quinta-feira, 13 de fevereiro de 2020

O Naturalismo (Ensaio), de Ronald de Carvalho



O NATURALISMO
A história do romance naturalista, no Brasil, está feita na obra de quatro escritores: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro e Raul Pompeia. Machado de Assis é o psicólogo, sobrelevava a todos pela profundeza do pensamento, pela correção da linguagem, pela sobriedade da forma e pela ironia sutil, que o aproxima da linhagem dos Sterne e dos Swift, na Inglaterra, dos Anatole, na França, e dos João Paulo, na Alemanha. Aluísio é o impressionista, é um retratista admirável, seguro e honesto. Júlio Ribeiro é o mórbido, o sensacionalista, se assim podemos dizer, aquele em quem era mais forte e agudo o instinto da vida. Raul Pompeia é o inquieto, o insatisfeito, o mais poeta de todos os quatro, o mais comovido ante o espetáculo do mundo.
Machado de Assis não pertence, propriamente, ao movimento naturalista que se iniciou, aqui, entre os anos de 1875 a 1880, e se firmou em 1881, com o Mulato, de Aluísio Azevedo. Já em 1872, com um romance (Ressurreição), e, antes disso em vários jornais e revistas, como o Diário do Rio de Janeiro, a Marmota Fluminense e a Revista Popular, surgira em nossas letras. À margem das reformas literárias, sofrendo-lhes as repercussões, pela inevitável influência do meio, conseguiu, todavia, manter límpida a personalidade, que não herdou de qualquer mestre obscuro ou em voga, nem repartiu com discípulo algum.
Ele cultivou como ninguém, talvez, em nossa literatura, a tortura do riso, não pela maneira da carne provocada, mas pela agudeza de uma força invencível que precisava de negar para existir. Machado de Assis não era um puro mental, não tinha, por exemplo, o brilho dos punhais com que a perversidade galante e fascinadora de João do Rio costumava apresentar-se. Entre um e outro vai a diferença que afasta Juvenal de Petrônio. Um sorri para se castigar, o outro para se divertir. Na obra de João do Rio há um perfume capitoso de sensualismo e decadência, um pouco de orientalismo esquisito e precioso, há mesmo riqueza, e, por vezes, exuberância. Em Machado de Assis nada há que lembre fausto ou que o mostre, desde logo, exaltação. É um sensível, sendo um intelectualista. Através da sua placidez aparente reponta um temperamento mais atento às coisas que extasiado com elas. E como os seres e as coisas são, em verdade, quase sempre ruins, e como os ridículos sobram desastradamente, ele os examina sorrindo...
Em suas páginas aparece um país retardado, ainda cheio de entraves, ainda colonial na maioria dos seus aspectos, um país que recebia a cultura livresca pelas portas da Universidade de Coimbra, e que só conhecia, em matéria de jurisprudência, o João das Regras e Lobão, e, como literatura, os versos de Camões e os sonetos monótonos dos Árcades. Seu espírito não podia conformar-se com a ambiência de trivialidade que o envolvia, que o apertava, que o comprimia por todos os lados. Era mister reagir. Tudo lhe pesava: o ar, as plantas, o céu tauxiado de estrelas. Ele não podia ser a resignação de Mr. Brotteaux em face da guilhotina, nem a pacata irreverência de um mercador judeu, entre as torres guelfas e gibelinas da Florença de Farinata Degli Uberti.
A cada golpe recebido correspondia um determinado tipo, que se fiava em sua memória como, sobre a cera virgem das tabelas do cedro, um canto amargo. E tantos foram os golpes recebidos, tantos foram os bonecos que ele desenhou com segurança, ora gravando com mais profundeza, para os destacar melhor, ora confundindo-os, em breve e aéreo traço, numa igual farândola animada. Talvez que a alma lhe permanecesse intangível e serena, no espírito dos turbilhões que o arrastavam, na sanha das paixões que o salteavam. Talvez permanecesse serena, mas sofrendo, embora. E sempre assim acontece aos que chegam até aquela "dúvida metafísica", penetrante, insistente e cruel, de que nos falou o Sr. Afrânio Peixoto em uma sua conferência sobre o "humor".
