quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Germano Alves de Araújo


GERMANO ALVES DE ARAÚJO
“GERMANO LAGOA”
(1842-1904)

Germano da Lagoa, assim chamado por que residia em Lagoa de Dentro, (Teixeira) nos limites com o Pajeú. (Pernambuco), era oriundo dos Leitão, cujo tronco principal foi João Leitão, primeiro donatário dali e dos Nogueira Campos, íncolas do Pajeú.

Entre seus ancestrais, encontram-se inteligências poéticas, como a que iluminava ao seu tio Antônio Nogueira Campos de quem um seu contemporâneo, Joaquim Lopes, contava anedotas, e relembrava versos.

Uma feita, estando ele numa festa, o Lopes o interpela, obtendo prontas respostas:

Quem afugenta o demônio?
 — Antônio!
Quem é a flor da Ribeira?
 — Nogueira!
Quem anda sempre amplo?
 — Campo!

E ele glosou:
Abra-se o céu em relampo
E brade a voz do trovão
Que a alegria do sertão
É Antônio Nogueira Campo.

Germano da Lagoa foi um grande repentista sua especialidade em cantoria era a estrofe em dez versos, que os cantadores chamam versos dez linhas.

Neste gênero era ele respeitado pelos outros cantadores. Ninguém, como Germano, fazia com tanta rapidez e facilidade uma estancia de dez linhas.

Quando o vigário Bernardo de Carvalho Andrade, em 1888, foi obrigado pelos seus inimigos políticos, que lhe moveram um processo injurioso, a emigrar da vila do Teixeira para a cidade de Vitória, em Pernambuco, Germano, que era parente do aludido vigário, escreveu uma poesia de sátiras terríveis contra o Coronel Delmiro Dantas, que havia assinado e publicado alguns escritos contra aquele sacerdote. Vê-se, nos versos a seguir, que Germano da Lagoa não só era um bom poeta como não tinha medo de atacar os seus inimigos, mesmo que fossem ali homens de alta posição, como o era Delmiro Dantas.

O VIGÁRIO TEIXEIRA

Não deve ser maltratado
Quem tem bom procedimento,
Quem desde o seu nascimento
É do povo apreciado;
Só tu o tens agravado
Com tua língua grosseira;
Abandona essa carreira
Que tu mesmo compreendes
Que és malvado se ofendes
Ao vigário do Teixeira.

Raça de animal anfíbio.
Conhecido cangaceiro,
Assassino e desordeiro,
Coração perverso e tíbio,
Fala de um de teu calibio;
Que tenha a tua maneira;
Tua língua traiçoeira
Até aos santos maltrata,
Somente tu achas falta
No vigário do Teixeira.

Caçando nos quatro ventos
Que compreendem o Brasil,
Não há animal tão vil
Que tenha os teus pensamentos,
Que são mais sanguinolentos
Do que a cobra mordedeira.
Aranha caranguejeira,
Coração de iniquidade,
Abusaste da bondade
Do vigário do Teixeira.

***

DO CÉU TERÁS O CASTIGO

Agora ficou provado
Que procedes de Caim;
Nunca vi um tronco ruim
Dar um fruto apreciado.
Tens um instinto malvado.

Do direito és inimigo!...
Eu em verdade te digo
Que o diabo é teu sócio;
Tu com Deus não tens negócio;
Do Céu terás o castigo!

Alma que o diabo enjeitou,
Língua que a terra não come;
Maldito seja o teu nome;
Na terra que te criou,
O diabo te atentou,
Tomaste ele por amigo;
Eu te renego e maldigo!
Coração vil e tirano,
Se permaneces no engano,
Do Céu terás o castigo!

***

O CASAMENTO DE UM GALANGRO

Foi um calangro na casa
De seu tio papa-vento.
Tomou-lhe a benção e disse.
Antes de tomar assento:
Venho lhe pedir a mão
De sua filha em casamento.

Papa-vento respondeu-lhe:
Tua linhagem descobre
Que inda és meu parente.
Descendes de sangue nobre.
Mas não te dou minha filha
Porque tu és muito pobre.

Bem conheço que sou pobre,
Não é preciso que diga,
Mais não se fala em pobreza
Quando um forte amor se liga,
Vai mais que o senhor me a dê
Do que haver uma intriga.

Papa-vento respondeu-lhe:
Em vista do teu assunto
Eu como pai de família
Uma coisa te pergunto:
Se fora do dia de hoje,
Com ela já andaste junto?

Calangro lhe respondeu:
Meu tio deixe de asneira,
Que fora do dia de hoje
Temos feito é muita cera
E temos andado juntos
Uma semana inteira.

Papa-vento disse: Isto
Que me diz é uma afronta,
Você é um atrevido
E minha filha uma tonta;
Pode ir botar os banhos
Que a dispensa eu dou pronta.

Calangro saiu aos saltos
De tanto contentamento,
Não parava mais em casa
Não trabalhava um momento,
Passava dias e noites
Em casa do papa-vento.

Papa-vento, quengo velho,
Mestre na velhacaria,
Disse a mulher: — Que vem ver
Calangro aqui todo dia.
Tome cautela com ele,
Viva com a noiva de espia.

No outro dia Calangro
Foi de novo ver a prima,
Achou-a longe de casa
Trepada em um pé de lima
Calangro falou embaixo
Ela respondeu-lhe em cima.

Disse ela então ao Calangro;
Não sabes, meu namorado?
Que esta noite, eu vi papai
Paliando bem agastado,
Calangro disse me conte
O que por lá foi passado.

