quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Ugolino Nunes da Costa


UGOLINO NUNES DA COSTA
(1832-1895)

Aos 18 anos de idade Ugolino dedicou-se a tocar viola e a cantar. Fugira da casa paterna, na serra do Teixeira, acompanhando uma família que emigrava para o Rio Grande do Norte.

Ao passar no Picuí, hospedou-se numa casa onde havia uma festa de casamento. Ugolino tocou e cantou com tal perfeição, que os habitantes do lugar ficaram maravilhados diante do seu extraordinário talento. Desde então correu mundo a sua fama de cantador. Nunca achou um tocador de viola que o vencesse; e raros foram os cantadores que lhe resistiram uma noite de desafio, em qualquer ramo da Ciência Popular.

Romano, que foi o maior repentista do seu tempo, admirava-o. Ninguém, como Ugolino descrevia cantando com real acerto a Escritura Sagrada. Ele tinha, como Tobias Barreto, o dom de decorar; qualquer livro que lesse, ficaria com todo o seu conteúdo gravado na memória. Sabia de cor e salteado o Novo e o Velho Testamento, o Dicionário da Fábula, o Manual Enciclopédico, a Missão Abreviada e muitos outros livros vulgares na sua época.

Escreveu em um volumoso caderno as suas melhores produções poéticas; tendo, porém, abandonado a profissão de cantador na velhice, emprestou esse caderno ao seu colega Germano da Lagoa. Deu-se em casa de Germano um incêndio, sendo o manuscrito destruído pelo fogo, ficando assim perdidas as melhores poesias desse grande cantador, que era tido como o mestre dos cantadores do seu tempo vou citar três exemplos, provando que Ugolino era temido e respeitado pelos outros cantadores:

Numa festa de casamento, achava-se, cantando, o violista. Firino de Góes Jurema, quando chegaram, inesperadamente. Ugolino e Germano da Lagoa. Firino, ao ver Ugolino entrar, emborcou a viola e não mais cantou.

Germano, vendo que o trovador que estava por dono da festa não se atrevia a cantar diante do mestre Ugolino e querendo mostrar o valor do seu companheiro, glosou a seguinte estrofe:

Tua presença, Ugolino,
Faz temer e faz terror;
Faz mais medo a cantador
Do que boi faz a menino;
Fez ficar mudo Firino
A tua veia composta;
Do teu cantar tudo gosta;
És um forte es um dunga,
És um deus de Ariapunga
Ugolino Nunes da Costa.

O mesmo Firino de Góes jurema, em uma carta em versos que enviou a Romano, dando conta dos cantadores que vencera, dedicou a Ugolino a estrofe seguinte:

No Sertão do Sabugi
Encontrei mestre Ugolino;
Embiquei o meu chapéu,
E fui logo me escapulino
Antes que ele me dissesse
Espera, vem cá Firino.

Certa vez Ugolino chegou, inesperadamente, no lugar Barra Lisa, e hospedou-se em casa de um seu amigo de nome Pirangi.

Morava nessa localidade o cantador Elesbão da Cunha Machado. Este, ao saber que Ugolino estava na terra, foi ao seu encontro e, ao apertar-lhe a mão, fez-lhe a seguinte pergunta: “Onde mora e que veio fazer aqui”? Ugolino, ainda segurando-lhe a mão, respondeu-lhe com o seguinte improviso:

No Sertão do Sabugi
É a minha residência,
Porem quis a Providência
Que eu hoje viesse aqui,
Na casa de Pirangi,
Meu amigo dedicado;
E, uma vez que sou chegado,
Hoje aqui na Barra Lisa,
Eu venho dar uma pisa
Em Elesbão Cunha Machado...

Diante dessa promessa, o Elesbão desistiu de cantar em desafio com Ugolino.

Desse grande cantador — Ugolino, vai publicado neste livro a seguinte poesia:

AS OBRAS DA NATUREZA

As Obras da Natureza
São de tanta perfeição.
Que a nossa imaginação
Não pinta tanta grandeza!
Para imitar a beleza
Das nuvens com suas cores
Se desmanchando em lavores
De um manto adamascado,
Os artistas com cuidado
Da arte aplicam os primores.

Brilham nos prados verdumes
De um tapete aveludado,
Brilha o rochedo escarpado
Das penhas seus altos cumes;
Os montes formam tais gumes
Que a gente os observando
Vê como que alongando
Perder-se na imensidade,
A nossa visibilidade
Os perde se está olhando.

Correndo as águas se arrastam
Tornando-se brancalhetes
E mui lindos ramalhetes
De espumas que as águas gastam.
Fugindo logo se afastam
Esses mantos de brilhantes:
São pérolas lindas galantes
Que a cachoeira as atrai,
E esta, murmurando vai
Nos chamando ignorantes. 

Grandes coisas se dizia
Só de um bosque se falando,
Mas apenas vou tocando
No que tem mais poesia;
Como a sombra que alivia
A natureza agitada I
Como a relva aveludada
Que posta em duas fileiras
Se estende nas ribanceiras
Da fonte cristalizada.

Um prado em seu verdume
Semeado de mil flores,
Com suas variadas cores,
Exalando seu perfume.
Qual o homem que presume
Pintar a tanta beleza.
Porem toda essa grandeza
É de Deus um privativo.
Que como sábio e ativo
Confiou-a à natureza.

