segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Camilo: O maior romancista português (Discurso)


Camilo: O maior romancista português
(Discurso)
Nascido em Lisboa, no Largo do Carmo, em 16 de março de 1825, começou para ele o deslizar cruel duma vida de aventuras e de luta, que uma nevrose hereditária exacerbou com tortura até o arrastar ao terrível ponto final do suicídio. A primeira, a incomportável desgraça que o feriu, foi a morte de sua mãe, D. Jacinta Marta Rosa de Almeida do Espírito Santo,
... mártir que passou
como ele diz numa poesia inserta em Um livro.
Camilo era filho natural de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, cavalheiro de Vila Rial, e foi batizado em Lisboa, na igreja dos Mártires, sendo seu padrinho o Dr. José Camilo Ferreira Botelho e madrinha Nossa Senhora da Conceição. Os dez primeiros anos da sua vida passou-os ele em companhia de seu pai, frequentando uma escola de primeiras letras do mestre João Inácio Luís Minas Júnior.
No perfil biográfico do visconde de Ouguela, seu condiscípulo nesta escola, diz Camilo:
Naquele ano de 1884 nos encontramos. Meu pai morreu. E como eu já não tivesse mãe nem fosse inteiramente pobre, a desgraça deparou-me parentes em Trás-os-Montes onde vim a entender que não há lágrimas bastantes a deplorarem o destino dum órfão com oito anos de idade, e as faces quentes e úmidas dos últimos beijos e das últimas lágrimas de seu pai.
Noutro livro, Duas horas de leitura, encontramos o seguimento da narrativa desta catástrofe:
Aos meus dez anos levantou-se uma tempestade no seio da minha família. Uma vaga levou meu pai à sepultura, outra atirou comigo de Lisboa, minha pátria, para um torrão agro e triste do norte.
Este torrão agro e triste era uma aldeola de Vila Rial. Para lá embarcou Camilo, acompanhado por sua irmã e uma criada, no vapor Jorge IV, por deliberação do conselho de família.
Dos bens de seu pai nada lhe tocou. Dura lex...
Foi bem pregada peça, diz ele, para que eu não tivesse a impudência de nascer, a despeito da moral jurídica, filho bastardo de não sei que nobre. Disseram-me que uma lei da Senhora D. Maria I me deserdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente para os filhos do pecado.
A criada que acompanhou Camilo na sua viagem de Lisboa a Vila Rial passou à posteridade na prosa inconfundível do Mestre. Chamava-se Carlota Joaquina: era uma mulher gorda e frescalhona que bolsava os fígados do beliche abaixo, e gritava “á del-rei”, de aflita com o enjoo.
Tinha razão para afligir-se a Sra. Carlota Joaquina. Uma tempestade sacudiu violentamente o vapor, obrigando-o a arribar a Vigo para não ir despedaçar-se de encontro às penedias da perigosa costa norte. O safar-se o barco a salvo de tão perigosa jornada incutiu no espírito religioso da boa velhota a ideia de transitar pelo Bom Jesus do Monte em romagem piedosa de agradecimento ao Senhor que apazigua as tempestades e dá ânimo e esperança aos corações que creem.
Uma vez cm Vila Rial encaminharam-se para a obscura aldeia da Samardã, onde iam residir e onde Camilo devia começar a sua educação literária na companhia amorável do padre Antônio de Azevedo, cunhado de sua irmã. Com ele ia aprender latim, cantochão, e ler Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões. A este sacerdote exemplar dedicou Camilo um dos seus melhores romances, O bem e o mal. Na sentida carta que lhe dirige, como dedicatória, Camilo recorda com saudade os anos que viveu na companhia desse padre e pergunta-lhe se ainda se recorda daquele incorrigível rapaz de 14 anos que ia à venda da Serra do Mésio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada muitas vezes.
Esse rapaz sou eu; é este velho que lhe escreve aqui do cubículo dum hospital, muito vizinho ao cemitério dos Prazeres. Eu sou aquele a quem padre Antônio de Azevedo ensinou os princípios de solfa, e as declinações da arte francesa. Sou aquele que leu em sua casa as “Viagens de Ciro”, o “Teatro dos Deuses”, os “Lusíadas”, as “Peregrinações” de Fernão Mendes Pinto e outros livros, que foram os primeiros. Sou aquele que, sem saber latim, rezava matinas, laudas, terça, sexta, etc., com padre Antônio. Sou, finalmente, aquele, a quem padre Antônio disse: o tempo há de fazer de você alguma coisa.
A profecia do bondoso sacerdote cumpriu-se no volver dos anos, como os senhores sabem: Camilo foi efetivamente alguma coisa — o maior romancista português e o mais desgraçado de todos os homens.


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OLDEMIRO CÉSAR
Camilo Castelo Branco: sua vida e sua obra (1914)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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