quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Quando a morte vier... (Poema)



QUANDO A MORTE VIER
Quando a Morte vier,
Será por uma madrugada pálida...
Quando a Morte vier,
Quero que estejas junto de mim, medrosa e pálida,
Quando a Morte vier...
E serão bem comovidos nossos adeuses.
Quando a Morte vier,
E hei de dizer adeus aos teus olhos doridos como adeuses.
Quando a Morte vier;
E deitarão serradura de madeira à porta,
Quando a Morte vier,
Por causa dos carros que passarem à porta,
Quando a Morte vier;
E tu irás buscar as colchas de Damasco,
Quando a Morte vier,
E deitarás sobre o meu leito as rubras colchas de Damasco,
Quando a Morte vier
E os sinos graves hão de chamar à Extrema-unção,
Quando a Morte vier,
E o Padre há de vir dar-me a Extrema-unção,
Quando a Morte vier;
E o povo nas escadas cantará o Bendito,
Quando a Morte vier,
E hás de estremecer ao ouvir o Bendito,
Quando a Morte vier;
E a lamparina será branca ao pé dos frascos dos remédios.
Quando a Morte vier;
E o enfermeiro deixará de me afligir com mais remédios,
Quando a Morte vier;
E a minh'alma será toda confusa, ó meu Deus!
Quando a Morte vier,
Por se ver prestes a subir à morada de Deus,
Quando a Morte vier;
E o relógio da sala de jantar há de dar horas,
Quando a Morte vier,
E então estarão contadas minhas horas,
Quando a Morte vier;
E a minha cabeça descairá no travesseiro,
Quando a Morte vier,
E tu ajeitarás minha cabeça no travesseiro,
Quando a Morte vier,
E, vendo baços e parados os meus olhos,
Quando a Morte vier,
Compadecida, cerrarás meus baços olhos,
Quando a Morte vier
Duas Irmãs de Caridade hão de velar junto ao meu leito.
Quando a Morte vier,
E não te afastarás um só minuto do meu leito.
Quando a Morte vier
E como há de ser preciso um caixão para o meu cadáver.
Quando a Morte vier,
Um homem de negro virá medir o meu cadáver,
Quando a Morte vier;
E vestirão o meu quarto de trabalho todo de luto.
Quando a Morte vier;
E os criados andarão de preto e tu de pesado luto;,
Quando a Morte vier
E fecharão as portas das janelas,
Quando a Morte vier,
E a luz mal poderá entrar pelas fisgas das janelas.
Quando a Morte vier
E teus olhos andarão, pobres olhos! todos pisados,
Quando a Morte vier,
E de quando em quando hão de umedecer-se teus olhos pisa
Quando a Morte vier;
E por toda a casa será um cheiro d'alfazema e fenol,
Quando a Morte vier,
E há de perturbar a tua pobre cabeça o cheiro do fenol,
Quando a Morte vier;
E toda a gente andará nos bicos dos pés.
Quando a Morte vier,
E será bem singular ver toda a gente nos bicos dos pés,
Quando a Morte vier;
E, sem corda, o relógio deixará de dar horas,
Quando a Morte vier;
E, decorridas vinte e quatro horas.
Quando a Morte vier,
Chegarão os Padres, em sobrepeliz, e o Prior,
Quando a Morte vier,
E será de veludo preto a estola do Prior,
Quando a Morte vier;
E tu que me tens visto tanta vez.
Quando a Morte vier,
Hás de querer ver-me ainda outra vez,
Quando a Morte vier;
E, enxugando as tuas lágrimas com o teu lenço,
Quando a Morte vier,
Cobrirás meu rosto de marfim velho com teu lenço,
Quando a Morte vier;
E depois hão de levar-me para a Igreja,
Quando a Morte vier,
E começarão os ofícios na Igreja,
Quando a Morte vier;
E após hão de levar-me ao cemitério,
Quando a Morte vier;
E, para ver o enterro do Poeta, o povo inundará o cemitério,
Quando a Morte vier;
E depois hão de abrir meu pesado caixão,
Quando a Morte vier,
E hão de encher de cal o meu caixão,
Quando a Morte vier;
E nessa noite não dormirás um segundo,
Quando a Morte vier,
E há de parecer-te um século cada segundo.
Quando a Morte vier;
E, por minha alma, mandarás dizer trezentas missas,
Quando a Morte vier,
E, não mais sairás a não ser para as missas,
Quando a Morte vier,
E ninguém tornará a ver teus mansos olhos,
Quando a Morte vier,
E nunca mais haverá alegria nos teus olhos.

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