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2/24/2020

Camilo: O maior romancista português (Discurso)


Camilo: O maior romancista português
(Discurso)
Nascido em Lisboa, no Largo do Carmo, em 16 de março de 1825, começou para ele o deslizar cruel duma vida de aventuras e de luta, que uma nevrose hereditária exacerbou com tortura até o arrastar ao terrível ponto final do suicídio. A primeira, a incomportável desgraça que o feriu, foi a morte de sua mãe, D. Jacinta Marta Rosa de Almeida do Espírito Santo,
... mártir que passou
como ele diz numa poesia inserta em Um livro.
Camilo era filho natural de Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, cavalheiro de Vila Rial, e foi batizado em Lisboa, na igreja dos Mártires, sendo seu padrinho o Dr. José Camilo Ferreira Botelho e madrinha Nossa Senhora da Conceição. Os dez primeiros anos da sua vida passou-os ele em companhia de seu pai, frequentando uma escola de primeiras letras do mestre João Inácio Luís Minas Júnior.
No perfil biográfico do visconde de Ouguela, seu condiscípulo nesta escola, diz Camilo:
Naquele ano de 1884 nos encontramos. Meu pai morreu. E como eu já não tivesse mãe nem fosse inteiramente pobre, a desgraça deparou-me parentes em Trás-os-Montes onde vim a entender que não há lágrimas bastantes a deplorarem o destino dum órfão com oito anos de idade, e as faces quentes e úmidas dos últimos beijos e das últimas lágrimas de seu pai.
Noutro livro, Duas horas de leitura, encontramos o seguimento da narrativa desta catástrofe:
Aos meus dez anos levantou-se uma tempestade no seio da minha família. Uma vaga levou meu pai à sepultura, outra atirou comigo de Lisboa, minha pátria, para um torrão agro e triste do norte.
Este torrão agro e triste era uma aldeola de Vila Rial. Para lá embarcou Camilo, acompanhado por sua irmã e uma criada, no vapor Jorge IV, por deliberação do conselho de família.
Dos bens de seu pai nada lhe tocou. Dura lex...
Foi bem pregada peça, diz ele, para que eu não tivesse a impudência de nascer, a despeito da moral jurídica, filho bastardo de não sei que nobre. Disseram-me que uma lei da Senhora D. Maria I me deserdava. A boa da rainha, se tivesse amado mais cedo um certo bispo, não legislaria tão cruamente para os filhos do pecado.
A criada que acompanhou Camilo na sua viagem de Lisboa a Vila Rial passou à posteridade na prosa inconfundível do Mestre. Chamava-se Carlota Joaquina: era uma mulher gorda e frescalhona que bolsava os fígados do beliche abaixo, e gritava “á del-rei”, de aflita com o enjoo.
Tinha razão para afligir-se a Sra. Carlota Joaquina. Uma tempestade sacudiu violentamente o vapor, obrigando-o a arribar a Vigo para não ir despedaçar-se de encontro às penedias da perigosa costa norte. O safar-se o barco a salvo de tão perigosa jornada incutiu no espírito religioso da boa velhota a ideia de transitar pelo Bom Jesus do Monte em romagem piedosa de agradecimento ao Senhor que apazigua as tempestades e dá ânimo e esperança aos corações que creem.
Uma vez cm Vila Rial encaminharam-se para a obscura aldeia da Samardã, onde iam residir e onde Camilo devia começar a sua educação literária na companhia amorável do padre Antônio de Azevedo, cunhado de sua irmã. Com ele ia aprender latim, cantochão, e ler Fernão Mendes Pinto e Luís de Camões. A este sacerdote exemplar dedicou Camilo um dos seus melhores romances, O bem e o mal. Na sentida carta que lhe dirige, como dedicatória, Camilo recorda com saudade os anos que viveu na companhia desse padre e pergunta-lhe se ainda se recorda daquele incorrigível rapaz de 14 anos que ia à venda da Serra do Mésio jogar a bisca com os carvoeiros, e a bordoada muitas vezes.
Esse rapaz sou eu; é este velho que lhe escreve aqui do cubículo dum hospital, muito vizinho ao cemitério dos Prazeres. Eu sou aquele a quem padre Antônio de Azevedo ensinou os princípios de solfa, e as declinações da arte francesa. Sou aquele que leu em sua casa as “Viagens de Ciro”, o “Teatro dos Deuses”, os “Lusíadas”, as “Peregrinações” de Fernão Mendes Pinto e outros livros, que foram os primeiros. Sou aquele que, sem saber latim, rezava matinas, laudas, terça, sexta, etc., com padre Antônio. Sou, finalmente, aquele, a quem padre Antônio disse: o tempo há de fazer de você alguma coisa.
A profecia do bondoso sacerdote cumpriu-se no volver dos anos, como os senhores sabem: Camilo foi efetivamente alguma coisa — o maior romancista português e o mais desgraçado de todos os homens.


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OLDEMIRO CÉSAR
Camilo Castelo Branco: sua vida e sua obra (1914)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

12/23/2019

Alexandre Herculano, um homem de caráter (Discurso)



Alexandre Herculano, um homem de caráter

Alexandre Herculano era um daqueles homens em quem se acham reunidos os predicados mais opostos; possuía uma sensibilidade ardente e uma profundeza admirável, uma imaginação vulcânica e uma grande perspicácia na investigação da verdade; a sua inteligência era eminentemente analítica e sintética; o seu espírito era simultaneamente poético e filosófico; nas suas obras encontra-se um estilo ao mesmo tempo simples e solene, conciso e enérgico, claro e imaginoso, sóbrio e elegante. Era verdadeiramente assombroso o poder e a harmonia das suas faculdades. Herculano foi um dos gênios mais notáveis do seu século e do seu país; ninguém ainda revelou uma sensibilidade mais enérgica e varonil do que ele. Em todas as literaturas raríssimas vezes se encontra um escritor dotado ao mesmo tempo de aptidões tão elevadas e numerosas.

Não se deve estudar a vida de Herculano independentemente das suas obras, porque em todas se revela o fogo sagrado que o anima, a sua grande imaginação, a poderosa energia do seu temperamento, a rigidez do seu caráter, o seu ardente entusiasmo por tudo quanto é nobre e belo, o seu amor da ciência e da virtude, a sua paixão pela liberdade e a sua profunda abnegação; numa palavra, porque em todas as suas obras está vigorosamente estampado o seu nobre caráter e o seu grandioso espírito.

A índole eminentemente poética e filosófica de Herculano revelou-se desde a infância; as impressões que se experimentam nos primeiros anos da vida têm grande analogia com as inclinações dos últimos anos: nas tendências infantis já se descobre o que se há de vir a ser na idade de homem.

Pelos escritos de Herculano conhecemos muitos fatos da sua vida, narrados com a sinceridade que caracterizava o eminente escritor. No Monge de Císter diz ele, referindo-se aos dias santos dos seus tenros anos: "A tarde corria pela relva com os outros moços da minha idade, e travava lutas e gritava e ria e suava e tripudiava nos jogos e brinquedos, que são próprios daquela idade; mas, quando o sol descia para o horizonte, ia assentar-me à sombra de uma grande nogueira, sozinho, a ouvir cair num tanque uma pequena bica d'água, e ali ficava muito tempo a cismar. Em quê? Eu sei lá! Em nada, provavelmente. Mas cismava e sentia levantar-se-me no coração um fumosinho de tranquila melancolia, fumosinho que se condensava brevemente nos olhos em lágrimas, que não chegavam a rolar, mas que neles bailavam. E ali me achava a noite, e buscavam-me, e desfaziam-me o encanto, mas ticava-me cá a saudade..."

Estas palavras eloquentes e repassadas da mais veemente poesia mostram-nos que já na sua infância Herculano revelava uma grande tendência para a solidão, um temperamento melancólico, um espírito assaz meditabundo, um coração muito impressionável, uma alma verdadeiramente poética, onde se começava a acender o amor da natureza. As suas tendências infantis não denunciariam já o grave e austero solitário de Vale de Lobos? Aquela criança prodigiosa, que se afastava dos seus companheiros para meditar, havia de ser mais tarde o vigoroso cantor da Semana Santa e da Arrábida, o sublime idealista do Eurico e o renovador dos estudos históricos em Portugal.

