quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O inesquecível romancista (Resenha)


O inesquecível romancista

O inesquecível romancista maranhense que se revelou ser um arguto observador e um finíssima psicólogo, quando estreou com o seu famoso O Mulato, que mereceu a atenção da crítica sinceros elogios e apodos cruéis, porque Aluísio Azevedo se patenteou um anatomista social, um dissecador perito, mostrando o lado mau da sociedade de sua terra, apreciando, com verdade absoluta, os pontos fracos do meio em que vivia, a crítica de sua terra natal julgou-se ofendida, caluniada e ululou de raiva, e de pena molhada em fel, negou-lhe talento, aconselhou ao estreante que abandonasse essa coisa de fazer romances, que o seu jeito, era manifesto, só lhe traria resultados se pegasse do cabo de uma enxada e fosse cavar buracos, remexer a terra e plantar batatas. Outros ainda negaram-lhe mérito para as letras, pois seu livro era uma série de necedades, de mentiras, de aleivosia. E O Mulato teve um sucesso formidando, repercutiu longe, e Urbano Duarte, que gozava entre nós de bom nome nas letras, que era acatado e benquisto, lendo O Mulato gritou, escrevendo sobre Aluísio Azevedo, enaltecendo-lhe o romance — “Romancista ao Norte!” Tudo quanto se escreveu contra, tudo quanto se disse sobre o romancista naturalista, do observador sensato, do criterioso discípulo de Balzac, Stendhal e Zola negando-lhe tudo, concorreu para que o nome de Aluísio ficasse de pé, consagrado.

As edições do O Mulato sucederam-se e o triunfo do moço escritor venceu vitoriosamente.

Daí por diante, em vez de pegar de uma enxada para cavar minhocas e plantar tubérculos, Aluísio dava outros livros, outros romances e deixando a sua terra provinciana, começou  a trabalhar e conquistou novos triunfos.

A Casa de Pensão veio logo após do O Mulato. O sucesso foi ruidoso, porque o romancista aproveitou um formidável escândalo cujo resultado foi o assassinato de um acadêmico da Politécnica.

A Casa de Pensão firmou de vez o nome do maranhense ilustre, cuja visão lúcida em apreender o que via era um privilégio entre nós.

Aluísio Azevedo era uma alma boa, generosa, afetiva, descrevia a suavidade do perfume de uma flor, a pudicícia de uma donzela, como os desregramentos de uma messalina, a miséria moral do tartufo, a sociedade dissoluta bancando de honesta, cheia de fingimentos, de hipocrisia.

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OLIVEIRA CONDE
O Malho, fevereiro de 1926.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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