Impera sobre um penedo
A águia que ali habita
De natureza esquisita,
Dominando o alto rochedo
É ave que não tem medo;
Por sua coragem impera!
Desdenha de qualquer fera
Com arroubo desmedido.
Atordoa e faz temido
Tudo quanto ali prospera.

De um bosque a solidão
É tocante e faz pasmar,
Vê-se o sabiá cantar
Retumbar como um trovão,
Ali o filho de Adão
Conhece o Deus verdadeiro.
Por ver correr o ribeiro
Entre as penhas murmurando
E como prata espelhando
À luz do sol o aguaceiro.

Equilibrada se vê
A penha sobre outra penha
Sem que qualquer homem tenha
Aprumado-a sem pender;
O seu estado faz crer
E obriga o curioso
Adorar o poderoso
Autor desta maravilha,
Que por toda parte brilha
Seu poder tão glorioso;

O homem fica absorto
Dentro de um bosque embebido.
Vendo trancado o tecido
De um pau direito outro torto,
Olha e vê sobre um pau morto
Alturas admiráveis.
Brincando, saltando as aves
De galho em galho voando,
Ao mesmo tempo cantando
Melodias agradáveis.

Uma lagarta, vejamos
Que a pouco foi borboleta,
Obra pequena e perfeita
Que muito a admiramos.
Só na natureza achamos
Tanto esmero e perfeição.
Prende a mais sabia atenção
A sua delicadeza.
Sem ter peso nem grandeza
Nos causa admiração.

O cágado tem sobre as costas
Linhas de geometria,
E curvas em simetria
Que aplicam em certas mostras,
Paralelas e opostas
Faz um quadro debuxado.
Portanto, está demonstrado
Ser artista a natureza,
Pois seus feitos de grandeza
Ninguém os tem igualado.

Minha alma fica abismada
Sob o solo contemplando
Em ver os matos furando
A terra tão apertada!
A planta mais delicada
Tem força para a romper!
E a terra obedecer
A tão pequena senhora,
Que oferta sem mais demora
Glórias ao Autor do ser!...

Das nuvens com suas cores,
Variadas pelo sol,
Da neve no seu lençol
Se conhece os primores,
Com que Deus com seus lavores
Quis dotar a natureza,
Para a encher de beleza
E o dia vivificar.
Mais o homem por pecar
Perde da alma a nobreza.

Que quadro encantador
Vemos ao romper da aurora
Desde o irracional à flora
Tudo louva ao Criador,
Ao primeiro resplendor
Do dia vivificante!...
Para fazer mais galante
O Deus que tudo criou.
Sobre a relva espalhou
Do orvalho a gota brilhante.

Pulam aves de alegria
De galho em galho voando.
Ao mesmo tempo cantando
Ao clarão da luz do dia...
Da noite a percondia
O seu denso e negro manto,
Parece que com espanto,
Vendo o sol põe-se em fugida
Deixando as portas da vida
Abertas com todo encanto.

Quanto gozo e alegria
A luz do sol traz à terra.
Há luz da mais alta serra
À densa mata sombria;
Nas horas, que tem o dia.
Observa-se a beleza,
Da artista natureza,
Inesgotável portento,
Que até no macio vento
Nos mostra sua grandeza.

Vejamos os animais,
Que belo quadro oferecem,
Como que a Deus conhecem
Sendo irracionais;
Criam seus filhos iguais
Como a mãe que raciocina!
Acho ser ainda mais fina
A sua delicadeza.
Só por ter a natureza
Que ativamente os ensina.

Sopra o vento tremulando
Do bosque as árvores frondosas,
E as águas ruidosas
Entre as penhas murmurando...
A nuvem se desmanchando,
Jorra água cristalina
Que rega vale e campina,
Nos dando real certeza
De crermos que a natureza
É mais que artista é divina!

Tenho um pouco falado;
Em alguma maravilha
E não falei na que mais brilha
Nas ondas do mar salgado,
Naquele espelho azulado
Que vê-se ao clarão do sol;
Da neve o branco lençol
Torna-se ali tão galante
Que as vezes é semelhante
Às nuvens no arrebol.

Vive sempre enfurecida
Essa obra da natureza.
Lutando com a fortaleza...
Da terra bem defendida
Ali a onda atrevida
Perde todo seu furor;
Do encapelado rigor
Perde toda gravidade
Obedecendo à vontade
Daquele imenso Senhor.

Variam de instante a instante
As obras da natureza,
Com toda esta presteza
Que me faz tão delirante;
Mas, ela sempre constante
Sempre sem mostrar enfado
Desde que o mundo é criado
Até a hora presente
Sempre mostra diferente
Os dias que tem ornado.

Provoco a ser contestado
Sem ter medo de Censura
Qual o feito da natura
Que não seja admirado!
O que o homem tem fabricado
Merece ser aplaudido
Porem estou convencido
Que por seu pouco saber,
De Deus pode o homem ser
Filho e discípulo querido.


---
Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Que beleza de postagem!

    Agora, já noite alta,
    Deparei com este blogue,
    Com sono, já meio grogue,
    Li este post em voz alta,
    É triste saber a falta
    Do caderno que a voragem
    Do fogo fez sacanagem,
    Num incêndio esquisito,
    Por isso, digo e repito:
    Que beleza de postagem!

    Gustavo Luna

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  3. O meu tetravô é pouco conhecido no nosso Estado da Paraíba, apesar de ter sido o pioneiro no repente nordestino.

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