasse!

Quando eu tinha vinte anos,
Achava quem me adulasse
Achei moça que pedia
Que com ela eu me casasse,
Hoje, não é mais assim,
Elias galhofam de mim,
Ai, se o passado voltasse!

Eu nunca entrei em um baile
Que nele eu não dançasse,
Nunca tirei uma dama
Que ela me enjeitasse,
Hoje elas não me aceitam,
Até as velhas me enjeitam.
Ai, se o passado voltasse!

 Nunca encontrei potro bravo
Que eu nele não montasse,
 Nem burro por ser manhoso
Que eu não amansasse;
Romano, hoje, não pode
Nem sequer montar num bode.
Ai, se o passado voltasse!

Em paquetes embarquei,
Sempre de primeira classe,
Padre, doutor, coronel.
Mandavam que eu cantasse,
Hoje, embarco na terceira
Não vejo nem a primeira,
Ai, se o passado voltasse!

Nunca encontrei rio cheio
Que eu não atravessasse,
Açude por grande e fundo
Que nele eu não mergulhasse
Hoje, não tenho despacho
Nem p’ra saltar um riacho,
Ai, se o passado voltasse!

Carne a cem réis o quilo
Se, ainda a gente comprasse.
Fazenda o metro a pataca.
Boa, que nos agradasse;
O povo tinha prazer,
Ninguém pensava em morrer,
Ai, se o passado voltasse!

Se ainda no Comércio
O homem negociasse.
Como nos tempos antigos.
Fiscal, o diabo levasse;
Se não se pagasse imposto,
O mundo fazia gosto.
Ai, se o passado voltasse!

Eu vivo de cantoria,
Não é por necessidade,
É porque amo a viola.
De cantar sinto vontade.
Os versos são os produtos
De minha propriedade.

***

PELEJA DE ROMANO ELIAS COM AZULÃO

Azulão — Peço atenção aos senhores
Todos que estão presentes
P’ra ouvir o Azulão cantar
Com um cantor diferente,
Que só esperou por mim
Porque é muito inocente.

Romano — Peço licença aos ouvintes
Para expandir minha lira,
E vencer este Azulão
Que acredita em mentira,
E veio cair num laço
Que nem o diabo o tira.

Azulão — Você porque nunca viu
Azulão velho assanhado,
Se ouvisse ao menos tratar
Aqui não tinha ficado,
Se alguém falasse em meu nome
Tinha de novo embarcado.

Romano — Você chegou pelo trato
Porque não tinha sabido,
Se soubesse quem eu era
Tinha até adoecido.
Só chegava em Fortaleza
Quando eu tivesse saído.

Azulão — O senhor diga seu nome
E donde é o repentista,
Que o cantador não sabe
Do que anda em sua pista.
Veja que o nosso encontro
Hoje, é de primeira vista.

Romano — Chama-se Romano Elias
Esse seu menor criado,
Paraibano legítimo;
Na capital batizado,
Se duvida vá à igreja
E tire meu atestado.

Azulão — Agora estou ciente
Que tu és paraibano;
Azulão é teu vizinho,
Do solo pernambucano;
Aonde chega a certeza
Desaparece o engano.

Romano — Azulão eu lhe pergunto,
Nunca enganei a ninguém,
Como esperei por você
Que de tão distante vem,
Cantar com Romano Elias
Qual é a intenção que tem?

Azulão — Venho cantar com você
Não é lá devido ao ganho,
É porque uso dar surra
Sempre em cantador estranho,
Onde cansares eu passo,
Onde fores acompanho.

Romano — Mais fácil é o mar secar,
Faltar festa na Bahia,
O diabo cantar missa,
Passar na cruz dar bom dia,
Do que Azulão vencer
Ao Romano em cantoria.

Azulão — Romano veja o que diz.
Tenha cuidado na vida,
O diabo cantar missa
É coisa desconhecida,
Se não for mentira sua
Já vi coisa parecida.

Romano — Peguei hoje, sem querer,
O pássaro preto Azulão,
Arranco pena por pena,
Tiro canhão, por canhão.
Quer voar porem não pode,
Fica saltando no chão.

Azulão — Eu não temo a armadilha
Desde do ferro a embira.
Você pegar-me é um sonho.
Deixar-me nu é mentira,
Que de Azulão uma pena
Você puxa mas não tira.

