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3/18/2020

A mancha hiptálmica (Conto), de Horácio Quiroga



A mancha hiptálmica
Tradução: Iba Mendes (2020)
— Que tem essa parede?
Levantei também a vista e olhei. Não havia nada. A parede estava lisa, fria e completamente branca. Apenas em cima, próximo ao teto, estava ofuscado pela ausência de luz.
Outro, por sua vez, alçou os olhos e os manteve por um instante imóveis e bem abertos, como quando se quer dizer algo que não se sabe exatamente como expressar.
— P... parede? — indagou logo em seguida.
Isto sim: torpeza e sonambulismo das ideias, quanto é possível.
— Não é nada — respondi — é a mancha hiptálmica.
— Mancha?
—... hiptálmica. A mancha  hiptálmica. Este é o meu quarto. Minha mulher dormia daquele lado.... Que dor de cabeça! Bem, estávamos casados fazia sete meses e anteontem ela morreu. Não é isto?... É a mancha hiptálmica. Uma noite minha mulher acordou sobressaltada.
— O que você diz? — perguntei-lhe inquieto.
— Que sonho mais estranho! — respondeu-me ainda angustiada.
— Que era?
— Também não sei... Sei que foi um drama... Uma questão de drama... Uma coisa obscura e profunda... Que horror!
— Por Deus, trata de lembrar-te! — instei com ela, vivamente interessado. — Vocês me conhecem como homem de teatro...
Minha mulher fez um esforço.
— Não posso... Só me lembro do título: A mancha tele... hita... hiptálmica! E o rosto amarrado com um lenço branco.
— Quê?...
— Um lenço branco no rosto... A mancha hiptálmica.
“Estranho!" murmurei ininterruptamente por mais de um segundo para meditar sobre aquilo.
Porém dias depois minha mulher saiu do quarto com o rosto amarrado. Assim que a vi, lembrei bruscamente e notei em seus olhos que ela também havia se lembrado. Ambos caímos na gargalhada.
— Sim!... sim!... — ela ria. Assim que vesti meu cachecol, lembrei...
— Um duende?…
— Não sei; creio que sim...
Durante o dia ainda gracejamos com aquilo, e à noite, enquanto minha mulher se despia, gritei-lhe de repente da sala de jantar.
— Veja lá...
— Sim, a hiptálmica! respondeu-me rindo. Da minha parte, pus-me a rir, e durante quinze dias vivemos em plena loucura de amor.
Após esse lapso de aturdimento, seguiu-se um período de inquietação amorosa, a surda e mútua decepção de um desgosto que não veio e que, por fim, afogou-se em explosões de radiante e furioso amor.
Uma tarde, três ou quatro horas depois de almoçar, minha mulher, não me achando, entrou em seu quarto e ficou surpresa ao ver as persianas fechadas. Viu-me estendido na cama como um morto.
—Federico! — gritou enquanto corria até mim.
Não respondi uma só palavra nem sair de lugar. E era ela, minha mulher! Vocês entendem?
— Deixa-me! — afastei-me com raiva, voltando-me para a parede.
Durante um certo tempo não ouvi nada. Depois, sim: os soluços de minha mulher, o seu lenço afundado até a metade na boca.
Nessa noite ceamos em silêncio. Não pronunciamos uma palavra, até que, às dez, fiquei surpreendido com a mulher agachada diante do guarda-roupa, dobrando com extremo cuidado, prega por prega, um lanço branco.
— Mas desgraçado! — exclamou desesperada, erguendo minha cabeça. — O que faz?
Era ela, minha mulher! Eu a abracei de volta com intimidade.
— Que fazia? — respondi-lhe. — Buscava uma explicação exata para o que está acontecendo conosco.
— Federico... meu amor... — murmurou.
E a onda da paixão nos envolveu mais uma vez.
Vi que ela se despia ali mesmo na sala de jantar. E perguntei uivando de amor:
— Por que não?...
— Hiptálmica, hiptálmica! — respondeu rindo e se despindo com toda a pressa.
Quando entrei, fiquei impressionado com o considerável silêncio do quarto. Aproximei-me sem fazer barulho e olhei. Minha mulher estava deitada, com o rosto completamente inchado e branco. O seu rosto estava envolvido num lenço.
Afastei suavemente o cobertor e pus-me à beira da cama, impondo as mãos por trás de sua nuca.
Não havia ali nenhum farfalhar de roupas nem remota trepidação. Nada. A chama da vela queimava como se fosse aspirada pela imensidão do silêncio.
Passaram horas e horas. As paredes, brancas e frias, ia gradualmente escurecendo até o teto. Que era isso? Não sei...
E alcei novamente meus olhos. Os outros fizeram o mesmo e os mantiveram concentrados à parede por dois ou três segundos. Por fim, senti-os pesadamente fixos em mim.
— Você nunca esteve num manicômio? — indagou-me.
— Que eu saiba, não... — respondi.
— E no presídio?
— Até o momento, também não.
— Pois tenha cuidado, porque pode acabar num ou noutro.
— É possível... perfeitamente possível... — repliquei procurando dominar a confusão de minhas ideias.
Saíram.
Estou convencido de que foi denunciar-me, e acabo de me estender sobre o divã. Como a dor de cabeça persistisse, atei o rosto com o lenço branco.