A dúvida metafísica! Haverá tortura maior? A dúvida metafísica é o prazer dos deuses. Criando o mundo, com os seus pequenos dramas e as suas tragédias periódicas, deu-lhe o Ser Supremo a ilusão da seriedade, para desenvolver-lhe indefinidamente os efeitos cômicos, assim como o adubo desenvolve a corola das rosas nos jardins. As amáveis criaturas da Teogonia, privadas do nosso delicioso globo, ficariam diminuídas na sua solene grandeza, perderiam, com pouco, a imaginação jovial que as distingue, não se realizariam completamente, e tudo seria enfado e calmaria perigosa no Olimpo de Zeus... Tal não aconteceu, todavia, por ventura delas. Concedendo ao homem o espírito, os deuses lhe prenderam as mãos a um fio sem termo, e mandaram que ele se movesse eternamente sobre um abismo tenebroso. A primeira ideia foi, portanto, a primeira batalha. Os homens começaram a matar-se com uma porção de razões, cada qual mais estimável e prudente, para ocuparem um lugar que, logo após, seriam obrigados a abandonar. À porta denticulada das cavernas primitivas, os martelos de pedra, manejados por braços rudes, esboçaram um simulacro das futuras lutas, e, ao longo do tempo, o machado e a flecha, o escudo e a lança, a espada e a massa, a cota de malha e o punhal, a couraça e o canhão chocaram-se, esmagaram-se, aniquilaram-se para a defesa de um punhado de preconceitos momentâneos e inconsistentes. E os heróis surgiram, e os poetas exaltaram os heróis, e tudo começou a rodar, a esfuziar, a arrebentar como as bocas de fogo de uma imensa girândola. Eis como os deuses resolveram a sua dúvida metafísica, armando bagatelas sonoras, "nugaequae canorae", para regalo próprio e miséria desses bichos da terra tão pequenos... E nós, como poderíamos resolvê-la? Nós, que guardamos uma parcela da inteligência criadora, uma pobre parcela misteriosamente escondida justamente nessa duvida metafísica?
De dois modos ela se insinua no ser humano: como doença do espírito abatido, ou como uma espécie de heroísmo íntimo. O primeiro caso é o de Schopenhauer, ou Hartmann, o segundo é o de Machado de Assis. Quando ela se manifesta como enfermidade da alma, produz o pessimismo imaginativo, como o solo de greda a erva estéril e daninha. Não há sombra de frondes nem aroma de bosques úmidos: há desanimo, horror, um verdadeiro desvio do sentido da vida. Mas quando ela se equilibra, temperada por uma ironia piedosa e refletida, em vez da invectiva desesperada há um amargor quase suave, e a incerteza interior não perturba tanto. Pantagruel, posto não acreditasse na perfeição humana, nem por isso lhe sabia mal o vinho espumarento dos repastos gloriosos. O nosso D. Casmurro não deixou de jantar, e bem, como tranquilamente ajunta, no dia em que recebeu a notícia da morte do filho, que lhe ofereceram à larga e descuidada paternidade o amigo de infância e a mulher, a Capitu de olhos de ressaca...
Sendo o adultério um pecado e uma injuria, não devia magoá-lo senão como uma dor física, porquanto, moralmente, tudo é mais ou menos uma hipótese. Philetas de Cós, se não nos enganamos, poeta elegíaco, e um dos cínicos mais deliciosos que têm florescido sobre a terra, implorava aos deuses, todas as manhãs, que destruíssem pela metade os povos da Grécia, para que, das lamentações e dos gemidos dos sobreviventes, pudesse compor um hino imortal à beleza da vida. Quem poderá concluir que o cinismo ingênuo e inócuo de Philetas, ou a superioridade calculada e cruel de D. Casmurro sejam imorais? Como julgar, em tal caso, quando sabemos que o mal está tão bem repartido, tão igualmente distribuído, que seria perversidade castigar nos outros a dádiva que recebemos, também, de Deus! É que a moral não procede da geometria. Seus teoremas se reduzem às nossas convicções e, como é notório, as nossas convicções têm o contorno da fumaça, o que vale por afirmar que não têm contorno algum... Já reparastes como a natureza, entre o eterno dualismo das nossas opiniões, se assemelha aos recuos de Voltaire entre as duas cortes famosas? De um lado Versalhes, de outro Sans-Souci, e, no centro, a. irreverência de um gênio mordaz, que atacando ou acarinhando, ora uma, ora outra, a ambas maltrata.
