domingo, 23 de fevereiro de 2020

Camilo Castello-Branco (Resenha)



Camilo Castello-Branco
Seria inexplicável a prodigiosa fecundidade deste romancista, e ao mesmo tempo a sua inexcedível popularidade, se a sua profunda erudição, o conhecimento que tem das galas da nossa linguagem, e a calorosa eloquência, que jorra em borbotões do seu espírito ardente, não explicassem a justiça prestada pelo público a méritos que raras vezes aplaude, e a abundância dos romances criados por uma fantasia que se não compraz em variar enredos, nem em inventar peripécias absurdas. O colorido sempre apropriado mas sempre vivo dos seus quadros, o graciosíssimo chiste das suas observações, e sobre tudo a animação do seu estilo, o vigor da sua narração fazem apetecidos de todos os seus livros, em que o estudo da sociedade não prejudica as qualidades literárias, e que nunca se tornam enfadonhos descrevendo o jogo das paixões, caricaturando os ridículos, flagelando, com a mais acerba ironia, o crime triunfante, o vício respeitado.
Em progresso incessante, Camilo Castelo Branco, se no princípio da sua carreira sacrificou sobre os altares da moda, ou se deixou desvariar pelas tentações do gênero “Balzac” pouco em harmonia com a sua índole essencialmente poética, com a sua férvida imaginação, com as suas predileções literárias, voltou a tempo ao bom caminho, e na segunda fase da sua existência de escritor resgatou plenamente os crimes de leso-bom-gosto, de que estavam réus alguns dos seus primeiros romances. Maior delicadeza de sentimentos, mais naturalidade na linguagem, maior viveza e suavidade no estilo mais foram os resultados da sua transformação. Andou Camilo Castelo Branco tenteando diferentes caminhos, sem acertar verdadeiramente com a viçosa estrada, para onde o impelia a sua brilhante inteligência. Se o seu talento o erguia às vezes às alturas do “Onde está a felicidade?” fazia-o outras vezes baquear nos tremedais dos “Mistérios de Lisboa.” Hoje Camilo caminha desassombrado pela via triunfal, obtendo sucessos após sucessos, conquistados não lisonjeando o gosto muitas vezes equívoco do público, mas brindando a nossa literatura com obras primas, de que ela se ufana, e que mostra com orgulho às nações estrangeiras.
Foi nesta segunda fase que eu o vim encontrar, quando principiei a escrever crítica literária. Prestei por conseguinte a devida homenagem a um vulto, que vi ir-se agigantando de momento a momento, e cujo esplendido diadema não cessara de se acrescentar com florões cada vez mais primorosos.

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PINHEIRO CHAGAS
Ensaios Críticos (1866)
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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