Romano — Eu ando em sua procura
Como animal por capim,
Moça nova por namoro,
Jardineiro por jardim,
Como umbu por carniça
E tamanduá por cupim.

Azulão — Mais fácil é uma rolinha
Perseguir um gavião,
Galinha comer raposa,
Um bode dar num Leão
Do que o senhor andar
A procura de Azulão.

Romano — Eu não lhe engano Azulão
Pois, não tenho mau instinto,
Se você dourar eu douro,
Se você pintar eu pinto.
Nisto só tem uma coisa
Você mentindo eu não minto.

Azulão — Se você quebrar eu quebro,
Se você torar eu toro,
Se estudar eu estudo,
Se decorar eu decoro,
O que tem é uma coisa:
Você chorando eu não choro.

Romano — Se você soltar eu solto,
Se você pegar eu pego,
Se você disser eu digo,
Se você negar eu nego,
O que tem é uma coisa:
Você cegando eu não cego.

Azulão — Se você voltar eu volto,
Se você seguir eu sigo,
Se você quiser eu quero,
Se você ligar eu ligo.
Nisto só tem uma coisa
Você brigando eu não brigo.

Romano — Você secando eu seco,
Você inchando eu não incho,
Você comendo eu como,
Você trinchando eu trincho,
O que tem é uma coisa:
Você rinchando eu não rincho

Azulão — Se você cortar eu corto,
Se você serrar eu serro,
Se você furar eu furo,
Se você ferrar eu ferro,
O que tem é uma coisa:
Você berrando eu não berro.

Romano — Você chegando eu chego,
Você não indo eu não vou,
Você perdendo eu ganho,
Você apanhando eu dou,
O que tem é uma coisa:
Você é doido, eu não sou.

Azulão — Se você partir eu parto,
Se você sair eu saio,
Se você brincar eu brinco.
Se desmaiar eu desmaio.
O que tem é uma coisa:
Você caindo eu não caio.

Você pensando eu penso,
Você girando eu giro,
Você botando eu boto,
Você tirando eu tiro,
O que tem é uma coisa:
Você virando eu não viro!

Se você andar eu ando,
Se você correr eu corro,
Se você pedir eu peço,
Se socorrer eu socorro,
O que tem é uma coisa:
Você morrendo eu não morro.

Romano — Se você medir eu meço,
Se você pesar eu peso,
Se você cantar eu canto,
Se você rezar eu rezo,
Visto só tem uma coisa:
Você lesando eu não leso.

Azulão — Romano vamos mudar
Esta nossa cantoria.
Cantar-se um pouco em ciência.
Ver quem tem mais teoria,
Com relações a cantar
Sobre a corografia.

Romano — Azulão eu te explico
O que é corografia,
É uma parte tirada
Da nossa geografia,
Assim dizem os corográficos
Como na carta anuncia.

Azulão — Então assim você diga
E não queira fazer greve;
O que é coregrafia
Visto que você se atreve,
Portanto assim o amigo
Conte o que ela descreve.

Romano — Corografia descreve
Um país ou um Estado,
De qualquer região do globo
Dar o significado.
Veiga Cabral e mais outros
Tem por aí publicado.

Azulão — Sobre a minha pergunta
O senhor respondeu bem.
Me explique a corografia
Que ciência nela tem,
O que ela nos declara
Sem precisar de ninguém.

Romano — Potamografia é a ciência
Que devemos estudar,
P’ra conhecermos os cabos.
Melhor se justificar.
Duma grande ponta de terra
Que se estende pelo mar.

Azulão — Romano você parece
Ser um grande entendedor,
Responde corretamente
O que pergunto ao senhor
Fale na Nesografia
Explicando o seu valor.

Romano — Nesografia é uma parte
Que faz uma descrição
Da ilha corretamente;
Ilha é uma porção
De terra cercada de águas
Em sua circulação.

Azulão — Todas as partes se tiram
Da nossa geografia
O senhor diga o que
Descreve a geologia,
Já bem vê que não dizendo
Já perdeu na cantoria.

Romano — Geologia é a ciência
Que estudamos o solo
Sobre o ponto de vista
Reconhecendo seu polo,
Com os seus terrenos básicos,
Eu por saber me consolo.

