sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A Batalha de Toro (História)



A BATALHA DE TORO

Por muitas vezes hei escrito, e mais uma ainda aqui o faço, embora com isso se possam morder uns tantos mal sofridos, a quem a cega Fortuna tem dispensado inúmeros favores mais devidos a seus inexplicáveis caprichos, dela, do que ao mérito próprio, deles, e invejosos, apesar dos benefícios com que injustificadamente colmados, do valor real de outros a quem a mesma Fortuna tem sido sempre adversa; mais uma vez sobre tantas outras direi que é Antônio Francisco Barata, da Biblioteca de Évora, um dos mais talentosos, dos mais sabedores, dos mais conspícuos e benemerentes homens de letras do nosso país, e daqueles a quem devidos são mais respeitos e considerações; muito mais que tudo, e o muitíssimo que é e vale, bem documentado em todos os ramos, bem o posso dizer, da literatura, a si só e ao seu incansado e fadigoso labutar o deve, desajudado de todo o auxílio e proteção; e muito mais que a seu luminoso espírito, vasta erudição, e superior manusear da opulenta língua pátria, predicado hoje tão raro até entre os nossos escritores de primeira plana, reúne uma acendrada probidade literária, um indiscutível amor das coisas Portuguesas, e de suas glórias, um caráter levantado e austero, e uma hombridade respeitável e digna, não bandeados às conveniências ordinárias da vida.
Irresistivelmente me acodem estas palavras aos bicos da pena, ao lançar, em reduzida e modesta edição, ao nosso mundo literário, o breve trabalho por Antônio Francisco Barata escrito ao correr da pena e de momento, a propósito do que nas Reparaciones Históricas escreveu sobre a Batalha de Toro, o sábio acadêmico espanhol o Sr. Don A. Sanchez Moguel. Esta é que é uma verdadeira “reparação histórica”, muito para agradecer e louvar a quem a traçou.
(Vão aqui estas palavras, irresistíveis como o digo, e tanto como a força da verdade, à revelia do Sr. Antônio Francisco Barata, e bem receio que elas molestem sua conhecida modéstia. Se assim for, releve-mas ele com sua usual benevolência).
Rodrigo Veloso (1896)
*** 
1º DE MARÇO DE 1476
Desde que, há um ano, li o notável livro do Acadêmico Madrileno, o Sr. A. Sanches Moguel: Reparaciones históricas, impresso em Madrid em 1894, me ficaram desejos de revistar os conhecimentos que eu tinha, havia muito, acerca da Batalha de Toro, ou de Zamora, pois que o livro a isso me convidava nesta afirmativa: "Toro es, en efecto, el desquite de Aljubarrota", que se lê à página 292.
Permeando-se a meus desejos a feitura de um livro de história pátria: Monja de Císter, terminado e em via de publicidade, só agora vou mostrar ao ilustre amigo, sábio e catedrático o resultado da revista e confirmação do que eu tinha aprendido, em leituras antigas.
Primeiramente: para que Toro seja desquite (desforra) de Aljubarrota, importa estudar as circunstâncias, os pormenores dos dois combates. Em poucas palavras direi o que se colhe dos livros, tanto portugueses como castelhanos.
Ambas as batalhas se feriram em campina plana, ou levemente ondulada.
Combateram em Aljubarrota trinta mil castelhanos contra dez mil portugueses, números redondos.
O rei de Portugal batalhou a pé, como qualquer cavaleiro; os castelhanos traziam cavalaria, que os portugueses não tinham; traziam a rudimentar artilharia, os trons; logo: tinham por si o número, três vezes maior, artilharia e cavalaria.
Ninguém contesta a derrota total, formalíssima dos castelhanos em menos de meia hora!
Em Toro, ou Zamora, empenharam-se forças que não se estudaram ainda bem; uns dão maior número aos castelhanos (o que é natural) outros lhe concedem forças iguais ou quase iguais.
O rei de Castela não combateu na batalha de Toro; colocou-se a uma légua de distância (certamente lembrando Aljubarrota) e desatou a fugir mal viu volver costas a seis alas do seu exército, ante as forças esforçadas do filho de D. Afonso V; os portugueses levavam artilharia; o combate prolongou-se por três horas, com muita valentia de parte a parte; Afonso V não venceu; mas venceu o filho; logo:
A Batalha de Toro não foi a desforra da de Aljubarrota, porque para o ser, forçoso seria haver igualdade nos elementos constitutivos dos dois exércitos. Para uma coisa ser antítese de outra preciso é que o seja em todas as suas particularidades.
