quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Bernardo Nogueira


BERNARDO NOGUEIRA
(1832-1805)

Esse grande poeta popular nunca foi cantador ambulante, como informou Dr. Irineu Joffili ao Dr. José Rodrigues de Carvalho. Poeta glosador, recitava improvisando com facilidade espantosa; apesar de não ser alcoólatra, gostava de glosar com um copo na mão, (o glosador inspira-se bebendo cachaça, como o cantador inspira-se tocando a viola) umas vezes só e outras, acompanhado de seu colega e amigo Nicandro.

Não tinha conhecimentos seguros de leitura, porém, o seu talento superava, confundindo muitas vezes outros poetas de maior cultura.

Certa vez, dois criminosos raptaram uma moça sua parenta, depositando-a em casa dum amigo dos mesmos. Nogueira avisado, foi com dois companheiros tomá-la. Houve grande resistência da parte dos raptantes, resultando ficarem dois mortos e quatro feridos. Tendo Nogueira tomado a moça, levou-a para a casa de seus pais. Depois desse fato foi Nogueira processado; e, afim de fugir à prisão emigrou para o sul de Pernambuco, transportando-se dali para os brejos da Paraíba, tendo sido recolhido à cadeia de Campina Grande em 1875. Nesse mesmo ano, dois bravos campinenses, Neco de Barros e Galdino Grande, arrombando a cadeia local afim de soltar o pai de Neco de Barros e um irmão de Galdino, deram fuga a Nogueira. Achando-se solto o poeta, voltou a sua residência no lugar Mulungu, nos limites dos Estados de Paraíba e Pernambuco, perto do povoado Cangalha, onde morava seu íntimo amigo Nicandro.

Antes da prescrição de seu crime, Nogueira vivia sempre oculto das vistas das autoridades. Por ocasião de um casamento realizado a uma légua do Teixeira, onde se encontravam os poetas Romano, Ugolino e Nicandro ele apareceu, à noite. Uma das pessoas presentes interpelou-o: — “Bernardo! E se a polícia chegar?” Ao que ele respondeu: “Caso a polícia aqui venha, ronca pau, troveja lenha”. Todos os circunstantes bateram palmas e pediram-lhe para glosar sob este tema.

Nogueira glosou, acompanhado por Nicandro o seguinte improviso:

Nogueira — Acho-me hoje, criminoso,
Porque em luta corporal
Ale furaram com um punhal,
Fiquei com o corpo reimoso;
Sou um homem perigoso,
Que se escondeu numa brenha:
Procurar-me ninguém venha,
Porque perderá o giro;
Dou de passo em passo um tiro,
“Ronca pau, troveja lenha”,

Nicandro — Quem contra nós se opor,
Não escolho qualidade.
Solto fogo sem piedade
Perco da vida o amor,
Faça o mesmo se homem for;
Quem contra Nogueira venha.
Por seu imigo me tenha,
Porque se eu passar a mão
No cabo do espadagão,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nogueira — Se qualquer um delegado,
Que passar por valentão,
Vier falar-me em prisão,
Fica desmoralizado,
Seja paisano, ou soldado:
Ninguém me caçar não venha,
Porque eu farei resenha
Daqueles que me enfrentarem
E enquanto não me matarem,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nicandro  Não faz inveja Roldão,
Ao meu colega Nogueira;
Nem Joaquim Pinto Madeira,
Nem Aquiles, nem Sansão,
Nem Lopez com vil ação,
Que a ganhar fama se empenha;
De Nogueira a mão ferrenha
É mais cruel é mais forte,
Pois não tem medo da morte,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nogueira — Terá perigo na vista
Quem persistir na contenda;
Faço uma guerra tremenda,
Se achar quem me resista;
E perderá a conquista
Quem contra Nogueira venha,
Porque a Virgem da Penha
Me protege e me defende;
Quem me enfrentar se arrepende,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nicandro  É bem triste é temeroso
Andar sem seguro norte,
Até mesmo à noite a sorte
Não lhe concede repouso;
Vive o homem desgostoso,
Oculto em deserta brenha,
Como uma fera que tenha
Ódio ao civilizado!
Nogueira se for cercado,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nogueira Confio-me no valor
De minha espada-navalha,
Que cortando na batalha.
Ninguém não lhe sente a dor;
Sou um gigante Adamastor
Que em lutar se empenha;
Mato sem fazer “resenha”,
E pegando a granadeira
Tomo conta da trincheira,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nicandro — Ouve os tiros dos canhões
E debaixo das metralhas,
Nogueira sobe muralhas,
Passando entre os esquadrões,
Vem se internar nos sertões,
Se ocultando em uma penha
Onde não há quem detenha
O seu resistente braço;
No pau, na bala, ou no aço,
“Ronca pau, troveja lenha”