Para bem se avaliarem os escritos e as opiniões de Herculano é mister que examinemos a sua educação. Não há homem algum, por maior que seja o seu espírito, em quem a educação não exerça uma poderosa influencia; são profundos os vestígios que deixam no espírito os primeiros hábitos e ideias.

Herculano era naturalmente religioso como a maior parte dos grandes poetas, mas a educação que recebeu contribuiu poderosamente para que no seu espírito ficassem profundamente gravadas as crenças cristãs. Estas crenças foram certamente modificadas pelo espírito filosófico de que a natureza o dotara, mas, embora chegasse a combater com a maior energia os novos dogmas que Roma introduziu no catolicismo, nunca em seu espírito se extinguiu a religiosidade, nunca renegou um só dos princípios fundamentais do verdadeiro cristianismo. Em toda a sua vida foi um crente sincero, um entusiasta da moral evangélica, um espiritualista ardente. Era um velho católico, um sectário intransigente da igreja primitiva. Foi considerado herege por uma grande parte do clero, mas aquele herege era um verdadeiro cristão, que não admitia inovações no catolicismo nem transigia com a Companhia de Jesus.

A luta que se travava no seu espírito entre a fé e o raciocínio, entre a religião e a filosofia, e que só pode ser devidamente avaliada por aquelas almas apaixonadas que, depois de receberem uma educação eminentemente cristã, se acham invadidas pelo verme roedor do ceticismo, essa luta dolorosa em que se estorce a alma do crente ilustrado está admiravelmente descrita no magnífico prólogo do "Pároco d'aldeia", onde se encontra o seguinte trecho, cuja sublimidade rivaliza com a dos mais belos monumentos da poesia religiosa de todos os séculos:

"Feliz a inteligência vulgar e rude, que segue os caminhos da vida com os olhos fitos na luz e na esperança postas pela religião além da morte, sem que um momento vacile; sem que um momento a luz se apague ou a esperança se desvaneça! Para ela não há abraçar-se com a cruz em ímpeto de agonia, e clamar a Jesus: — "Creio, creio, oh Nazareno! Creio em ti, porque a tua moral é sublime; porque eras humilde e virtuoso; porque, filho da raça sofredora e austera chamada o povo, eras meu irmão, e não podias, tão bom, tão singelo, tão puro, enganar teu pobre irmão. Creio, creio, oh Nazareno! porque até à hora de expirar na ignomínia, até á hora da grande prova, nunca desmentiste a tua doutrina. Creio, creio, oh Nazareno! porque tu só nos explicaste o mistério desta associação monstruosa da saúde, do ouro, do poderio e dos crimes a um lado, e a da enfermidade, da pobreza, da servidão e da inocência a outro; porque nos explicaste como os destinos humanos se compensavam além do sepulcro. Creio, creio, oh Nazareno! porque só tu soubeste revelar a consolação à extrema miséria sem horizonte, e os terrores à completa felicidade sem termo na vida colocando no lugar do destino a Providência, e no do nada a imortalidade ! Creio, creio, oh Nazareno! porque a intensidade do teu viver é um impossível humano; a vitória da tua doutrina severa contra a filosofia e o paganismo, um milagre; a glória do teu nome de supliciado maior que todas as glórias das mais altas e virtuosas inteligências do mundo. Mas foste na verdade um Deus?"

Como é profundamente arrebatador este belíssimo trecho, onde o sentimento religioso é expresso com tanto vigor como nos Pensamentos de Pascal ou nos Sermões de Bossuet e onde a concisão e a harmonia se reúnem do modo mais assombroso! No eloquentíssimo prólogo do "Pároco d'aldeia" há mais profundeza, energia e solenidade do que nos mais belos capítulos do "Gênio do cristianismo" de Chateaubriand. Este admirável prólogo é um' verdadeiro poema filosófico, onde se revela um raciocínio vigoroso aliado a uma pujante imaginação e ardentíssima sensibilidade.

Como Pascal, Herculano caiu no ceticismo filosófico e, vendo quão profundas eram as dores que a dúvida produzia na sua alma e quão grande era a fraqueza da razão humana, abraçou-se com a cruz, procurando refúgio na religião, que era para ele uma fonte perene de consolações e onde encontrava tudo quanto havia mais belo e grandioso para o seu coração ardentíssimo, tudo quanto podia satisfazer a sua grande imaginação de poeta. Para Herculano o cristianismo era não só a mais sublime de todas as religiões mas a causa principal da civilização moderna. Não ensinou Cristo que todos os homens eram iguais perante Deus, isto é, perante a Justiça eterna? Não foi ele quem primeiro pregou a fraternidade universal e a tolerância? Não causaram as suas palavras vibrantes e sonoras, os seus discursos profundamente liberais tanto susto aos tiranos e hipócritas?

Para Herculano o cristianismo era um fato altamente grandioso não só pelo lado poético mas também pelo lado social; para ele tinham uma significação profundamente análoga estas duas palavras: redenção e liberdade.

Em Herculano havia duas almas, que mantinham entre si um perfeito equilíbrio: uma, religiosa e poética; outra, filosófica e propensa ao ceticismo. A primeira fez dele um escritor de primeira ordem; a segunda, um pensador profundo, que eliminou da nossa história tudo quanto nela havia fantástico e milagroso...

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DIOGO ROSA MACHADO
"Alexandre Herculano: Conferência, 1900".
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

11/03/2019

Euclides da Cunha: Academia Brasileira de Letras (Discurso de Recepção)