3/15/2020

À deriva (Conto), de Horacio Quiroga




À deriva

Tradução: Iba Mendes (2020)


O homem pisou em algo meio mole, e logo sentiu uma picada no pé. Pulou para frente e, ao voltar-se com uma maldição, viu uma jararacuçu que, enrolada sobre si mesma, aguardava outro ataque.

O homem lançou uma rápida olhadela a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue adensavam com dificuldade, e puxou o facão da cintura. A cobra percebeu a ameaça e afundou ainda mais a cabeça no centro de seu próprio espiral; porém o facão caiu no cheio, deslocando-lhe as vértebras.

O homem agachou-se para olhar o ferimento, limpou as gotículas de sangue, observando-a por alguns instantes. Uma dor aguda brotava das duas manchinhas arroxeadas e começava a invadir todo o pé. Apressadamente cingiu o tornozelo com um lenço e seguiu por um atalho até o seu rancho.

A dor no pé aumentava progressivamente, e logo o homem sentiu duas ou três pontadas que, como relâmpagos, irradiavam-se desde o ferimento até a batata da perna. Movia a perna com dificuldade. Uma sequidão metálica na garganta, seguida de uma sede lancinante, arrancou-lhe uma nova maldição.

Chegou por fim ao rancho e deixou cair os braços sobre a roda de uma moenda. As manchinhas arroxeadas ocultavam-se na monstruosa inchação do pé inteiro. A pele tornou-se adiposa e de tal modo que parecia romper-se, de tão tensa que estava. Quis chamar a mulher, mas a voz se lhe embargou num arrastado ronco de garganta ressequida. A sede o devorava.

— Doroteia! — conseguiu soltar um grito de agonia. — Dê-me cachaça!

Sua mulher correu com um copo cheio, que o homem bebeu em três tragos. Mas não sentiu gosto algum.

— Pedi cachaça, e não água! — rugiu novamente. — Dê-me cachaça!

— Mas é cachaça, Paulino! — protestou a mulher, assustada.

— Não, você me deu água! Já disse que quero cachaça!

A mulher correu outra vez, retornando com o garrafão. O homem engoliu dois copos, um atrás do outro, mas não sentiu coisa alguma na garganta.

— Bem, a coisa está ficando feia... — sussurrou então observando o pé arroxeado e já com brilho de gangrena. Sob a rígida atadura do lenço, a carne expandia-se como um monstruoso pedaço de tripa.

As dores pungentes sucediam-se num contínuo relampejar, e chegavam até a virilha. Demais, a excruciante sequidão da garganta, que se aquecia ainda mais com o movimentar da respiração, também aumentava. Ao tentar se erguer, um vômito fulminante o manteve meio minuto com a testa encostada na roda da moenda.

Porém o homem não queria morrer, e descendo até à margem do rio, entrou na sua canoa. Acomodou-se na popa e principiou a remar até o meio do Paraná. Ali, a correnteza do rio, que nas imediações do Iguaçu corre seis milhas, o levaria antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.

O homem, numa determinação sombria, pôde de fato chegar até o meio do rio; porém suas mãos dormentes deixaram cair ali o remo da canoa, e após um novo vômito — agora com sangue —  dirigiu um olhar ao Sol, que a esta altura já transpunha o monte.

A perna inteira, até a metade da coxa, era já uma porção disforme e duríssima, que fazia rebentar a roupa. O homem cortou a atadura e rasgou a calça com a faca. O baixo ventre transbordou inchado, terrivelmente dolorido e com manchas lívidas enormes. O homem ponderou que jamais poderia chegar sozinho a Tacurú-Pucú, e achou por bem pedir ajudar a seu compadre Alvez, apesar de estarem brigados havia algum tempo.

A correnteza do rio precipitava-se agora até a costa brasileira, e o homem pôde atracar com facilidade. Arrastou-se pela vereda, ribanceira acima, mas depois de vinte metros desabou exausto, ficando estendido de bruços.

— Alvez! — vociferou com toda a força que pôde. E aguçou o ouvido em vão.

— Compadre Alvez! Não me negue este favor! — gritou mais uma vez, erguendo a cabeça do chão.

No silêncio da selva não se ouviu um único rumor. O homem ainda teve força para chegar até sua canoa, mas a correnteza, apanhando-a de novo, conduziu-a velozmente à deriva.

O Paraná corre ali num imenso fosso, cujas paredes com cem metros de altura, estreitam funebremente o rio. Desde as margens, alinhadas de negros blocos de basalto, desponta o bosque, também negro. À frente, dos lados, atrás, a eterna muralha lúgubre, em cujo fundo o rio rodopiante se precipita em contínuos borbotões de água lodacenta. A paisagem é agressiva, e nela impera um silêncio de morte. Ao entardecer, contudo, sua beleza sombria e tranquila adquire uma majestade única.

O Sol ia caindo quando o homem, encolhendo-se no fundo da canoa, sentiu um violento calafrio, e logo em seguida, assombrado, aprumou pesadamente a cabeça: sentia-se melhor. A perna lhe doía apenas um pouco, a sede mitigava, e o peito, agora livre, abria-se em lenta inspiração.