Nogueira — Colega, sustento a frente
E lhe entrego a retaguarda;
Se faltar-lhe a espingarda,
Com pau, com pedra, sustente:
Eu estando de sangue quente.
Sou pior que Mascarenha;
Quem for imigo não venha,
Porque eu ’stando agastado,
Na cabeça e no costado,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nicandro — Do Brum pipoca a explosão.
Disparando peças de aço;
Caiam corpos em pedaço.
Rebente a revolução
Na frente do esquadrão;
Faça o general resenha,
Mas, para o sertão não venha,
Porque inda que a terra trema,
E o mar de Netuno gema,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Nogueira — Estando em uma trincheira.
Seja ruim ou seja boa,
Força alguma desacoa
De ali, Bernardo Nogueira;
Enquanto da granadeira
Eu ouvir a voz roufenha,
Perto de mim ninguém venha
Porque estou enfurnado;
Atiro p’ra todo lado,
“Ronca pau, troveja lenha”.

Bernardo Nogueira estava residindo no sul de Pernambuco, quando um dia encontrou-se com o celebre cantador Manuel Leopoldino Serrador. Este, também era glosador como Nogueira. Ambos muito bairristas. Serrador não gostava de Sertanejo e, no seu encontro com Nogueira, procurava humilhar os filhos do Sertão. Nogueira, por sua vez, também não gostava de Matutos (brejeiros), pois, não eram hospitaleiros e tratavam os sertanejos com desdém.

Ficou logo resolvido entre os dois um desafio e Serrador atacou Nogueira com o seguinte improviso:

Serrador — Vou pintar a desventura
Do infeliz sertanejo.
Segundo o que sei e vejo,
Essa infeliz criatura
Pode ter boa figura.
Porem tem a maldição;
Quer no inverno ou no verão.
Seja o ano bom ou mau,
Só come raiz de pau,
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Este poeta, por certo,
É um matuto infeliz
Que nem sabe o que é que diz;
Põe-se a falar no deserto
Porem agora de perto,
Queira prestar-me atenção;
Matuto sofra o carão.
Aguente eu repreendê-lo;
Não vive desse modelo,
Sertanejo no sertão.

Serrador — Se por infelicidade
Não chove logo em janeiro,
O sertanejo é o primeiro
Que sofre necessidade;
Bem contra sua vontade,
Recorre logo ao pilão;
E tal seja a precisão
Que come cru o xerém;
É esse o prazer que tem.
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Por isso não, que na mata
Chove quase o ano inteiro.
Porem se encontra brejeiro
Com precisão bem ingrata
Só se sustenta em batata.
Couve, bredo e fruta-pão,
Caranguejo e camarão,
Beiju mole, angu de massa,
E não é assim que passa
Sertanejo no sertão.

Serrador — Sertanejo, está provado
Que não tem nem um prazer;
Não possui o que comer
E só vive flagelado;
De tudo é necessitado,
Isso quer queira, quer não;
Quase sempre a precisão
Que o vexa é muito séria;
Sempre vive na miséria.
Sertanejo no sertão.

Nogueira — O pessoal sertanejo
Sempre vive na fartura;
Come carne e rapadura,
Leite, coalhada e queijo;
Come, a matar o desejo,
Peru, galinha e capão;
Lombo, arroz bife leitão.
Peixe, linguiça e toucinho,
Come doce e bebe vinho,
Sertanejo no sertão.

Serrador — Sertanejo, com certeza.
Começa desde a infância
A viver na circunstância.
De sofrer fome e nuesa;
Não sabe o que é grandeza
De dinheiro em sua mão;
Só vive em revolução
Quando a seca se aproxima;
Eu não sei porque íntima,
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Sertanejo quando nasce
Tem rede para dormir,
Cobertor p’ra se cobrir,
E cama para deitar-se;
Tem recurso com que passe;
Gado, animal, criação;
E, conforme a posição,
Que até engenho tem;
Anda lorde e passa bem
Sertanejo no sertão.

Serrador — Quando a seca se apresenta,
O sertanejo atrasado,
Na madeira do lastrado
É só em que se sustenta;
Dessa comida nojenta,
Faz um safado pirão,
Come sentado no chão,
Com colher de chifre de boi
Assim é e sempre foi
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Foi muito usada essa alfaia
Pelo pessoal caduco;
No tempo em que Pernambuco
Era de casa de paia,
Olinda era uma praia,
Caxangá um lamerão
O Brejo uma solidão
Habitado por cabocos
Nesse tempo havia poucos
Sertanejos no sertão.

Serrador —O sertanejo pabula,
Porém tem a sorte peca,
Porque quando chega a seca
Do sertão sem jeito pula;
Sofrem sem ter escapula
Todos quanto lá estão;
Nas estradas há porção
De gente descendo a pé;
Por essa forma é que é
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Desce aquele que não tem
O recurso com que passe;
De gente de certa classe,
Não se vê descer ninguém
Passa a. seca muito bem;
Sem a menor aflição
Com os que têm precisão;
Reparte o seu possuído,
Porque é muito bem unido
Sertanejo no sertão.