Academia Brasileira de Letras
(Discurso de Recepção)
Há dois anos entrei pela primeira vez naquele estuário do Pará, “que já é rio e ainda é oceano”, tão ineridos estes fácies geográficos se mostram à entrada da Amazônia.
Mas contra o que esperava não me surpreendi...
Afinal o que prefigurara grande era um diminutivo: o diminutivo do mar, sem o pitoresco da onda e sem os mistérios da profundura. Uma superfície líquida, barrenta e lisa, indefinidamente desatada para o norte e para o sul, entre duas fitas de terrenos rasados, por igual indefinidos, sem uma ondulação ligeira onde descansar a vista. De permeio baixios indecisos, varridos das maretas, mal desenhando-se grosseiramente à tona, à maneira de caricaturas de ilhas; ou ilhas rasas, meio sorvidas pelas marés encharcadas de brejos – uma espécie de naufrágio da terra, que se afunda e braceja convulsivamente nos esgalhos retorcidos dos mangues... Por cima os céus, resplandecentes e vazios, recortando-se no círculo perfeito dos horizontes como em pleno Atlântico. Nada mais.
Calei um desapontamento; e no obstinado propósito de achar tudo aquilo prodigioso, de sentir o másculo lirismo de Frederico Hartt ou as impressões “gloriosas” de Walter Bates, retraí-me a um recanto do convés e alinhei nas folhas da carteira os mais peregrinos adjetivos, os mais roçagantes substantivos e refulgentes verbos com que me acudiu um caprichoso vocabulário... para ao cabo desse esforço rasgar as páginas inúteis onde alguns períodos muito sonoros bolhavam, empolando-se, inexpressivos e vazios.
Desci para um escaler. Saltei em Belém. E a breve trecho achei-me naquele Museu do Pará, onde se sumariam as maravilhas amazônicas.
Lá encontrei dois homens: Emílio Goeldi, que é um neto espiritual de Humboldt, e o Dr. Jacques Huber, menos conhecido, botânico notabilíssimo, bem que nada nos recorde dessas figuras oleográficas de sábio saxônico, de faces engelhadas e ralas farripas melancólicas.
É um espirito sutilíssimo servido por um organismo de atleta, entroncado e maciço: vir quadratus, como deve ser o naturalista, porque as ciências naturais exigem hoje uma sorte de titães pensadores, em que os músculos cresçam com o cérebro, por maneira que a inervação vibrátil e poderosa se justaponha a uma compleição inteiriça e resistente feita para as rudes batidas no deserto. Aquele sábio resolve um passeio de seiscentas léguas, de Belém às margens do Ucaiale, em menos tempo que qualquer de nós uma viagem até à Gávea.
Atravessei a seu lado duas horas inolvidáveis – e ao tornar para bordo levei uma monografia onde ele estuda a região que me parecera tão desnuda e monótona.
Deletreei-a a noite toda; e na antemanhã do outro dia – um daqueles glorious days de que nos fala Bates, subi para o convés de onde, com os olhos ardidos de insônia, vi, pela primeira vez, o Amazonas...
Salteou-me, afinal, a comoção que eu não sentira. A própria superfície lisa e barrenta era mui outra. Porque o que se me abria às vistas desatadas naquele excesso de céus por cima de um excesso de águas, lembrava (ainda incompleta e escrevendo-se maravilhosamente) uma página inédita e contemporânea do Gênesis.
Compreendi o ingênuo anelo de Cristóvão da Cunha: o grande rio devera nascer no Paraíso.
Atentei outra vez nos baixios indecisos, nas ilhas ou pré-ilhas meio diluídas nas marejadas – e vi a gestação de um mundo. O que se me afigurara um bracejo angustioso era um arranco de triunfo. Era a flora salvando a terra numa luta onde vislumbra uma inteligência singular: aqui, enfileirando as aningas de folhas rijas, rebrilhantes e agudas à feição de lanças, em estacadas unidas para o combate das águas; além, estendendo diante das correntezas refertas de sedimentos os retiários e os filtros das canaranas e dos aturizais; por toda a banda, alongando e retorcendo os tentáculos flexíveis dos mangues em urdiduras inextricáveis, em cujas malhas infinitas o lodo quase diluído vai transmudando-se em solo resistente; inventando depois a anomalia dos arbustos-cipós e ajustando sobre tudo aquilo os longos traços de união dos galhos estirados das apuiranas e dos juquiris – até acravar-se no primeiro firme, que se vai construindo um alto miritizeiro, abrindo no azul os seus enormes leques sussurrantes e prenunciando a floresta que vem logo após, impressionadora e majestosa, destruindo de repente toda a monotonia daquela imensidade nivelada com as frondes das samaúnas, altas e redondas, a ondearem nos sem-fins das paisagens como se fossem colinas...
Compreendi os mesmos céus resplandecentes e limpos: e que a terra toda surge à flor das águas e emerge mais e mais, crescendo na ascensão da seiva das florestas atraídas vigorosamente pelas energias incomensuráveis da luz.
Prossegui a viagem sob um novo encanto, mas com uma preocupação desanimadora.
Com efeito, a nova impressão, verdadeiramente artística, que eu levava, não ma tinham inspirado os períodos de um estilista. O poeta que a sugerira não tinha metro, nem rimas: a eloquência e o brilho dava-lhos o só mostrar algumas aparências novas que o rodeavam, escrevendo candidamente a verdade. O que eu, filho da terra e perdidamente namorado dela, não conseguira, demasiando-me no escolher vocábulos, fizera-o ele usando um idioma estranho gravado do áspero dos dizeres técnicos. Avaliei então quanto é difícil uma coisa trivialíssima nestes tempos, em que os livros estão atulhando a terra, escrever...
E aquela preocupação, meus eminentes confrades, é a mesma que me constrange no momento de ocupar a cadeira que solicitei e a vossa bondade me emprestou. Não sendo esta investidura uma consagração, mas um tácito compromisso de altear-me por outros trabalhos até à vossa nobilitadora simpatia, imaginai os meus desalentos diante de uma tal empresa.
O caso que vos citei é expressivo. Delata que me desviei sobremodo dessa literatura imaginosa, de ficções, onde desde cedo se exercita e se revigora o nosso subjetivismo, tão imperioso por vezes que faz o escritor um minúsculo epítome do universo, capaz de o interpretar a priori, como se tudo quanto ele ignora fosse apenas uma parte ainda não vista de si mesmo.
Escritor por acidente – eu habituei-me a andar terra a terra, abreviando o espírito à contemplação dos fatos de ordem física adstritos às leis mais simples e gerais; e como é nesta ordem de fenômenos que se aferem, mais de pronto, as transformações contínuas da nossa inteligência, vai-se tornando mais e mais difícil esse abranger os caracteres preexcelentes das coisas, buscando-lhes as relações mais altas e formadoras das impressões artísticas, ou das sínteses estéticas.
Realmente, ao contrário do que se acredita, no terreno maciço das indagações objetivas, ao rés das existências, há uma crescente instabilidade. O poeta, o sonhador em geral, quem quer que se afeiçoe a explicar a vida por um método exclusivamente dedutivo, é soberano no pequeno reino ande o entroniza a sua fantasia. Nós, não. Os rumos para o ideal baralha-no-los o próprio crescer do domínio sobre a realidade, como se à hierarquia lógica dos conhecimentos positivos acompanhassem, justalinearmente, as nossas emoções sempre mais complexas e menos exprimíveis. Sobretudo menos exprimíveis. No submeter a fantasia ao plano geral da natureza, iludem-se os que nos supõem cada vez mais triunfantes e aptos a resumir tudo o que vemos no rigorismo impecável de algumas fórmulas incisivas e secas. Somos cada vez mais frágeis e perturbados.
No perpétuo desequilíbrio entre o que imaginamos e o que existe, verificamos, atônitos, que a idealização mais afogueada apagam-no-la os novos quadros da existência. Mesmo no recesso das mais indutivas noções, não é fácil saber, hoje, onde acaba o racionalismo e principia o misticismo – quando a própria matéria parece espiritualizar-se no radium, e o concreto desfecha no translúcido e no intáctil; ou entram, improvisadamente, pelos laboratórios, renascidas, as quimeras transcendentais dos alquimistas... Assim, “diante da realidade crescente – consoante o dizer do menos sonhador dos homens, Rumford – o nosso espírito está em contato com um maravilhoso que faz empalidecer o de Milton. Imaginai uns tristes poetas pelo avesso; arrebata-nos também o sonho, mas ao invés de projetarmos a centelha criadora do gênio sobre o mundo que nos rodeia, é o resplendor deste mundo que nos invade e deslumbra”.
Avaliai, portanto, os meus embaraços ao ocupar a cadeira de Castro Alves. Estou, mais uma vez, ante uma grandeza que à primeira vista não admiro, porque não a compreendo. O que diviso é dúbio e incaracterístico: certo, um grande lírico, entre os maiores engenhados pela nossa ardente afetividade, mas como tantos outros que aí andam dobrando os joelhos diante de todas as virtudes e aformoseando todos os pecados. Recito-lhe os versos; e a breve trecho, sobretudo se insisto na maneira que tanto o estrema dos demais cantores, o meu espírito fatiga-se, sem essa intensa afinidade de estímulos que forma o parentesco virtual entre o pensador e os que o leem. Por fim, quedo-me atônito ante uma espécie de Carlyle da rima – extravagante, genial, rebelde – que nos abala poderosamente em cada verso, mas cuja ação é infinitamente breve, como a de uma pancada percutindo e morrendo ao fim dos hemistíquios.