O veneno começa a evadir-se, não tinha dúvida. Sentia-se quase bem, e apesar de não ter forças para mover a mão, confiava na queda do orvalho para recompor-se. Calculou que antes de três horas decorridas estaria em Tacurú-Pucú.

O bem-estar aumentava, e com ele uma sonolência repleta de recordações. Já não sentia nada na perna, nem no ventre. Será que seu compadre Gaona ainda vivia em Tacurú-Pucú? Talvez encontrasse também seu ex-patrão, mister Dougald, e o encarregado da oficina.

Chegaria logo? O céu, no poente, abria-se num leque de ouro, e o rio também se havia colorido. Da costa paraguaia, já sombreada de treva, o monte deixava cair sobre o rio seu frescor crepuscular, em penetrantes fragrância de flores de laranjeiras e mel silvestre. Um casal de araras cruzou bem alto e em silêncio até o Paraguai.

Lá embaixo, por sobre o rio dourado, a canoa derivava velozmente, girando de quando em quando sobre si mesma, ante o borbulhar de um remoinho. O homem que seguia nela sentia-se cada vez melhor, e punha-se a pensar no tempo exato em que não vira seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez não, nem tanto. Dois anos e nove meses? Bem provável. Oito meses e meio? Sim, exatamente isso.

Quanto ao recebedor de madeiras de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, conhecera-o em Puerto Esperanza, numa Sexta-feira Santa... Sexta-feira? Sim, ou quinta...

O homem esticou lentamente os dedos da mão.

— Numa quinta-feira...

E parou de respirar...