A Batalha de Toro foi ganha pelas forças de Castela contra as de Afonso V, por uma dessas eventualidades da guerra, que nem seus cabos explicam, muitas vezes, e a que as crenças religiosas chamam: a influência do Deus das vitórias. Não nego que o mesmo se possa dizer da de Aljubarrota; possível seria que São Jorge vencesse nela a Sant'Iago.
Mas a batalha de Toro foi ganha pelas forças do Príncipe D. João de Portugal e do Bispo de Évora, D. Garcia de Menezes, contra as seis alas do exército de Castela, que fugiram acossadas e desfeitas.
Em Aljubarrota não ficara um castelhano no campo, que não fosse ou morto, ou prisioneiro.
Em Zamora ficou senhor do campo em que se colocara depois da luta com os seus vencedores, o Príncipe de Portugal, D. João.
Será, pois, isto um desquite de Aljubarrota?
Entendo que não.
Se escreverem que o fora por ter posto fim à guerra desgraçada do ambicioso africano, entendo que sim.
Mas, não basta esta síntese de leitura feita, que tem ares dogmáticos: preciso é o mostrar como tanto portugueses, como castelhanos, como franceses, como alemães criticaram o combate de Toro. Começarei pelos de casa, como é natural:
 "E porém o Principe despois do desbarato que fez, ali onde acabou de recolher sua jente, esteve no campo em hum corpo çarrado sem nunca mover atrás sua bandeira..." (Ruy de Pina: Crônica de D. Afonso V, cap. 191.)
 — "El Principe al tiempo del fracaso padecido de su Padre iva seguindo el alcance de las seis alas ia rotas, pero quando entendió lo que pasava (a derrota do pae) aun que non pudo revocar a todos de la corriente que levavam apiñose con los que pudo i otros que de otra parte de su Padre vencida se le acercaron, en una elevacion..."
  "Fué vencida esta parte; (a de Afonso) confesamoslo; sin que lo doremos. Pero el huir una del campo i quedar otra vitoriosa en el varrido de los contrarios, digan los doctos en los estudios militares que nombre há de tener, mientras io que no los professo no sé como le hé de lamar, pues halo quien no quiere que le lamemos vitoria..." (Faria e Sousa: Europa Port. 2º pág. 407.)
"...a nosso Senhor aprouve que nos deixassem o campo, adonde com gloriosa vitória permanecemos vencedores..." (Carta de D. João II fazendo mercê a Lourenço de Faria, seu alferes. Torre do Tombo, L. 2º da Extremadura, pág. 274.)
— Porém depois, tocado de ambição
 E glória de mandar, amara e bela,
 Vai cometer Fernando de Aragão,
 Sobre o potente reino de Castela.
 Ajunta-se a inimiga multidão
 Das soberbas e várias gentes dela,
 Desde Cadix ao alto Pireneu,
 Que tudo ao rei Fernando obedeceu.
Não quis ficar nos reinos ocioso
 O mancebo Joanne; e logo ordena
 De ir ajudar ao pai ambicioso,
 Que então lhe foi ajuda não pequena.
 Saiu-se enfim do trance perigoso
 Com fronte não turvada, mas serena,
 Desbaratado o pai sanguinolento;
 Mas ficou duvidoso o vencimento;
Porque o filho sublime e soberano,
 Gentil, forte, animoso cavaleiro,
 Nos contrários fazendo imenso dano
 Todo um dia ficou no campo inteiro
(Camões: Lusíadas C. IV est. 77-78 e 79).

"… em que cada um dos exércitos ficou meio vencedor, meio vencido…"
"O Principe D. João depois de seguir & de perseguir por largo espaço aos que vencera, & lhe fugião, voltando a soccorer seu pay, e achando-o vencido, se manteve no campo, senhor d'elle, como vencedor…" (F. de S. Maria: Ano Histórico, tom. 1º pág. 278).
“Derrotado D. Affonso fugiu de noite para Castro Nuño. D. Fernando fugiu tambem para Zamora. O Principe vencedor ficou no campo, onde esteve tres dias” (Damião de Gões: Crônica do Príncipe D. João, cap. 78-79).
"Le fils à Alphonse V, ayant culbuté partout les ennemis, resta maitre du champ de bataille et put se croire vainqueur" (A. A. Teixeira de Vasconcelos: Portugal et la maison de Bragance, pág. 537).
"O Principe ficou no campo cõ sua victoria e não curou seguir o alcance…" (Acenheiro, Inéditos da Hist. Port. T. 5º pág. 273).
Não cito mais portugueses, por inútil, para mostrar o que escreveram os Castelhanos, que devem ser insuspeitos:
"D. Enrique conde de Alla de Liste llegó em seguimento de los que huian hasta la puente de Toro: a la vuelta fué preso por cierta banda de sol enemigos que con Don Juan Principe de Portugal sin ser desbaratados se estuvieron en un altozano en ordenanza hasta muy tarde" (Mariana: Hist. L.º XXIV, cap. X pág. 165).