Fascinado pelo fulgor de sua idealização exagerada, assisto ao abstruso de uma mascarada indescritível, onde se misturam, emparceirando-se nas mesmas farândolas tumultuárias, reis decaídos, pontífices em apuros, heróis “que tropeçam na eternidade”, mártires a entrarem, trôpegos e aos cambaleios, pela história dentro, “estatuários de colossos”, e caboclos nus, espantados... Aqui, “as cortinas do infinito” descerradas à perspectiva de novos continentes; além, a cordilheira de píncaros fantásticos que, “como braços alevantados, apontam para a amplidão”; mais longe, dentre um fragor de rimas clangorosas,
Os oceanos em tropa, e a imaginativa esgota-se acompanhando o desmedido de um arrancado voo de leviatãs alados, que passam, imprimindo nos cenários o trágico pré-esquiliano das remotas idades geológicas... Tudo isto a tumultuar entre as fronteiras da geografia romântica de um mundo todo errado, que durante algum tempo teve o polo norte em Jersey e o polo sul em Santa Helena.
O infinito acode submisso ao reclamo das rimas imperativas, e Deus – um Deus democrata e meio voltairiano – associa-se de boa sombra àquele desvairado panteísmo, e desce a toda hora das alturas assumindo a chefia dos povos, ou bradando com ingênuo entusiasmo: marchar...
Ora, ante estas coisas imponentes e fragílimas, tornam-se à primeira vista opináveis o renome e o valor de tão incorrigível fabricante de quimeras. Hoje as suas criações singulares sobressalteiam, não comovem. Reconhecemo-nos do melhor grado incapazes de fazê-las, consolando-nos com o reconhecer que não precisamos realizá-las e que, se as fizéssemos, teríamos feito muito pouco.
Mas este conceito é, evidentemente, precipitado e falso... Diante destas grandezas morais, como diante das grandezas físicas, a nossa admiração tem ainda muito do espanto inexpressivo dos selvagens. Castro Alves, como outros representantes naturais da nossa raça, é ainda um incompreendido – porque assim como não temos uma ciência completa da própria base física da nossa nacionalidade, não temos ainda uma história. Não aventuro um paradoxo. Temos anais, como os chineses. A nossa história, reduzida aos múltiplos sucessos da existência político-administrativa, falta inteiramente a pintura sugestiva dos homens e das coisas, ou os travamentos de relações e costumes que são a imprimidura indispensável ao desenho dos acontecimentos. Está como a da França antes de Thiérry. Não lhe escasseiam fatos, episódios empolgantes e alguns atores esculturais que embalem o nosso orgulho.
Mas o seu discurso é obscuro – e desdobra-se tão mecanicamente e sobremaneira monótono que nos não permite ouvir, através do estilo incolor dos que a escreveram, a longínqua voz de um passado que entre nós falou três línguas. É talvez certa, torturantemente certa, no fixar não sei quantas datas e lugares, ou compridos nomes de bispos e governadores, mas fala-nos tanto da alma brasileira como a topografia nos fala das paisagens. Lendo-a e relendo-a, acode-me sempre o pensamento de Macaulay no demarcar nesta esfera literária um domínio comum da fantasia e da razão, destinado aos eleitos que sejam ao mesmo passo filósofos e poetas; – porque se tivemos um Porto-Seguro e um Roberto Southey para relacionarem causas e efeitos e respigarem nos velhos acontecimentos algumas regras de sabedoria política, certo ainda não tivemos um Domingos Sarmiento ou um Herculano que nos abreviasse a distância do passado e, num evocar surpreendente, trouxesse aos nossos dias os nossos maiores com os seus caracteres dominantes, fazendo-nos compartir um pouco as suas existências imortais...
Se tal acontecesse, eu não me demoraria tanto diante da memória sagrada do poeta.
Recordaria, apenas, de relance, a mais nobre das nossas lutas: a campanha abolicionista, que vindo do princípio ao fim do século XIX, da ditadura mansa de D. João VI aos últimos dias do Império, de Hipólito da Costa a Joaquim Nabuco, foi a “guerra dos cem anos” da liberdade civil neste país. E considerando-a, se não na sua fase mais decisiva, no seu período mais brilhante, em que tanto a aviventaram as mais ardentes emoções estéticas, eu não me afadigaria em alinhar tantas frases inexpressivas.
Recitaria as “Vozes d’África”...
Então o que se nos afigura um quimerizar adoidado resultaria lógico; e naquelas visões radiosas veríamos os reflexos de um ideal, aparecendo na esplêndida desordem de inesperado triunfo depois de longo sequestro pelos desvãos mais obscurecidos do passado. E assentaríamos que aquela palavra, onde havia as esperanças de uma raça titânica, que durante trezentas anos trouxe ao colo a nossa nacionalidade criança, graças à cândida afetividade selvagem que lhe modificara os ímpetos da revolta – aquela palavra para ser artística, para ser a expressão vibrante de uma realidade dolorosa, para ser sincera e, portanto, simpática, senhoreando os corações e irmanando-os solidários e unidos diante do destino e da vida, devia ser o que foi, nas suas cruezas, nos seus lances ensofregados, nos seus atrevimentos, nas suas rebeldias, nas suas obscuridades cindidas de repentinos resplendores, no fragor de suas sílabas agitadas a zinirem, a estourarem, a crepitarem e a retinirem como ressonâncias de batalhas, no vulcanismo de suas imagens rútilas e adustivas, nos estiramentos de suas hipérboles, nas transfigurações de suas metáforas, no bíblico formidável de suas apóstrofes, no simbolismo maravilhoso de suas alegorias, no entrechocar-se de suas antíteses sucessivas – e até naquele abuso imoderado do infinito, onde se denuncia a tendência a universalizar-se do poeta.
A este propósito acode-me um pensamento de Littré: “Se a Ilíada com toda a sua mirífica poesia aparecesse perfilhada pela arte do nosso tempo, seria informe e pueril.” Por outro lado, Dante se vivesse dois séculos antes desapareceria entre os trovadores anônimos; Shakespeare no século XIV seria um fazedor de “Mistérios” – e nestes dias não escreveria Macbeth, escreveria os Espectros, assinando-se Ibsen...
Se se explicam estes gênios estranhos à luz do princípio geral da relatividade, por que não o aplicar também ao grande poeta?
De mim não o justifico apenas. Admiro-o. Qualquer que seja a nossa altitude vindoura, teremos sempre nas quarenta páginas do Manuscrito de Estênio os estímulos mais nobres do passado.
Elas estão para o nosso destino como as singulares Canções da espada, de Th. Koerner, e os singularíssimos Sonetos couraçados, de Fred Rückert, para os triunfos imponentes da Alemanha. Certo, não deleitam mais, e não há aí miopia intelectual que não lhes veja defeitos. Passaram. Mas ligaram para sempre, sob a inspiração de uma bondade varonil, os melhores aspectos do nosso heroísmo aos aspectos mais encantadores da nossa força.
Castro Alves foi dos nossos últimos românticos. Depois dele, em todo o período que vem de 1875 até hoje, temos mudado muito e vamos mudando ainda sem que se note uma situação de parada, das que se fazem ao menos para se avaliar quanto se andou.
É natural. Realizamos duas empresas a que nos impeliam as nossas tradições e vamos agora arrebatados nas correntes novas que delas se derivaram. Mas, infelizmente, a par destas energias próprias, tivemo-las estranhas. O quinquênio de 1875-1880 é n da nossa investidura um tanto temporã na filosofia contemporânea, com os seus vários matizes, do positivismo ortodoxo ao evolucionismo no sentido mais amplo, e com as várias modalidades artísticas, decorrentes, nascidas de ideias e sentimentos elaborados fora e muito longe de nós.
A nossa gente, que bem ou mal ia seguindo com os seus caracteres mais ou menos fixos, entrou, de golpe, num suntuoso parasitismo. Começamos a aprender de cor a civilização: coisas novas, bizarras, originais chegando, cativando-nos, desnorteando-nos, e enriquecendo-nos de graça.
A inteligência brasileira sentia a ventura radiosa da Cendrillon pompeando o fausto gratuito de uma fantasmagoria simpática. Diante de novos descortinos mais amplos, partiu a cadeia tradicionalista que se dilatara até aquele tempo com Alencar e Porto-Alegre, e atirou-se para a frente quase envergonhada da sua situação anterior, que entrou a desquerer, repulsando os seus melhores nomes, e sugerindo um protesto tranquilo, laivado de elegante ironia, de alguém que teve o ensejo de a ver naquele momento e de acompanhá-la até hoje, até o instante em que vos falo. Sem alentados dizeres, o mestre, que hoje nos preside e guia, apontou então, sorrindo, os perigos de uma avançada sem bandeiras, à semelhança de uma fuga.
Pelo menos tudo aquilo era ilógico. O espírito nacional reconstruía-se pelas cimalhas, arriscando-se a ficar nos andaimes altíssimos, luxuosamente armados. Os novos princípios que chegavam não tinham o abrigo de uma cultura e ficavam no ar, inúteis, como forças admiráveis, mas sem pontos de apoio; e tornaram-se frases decorativas sem sentido, ou capazes de todos os sentidos; e reduziram-se a fórmulas irritantes de uma caturrice doutrinária inaturável; e acabaram fazendo-se palavras, meras palavras, rijas, secas, desfibradas, disfarçando a pobreza com a vestimenta dos mais pretensiosos maiúsculos do alfabeto.
Houve então o soleníssimo préstito do Determinismo, da Evolução, do Inconsciente, do Incognoscível, em que se amuletavam, intrusas, algumas velhas carpideiras do romantismo: a Justiça, a Escola e a Liberdade...