3/13/2020

O homem morto (Conto), de Horacio Quiroga




O homem morto
Tradução: Iba Mendes (2020).
O homem e seu facão terminavam de limpar a quinta rua do bananal. Faltavam-lhes ainda duas ruas, porém como nestas proliferavam as chircas e malvas silvestres, a tarefa que tinha pela frente era coisa insignificante. Seguidamente o homem lançou um olhar satisfeito aos arbustos roçados e atravessou a cerca de arame, deitando-se sobre a relva por alguns instantes.
Mas ao baixar o arame farpado e passar o corpo, seu pé esquerdo tocou num pedaço de casca que se havia desprendido do poste, ao passo que o facão se lhe escapou da mão. Enquanto caía, o homem teve a leve impressão de não ver o facão caído no chão.
Já estava deitado na grama, do lado direito, exatamente como ele queria. A boca, que acabara de abrir em toda sua extensão, acabava também de fechar-se. Estava, pois, como desejava estar: os joelhos dobrados e a mão esquerda sobre o peito. Só que, por trás o antebraço e imediatamente debaixo do cinto, apareciam de sua camisa o cabo e parte da folha do facão.  Nada mais se via.
Em vão o homem tentou mover a cabeça. Olhou de esguelha o cabo do facão, ainda úmido de suor em sua mão. Avaliou mentalmente a extensão e o trajeto do objeto dentro de seu ventre, e não teve a menor dúvida de que havia chegado ao termo de sua existência.
A morte. No transcorrer da vida, muitas vezes pensamos no dia em que, após anos, meses, semanas e dias se preparando, chegaremos por fim ao limiar da morte. É a lei fatal, previsível e aceita. Tanto é assim que nos deixamos levar prazenteiramente pela imaginação a esse momento, supremo entre todos, em que daremos o último suspiro.
Entretanto, entre o instante atual e essa derradeira expiação, quantos sonhos, dissabores, esperanças e dramas pressupomos em nossa vida! O que nos reserva ainda esta existência repleta de vigor, antes de sua extinção do cenário humano! É este o consolo, o prazer e a razão de nossas divagações fúnebres: a morte está ainda tão distante, e é tão imprevisto o que ainda devemos viver! 
Ainda? Não se passaram dois segundos: o sol permanece exatamente no mesmo lugar; as sombras não avançaram um milímetro. Subitamente acabam de desfazer-se para o homem estendido as divagações futuras: está morrendo!
Morto. Pode considerar-se morto na sua cômoda posição.
Mas o homem abre os olhos e observa. Quanto tempo se passou? Que calamidade sobreviveu ao mundo? Que desordem da natureza culminou no horrível acontecimento?
Vai morrer. Fria, fatal e inevitavelmente, vai morrer.
O homem resiste — é tão imprevisto este horror! E pensa: é um pesadelo, com certeza! O que mudou? Nada. E olha: porventura não é este bananal o seu bananal? Não vem todas as manhãs limpá-lo? Quem o conhece como ele?
Vê claramente o bananal, bastante rarefeito, as folhas largas exposta ao sol. Estão ali bem perto, desgastadas pelo vento. Agora, porém, não se movem... É o sossego do meio-dia; devem ser quase doze horas. 
Por entre as bananeiras, logo adiante, o homem vê, do chão duro o telhado vermelho de sua casa. À esquerda entrevê o monte e a capoeira de canelas. Não ver mais nada,  porém sabe muito bem que atrás de si está a estrada para o porto novo, e que, na direção de sua cabeça, lá embaixo bem no fundo do vale, jaz o Paraná adormecido como um lago. Tudo, tudo exatamente como sempre: o sol de fogo, o ar vibrante e solitário, as bananeiras imóveis, a cerca de arame com postes muito grossos e altos que logo será substituída...
Morto! Mas será possível? Não é este um dos tantos dias em que sai de sua casa pela manhã com o facão na mão? Não está bem ali, a quatro metros dele, seu cavalo listrado, cheirando parcimoniosamente o arame farpado?
Sim! Alguém assobia... Não pode ver quem é, porque se acha de costa para a estrada, mas sente ressoar na pequena ponte os passos do cavalo... É o menino que passa todas as manhãs ao porto novo, às onze e meia. E sempre assoviando... Do poste descascado, que o homem quase toca com as botas, até a cerca viva do matagal, que separa o bananal da estrada, são quinze metros de comprimento. Isso ele sabe perfeitamente bem, pois ele mesmo, ao erguer a cerca mediu a distância.
Que se passa, afinal? Não é esse um meio-dia típico, como tantos em Missões, em seu monte, sua pastagem, em seu bananal rarefeito? Sem dúvida! Vegetação curta, cones de formigas, sol a pino...
Nada, nada mudou. Apenas ele está diferente. Há dois minutos que a sua  pessoa, a sua personalidade vivente, nada mais tem que ver com a pastagem que ele mesmo modelou à enxada durante cinco meses consecutivos, nem com o bananal, obra exclusiva de suas mãos. Nem com a sua família. Foi arrancado subitamente, naturalmente, por obra de uma casca notável e um facão no abdome. Está morrendo já há dois minutos.
O homem, muito cansado e estendido na grama sobre o lado direito, recusa-se a aceitar um fenômeno dessa transcendência, ante o aspecto regular e monótono de tudo que o cerca. Sabe perfeitamente a hora: às onze e meia... O menino de todos os dias acaba de passar pela ponte.
Mas não é possível que tenha escorregado! O cabo de seu facão (logo deverá trocá-lo por outro; já está bastante desgastado) estava perfeitamente pressionado entre sua mão esquerda e o arame farpado. Depois de dez anos  no bosque, ele sabe muito bem manejar um facão no mato. Apenas está muito exausto do trabalho desta manhã, e repousa um pouco como de costume.
A prova? Ora, esse mesmo matinho que agora lhe entra pelo canto da boca, ele mesmo o plantou em pedaços de terra distante um metro um do outro! E este é o seu bananal; e esse é o seu cavalo listrado, baforando cautelosamente ante o arame farpado. Vê-o perfeitamente; sabe que não se atreve a dobrar a esquina da cerca, porque está deitado quase ao pé do poste. Distingue-o muito bem; e ver as bagas de suor que lhe brotam do lombo até o quadril. O sol bate forte e a calma é muito grande, porque nem uma única franja das bananeiras se move. Todos os dias como este, ele tem visto as mesmas coisas.
...Muito exausto, mas apenas descansa. Devem ter passado já vários minutos... E às quinze para meio-dia, de lá de cima, do chalé de telhado vermelho, sua mulher e seus dois filhos descerão ao bananal a buscá-lo para o almoço. Ouve sempre, antes das outras, a voz de seu filho mais novo, que busca soltar-se da mão de sua mãe: “Papá! Papá!”
Não é isto?... Sem dúvida, está escutando! Já é a hora... De fato ouve a voz do filho!...
Que pesadelo!... Porém este é um dia como tantos outros, corriqueiro como todos, está claro! Luz excessiva, sombras pálidas, calor silencioso de forno sobre a carne, que faz suar o cavalo, estático ante o bananal proibido.
Muito cansado, mas só isso e nada mais! Quantas vezes, ao meio-dia como agora, retornando a casa, atravessou esta pastagem, que era capoeira quando chegou e antes havia sido mata virgem? Vinha então muito cansado também, com seu facão pendente na mão esquerda, a passos lentos...
Pode ainda afastar-se mentalmente, se desejar; pode, se quiser, abandonar por um momento o seu corpo e ver da represa por ele construída, a mesma e trivial paisagem; o pedregulho vulcânico com gramas firmes; o bananal e sua areia vermelha; a cerca de arame que se apequena na encosta e que se acotovela com a estrada. E mais distante ainda ver a pastagem, obra exclusiva de suas mãos. E ao pé de um poste descascado, deitado sobre o lado esquerda e as pernas encolhidas, do mesmo modo que todos os dias, pode ver a si mesmo como um pequeno vulto coberto de areia sobre a relva — repousando porque está bastante cansado...
Mas o cavalo rajado de suor e cautelosamente imóvel perante um canto da cerca de arame, vê também o homem no chão e ousa contornar o bananal, como desejaria. Ante as vozes que já estão perto — papá! ­— por um longo, longo instante, move as orelhas em direção ao vulto e, por fim, passa tranquilamente entre o poste o homem estendido, que já descansou.

3/07/2020

A galinha degolada (Conto), de Horacio Quiroga




A galinha degolada

Tradução: Iba Mendes (2020)

O dia todo num banco do quintal, permaneciam sentados os quatros filhos idiotas do casal Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos e voltavam a cabeça com a boca aberta.