Papai disse a minha mãe
Que queria lhe pedir
Para que você deixasse
De tantas vezes lá ir,
E se ele isto fizer
Só tem de ver eu fugir.

Calangro olhou para a prima
Achou-a muito amarela,
Foi ao papa-vento e disse:
Fique com sua donzela
Que eu não sirvo p’ra remendo,
Cace outro e case ela.

Papa-vento disse: — Isso
Não é coisa que se faça
Se seu pai não der um jeito
Você não gosta da graça;
Ou casa comi minha filha
Ou se acaba a nossa raça.

Foi a noiva se queixar
Ao pai de seu namorado
Disse ao velho: — Meu tio
Tenha dó de meu estado
Pois eu não sou cão sem dono;
Calangro está enganado. 

Se o senhor não der um jeito
Eu me queixo ao delegado,
Meu pai tem dinheiro e gasta
E é feio o resultado;
Seu filho está bem moço
Poderá ser recrutado.

O pai de calangro disse:
Não tenho jeito a lhe dar;
E a noiva, dali mesmo
Saiu para se queixar
Ao capitão cururu
Delegado do lugar.

Cururu ouviu a queixa
E saltou fora do poço,
Dizendo entusiasmado,
Vamos ter barulho grosso;
A Excelentíssima volte
Que eu mando prender o moço.

Tocou logo uma buzina
Que ficou tudo assombrado,
Numa hora o alagadiço
Estava cheio de soldado,
Tudo gritando a um tempo
Às ordens! seu delegado!

 — Vão em casa do juiz
Para passar o mandado
Ao oficial de justiça
Quero o Calangro intimado
E se ele resistir
Venha morto ou amarrado.

O cabo disse ao sargento;
 — Bote os soldados na frente,
Eu não vou que sou casado,
Calangro é homem valente.
Se ele pegar nas armas
Mata hoje muita gente.

Aí disse o oficial,
Vão indo devagarinho,
Primeiro, cerca-se a casa,
Empiqueta-se o caminho,
Vocês segurem o cerco
Que eu pego o homem sozinho.

O oficial era o gato
Que conduzia o mandado,
Calangro quando ouviu
Dizer que estava cercado
Disse de dentro p’ra fora:
 — Não deixo vivo um soldado.

O gato aí respondeu-lhe:
— Quem vai dar leva seu saco;
Saia fora, vamos ver
Quem de nós dois é mais fraco.
Nessas palavras calangro
Veio a boca do buraco.

O gato pulou de cá
E pegou-o pelo rabo,
E foi dizendo se renda
Se não eu já o acabo,
Calangro grita estou preso;
Vá acabar com o diabo.

Nesta luta que tiveram
Deixaram o calangro nu
E assim mesmo o levaram
À vista do cururu
Que o interrogou dizendo:
 — O que é que fizeste tu?

Disse o calangro o que fiz,
É coisa que não ofende,
Eu quis casar com a prima
E... o senhor bem me entende
Julgo até que não tem crime
Quem com tempo se arrepende.

Cururu disse: — o senhor
Caiu num feio artigo;
E para punir a honra
Sou rigoroso consigo;
Ou se casa, ou senta praça,
Ou a forca é seu castigo!

Eu não queria casar
Porque me vejo em atraso
E não quero assentar praça
Para ser soldado raso;
Em vista do que me diz
Se hei de morrer, antes caso.

Disse o cururu: — Vão ver,
P’ra casa do papa-vento
O padre tamanduá,
E deem à festa andamento.
Por que de hoje a três dias
Se fará o casamento.

Convidem dona Raposa
P’ra da noiva ser madrinha,
Ela veja se arranja
Por lá alguma galinha
Para ajudar na festa,
Que a outra despesa é minha.

Foram ver o teju-açu
P’ra do noivo ser padrinho;
Esse, disse ao portador
Quando vinha no caminho:
Se houver ovos, eu vou.
Por que hão bebo vinho.

E outra coisa, também,
P’ra eu não ir enganado:
Sabe se o major cachorro
P’ra festa foi convidado?
Se foi, eu volto daqui.
Que ele é meu intrigado...

Finalmente se juntaram
A raposa, o teju-açu,
O papa-vento e a mulher,
A seriema, o urubu,
Padre, noivos, convidados.
Só faltou o cururu.

Urubu foi cozinheiro;
Fez um comer muito ruim,
Adquiriu para o padre
Uns pedaços de cupim,
E ele comia dizendo
É pouco, só dá pra mim.

Quando estava posta a mesa
Um guarda, a porta espiava;
E foi então avisar
Que o cachorro chegava
Teju-açu levantou-se
E disse que não ficava.

Disse a raposa: — Eu não saio
Deixando o meu prato cheio,
Teju-açu disse: — Eu corro
Que o barulho aqui é feio.
Nisto o cachorro pegou-o
E cortou-lhe o rabo ao meio!

Saiu o teju-açu
Danado pela floresta
Levando pedras e paus
Tudo de eito na testa;
Encontrou cameleão
Que inda vinha p’ra festa.

Cameleão quando ouviu
De seu parente a zuada,
Assombrado perguntou-lhe:
 — O que há meu camarada?
Temos barulho na festa,
Ou me vem com caçoada?

Caçoada, o que seu mano,
Foi um barulho do diabo;
Major cachorro chegou
Pior do que um leão brabo,
Botou-se primeiro a mim
Olhe o que me fez no rabo!

Numa luta sanguinária
Se empenharam os convidados
Os que escaparam com vida
Fugiram ensanguentados;
Desde esse dia ficaram
Os animais intrigados.

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