Azulão — Sobre a orografia
Romano o que você diz,
O que é que você descreve
Além do nosso país?
Pois eu só falo no pau
Quando conheço a raiz.

Romano — Orografia descreve
Fisicamente as montanhas
E verticais regiões,
Com figurações estranhas.
Azulão se dessas coisas
Tu não souberes te acanhas.

Azulão — Romano para quê serve
A tal vulcanografia,
O que pode descrever
A parte linografia?
Dê-me alguma explicação
Sobre a potamografia.

Romano — Vulcanografia é,
Que trata sobre os vulcões;
Potamografia trata
Dos rios e relações;
A linografia trata,
Dos lagos e dimensões.

Azulão — Romano, nesse artigo
Qualquer cantor não lhe vence,
Também dar em Azulão,
Isto o colega não pense;
Agora vamos tratar
Sobre o solo Cearense.

Romano — Azulão, de qualquer forma
Quer ir você progredindo,
Procura multiplicar
E não vai diminuindo;
Dê começo ao Ceara
De per si ou, resumindo.

Azulão — Me responda se conhece
O que pergunta Azulão,
Ceará com quais Estados
Faz sua limitação?
Eu só fico satisfeito
Se disser eles quais são.

Romano — O Ceará se limita
Pelo Norte e Nordeste
C’o o oceano Atlântico,
O Rio Grande, a leste,
Sul, Pernambuco e Paraíba,
Piauí ficando a oeste.

Azulão — Os limites explicou-me
Com uma certeza pura,
Que quilômetros tem ele
De comprimento e largura?
Desejo ficar ciente
De sua literatura.

Romano — Quilômetros de norte a sul
Quinhentos e noventa e seis.
Quinhentos e dois de largura.
Diz quem a medição fez,
Se acha que é mais ou menos
Vá medir por sua vez.

Azulão — Romano você responda
Com sua musa altaneira,
Sobre a configuração
Dê-me uma resposta inteira;
Ceará quantos quilômetros
Tem sua extensão costeira?

Romano — Tem seiscentos quilômetros
De costas o Ceará,
Da foz do Rio Mossoró,
Na corografia está,
À barra do São João,
Se me duvida é ir lá.

Azulão — Eu não preciso de ir.
Acredito no camarada.
Mesmo a corografia
Tenho quase decorada,
Me diga a capital
Em qual tempo foi fundada.

Romano — Em mil seiscentos e quarenta
E nove fora fundada
A capital do Estado,
Sendo bem edificada;
Hoje, na época presente
Está muito adiantada,

Azulão — Romano eu já conheci
Que o senhor vai e vem,
Vamos nós dois descrever
Quantos municípios tem,
Neste solo cearense
Visto você cantar bem.

Romano — Tinha oitenta e nove
Municípios com o Crato,
Mais quinze foram supressos
Já vê que nesses não trato,
Quem de oitenta e nove tira
Quinze, fica setenta e quatro.

Azulão — Temos nós setenta e quatro
Municípios no Estado,
Hoje, na atualidade
Dos quais estou bem lembrado,
Dê começo e justifique
Que não fique prolongado.

Romano — Começo por Fortaleza,
Barbalha, Crato e Ipu,
Cascavel, Cedro, Icó,
Massapé, Paracuru,
Sobral, Lages e Sant’Ana,
Pentecoste, Acaraú.

Azulão — Tem São Bernardo das Russas,
Granja, Palma Quixadá,
Ubajara, Aurora, Sores.
 Boa viagem, Tauá,
Itapipoca, Viçosa,
Maranguape e Pungá.

 Romano — Pedra Branca, Pacatuba,
Aquirás, Aracati,
Campo Grande, Independência,
Sant’Ana do Cariri,
São Francisco, Araripe,
Missão Velha, Pacoti.

Azulão — São João de Uruburetama,
Santa Quitéria e Pereiro,
São Pedro do Cariri,
Carateús, Limoeiro,
Tamboril, Morada Nova,
Campos Sales, Juazeiro.

Romano — São Pedro de Ibiapina,
São Benedito, Cuité,
Lavras, Senador Pompeu,
Várzea Alegre e Canindé,
Brejo dos Santos, Milagre,
União, Baturité.