Assim, não maravilha que a nova geração, do avançar aforrado, não soubesse, afinal, para onde seguir.
Apenas um exíguo grupo se destacou: arregimentou-se em torno de um filósofo; e afastou-se. Ninguém mais o viu – e mal se sabe que ele ainda existe, reduzido a dois homens admiráveis, que falam às vezes, mas que se não ouvem, de tão longe lhes vem a voz, tão longe eles ficaram no território ideal de uma utopia, no dualismo da positividade e do sonho...
O resto ficou numa fronteira indecisa a tatear dentro de uma miragem que, à falta de melhor nome, se chamou durante muito tempo a Ideia Nova. Que era a Ideia Nova? Eu poderia responder-vos que era uma coisa muito velha, uma curiosa infantilidade de cabelos brancos, ou uma novidade de cem anos – mas prefiro a palavra de um poeta do tempo.
Escutemo-lo:
Está deserto o céu. No grande isolamento,
Palpita ensanguentado o sol – um coração...
Mas os deuses de Homero, o Jeová sangrento,
Alá e Jesus Cristo, os deuses onde estão?
Morreram. Era tempo. Agora encara a terra:
Ressoa alegre a forja e sai da Escola um hino.
O gênio enterra o mal em uma negra cova.
Deus habita a consciência. O coração descerra
Aos ósculos do Bem o cálix purpurino.
Vem perto a Liberdade. É isto a Ideia Nova.
Os versos são de 1879 e o poeta, à volta dos vinte anos, chamava-se Antônio Valentim da Costa Magalhães.
Nascido em 1859 nesta capital – aquela data e este lugar são elementos dignos de nota na sua formação.
Já se tem feito um confronto instrutivo dos nossos escritores do Norte e do Sul. Talvez fosse mais útil defrontar os que se formam na orla litorânea, sob a luz variamente refletida da cultura europeia, com os que passam as primeiras quadras no remanso das gentes sertanejas, mais em contato com o gênio obscuro das nossas raças. Neste ponto a regime moral do Brasil reproduz a sua inegável anomalia climática: varia mais em longitude do que em latitude. Mas não me alongarei por aí. Notarei apenas que os primeiros quinze anos de Valentim Magalhães coincidem com uma fase de profundas mudanças da nossa existência política. De 1860, ao levantar-se o preamar democrático, simbolizado em Teófilo Ottoni e rugindo na “Mentira de bronze” de Pedro Luís, a 1870 e 1875, quando a monarquia perdeu, uma após outra, as muletas da aristocracia territorial e da Igreja – foi tão intensiva a decomposição do antigo regímen que o simples enfeixar as frases acerbas dos maiores chefes de seus partidos é uma missão de Tácito, e não se compreende que se perdesse tanto tempo para realizar-se o passeio marcial de 15 de novembro de 1889.
Assim a juventude do escritor aparelhava-se para a vida quando em torno a sociedade se alterava, apercebendo-se de novos elementos para existir; e isto precisamente no cenário mais revolto de uma tal metamorfose.
A geração de que ele foi a figura mais representativa, devia ser o que foi: fecunda, inquieta, brilhantemente anárquica, tonteando no desequilíbrio de um progresso mental precipitado a destoar de um estado emocional que não poderia mudar com a mesma rapidez; e a sua vida, a sua carreira literária vertiginosa, toda disposta a nobilíssimas tentativas reduzidas a belíssimos preâmbulos, a nossa própria vida literária, impaciente e doidejante, brilhando fugazmente à superfície das coisas, inapta às análises fecundas pelo muito ofuscar-se com as lantejoulas das generalizações precipitadas.
Nada sei, infelizmente, dos primeiros tempos em que a sua educação se delineou.
Em 1877, contando apenas dezoito anos, matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo – e daí por diante, sem um hiato, encadearam-se-lhe os dias numa atividade pasmosa.
Assim é que para logo colaborou em três periódicos acadêmicos: a Revista de Direito e Letras, o Labarum, onde fulgia o esplêndido humorismo de Eduardo Prado, e a República, onde Lúcio de Mendonça açacalava as suas rimas golpeantes.
Noviciando nas letras, Valentim revelou de pronto uma jovialidade desbordante, que foi o traço mais duradouro da sua móvel fisionomia literária, e uma aptidão rara para o jornalismo que a breve trecho, em 1878, o tornou aturado colaborador dos melhores jornais do Rio e São Paulo. Em 1879 já era autor de três opúsculos, Ideias de moço, Grito na treva e General Osório, escritos a duas penas com Silva Jardim, e de um livro de versos, Cantos e lutas, onde lhe germinou o renome.
Precipito, acinte, as datas e os livros. É o melhor comentário à sua carreira.
Em 1880, ainda estudante, desposou a nobilíssima senhora que tanto lhe aformoseou a vida, e, mau grado os novos deveres adquiridos, escreveu apaixonadamente para a Evolução, dirigida por Júlio de Castilhos e Assis Brasil, continuando a colaborar na Gazeta, onde imprimiu “Colombo e Nené”, o seu conhecido poemeto.
Fundou a Comédia em 1881; traçou-lhe, transcorridos três meses, o gracioso epitáfio – e foi redigir o Entreato, com Eduardo Prado, e o Boêmio, com Raimundo Correia.
Formou-se. Destacara-se notavelmente, granjeando invejável nomeada entre companheiros que se chamavam Júlio de Castilhos, Silva Jardim, Barros Cassal, Teófilo Dias, Eduardo Prado, Ezequiel Freire, Raul Pompéia, Randolfo Fabrino, Lúcio de Mendonça, Assis Brasil, Afonso Celso, Fontoura Xavier, Augusto de Lima, Alcides Lima, Alberto Sales, Pedro Lessa, Luís Murat, Júlio de Mesquita, Raimundo Correia. Cito ao acaso, esquecendo outros compares no merecimento apenas para notar que ainda não se congregaram sob os tetos de uma escola tantas esperanças e tão discordes temperamentos – da severa formação política de Castilhos ao evangelho revolucionário de Silva Jardim, da rudeza republicana da Barros Cassal ao monarquismo elegante de Eduardo Prado, ou da melancolia impressionadora de Teófilo Dias ao gracioso humorismo de Ezequiel Freire.
Ora, Valentim foi a figura representativa no meio de tão díspares tendências, por isto mesmo que lhe faltou sempre uma diretriz à atividade dispersiva. As condições do meio e a sua índole arrastaram-no demasiado à vida exterior e para a sua infinita instabilidade.
Depois de formado persistiu a aceleração de sua carreira, dissipando em força o que adquiria em movimento.
Em 1882 publicou os Quadros e contos, livro prometedor, onde refulgem páginas descritivas de excepcional colorido, avivadas todas daquela galanteria do escrever, que raro o abandona – e que se acaso o abandona é para tornar maior. Realmente, joeirando-se todos os seus versos escritos em 1883, talvez nos restassem apenas três sonetos; mas estas 42 linhas perduram nas nossas letras como a expressão mais eloquente de uma saudade ao mesmo passo excruciante e encantadora na sua tocante singeleza. Falecera-lhe o pai extremosíssimo, e Valentim, que até então escrevera para toda a parte, num insofregado anelo da consideração coletiva, – surpreendido pela desdita, confiou, chorando, à alma da sua esposa, aquele poema de duas páginas “O nosso morto”, que não preciso recitar-vos, tão vivo ele perdura na vossa memória.
Mas estas transfigurações eram-lhe instantâneas.
Naquele mesmo ano desencadeou na Gazeta de Notícias a sua mais viva campanha de franco-atirador do espírito.
Relevai-me o desgracioso do símile: as Notas à margem recordam uma escaramuça agitadíssima, estonteadora, sem rumos, à caça do imprevisto, onde não há triunfos nem reveses, e os recontros e os adversários se travam e se distinguem fugitivos, a relanças e aos resvalos, um reconhecimento armado que não para... Porém, o que ali falta no compasso das ideias, sobra na propriedade do dizer e num desvelado apuro de linguagem, que influíram consideravelmente em nosso meio. Muita gente, entre nós, começou a escrever melhor, sob as reprimendas gráceis daquele infatigável caçador de solecismos e persistente fiscal de pronomes insubordinados. Ao mesmo passo na imprensa diária acentuou-se melhor esta forma literária facílima, que é o artigo do jornal, onde a medida e a intensidade das ideias têm de ceder, não já aos dúbios contornos, capazes de ajustá-las ao maior número possível de critérios, nos limites de uma atenção de quartos de hora, senão também à fluidez de expressão, que lhes permita insinuarem-se nas nossas preocupações, encantando-nos um momento – e passando sem deixarem traços.