O quintal era de terra, cercado de um dos lados por um muro de tijolos. O banco ficava paralelo ao muro, a uma distância de cinco metros, e ali eles se conservavam imóveis, mantendo os olhos fixos nos tijolos.  Ao cair da tarde, quando o sol se escondia por trás do muro, os idiotas faziam festa. No princípio a luz ofuscante prendia-lhes a atenção, e aos poucos seus olhos se animavam; em seguida, riam estrepitosamente, convulsionados pela mesma expressão de alegria, contemplando o sol com satisfação bestial, como se fosse comida.

Outras vezes, alienados no banco, zumbiam horas inteiras, imitando o ruído do bonde elétrico. Os estridentes sons sacudiam-nos da inércia e então, mordendo a própria língua, corriam mugindo por todo o quintal. Porém, quase sempre permaneciam imergidos na letargia obscura do idiotismo, e assim passavam o dia inteiro sentados no banco, com as pernas erguidas e paralisadas, empapando as calças com uma baba pegajosa.

O mais velho tinha doze anos e o menor oito. Em todo o seu aspecto sujo e descuidado observava-se a completa ausência de cuidado maternal.

Entretanto, ouve um tempo em que esses quatro idiotas haviam sido o encanto dos pais. Com três meses de casados, Manzzini e Berta orientaram seu profundo amor de marido e mulher, e mulher e marido, para um futuro muito mais glorioso: um filho. Ora, que satisfação maior poderia haver para os dois apaixonados que essa honrosa consagração de carinho, libertado do mesquinho egoísmo de um mútuo amor sem propósito algum e, o que é pior para o mesmo amor, sem esperanças possíveis de renovação?

Assim se sentiram Mazzini e Berta, e quando o filho nasceu, aos catorze meses de casamento, acreditavam que a felicidade estava completa.  A criança cresceu, bela e radiante, até atingir um ano e meio de idade. No vigésimo mês, porém, o menino fora tomado por convulsões terríveis, e já pela manhã não podia reconhecer mais seus pais. O médico o examinou longamente, concentrando toda sua atenção profissional em pesquisar a doença como de causa hereditária, originada dos pais.

Passados alguns dias, os membros paralisados recobraram os movimentos, mas a inteligência, a alma, o próprio instinto se haviam desaparecido por completo. Ficara profundamente idiota, babão, apático, morto para sempre sobre os joelhos de sua mãe.

— Meu filho, meu querido filhinho! — soluçava a infeliz mulher sobre aquele farrapo de vida.

O pai, desolado, acompanhou o médico até a saída.

— Ao senhor eu posso falar com franqueza: trata-se de um caso perdido. Poderá melhorar, educar-se, mas apenas naquilo que é permitido ao seu próprio idiotismo, e nada além disso.

— Oh, sim... sim... — assentia Mazzini. — Porém diga-me: o doutor acredita realmente que o caso seja hereditário?

— Quanto à herança paterna, eu já expressei minha opinião sobre seu filho. No que diz respeito à mãe, tem ela um pulmão que não funciona bem. Não vejo nada além disso, a não ser uma respiração débil. Faz-se necessário examiná-la mais detidamente.

Com a alma dilacerada pelo remorso, Mazzini redobrou o amor a seu filho, o pequeno idiota que pagava pelos excessos do avô. Precisou ainda consolar sem trégua a Berta, ferida em seu íntimo por aquele fracasso de sua precoce maternidade.

Como é natural, o casal direcionou todo seu amor na esperança de outro filho. Este nasceu saudável, e seu sorriso límpido reacendeu o futuro extinto. Contudo, aos dezoito meses as convulsões do primogênito se repetiram, e no outro dia amanheceu idiota.

Desta feita, os pais mergulharam em profundo desespero. Logo seu sangue, seu amor estavam amaldiçoados! Sobretudo seu amor! Contava ele vinte e oito anos, e ela vinte e dois. E toda essa apaixonada ternura, porém, não era capaz de gerar um átomo de vida. Já não pediam beleza e inteligência como se dera com o primogênito. Em vez disso, queriam apenas um filho! Um filho como outro qualquer!

Do segundo desastre brotaram novas labaredas do dolorido amor, um desesperado desejo de redimir de uma vez para sempre a santidade de sua ternura. Vieram gêmeos, e passo a passo repetiu-se o mesmo processo dos mais velhos.

Mas acima de sua imensa amargura, pairava em Mazzini e Berta uma grande compaixão pelos quatro filhos. Fez-se necessário arrancar do limbo da mais funda animalidade, não já suas almas, senão o próprio instinto abolido.  Não sabiam comer, mudar de lugar e nem sequer sentar-se. Por fim, aprenderam caminhar, mas por não saberem distinguir os obstáculos, esbarravam em tudo. Quando lhes davam banho, mugiam até ficar com o rosto vermelho, injetado de sangue. Só se animavam para comer, ou quando viam cores brilhantes ou escutavam trovões. Riam-se, então, pondo a língua de fora e expelindo golfadas de baba, tomados de um frenesi bestial. Eram, no entanto, dotados de certa faculdade imitativa, porém nada além disso.

