domingo, 23 de fevereiro de 2020

A questão matrimonial em o "Livro de uma sogra" (Resenha)



A questão matrimonial no "Livro de uma sogra"
O primeiro livro brasileiro que conheço em que o casamento é posto em questão e discutido nos seus elementos e nos seus efeitos é o recente Livro de uma sogra do Sr. Aluísio Azevedo.
Não é nova a tese, como não são novos os paradoxos que a sustentam, do livro do Sr. Aluísio Azevedo, o que aliás lhe não diminui o valor. O talento do autor, porém, renovou um tema que foi uma das preocupações dos inexequíveis psicólogos da Igreja e deles passou ás literaturas menos superficiais que a da nossa língua. Nela mesmo, nos ponderosos sermonários e livros de devoção ou moral, não seria porventura difícil encontrá-la. Um descendente espiritual daquela corrente de moralistas eclesiásticos, o padre Antônio Vieira, uma das almas mais curiosas e mais interessantes da raça portuguesa, formulou-a quase duzentos e cinquenta anos antes do Sr. Aluísio Azevedo nestas palavras que puderam servir de epígrafe e resumo ao Livro de uma sogra:
"... qual é ou será a razão ou razões, — pergunta ele no sermão da degolação de São João Batista — porque do vínculo do matrimônio forme tantos laços a natureza ao homem, e lhe seja tão dificultoso no matrimônio o guardar a devida fé a uma mulher, e própria? A familiaridade doméstica, o trato contínuo, e domínio comum de todos os bens e o serem como duas almas em um só corpo... parece um concurso de causas, que todas conformemente influem união, paz e contentamento; mas de todas, e de cada uma delas, nasce a mesma dificuldade. O trato doméstico e comum de todos os dias descobre, pouco e pouco, os defeitos que causam o desagrado. O ser a mulher a mesma, sem a variedade que remediava o repúdio, é a ocasião do fastio. Enfastiavam-se os hebreus do maná, posto que continha todos os sabores, porque sempre viam o mesmo... A união que ao princípio do matrimônio eram cadeias de ouro, continuadas as faz o tempo de ferro. Com os anos as mesmas coisas deixam de ser as mesmas; porque a mocidade se faz velhice, a formosura fealdade, a saúde doenças e achaques de toda a vida, que na obrigação de se tolerarem, e sofrerem até a morte, são um cativeiro inseparável que só nela tem fim."
Tudo isto está no livro do Sr. Aluísio Azevedo, inclusive a comparação entre o amor e o apetite, o coração e o estômago. Somente no padre jesuíta o acepipe que acode ao símile é o maná, no romancista contemporâneo o faisão dourado — com a qual aliás os estômagos indígenas apenas terão tido relações literárias.
Dou por conhecido do leitor o Livro de uma sogra. Creio que ele concordará comigo que o Sr. Aluísio Azevedo contou demais com a nossa complacência em lhe aceitarmos sem dificuldade a obscura psicologia do casal de D. Olímpia e seu marido e das causas de sua ruptura, causas todas de ordem intelectual, imaginativa, subjetiva. "Não se poderia desejar casamento mais equilibrado, nem se poderia conceber um par mais harmonioso, e até mais simétrico", diz D. Olímpia do seu próprio casal. Apesar de tudo foram "os dois um casal de infelizes" e tiveram de separar-se. Por quê! Eis, e o próprio autor o confessa, o difícil de explicar. Realmente não há no livro explicação que satisfaça, e a análise que dos sentimentos próprios e do marido faz D. Olímpia se resume na sua mesma conclusão: não puderam ser felizes porque eram obrigados a viver juntos. Generalize-se o caso e este mundo é pura e simplesmente um habitáculo de desgraçados; cada casal, dois infelizes; cada lar, um inferno. É, no caso de D. Olímpia e o marido, ao que leva a psicologia simples, ou antes simplista, e fácil do Sr. Aluísio Azevedo. Não lha contestemos porém. Aceitemo-la pelo que vale, embora seja ela, assim falsa, a cavilha mestra de toda a construção.