Continuemos a resenha.
Em 1884 trasladou ao português, com Filinto de Almeida, El Gran Galeoto, de Echegaray – e esta tradução, com as suas rimas e variedade métrica, avantaja-se ao original castelhano, onde o drama deriva na cadência única e intolerável dos versos brancos, em redondilha menor.
Fundou em 1885 A Semana e este periódico, estritamente literário, fez a maravilha, nesta terra e naquele tempo, de durar três anos. Mas para isto, à parte um concurso notável, em que se extremavam, para citar somente os mortos, Urbano Duarte, Raul Pompéia, Alfredo Sousa e Luís Rosa – despendeu o melhor da sua atividade e quanto lhe adviera da herança paterna. Mas não vacilou ante a ruína. Iludia-se quem lhe medisse a fortaleza pela volubilidade. Era um caráter varonil blindado de uma jovialidade heroica. Tinha esse recato do sofrimento que é a única expressão simpática do orgulho. Os seus melhores amigos jamais lhe divisaram desânimos.
O revés não o desinfluiu. Escreveu em 1886 os Vinte contos; em 1887, Horas alegres; publicou, refundidas, em 1888, as Notas à margem; em 1889, Escritores e escritos... Vede: não há a solução mais breve no duodecênio que percorremos. Não se pula uma data sem pular-se um livro. O escritor violou doze vezes seguidas o nonum primatur in anno...
De 1889 a 1895 houve aparente descanso. A República, feita numa madrugada, criara a ilusão de grandes coisas feitas da noite para o dia. Valentim, como todos, vacilou na vertigem geral. Ordinariamente se acredita que o empolgasse o anseio da fortuna fácil, naquela quadra que a ironia popular ferreteou com o nome de “encilhamento”. Com efeito, salvante alguns artigos esporádicos, o incansável homem de letras parecia mudado num infatigável homem de negócios. E fundou – como toda a gente – uma companhia.
Mas considerai como o sonhador desdenhou as voltas retorcidas dos cifrões e alinhou parcelas como se alinhasse versos; aquela “Educadora”, que se transformou depois numa vulgar companhia de seguros, era uma fantasia comercial. Não segurava vidas, segurava inteligências; e o segurado, ao invés de um ajuste sinistro com a morte, a troco de alguns contos de réis, garantia a educação dos filhos.
O devaneio mercantil não vingou. Valentim reavivou-se: e no quinquênio de 1895-1900 continuou a marcar os anos pelos livros e opúsculos: em 95, Filosofia de algibeira; Bric-à-brac, em 96; em 97, o seu primeiro romance, Flor de sangue; Alma e rimário, em 98-99 – deixando prontos quatro outros: Fora da Pátria, Na brecha, Novos contos e Outono, que lhe demarcariam, na mesma progressão, os quatro últimos anos de existência...
Uma herança de tal porte não se inventaria num discurso.
Vou agitar alguns conceitos falíveis. Revendo estes volumes, o que para logo se põe de manifesto é uma falta de unidade pasmosa.
O escritor muda no volver das páginas.
Nos Cantos e lutas, escuta-se, ao toar solene dos alexandrinos, o lirismo humanista que Pedro Luís divulgara desde 62; e quem quer que admita a ficção das escolas literárias, estuda-o à luz do critério sociológico de Guyau.
De feito, a inspiração não lha diluem lágrimas: é robusta, impessoal, refulgente – e a sua
... grande musa austera e sacrossanta,
que para o céu azul os olhos alevanta
banhados no fulgor virgíneo da verdade,
era sem dúvida sincera. Mas esta linguagem, cantando herculeanamente as odes imortais. nunca mais se repetiu.
Ao contrário, a poesia filosófica (e falo assim por obedecer à moda, porque uma tal poesia se me afigura tão absurda quanto uma geometria lírica ou a astronomia romanceada de Flammarion), a poesia “social”, em que tanto importa o subordinar-se a expressão à verdade, teve depois em Valentim um irrequieto adversário.
Nos Escritores e escritos desponta-lhe o antagonismo em dizeres concisos, golpeantes:
“Em literatura a forma é quase tudo. Especialmente em poesia. É preciso ter como Teodoro de Banville o sentimento das palavras... A Forma! eis o grande, o milagroso talismã! Quem o possui atravessa a vida sem conhecer impossíveis aos caprichos do seu gênio.”
A “forma” lá está com F maiúsculo. É o fetichismo do vocábulo. Com efeito, poucas vezes na língua portuguesa a palavra foi tão voluntariosa no violentar ideias, transfigurando-as ou emparelhando-as nas mais bizarras antíteses.
Falando-nos de Junqueiro, por exemplo, diz-nos Valentim em menos de uma página:
“A gargalhada de Junqueiro tem a altissonância trágica de Shakespeare e o assobio implacável de Gavroche: é a voz potente de Victor Hugo estridulando com as casquinadas de Aretino. É Voltaire arremangado, dedos na boca, assobiando à Tiara, às batinas e aos solidéus... É o Ésquilo da troça, Hamleto rufando com as tíbias de Iorik na pança congesta de Tartufo...”
Atalhemos – porque vai por diante este ajuntamento ilícito de verbos, substantivos e adjetivos, que se veem juntos pela primeira vez e vivamente se repulsam.
Mais expressiva é aquela admiração delirante. Valentim Magalhães era excepcionalmente afetivo. Tudo lhe denuncia um nobre espírito impropriado a agir sem os estímulos de uma ardente simpatia, vinculando-o às outras almas.
Esta literatura associada que, em geral, a exemplo dos Goncourts, exige a base da consanguinidade, ele a praticou como nenhum outro, reunindo um irmão legítimo, Henrique Magalhães (com quem escreveu uma paródia à Morte de D. João), a Silva Jardim, a Filinto de Almeida e Alfredo Sousa, nos laços da mesma fraternidade. Não lhe conheço um livro sem uma dedicatória. São raríssimos os seus escritos dispersos, cujos títulos não tenham logo abaixo um parêntesis guardando o nome de um amigo. A admiração, que é o sintoma mais lisonjeiro de um caráter, rompia-lhe sempre num enorme exagero. Admirou daquele jeito Guerra Junqueiro; admirou C. Castelo Branco, “polígrafo indefesso, formidável, único”; admirou Ramalho Ortigão, “um mestre, senhor de todas as verdades do mundo moderno...”; admirou Machado de Assis, esse que arranca aos rígidos vocábulos a música rebelde e fugidia...
Admirou os seus próprios companheiros. Sendo preeminente na “nova geração”, não desdenhou fazer-se o garboso mestre-sala, para apresentá-la ao país. E o país conheceu-a, em grande parte, através da sua palavra carinhosa. Não preciso exemplificar. No círculo daquela afabilidade irradiante e avassaladora caíram os que chegavam pouco depois, desde Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque e Olavo Bilac até aos mais obscuros escrevedores da província. A alguns cantou em verso, desde Carvalho Júnior, desaparecido tão moço e a quem conhecemos apenas como um “meinsinger” loiro, alegre e extravagante, até alguém que não preciso nomear, tão conhecido nosso é o ...que esculpido
Tem sonhos, dores, alegrias.
E é príncipe do Reino Unido
Das Harmonias.
Mas esta afetividade dissipava-lhe o espírito. O seu pendor para o artigo ligeiro é expressivo; é a tendência dos que veem tudo de relance, na ânsia de tudo ver. Relendo os Vinte contos, lastimamos que o escritor nunca se demorasse num assunto.
A “Feira dos escravos”, para citar só um caso, na sua urdidura, onde resplandece um desafogado estilo descritivo, e no seu desenlace empolgante, é o lance, inexplicavelmente abandonado, de um belo romance de costumes.
Não consoavam, porém, a vibratilidade de Valentim Magalhães e o intrincado episodiar das longas narrativas.
Demonstra-no-lo a Flor de sangue. Nada direi do livro malogrado, onde, entretanto, um velho tema se remoça com uma cativante originalidade de desfecho. Considero apenas que a crítica desaçamada, que o estraçoou até à errata final, não disse mais do que o próprio romancista, no prefácio:
“O capítulo que primeiro escrevi na intenção de fazê-lo o primeiro livro, foi o quinto da segunda parte; eu havia principiado pelo fim!”
Constantemente traído pelas melhores qualidades morais, anelando envolver na mesma carinhosa simpatia homens e coisas, todo o seu grande talento se diluía espalhado pelos aspectos inumeráveis da vida.