Machado de Assis, como bom psicólogo, não tentava contrariar o curso imponderável dos fatos; não acreditava no momento feliz nem no momento infeliz, acreditava em ambos, acompanhava a realidade de ambos. Seu raciocínio estava sempre em função do tempo e do espaço imediato, porquanto aceitava todas as coisas vivas e mortas, boas e más, honestas e desonestas com aquele imperturbável acolhimento dos espelhos e dos quadros.
Da sua obra se desprende um sentimento de constante preocupação pela beleza ou pela miséria terrena, e uma rara compreensão, atingida poucas vezes, da triste inutilidade a que as contingências quotidianas reduziram o coração e a inteligência dos homens. Em seus romances, o documento humano não obedece a um plano preconcebido, a um postulado primordial, a uma lei qualquer científica ou literária. Reflete-se neles, apenas, um espírito indagador, que a todo instante se observa a si mesmo, através dos outros, e vai corrigindo, com o sorriso e a lagrima, a imagem que a vida lhe põe diante dos olhos. Machado é, sem contestação, sob variados aspectos, o mais significativo dos escritores da língua portuguesa e, especialmente entre nós, ficará como exemplo de discrição, graça de estilo e finura de percepção.
Caberia a Aluísio Azevedo, formado entre os românticos, e romântico em seu primeiro livro (Uma Lágrima de Mulher) senão a primazia, ao menos o mais forte impulso para a reforma naturalista no Brasil. O Mulato, publicado no Maranhão, em 1881, marcou-lhe para logo um lugar à parte em nossa literatura, sem embargo de se perceber ainda, quer no feitio, quer no tom geral da fabulação, alguns laivos da corrente que vinha combater.
Na obra de Aluísio (A Casa de Pensão, O Homem, O Cortiço) não se encontra nem o desencanto de Quincas Borba, nem aquela intuição risonha de Braz Cubas. Ela nos oferece, porém, uma abundância de quadros, de cenas e de tipos verdadeiramente notável. Aluísio, como dissemos, é um impressionista, um impressionista que desenha, às vezes, com dificuldade, mas que sabe colorir admiravelmente. Vede os seus aspectos de rua, com as lojas abertas e as figuras costumeiras de homens de negócio, vendedores ambulantes, e desocupados; observai os seus diálogos, onde a língua e as ideias passam por todas as gamas imagináveis, desde o pernosticismo petulante da cabrocha até o balbucio do homem tímido e humilde. Que profusão de matizes, que riqueza de tintas em quase todas as suas páginas, cheias de um forte sentimento da realidade, flagrantes e sugestivas. Um pintor ressalta de cada período, e um pintor atrevido, amigo dos tons primários, quentes e luxuriantes. Sem se importar com os refolhos, Aluísio procurava a superfície da alma humana, onde geralmente, têm assento as paixões violentas, os vícios do nosso drama quotidiano. Seus tipos são, por via de regra, vulgares, grosseiros, não se distinguem pela sutileza da compreensão, nem pela frescura dos sentimentos. Ninguém, entretanto, poderá entender, seguramente, certos pormenores da nossa intimidade popular, certas tendências desse caos étnico, tumultuoso e disparatado, que forma a nossa plebe, e que se estende até aos primeiros degraus das nossas camadas sociais, sem conhecer a obra de Aluísio Azevedo. Ela reproduz, com a melhor fidelidade possível, a fisionomia do nosso mestiço físico e moral, cujas linhas fugitivas de caráter dificilmente se deixam entrever.