A falsidade desta concepção, porém, não está somente na incoerência ou antes incongruência entre os dados conhecidos e o resultado exposto, senão em que de um caso particular que pode ser verdadeiro, se generalizou para dele concluir que a convivência matrimonial é a causa da infelicidade doméstica. Ora, como se não compreende matrimônio sem convivência, a conclusão seria contra o matrimônio, a favor de uma situação que só tem similar na prostituição ou no concubinato periódico.
"A invariável convivência matrimonial é a grande razão da corrente infelicidade domestica, é a causa imediata da fatal desilusão dos cônjuges, mesmo daqueles que se casam por amor legítimo e verdadeiro, é fonte de inevitável desgraça para a vida inteira..." Da experiência de um casamento que, segundo todas as nossas triviais noções de lógica, de senso comum, de prática da vida, devia de ser felicíssimo, contraído nas melhores condições materiais e morais, intelectuais e físicas, e que no entanto redundou numa união desgraçadíssima, tirou D. Olímpia esta sua amarga e desalentada doutrina do casamento. Aceitemo-la como motivada e justa, e vejamo-la na aplicação. A heroína do Sr. Aluísio Azevedo vê onde a levam as suas deduções, mas querendo obter para a filha de par com a felicidade doméstica, que lhe não foi dado ter, as vantagens sociais, preferiu o casamento ao concubinato, atenuado aquele por uma situação que no teatro seria de um cômico irresistível. O marido moraria em Laranjeiras, a mulher, sob a guarda vigilante dela, a sogra, em Botafogo. As localidades, aliás, em que pudessem habitar, não influem na solução deste problema de felicidade doméstica, em que falta apenas a casa. O casal constitui-se, pois, assim, cada um na sua residência — sem que a criadagem, os amigos, a vizinhança, as visitas, a sociedade a que pertencem e que frequentam pareçam estranhar esta esquisita e rara vida conjugal. O marido é um singular personagem, que aceita uma combinação de melodrama e esta ridícula situação de só o ser com consentimento da sogra porque "estava irremediavelmente perdido de amores; e a moça era muito rica e ele o que se pode chamar pobre". E assim entraram a viver.
Aqui bate outro ponto fraco do Livro de uma sogra. A felicidade, que à vista daquelas premissas, devia resultar deste meio termo entre o casamento e o concubinato não a sentimos, em todo o decurso dos acontecimentos que ele nos reconta. E não há ninguém, a não ser algum desequilibrado ou amoral, algum romântico retardatário e telhudo, que trocasse na vida doméstica o seu monótono e mesquinho viver caseiro, mesmo com as pequenas misérias que nos descreve o Sr. Aluísio Azevedo, pela de Leandro e da inconsciente da mulher. A conclusão do livro não justifica as medidas tomadas por D. Olímpia para fazer a felicidade da sua Palmira. Compreende por fim que não lhe deu senão uma parte da felicidade, a menos nobre, a mais grosseira, a mais contingente, pois que assenta apenas na mocidade e nas vantagens físicas que com ela se vão. Então, alumiada pelo seu próprio amor casto ao Dr. César, com quem contrai no fim da vida uma espécie de união mística, que o catolicismo devia inventar e consagrar e que o positivismo preconizará, volta-se para outra conclusão cujo valor veremos adiante.
Tal é, na sua ideia geral, este livro, frequentemente paradoxal e contraditório, por vezes exato e verdadeiro, desigual e difuso no estilo e na contextura, mal inspirado na ação, que é de baixa comédia, ousado, embora sem nenhuma originalidade nas ideias, imoral em suma, mas sugestivo e, no meio da nossa atual produção, distinto... Pode ser que o próprio autor não lhe desse maior importância que a de um tema tentador para suas faculdades de artista; mas com intenção ou sem ela, é o mesmo casamento que ele discute e nega. Por ele entrou, pois, a questão na nossa literatura.
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JOSÉ VERÍSSIMO
Estudos de Literatura Brasileira (1901)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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