Resumo o meu juízo: toda a obra literária de Valentim Magalhães pode ter o título único de um dos seus livros – Bric-à-brac. E a este propósito ouçamo-lo na esplêndida volubilidade de seu estilo diserto, referindo-se àquele livro sem cuidar que fazia toda a sua psicologia literária:
“... Pois esta obra é isto mesmo; é um amontoado de curiosidades literárias, e objetos de arte escrita... Junto a um conto comovido e sincero, um trecho da sátira mordaz e irreverente; em seguida a um grito de entusiasmo, uma caricatura a traço largo; depois de um surto amplo de fantasia caprichosa, um quadro exato e minucioso da vida social – Bric-à-brac. De manhã à noite, em um só dia, o homem percorre toda a gama sentimental – enternece-se e lacrimeja; encoleriza-se e ruge; alegra-se e ri; enfara-se e boceja; enamora-se e canta; indigna-se e satiriza...”
Não prossigamos. Nestas palavras sinceras só há um dizer destoante: aquele encoleriza-se e ruge. A linha acentuada do caráter de Valentim ia de uma alevantada altivez a uma robusta alacridade que o forrava aos rancores – embora não lhe faça a grave injustiça de acreditar que ele fosse incapaz do ódio, que é muitas vezes a forma heroica da bondade.
Mas este nunca lhe repontou nas polêmicas acirradas que travou e no mais aceso das quais lhe refulgia a graça amortecendo ou falseando os mais violentos golpes.
Nos últimos tempos apareceram-lhe adversários a granel. Não houve aí grande homem engatinhando, ou imenso talento inédito, que se não mal estreasse arguindo-o em hílares reprimendas, adoravelmente papagueadas, de numerosos defeitos laivando-lhe o renome e desgabando-lhe os livros. Não lhes deu o prêmio de um revide. Soube apenas que existiam, indecisos, amorfos, difusos diluindo-se e apagando-se por si mesmos, – uma espumarada fervilhante, aflorando e morrendo na esteira da sua rota impetuosa.
E retorquiu, algures, sorrindo:
“A princípio fui gênio; mais tarde coisa nenhuma. Hoje César, amanhã João Fernandes...”
Não sei de frase mais verdadeira. Eu andava nos últimos preparatórios quando ele aqui chegou, formado de São Paulo, e posso afirmar-vos que ninguém, tão moço, ainda passou por estas ruas envolto de tão admirativa curiosidade.
A sua entrada nesta capital foi a de um triunfador e em poucos dias não houve quem lhe não conhecesse a figura de irrivalizável elegância e o rosto escultural velado de palidez fidalga e aclarado por um olhar que todo ele era o reflexo dos esplendores máximos da vida.
Foi, porém, o mais breve dos triunfos. Não que ao escritor diminuísse o engenho, senão porque o surpreendeu um período anômalo da existência política. O quatriênio de 1886-1890 foi decisivo para os destinos do Brasil, tão de golpe nele se afrouxou a coesão de nossos costumes e num desejo desapoderado de novidades desadoramos muitos velhos atributos, que imaginávamos retrógrados e eram apenas conservadores...
Aqui se me antolha digressão acidentadíssima. Evito-a. Mas no adstringir-me ao assunto, aponto, a correr, esta antinomia: precisamente quando a peregrina palavra “evolução” se tornou a rima fácil de todos os versos, rompemos com esta lei fundamental da história – tão bem expressa na continuidade de esforços dos estados sociais sucedendo-se com um determinismo progressivo – e apresentamos o quadro de uma desordem intelectual que, depois de refletir-se no disparatado de não sei quantas filosofias decoradas, nos impôs, na ordem política, a mais funesta dispersão de ideias, levando-nos, aos saltos e ao acaso, do artificialismo da monarquia constitucional para a ilusão metafísica da soberania do povo ou para os exageros da ditadura científica; ao mesmo passo que na ordem artística íamos dos desfalecimentos de um romantismo murcho às demasias de um falso realismo, que era a pior das idealizações, porque era a idealização dos aspectos inferiores da nossa natureza.
Para ainda engravecer a crise, os dois ideais da abolição e da República não requeriam mais as emoções estéticas. Resolvidos na ordem moral, estavam entregues à ação quase mecânica dos propagandistas. Estes precipitavam-nos com o desalinho característico da fase revolucionária das doutrinas, em que se conchavam as ideias e os paralelepípedos das ruas, e os melhores argumentos desfecham no desmantelo das barricadas investidas.
José do Patrocínio e Silva Jardim tomaram por algum tempo a frente da sociedade. Recordando esse passado recente, o que vemos, ao primeiro lance, é aquele mulato formidável ou aquela miniatura de Titão.
Ocupam a cena toda. No próprio terreno vibrante da propaganda derivaram, por vezes, ao segundo plano os vultos de maior destaque, desde o velho Saldanha Marinho, tão esquecido depois de morto, a Quintino Bocaiuva, meio esquecido em vida – e que no retrair-se hoje a um voluntário ostracismo e no andar tão despercebido pelas nossas ruas, atravancadas de notabilidades, lembra-me alguém que vai passando devagarinho para a História, deslembrado dos homens e da morte, confundindo-se a pouco e pouco com a sua própria estátua – uma bela estátua corretíssima e errante, sem um pedestal que a imobilize e soerga acima da multidão em que se perde...
Mas não cedamos à fascinação do assunto. Observemos que em um tal meio não se compreende a existência de uma arte que é sempre o resultado de certa fixidez dos sentimentos gerais.
Valentim Magalhães, como outros muitos, foi, naturalmente, apagando-se, mais e mais, naquela movimentação precipitada. Além disto, morreu depois dos trinta anos; e neste país quem quer que se notabilize e ultrapasse aquele marco, fora dos tablados da política, predestina-se ao suplício lento e indefinível de acompanhar em vida ao enterro pobre da sua própria imortalidade.
Terminemos. Faltou sem dúvida a Valentim Magalhães essa concentração intelectual que é o segredo dos gênios e dos medíocres: um espírito a dobrar-se, a revirar-se, desesperadamente, em alguns pensamentos exclusivos e impassível aos reagentes da vida exterior. Para esses a amplitude das ideias, como a das espirais, explica-se por um giro indefinido em torno de si mesmas. Os seus cérebros deveriam circunvoluir em caracol. São os eternos distraídos, ou abstratos, vivendo fora da preocupação que os escraviza, ou da inspeção em que se isolam, com um automatismo de sonâmbulos. Nas conjunturas mais opostas, entre os ruídos e as luzes de um salão de baile, ou num funeral, lá lhes está girando e regirando, torcendo-se e destorcendo-se a ideia absorvente, conservada por esta misteriosa consciente obscura, que vela perpetuamente nas profundezas do nosso espírito, e à luz da qual – sem que o queiramos, sem que o entendamos, sem que o expliquemos – se filiam as mais altas concepções aos mais fugitivos e inapreciáveis incidentes.
Então compreende-se que do cair de um fruto apodrecido eles passem, de um salto no infinito, para a queda perpétua dos mundos; ou que das oscilações quase imperceptíveis da lâmpada suspensa de uma catedral, entrevistas num êxtase religioso, induzam, de improviso, as leis mecânicas do isocronismo do pêndulo.
Na ordem estética recorde-se a horrível anedota de Talma: a soluçar, num desespero, agarrado ao cadáver do filho, e estacando de súbito, ao ouvir pela primeira vez a voz interior e profunda de uma dor verdadeira, que era a sua própria dor, e estudando-a friamente, para a reproduzir, dias depois, intacta, no palco, diante dos espectadores assombrados; ou a pertinácia sobre-humana de Flaubert, atravessando decênios a versar, a volver, a revolver, a corrigir, a mondar, e a remondar um assunto único, interminável...
Valentim Magalhães foi o avesso desses homens. Repitamos: as condições do meio e o seu temperamento arrastaram-no demais para o mundo exterior e para a sua indescritível instabilidade. Ele entregou-se de corpo e alma ao turbilhão sonoro e fulgurante da existência.
Foi o seu grande defeito, dizem.
Mas este defeito – o seu maior defeito – é a mais bela imperfeição da nossa vida: o defeito de viver demais.

