segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Camilo Castelo Branco: Traços Largos (Resenha)



Traços Largos
Camilo não se limitou, ainda nas amostras da sua constrangida tentativa realista, às fortes aquarelas, gravando na tela as imagens da podridão que anda por aí à vista de toda a gente.
Camilo não faz só estátuas com cinzel de mestre! Ele não se contenta com pintar os corpos a viverem os instintos da carne. Camilo pinta os corpos, dá-lhes cor, luz, movimento, na realidade evidente da vida material. Depois, pega-lhes na alma — a alma humana — que ele, na sua hipersensibilidade, vê em toda a sua essência; fá-la vibrar, até que tome vulto aos nossos próprios olhos, espargindo-a, como orla luminosa, em torno dos corpos, e dá execução ao — drama humano — vivido, palpável, real... tão real, que a nossa alma vibra com as almas que ele faz viver, tal como as cordas de um instrumento de música vibram quando se ferem ao pé as notas que lhes correspondem!...
E ergue-se diante de nós a epopeia do Destino, a infinita sinfonia trágica da Dor, que leva nas línguas ardentes das suas labaredas, até à luz pura, as almas esforçadas pelo sofrimento.
Camilo desdobra e firma o cenário dos corpos debaixo do céu e à luz do sol de Portugal, principalmente do Portugal originário, do Portugal do norte, com a expressão da língua, o fácies etnológico e moral da raça. Mas o drama, na sua essência psíquica, na chama do sentimento, na energia espiritual, é o drama da humanidade — a Dor — vivida pelo coração português.
A obra de Camilo, no aspecto em que principalmente a encaro, não pertence a Portugal, pertence à Humanidade.
Camilo não é um estragador de almas, erguendo os corpos em troféu sobre o pecado, glorificando os prazeres da matéria...
O cinismo, o visco do coração, o asco da alma, nem por sombras empobreceu a tempera augusta do seu gênio. Por isso, ele, grande entre os grandes na expressão real da dor do mundo, não foi nunca um pelotiqueiro de palavras ou de frases. Camilo era grande bastante, pelo sentimento e pelo gênio, para deixar ás gerações que o têm desdenhado, um exemplar sequer dessa macacaria — a que ousam chamar paradoxo — e para a qual ainda não achei parelha, como significado da impotência mental, da esterilidade na vida do sentimento, da ausência de beleza na arte e da charra pedantaria em literatura.
Ele até é grande quando nos faz rir! Porque o Camilo não nos desperta o riso com cócegas, isto é, com disparates.
Quando ele estende a vergasta numa cara antipática ou má, que isolou, e da qual nos fez a conveniente apresentação, nós rimo-nos do ridículo em que fica a estrebuchar o patife, o velhaco, o perverso, que ele arrastou pela gola do casaco à cena, como símbolo de patifes, velhacos e perversos sem conta.
O nosso riso é a manifestação da nossa concordância com um puxão de orelhas; é a exteriorização da harmonia da nossa consciência com a pena de ridículo aplicada a um mariola!
Camilo ilumina, para que as vejamos bem, as calosidades pustulentas da alma de certos exemplares-tipos do animal humano. Nós quedamo-nos a fitá-los, indignados. E quando o mestre, com um sorriso triste, lhes põe na face o cautério da ironia, derrancado-lhes as formas e condenando-os, para todo o sempre, a saracotear o corpo de macacos sob a gargalhada eterna da eterna multidão, nós aprovamos entusiasticamente, rindo-nos. O nosso riso é uma salva de palmas...
Não é o riso da alegria, que a alegria não tem riso! A alegria é a felicidade do espírito, é a beatitude, que pode ter sorriso, mas sorriso que é luz da alma, e que radia e paira sobre a epiderme, sem que a face humana se turve na ligeira sombra do mais leve movimento!
Não é o riso da alegria, não. É o riso-guizalhada, que nós penduramos na labita encarnada, que Camilo vestiu ao condenado à gargalhada eterna da eterna multidão!
Mas como disse o Camilo da minha predileção, é o que traduziu, tão maravilhosamente, na linguagem da sua Pátria, os dramas do coração português, no que ele tem de mais característico, de mais íntimo, de mais permanente, de mais belo, de mais seu, quando se trava a batalha nos abismos da dor, suspensa entre o demônio e Deus, entre o inferno e o céu, entre a matéria e o espírito, entre o corpo, ao mesmo tempo carrasco e libertador, e a alma, simultaneamente encarcerada e livre!
Neste aspecto formidável de beleza, de verdade, de realidade viva das convulsões trágicas da alma a subir para Deus, pela via tormentosa do mistério fisiológico da nossa raça, a obra de Camilo é um apocalipse! Cada capítulo é uma revelação! E os seus romances são livros de orações, exaltações do espírito, cânticos de amor, sinfonias de lágrimas, que voam aos céus, como astros nimbados de luz divina, a erguerem-se dos oceanos da dor, revoltos pela surda tormenta da eterna batalha entre os demônios e os anjos.
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CARLOS BABO
À beira do centenário de Camilo (1920).
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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