Com os gêmeos pareceu concluída a aterradora descendência. Todavia, passados três anos, desejaram ardentemente um novo filho, acreditando que o longo tempo transcorrido houvesse aplacado a fatalidade.

Não satisfaziam suas esperanças. E nesse ardente desejo que se exasperava, em razão de sua infrutuosidade, tornaram-se cada vez mais amargos. Até esse instante, cada um havia tomado sobre si a parte que lhe correspondia na desgraça dos filhos; mas a desesperança da redenção diante das quatro bestas que haviam nascido de cada um deles, fez germinar a imperiosa necessidade de culpar os outros, algo que é próprio dos corações subalternos.

Os primeiros arrufos iniciaram com a troca de pronomes: teus filhos. E, como além do insulto havia a insídia, o ambiente tornou-se carregado.

— Parece-me — disse-lhe uma noite Mazzini, que acabava de entrar e lavava as mãos — que poderia manter os meninos mais limpos.

Berta permaneceu lendo, como se não tivesse ouvido.

— É a primeira vez — emendou ela — que te vejo preocupado com o estado de teus filhos.

Mazzini voltou um pouco a cara para ela com um sorriso forçado:

— De nossos filhos, é o que me parece.

— Bem, de nossos filhos. Fica melhor assim? — E levantou os olhos.

Desta vez Mazzini foi bastante claro:

— Provavelmente vai atribuir a culpa a mim, não?

— Era só o que me faltava!… — murmurou.

— Só faltava o quê?

— Que se alguém tem a culpa, não sou eu, entenda bem! — É isso que queria dizer.

O marido olhou-a um momento, com brutal desejo de insultá-la.

— Deixa para lá — articulou, secando-se por fim as mãos.

— Como quiser, mas se está insinuando que...

— Berta!

— Como quiser!...

Esta foi a primeira discussão e logo sucederam outras. Porém, nas suas inevitáveis reconciliações, suas almas se uniam em ardente anseio por outro filho.

Nasceu assim uma menina. Viveram dois anos em cruel ansiedade, sempre na iminência permanente de outro desastre. Nada, entretanto, aconteceu, e voltaram para ela toda sua complacência, que a pequena levava aos mais extremos limites da má-criação.

Se nos últimos tempos Berta sempre cuidava de seus filhos, ao nascer Bertita esqueceu-se quase que completamente dos outros. A simples recordação deles a horrorizava, e de tal forma que se sentia como se tivesse cometendo uma ação atroz. O mesmo se dava com Mazzini, embora em menor grau. Mas nem por isso a paz havia atingido às suas almas. A mais banal indisposição de sua filha fazia suscitar o terror de perdê-la, por causa de sua infecta descendência. Haviam acumulado fel o tempo suficiente para que o vaso, ao menor contato, quebrasse-se, transbordando fora seus venenos.

O respeito mútuo entre ambos fora perdido desde a primeira discussão envenenada; e se há algo a que o homem se deixa seduzir para a satisfação de sua crueldade, é quando já começou a humilhar de todo uma pessoa.

Antes se reprimiam pela ausência mútua de sucesso; agora, porém, que este havia chegado, cada qual, atribuindo o êxito a si próprio, sentia maior desprezo às quatro aberrações que o outro havia obrigado a criar.

Com tais sentimentos, já não havia mais afeto possível para os quatro filhos maiores.  A empregada vestia-os, dava-lhes comida e os colocava para dormir com visível brutalidade. Não os banhava quase nunca. Passavam quase o dia todo sentados em frente ao muro, alheios a mais leve carícia.

Desta maneira Bertita completou quatro anos. E nesta noite, como consequência das guloseimas que os pais eram incapazes de negar-lhe, a menina teve calafrios e febre. E o receio de vê-la morrer ou tornar-se idiota fez reabrir a eterna chaga.

Fazia três horas que não se falavam e a razão foi, como quase sempre, os fortes passos de Mazzini.

— Meu Deus! Será que você não pode caminhar mais devagar? Quantas vezes?...

Ela sorriu, desdenhosa:


— Está bem, é que me esqueço. Acabou-se! Não faço de propósito.

Ela sorriu com indiferença:

— Não, não acredito muito em você!

— Nem eu deveria ter acreditado tanto em você... sua tísica!

— Quê? O que você disse?

— Nada!

— Sim, ouvi você dizer alguma coisa! Olhe: não sei o que disse, mas juro que prefiro qualquer coisa a ter um pai como o que você teve!

Mazzini empalideceu.

— Ah, por fim! — murmurou cerrando os dentes. — Isso era tudo o que você queria dizer, sua víbora!

— Sim, víbora, sim! Mas eu tive pais saudáveis, ouviu bem? Saudáveis! Meu pai não morreu louco! Eu poderia ter tido filhos como os de todo mundo! Esses filhos são seus, os quatro!

— Víbora, tísica! Foi isso que eu disse, e o que eu quero dizer! Pergunta, pergunta ao médico quem tem maior culpa da meningite dos seus filhos: meu pai ou o seu pulmão doente, víbora!

Continuaram a discussão ainda com maior violência, até que um gemido de Bertita fechou instantaneamente suas bocas. À uma hora da manhã a ligeira indigestão havia passado, e como sempre acontece com todos os casais jovens que se amaram intensamente, ao menos uma vez, a reconciliação chegou, tanto mais abrasadora quanto mais agressivas tenham sido as ofensas.