9/29/2019

Discurso de Coelho Neto sobre Euclides da Cunha






Discurso de Coelho Neto

Estranho natal é o que vindes celebrar neste sítio! Nunca me constou que se entoassem cantos genetlíacos à beira das covas pela pauta Di Profundis, que é o hino desta mansão. Que se pode buscar nestes escaninhos de terra e pedra senão detritos? É muito forçar a imaginação pretender que vejamos vida onde tudo reflete a morte. Aqui não batem corações, nem ardem cérebros: aqui não há amores nem ódios, aspirações nem desesperos — um colmeal deserto onde não há cera nem mel, somente alvados.

Aqui não se distinguem feições, nem cores, nem maneiras porque tudo que era corpóreo está reduzido à sua substância: terra.

Entretanto eis-nos aqui reunidos para comemorar uma data natalícia com a mesma alegria deslumbrada com que os pastores se ajuntaram na caverna de Belém.

Lá havia um ser visível, apontado do céu pela estrela emissária, e aqui? estará ante nós o que buscais? Não, decerto; não está. Aos que foram ao túmulo ver o Nazareno morto disseram os que o guardavam: Ressuscitou! O mesmo vos direi eu do que pretendeis honrar neste canto de silêncio e que padeceu morte afrontosa: Surrexit on est hic!

Quando ele caiu, ferido pela mão ingrata, em cuja palma tantas vezes pusera, às ocultas, o ouro da beneficência que, em tal cadinho, se transmudou em ferro de traição, houve um espanto doloroso e as vozes da saudade deploraram o seu desaparecimento.

Logo, porém, outra voz mais alta apregoou a sua ressurreição, e essa voz foi a vossa, Mocidade, que sempre o acompanhastes forrando-lhe o caminho de flores, ungindo-lhe os pés de bálsamo, acariciando-o quando ele regressava cansado dos seus labores ou do fundo dos desertos, que eram o seu refúgio, como me escreveu do Amazonas:

"Não te direi os dias que aqui passo, a aguardar o meu deserto, o meu deserto bravio e salvador, onde pretendo entrar com os arremessos britânicos de Levingstone e a desesperança italiana de um Lara, em busca de um capítulo novo ao romance mal arranjado desta minha vida..."

Debaixo desta pedra branca jaz apenas a armadura — o guerreiro, despindo-a, alou-se espiritualizado, e vive imortal, fora do espaço e do tempo, na região pura e serena da glória.

A missão messiânica ficou nos Evangelhos, o rastro do espírito admirável, daquele que se dizia um bárbaro, aí está na sua obra.

O corpo é terra, o livro é eternidade. Aqui, achamo-nos diante da morte silenciosa; abramos Os sertões e teremos a vida com a sua ardência, com o seu tumulto, com as suas misérias e grandezas.

O túmulo é um livro fechado, encadernado em mármore, cujo texto ainda ninguém decifrou. O livro é um esplendor perene: as letras refulgem e, como diamantes, tanto mais brilham quanto mais as repele o tempo, que é o seu lapidário.

Homero cantava para os reis nas cidades de muros altos, ou nas granjas para os pastores rudes e os seus cantos são hoje monumentos que perpetuam o esplendor olímpico da Grécia.

As "Rústicas" de Virgílio deram-lhe, no seu tempo, os louvores de Horácio, a amizade de Augusto e a simpatia de Roma, hoje são os espelhos que refletem a civilização latina. A "Comédia", de Dante, era tida em Florença como a visão de um iluminado e o tempo fez dela o poema por excelência do grande ciclo da Idade Média.

Assim a obra do Pensador paira acima da Morte — é caridade que se não suplanta. Por mais esforço que fizesse Averrhós não conseguiu enterrar um raio de sol.

Veneremos o nome, prestemos o culto à memória, honremos o espírito que viveu no bocado de terra hoje coberto por vós de um branco lençol de mármore.

Gloria ao herói poeta!

Pode-se dizer de Euclides da Cunha o que Renan disse de Tourgueneff:

Un monde vivait en lui, parlait par sa bouche; des generations d'ancêtres perdues dans le sommeil des siècles, sans parole, arrivaient par lui à Ia vie et à Ia voix.

Le genie silencieux des masses collectives est Ia source de toutes les grandes choses. Mais Ia masse n'a pas de voix. Elle ne sait que sentir et bégayer. II lui faut un interprete, un prophète qui parle pour elle. Quel será ce prophète. Qui dirá ces soulfrances, niées par ceux qui ont intéret à ne pas les voir, ces secretes aspirations, qui derangent l'optimisme beat des satisfaits? Le grand homme, Messieurs, quand il est en meme temps homme de génie et homme de coeur.

Euclides, homem de gênio e de coração, foi o verdadeiro intérprete das massas ignoradas. Foi o poeta taciturno das solidões, o áspero historiador dos bárbaros.

Descreveu os desertos e o habitante trágico das terras bravas e, peregrino amoroso, não se contentou com percorrer as regiões incultas, ainda embrenhou-se na História e, assim como, em expedições trabalhosas, subia, por entre aningas, as águas insalubres dos grandes rios, abalsava-se às selvas, transpunha montes e tabuleiros áridos, assim também revolvia os arquivos refolhando-se nas crônicas primevas, em procura das origens do povo, cujos fastos pretendia escrever, a lanços, por monografias que seriam verdadeiros marcos ao longo da vida nacional.

Sobrava-lhe talento para o feito e a sua energia provada dar-lhe-ia forças para o levar ao termo, faltava-lhe, porém, indispensável ponto de apoio para que, sossegadamente e docemente, pudesse atacar a pretentosa construção, que ele assim me anunciava em carta datada de Manaus. "Nada te direi da terra e da gente. Depois, aí e num livro: Um paraíso perdido de onde procurarei vingar a Hiloe maravilhosa de todas as brutalidades das gentes adoidadas que a maculam desde o século XVII. Que tarefa, e que ideal! Decididamente nasci para Jeremias destes tempos. Faltam-me apenas umas longas barbas brancas, emarinhadas e trágicas."

O gigante só era feliz quando distendia largamente as asas em voos arrojados, longe das misérias da terra, olhando de alto os horizontes.

Mas as próprias águias e os condores cansam e baixam dos espaços aos cimos onde têm os seus ninhos, ele, não! só descera para sofrer.

O lar, que ele levantara com honra, resvalara no atascadeiro e, por maiores esforços que ele tentasse para reerguê-lo mais o sentia atolar-se, levando-o no enxurro. Insurgiu-se contra a vida e, num assomo de brio, achou a morte covarde.

Recolhido na lama andou o seu corpo de baldão em baldão até que lhe deram sepultura em terra de empréstimo e, vencido o prazo de agasalho, teria o despojo caído no refugo dos anônimos se a Piedade não o houvesse levantado, do abandono dando-lhe este jazigo, que transformastes em altar, onde vindes como crentes, comemorar as duas datas — a do seu nascimento, que coincide com a da fundação da cidade, que ele amou, com a da sua morte, em dia que se festeja no céu, como de glória.

Celebremos a do nascimento diante do túmulo como se cantássemos o louvor de um dia de sol radioso voltado para o ocaso, já rutilante de estrelas.

Que a romaria de hoje se torne uma religião da mocidade. Somos um povo sem cultos — honremos os nossos heróis, observando-lhes os exemplos e nenhum outro, mais do que o vosso patrono, no-los deixou tão belos, porque ele foi grande no gênio no amor da pátria, na austeridade e no brio.

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Revista do Grêmio Euclides da Cunha, 15 de agosto de 1905.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)