Júlio Ribeiro, que publicou dois romances, Padre Belchior de Pontes e Carne, não nos deu, todavia, a obra que era licito esperar do seu temperamento. A inteligência era, nele, menos forte que a sensibilidade, porquanto, apesar da sua nada comum leitura, sempre se revelou pouco discreto nos conceitos, desequilibrado na composição dos seus trabalhos e derramado no estilo. Possuía, entretanto, um verdadeiro instinto da vida que nem todas as preocupações científicas, nem todas as teorias literárias conseguiram dominar.
A Carne é um livro de exaltação, um hino dionisíaco ao prazer, ao gozo relativista, ao aproveitamento do momento que passa. Apesar do processo zolista, evidente no arranjo das cenas, no exagero das paixões, na brutalidade das criaturas, e, até, num certo propósito de confundir o leitor ingênuo; apesar da grosseria da palavra e do gesto, notadamente violentos e estranhos, ásperos e pesados, há na Carne uma poesia instintiva, um penetrante perfume de selva exuberante e selvagem. É uma obra comprometida pelo tom geral escandaloso e atrevido, mas onde, não há negar, sobressaem muitas qualidades apreciáveis e um forte lirismo.
A Raul Pompeia, que, à semelhança de Machado de Assis, não se deixou arrastar por um prejudicial "imperativo categórico" de escola, muito comum nos nossos escritores, é, malgrado a exiguidade da sua obra, uma das personalidades mais características da nossa literatura. O Ateneu não mostra somente um escritor elegante, um colorista, mas também um pensador original e inquieto, e um poeta, queremos dizer um homem, na mais larga acepção do termo. A sua observação, sempre vigilante e justa, vinha juntar-se um intenso interesse pelas coisas do mundo, interesse que mal escondia a fonte tormentosa de onde brotava. Raul Pompeia não afetava indiferença, nem se resignava facilmente quando, acaso, descobria nas nossas contingências terrenas uma nova tortura desconhecida, um abismo ignorado, um sinal incompreensível do destino mudo e imóvel. Ao contrário, atacava de frente o problema insolúvel, procurava o olhar fugitivo da esfinge, sondava-o, provocava-o até sentir o coração pesado e a alma cheia de vozes misteriosas. Então, e só então, consentia em revelar o pensamento amadurecido em segredo, e fazia reluzir a ideia esquisita, como uma joia polida.
Seu estilo é simples, não tem ornatos nem extravagâncias e possui uma ductilidade admirável. Ajusta-se às fôrmas definidas da paisagem, assim como às meias-tintas dos mais indefinidos estados de consciência, com uma precisão maravilhosa; mostra, ao mesmo tempo, os recamos da arvore enflorada e a melodia do pássaro escondido na espessura das ramas. Sua obra é, assim, um conflito entre a inteligência que, serenamente, investiga a fatalidade das causas remotas, e a sensibilidade, que se perturba ante o inevitável determinismo dos efeitos imediatos. Eis por que foi ele, entre os nossos naturalistas, o mais comovido e o mais poeta.
Sob o influxo desses quatro pioneiros do romance e do conto de índole realista, ou com intenções psicológicas, alargou-se consideravelmente, no XIX século, a história da nossa prosa de ficção, aparecendo escritores como Coelho Neto, Medeiros e Albuquerque e o Sr. Xavier Marques, que representam, atualmente, a mais brilhante descendência da segunda geração naturalista brasileira.
Trouxe, pois, o naturalismo às nossas letras uma concepção mais objetiva da vida e um sentimento menos idealista das eternas questões morais e sociais que movem os homens sobre a terra. O romance deixou de ser um mero jogo de situações fabulosas, ou um poema de caráter panteísta e contemplativo, para tornar-se um elemento de combate, uma escola de aprendizagem, às vezes perigosa, é certo, porém quase sempre útil e proveitosa. Se a exaltação de um Júlio Ribeiro pode produzir alguns resultados negativos, que ensinamento profundo não se colherá, porventura, no prudente desencanto de Machado de Assis?


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RONALD DE CARVALHO
Estudos Brasileiros (1924)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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