Serrador — No sertão, o pessoal
Luxa com pouca decência;
Não há homem de ciência.
O povo é material;
E neste estado brutal
Vive a população,
Há muito pouca instrução,
Não se vê civilidade;
Vive na brutalidade
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Poeta é seu engano:
Lá há luxo e magnífico,
E tem homem científico
Como qualquer praciano;
O pessoal é humano.
Chegado à religião,
E há civilização.
Respeito e moralidade,
Tem muita capacidade
Sertanejo no sertão.

Serrador — O sertanejo não pode
Pabular que passa bem;
No corpo catinga tem
De comer carne de bode,
E nenhum não se incomode
Com essa declaração;
Angu de milho e feijão
Que macaça é seu nome;
É justamente o que come
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Bode mais valia tem
É da praça no mercado;
Custa um quilo mal pesado
Dez tostões e mil e cem,
E não chega p’ra ninguém;
Há grande procuração;
Angu de milho, um tostão.
É sempre a preço de um pires;
Portanto não admires
Sertanejo no sertão.

Serrador — Eu acho muito custoso
No sertão se encontrar
Um só pequeno lugar
Que não seja desditoso;
Por um direito forçoso,
Vive o povo em sujeição;
Em qualquer um rebentão
De seca que possa haver;
Só vive nesse sofrer
Sertanejo no sertão.

Nogueira — Poeta não diga assim
Porque está falando errado;
No sertão está provado
Que não há lugar ruim;
No ano de seca enfim
Sempre há perturbação,
Mas passado o rebentão
Da seca, vem o inverno,
Tem auxílio do Eterno
Sertanejo no sertão.

Serrador — O sertanejo é criado
Vestindo fazenda grossa,
Ainda que ele possa
Só sabe andar mal trajado;
Enfim só é bem usado
Chapéu de couro e gibão;
Tendo essa arrumação
Julga que está direito,
Só anda assim desse jeito
Sertanejo no sertão.

Nogueira — No sertão qualquer pessoa
Que pode, só traja bem;
Raro é o que não tem
Sua fatiota boa;
Poeta não fale atoa,
Que fala contra a razão;
O trajar com perfeição
No sertão é praxe antiga;
Passa bem e anda na liga,
Sertanejo no sertão.

Manoel Serrador, confundido com as respostas do poeta sertanejo, deu-se por vencido. Então Bernardo Nogueira continuou glosando sob o tema: “Matuto no lameirão”.

Nogueira — Serrador, por que te agastas
E falas do sertanejo?
Eu bem claramente vejo
Que da verdade te afastas;
Noto também que arrastas
Um pouco de presunção;
Presta-me agora atenção
Que no meu verso rimado
Vou mostrar como é criado
Matuto no lameirão.

Matuto nasce no escuro
E põe-se logo o chorar
Dão-lhe antes de mamar,
Garapa de mel de furo;
O pirão que tem seguro
É timbu e camaleão.
Caranguejo e camarão
Cozinhados com pimenta
É só em que se sustenta
Matuto no lameirão.

Matuto, é pelo comum;
Sentiu pejada a muié,
Vai tirar cipó de imbé
P’ra fazer seu panicum;
Não tem mesa e estende um
Saco de estopa no chão;
Faz ali, a refeição,
E à noite estando cansado
Dorme sobre o encerado
Matuto no lameirão.

Se o Matuto é arranjado,
Possui um magro quartau,
Se sustenta em bacalhau,
Com pirão d’água salgado:
Come em cima do encerado,
Com catinga de alcatrão;
Bicho de pé como um cão.
Cada dedo mais de cem;
É esse o gosto que tem
Matuto no lameirão.

A sela é uma cangalha
Com cordas inquerideiras.
Coberta com uma esteira
Onde o matuto se espalha;
Usa um chapéu de palha,
Um chicote, um cinturão,
Saco ao ombro e pé no chão,
Julgando que está composto,
Leva a vida nesse gosto
Matuto no lameirão.

Não falo em senhor de engenho,
E negociantes honrados
Espalha em lugar de escancha
Porque esses são respeitados,
Deles nada a dizer tenho;
Apenas me queixar venho,
E me queixo com razão;
É no matuto vilão
Que assenta essa carapuça;
Como porco a lama fuça,
Matuto no lameirão.

Da terra eu não digo nada
A respeito a falar mal,
Pois é até um bom lugar
Que tem água refinada
Isto porem não me agrada
Lá no sertão também tenho
Falirei com grande empenho,
Colega não me contestes
Que no sul tem duas pestes
Saúva e Senhor de engenho.



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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)

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