O dia amanheceu esplendoroso, no entanto, Berta se levantou cuspindo sangue. As emoções e a péssima noite eram, sem dúvida, as grandes culpadas. Mazzini a reteve nos braços por longo tempo, e ela chorou desesperadamente, mas sem que nenhum dos dois ousasse dizer uma só palavra.

Às dez horas, decidiram sair depois do almoço. Como tinham pouco tempo, deram ordem à empregada para que matasse uma galinha.

O dia radiante tirara os quatro idiotas de seu banco. De maneira que, enquanto a empregada degolava o animal lentamente na cozinha (Berta aprendera com sua mãe esse método de conservar a frescura da carne), sentiu como se alguém respirasse atrás de si. Voltou-se e viu os quatro idiotas com os ombros pegados uns nos outros, observando estupefatos a operação. Vermelho... vermelho...

— Senhora! Os meninos estão aqui na cozinha!

Berta apareceu; não queria que jamais entrassem ali. Quanto mais nessas horas de completo perdão, de esquecimento e felicidade reconquistada; podia ter evitado essa horrível visão! Porque, naturalmente, quanto mais intenso era o sentimento de amor ao marido e à filha, mais aversão nutria pelos monstros.

— Que se retirem, Maria! Leve-os, leve-os, estou ordenando.

As quatro bestas, aturdidas, brutalmente empurradas, foram enxotadas para o seu banco.

Depois de almoçar, saíram todos. A empregada foi a Buenos Aires e o casal foi passear pelos arredores. À tarde, retornaram, mas Berta quis saudar por um momento os vizinhos da frente. A menina escapou ligeira para casa.

Entretanto os idiotas haviam permanecido o dia inteiro no banco. O sol já havia transposto os limites do muro, começava a esconder, e eles continuavam olhando os tijolos, mais inertes como nunca.

De repente, algo se colocou entre seu olhar e o muro. Sua irmã, cansada de passar cinco horas com os pais, desejou observar por conta própria. Parada no pé do muro, olhava pensativa para cima. Sem dúvida, queria subir. Por fim, decidiu trepar numa cadeira sem assento, mas ainda não alcançava. Tomou, então,  um caixote de querosene, e seus instintos topográficos a fez colocar o objeto em posição vertical. E com isso triunfou. 

Os quatro idiotas, com o olhar indiferente, examinavam como sua irmã, pacientemente, mantinha o equilíbrio e como, nas pontas dos pés, apoiava o pescoço na parte superior do muro, entre as mãos vacilantes. Viram-na olhar para todos os lados, buscando apoio com o pé para subir mais.

Porém o olhar dos idiotas se animara; a mesma luz insistente cravava-se em suas pupilas. Não tiravam os olhos da irmã enquanto uma sensação crescente de gula bestial ia transformando cada linha de seus rostos. Lentamente avançaram até o muro. A pequena, que já havia firmado o pé, ia montar no muro e pular para o outro lado, sentiu-se agarrada pela perna. Debaixo dela, os oito olhos fixados nos seus lhe deram medo.

— Solte-me! Deixe-me! — gritou sacudindo a perna.

— Mamãe! Ai mamãe! Mamãe, papai! — berrou imperiosamente.

Tentou ainda se agarrar na beirada do muro, mas foi puxada dali e caiu.

— Mamãe! ai! ma...

— Já não podia mais gritar. Um deles lhe apertou o pescoço, separando os cachinhos de cabelos como se fossem penas, e os outros a arrastaram por uma perna até a cozinha, onde pela manhã haviam sangrado a galinha. Seguraram-na firme,  arrancando-lhe a vida segundo por segundo.

Mazzini, na casa da frente, julgou ter ouvido a voz da filha.

— Parece que chamam você — disse para Berta.

Prestaram atenção, inquietos, mas não ouviram nada mais. Contudo, um instante depois se despediram e, enquanto Berta ia guardar o seu chapéu,  Mazzini correu para o quintal.

 — Bertita!

Ninguém respondeu.

— Bertita! — gritou com a voz ainda mais alterada.

E o silêncio foi tão fúnebre para seu coração atemorizado, que lhe subiu pela espinha um calafrio de um horrível pressentimento.

— Minha filha, minha filha! — correu desesperado até o fundo. Porém, ao passar frente à cozinha viu no chão um mar de sangue. Empurrou violentamente a porta encostada e deixou escapar um grito de horror.

Berta, que se lançara correndo, ao ouvi o angustiado chamado do pai, escutou o grito e respondeu com outro. Mas, ao precipitar-se na cozinha, Mazzini, pálido como a morte, interpôs-se, contendo-a.

— Não entre!... Não entre!...

Berta, ainda assim, conseguiu ver o chão inundado de sangue. Apenas pôde erguer as mãos à cabeça e abraçar o marido com um profundo suspiro.

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Ilustração: André le Blanc

10/03/2016

Hiptálmica (Conto), de Horacio Quiroga.