"Il fut long et sanglant; et quoique les Castillans fussent les plus forts, la victoire pencha plusieurs fois du côté des Portuguais…" (Romay: "Histoire" etc. cap. XVII).
"Ferdinand défit l'aile droite des ennemis, commandée par Alphonse; mais le Prince de Portugal eut la même avantage sur le Castillan…" (Dictionnaire des Batailles, Paris, 1771 t. 3º).
"Pudiera esta victoria costar muy caro, si el Principe de Portugal, que tuvo siempre su esquadron en ordenança, y estava muy cerca de las riberas del rio, acometiera a los nuestros, que andavan van desordenados, y esparzidos…" (Çurita: Anales de Aragon, t. 4º L.º XIX Ediç. de 1610).
"El Principe Don Juan se albergó con una parte del exercito baxo las murallas de Toro…" (D. Adão Soares Compendio historico de los Reyes de el Aragon, Madrid, 1797, t. 2º, pág. 312).
"Les succés de cette bataille fut assez douteux…" (Abregé chronologique de l'histoire de Espagne et de Portugal (Paris, 1765, t. 1º pág. 694).
"L'aile gauche de l'armée Portugaise s'etant ébranlée en bel ordre, l'aile droite des Castillans se mit en état de la recevoir par le même mouvement; mais les arquebusades ayant joué avec beaucoup de furie, & le choc étant violent de la part des Portugais, les Castillans pliérent & prirent la fuite…" (Colmenar: Anales d'Espagne et de Portugal, tom. 1º pág. 299).
"E luego aquelles seis capitanes castellanos, que abemos dicho que iban à la mano derecha de la batalla del Rey contra los quales vino à encontrar el Principe de Portugal y el Obispo de Ebora, volvieron las espaldas, é se pusieron en fuida…" (Hernando de Pulgar: Cron. de los reis catolicos. Valência, 1780, pág. 87).
"El Principe de Portugal, visto que la gente del Rey su padre era vencida é desbaratada, pensando reparar algunes de los que iban fuyendo, sobióse sobre un cabezo, à donde tañendo las trompetas, é faciendo fuegos, é recogiendo su gente, estuvo quedo con su batalla, é no consentió salir della à ninguno…" (O mesmo Pulgar, pág. 89).
"El Principe eredero de Portugal conosciendo-se vencido el Rey su padre, acogiose a un lugar alto com su esquadro donde recogio a los que podia…" (Garibay: Chron. d'Espana, T. 2º L.º VIII, pág. 1276 in fine).
"La batalla de Toro, aunque no tan funesta para los portuguezes como habia sido la de Aljubarrota para los Castellanos…" (C. Ximenez de Sandoval: Batalla do Aljubarrota, pág. X).
"Ferdinand défit l'aile droite des ennemis commandée par Alfonse, mais le Prince de Portugal eut le même avantage sur le Castillan…" (Desormeaux: Abregé chronologique de l'histoire d'Espagne, Paris. 1758, t. 3º, pág. 25).
"A la fin, le prince resta seul sur le champ de bataille en vainqueur aprés la défaite du corps principal. Jusqu'au moment de cette défaite, João avait poursuivi les six divisions battues par lui…" (Schaeffer: Histoire de Portug. pág. 555).
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Basta; mais citações de boas autoridades poderia lembrar, se me não tornara fastidioso.
Vê-se de portugueses, castelhanos, de franceses e de outros que a afirmativa do Sr. Moguel foi patriótica em demasia.
Bem disse Fernão Álvares do Oriente:
"As coisas todas a aparência têm
 Conforme os olhos são com que se vêm".
O Sr. Moguel viu a batalha de Toro com olhos de castelhano (não de espanhol, como a todos nos considera os habitantes da Península) eu vejo-a com os de português; porque força é dizê-lo as duas nações existem autônomas, apesar da natureza ter formado para ambas dos Pirineus ao extremo ocidente da Europa este trato de terra fertílimo da Península, que a política e a história retalharam, não direi para sempre; mas para enquanto Portugal for cobiçado, e se poder equilibrar na balança dos interesses europeus.
Para muito escrever é o assunto, se aqui fora lugar para isso.
Em vista do que aí fica escrito e transcrito, para mim, nascido em Portugal, sem animadversão nenhuma, a Batalha do Toro não foi a desforra da de Aljubarrota. Não a tem mesmo na história.
Foi um combate indeciso.
Rocio d'apar, S. Braz d'Évora,
24 de dezembro de 1895.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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