Azulão — Ipueiras, São Mateus.
Guaramiranga, Jardim,
Saboeiro, Redenção,
Laranjeira, Camocim,
Araçoiaba, Iguatu,
E o Quixeramobim,

Romano — Só falta agora Assaré,
E Jaguaribe Mirim,
Temos Maria Pereira,
Dos Municípios é o fim.
Azulão me diga agora
Você o que quer de mim.

Azulão — Todo o solo cearense
Já vi que você conhece,
Se formos descrever tudo
Até alguém se aborrece?
Vamos ver se em martelo
Ou eu, ou você padece.

Romano — Azulão se tu soubesses
Quanto eu gosto de martelo
Tinhas pedido as alvíssaras
Quando falasse em duelo,
Veja o malho e bata a safra
Tempere bem seu cutelo.

Azulão — Sou cantor feito em todos os martelos,
Conhecido do mundo em todas zonas,
No Peru, no Pará no Amazonas,
Nas fronteiras e nos círculos paralelos;
Nos salões ilustrados, nos castelos,
Nos palácios, nos reinos, nos impérios,
Nas assembleias e nos ministérios,
Nos terrenos do mundo em todo solo,
No sul, no norte, no último polo:
Em os climas, limites e Hemisférios.

Romano — Tenho fama em todas capitais,
Em São Paulo e Santa Catarina,
Rio Grande do Sul e Teresina,
Alagoas, Sergipe e Goiás,
Em Mato Grosso e Minas Gerais,
Rio, Espírito Santo e Pará,
Amazonas, Maranhão e Ceará,
Rio Grande do Norte e Paraíba,
Pernambuco, Bahia e Curitiba
Capital do Estado Paraná.

Azulão — Se eu pegar um cantor pela goela
Com dois anos ele inda mostra a roncha,
Uma perna quebrada e outra troncha,
Um caroço em cima da espinhela,
Um tumor em cada uma canela,
Um braço doente outro aleijado,
Um olho sem ver, outro, furado
Uma orelha rasgada, outra rompida,
Uma mão machucada, outra ferida,
Um pé torto e o outro machucado.

Romano — Venho aqui só tomar-te este terreno,
Se tem mais cantador me apareça,
Pois, se eu der-lhe um murro na cabeça
Garanto que você fica pequeno;
Se for branco da cor fica moreno,
Se for homem contente fica triste,
Cantor como você não me resiste
Ainda mesmo que cante muito bem,
Só não canto é doença com ninguém
Cantor fraco me ver, mas não me assiste.

Azulão — Levo o tempo ã dar surra em cantador
Que esta classe só presta é apanhando,
Se curva em meus pés pede chorando,
Me chamando papai e meu senhor,
Me pedindo na sala por favor
Azulão me perdoe o desaforo,
Quando eu digo ao colega lá vai couro,
Ele grita aos saltos e aos pinotes,
Se destaca de dentes dando botes,
Toma relho calado, engole o choro.

Romano — Azulão, eu em roda deste globo
Tenho ordem dada pelo Eterno,
Ao cantor mais sabido eu governo
Quanto mais a você que é leso e bobo,
Ainda sendo valente como um lobo
Sofrerá palmatória e muito reio;
Dou tacada que corta palmo e meio,
Ficas magro, amarelo e sem futuro,
E o povo dizendo eu o desconjuro
Toma figa nojento, bicho feio.

Azulão — Minha vida no mundo é um consolo,
Onde eu canto sou sempre apreciado.
Mesmo assim já estou acostumado
Em dar surra e exemplar o cantor tolo,
Dou bofete em cantor que vejo a rolo,
Com 2 anos ele inda se acanha,
Você canta comigo mais não ganha
Dou lhe queda no chão que o bucho estora.
Morre o corpo e a alma vai embora
Se voltar nesta terra ainda apanha.

Romano — Um chicote de couro eu carrego
Para dar em cantador intrometido
Que se mete na sala a ser sabido
Se correr é pior porque eu o pego
Dou-lhe logo nos olhos deixo-o cego
Arretalho-lhe o couro sem preguiça
Deixo a carne cortada p’ra linguiça
Dou-lhe um unto de louco com pimenta
Que ele fica uma coisa tão nojenta
Que só serve para criar mundiça.




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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)