Hiptálmica , de Horacio Quiroga.
Publicado originalmente no "Jornal das Moças", em sua edição de 8 de abril de 1926. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


 
— Que tem essa parede?
Levantei também a vista e olhei. No havia nada. A parede estava lisa, fria e totalmente branca.
Só em cima, perto do teto, estava obscurecida pela ausência de luz.
Outro, por sua vez, ergueu os olhos e os manteve por um momento imóveis e bem abertos, como quando se deseja dizer alguma coisa que não se sabe exprimir.
— Pa... parede?... — perguntou depois.
Era uma indicação estapafúrdia.
Isso sim, torpeza e sonambulismo das ideias, quanto era possível.
— Não é nada respondi — é a mancha hiptálmica.
— Mancha?...
— ...hiptálmica. A mancha hiptálmica.
Este é o meu quarto. Minha mulher dormia naquele lado... Que dor de cabeça!
Bem, estávamos casados já há sete meses e anteontem ela morreu. Não é? É a mancha hiptálmica. Uma noite minha mulher acordou sobressaltada.
— Que tens? — perguntei-lhe inquieto.
— Que sonho mais esquisito! — respondeu-me ainda angustiada.
— Que era?
— Não sei... Sei que era um drama, um assunto dramático... uma coisa obscura e profunda... Horrível!
— Procura lembrar-te por Deus! — instei com ela, vivamente interessado.
Os senhores me conhecem como homem de teatro...
Minha mulher fez um esforço.
 — Não posso... Não me lembro de mais nada, a não ser do título: A mancha tele... hita... hiptálmica! E tinha o rosto amarrado com lenço branco.
—Que?!
— Um lenço branco no rosto. A mancha hyptálmica.
— Esquisito! — murmurei sem deter-me um segundo mais a pensar naquilo.
Mas dias depois, minha mulher saiu do quarto com o rosto sombrio. Apenas a vi, recordei-me imediatamente e percebi em seus olhos que ela também se recordara.
Ambos soltamos gargalhadas.
— Ah! Ah! — ria se ela. — Logo que coloquei o lenço, recordei-me...
— Um duende?
— Não sei, creio que sim...
Durante o dia, gracejamos ainda com aquilo e à noite, enquanto minha mulher se despia, gritei-lhe de repente da sala de jantar:
— Olha aí!
— Sim, a mancha hiptálmica — respondeu-me rindo. Por minha vez, pus me a rir e, durante quinze dias, vivemos em plena loucura de amor.
Depois desse lapso de atordoamento, sobreveio um período de morosa inquietação, o surdo e mútuo receio de um desgosto que não chegava e que se afogou, por fim, em explosões de radiante e furioso amor.
Uma tarde, três ou quatro horas depois de almoçar, minha mulher não me encontrando, entrou em seu quarto e ficou surpresa ao ver os postigos fechados. Viu-me na cama estendido como um morto.
— Frederico? — gritou correndo para mim.
Não respondi uma palavra nem me movi. E era ela, minha mulher, entendem?
— Deixa-me! — desvencilhei-me com raiva, virando me para a parede.
Por um instante não ouvi nada.
Depois, sim: os soluços de minha mulher sob o lenço, mergulhado até o meio da boca.
Nessa noite jantamos em silêncio. Não trocamos uma palavra, até que, às dez, minha mulher me surpreendeu de cuecas, diante do guarda-roupa, dobrando com extremo cuidado, prega por prega, um lenço branco.
— Mas desgraçado! — exclamou desesperada, erguendo-me a cabeça. — Que fazes?
Era ela minha mulher! Devolvi-lhe o abraço em plena boca.
— Que fazia? — perguntei-lhe. — Procurava uma explicação justa para o que nos está acontecendo.
— Frederico... meu amor — murmurou ela.
E a torrente de loucura envolveu-nos novamente.
Da sala de jantar, ouvi que ela, aqui mesmo, se despia. Com amor, perguntei:
— Aconteceu alguma coisa?...
— Hiptálmica! Hiptálmica! — respondeu rindo desnudando-se a toda pressa.
Quando entrei, surpreendeu-me o silêncio considerável deste quarto. Aproximei-me sem fazer ruído e olhei. Minha mulher estava deitada, a face intumescida e branca.
Tinha o rosto envolto num lenço.
Debrucei-me na beirada da cama e enclavinhei as mãos atrás da nuca.
Não havia aqui qualquer ruído de roupa e nenhum estremecimento longínquo. Nada. A chama da vela acendia como que aspirada pelo imenso silêncio.
Passaram-se horas e horas. As paredes brancas e frias obscureciam-se até o teto...
Que era isso? não sei...
E ergui de novo os olhos. Os outros fizeram o mesmo e os mantiveram por dois ou três segundos. Por fim, senti-os pesadamente fixos em mim.
— O senhor nunca esteve em um manicômio? — perguntaram-me.
— Não, que eu saiba... respondi.
— E em presídio?
— Também não, até agora...
— Pois tenha cuidado, porque vai acabar em um ou em outro.
— É possível... É perfeitamente possível — retruquei procurando dominar minha confusão de ideias.
Saíram.
Estou certo de que me foram denunciar e acabo de estender-me sobre um divã.
Como a dor de cabeça continuasse, amarrei o rosto com um lenço branco