domingo, 1 de março de 2020

“A Filha do Doutor Negro” (Resenha)



“A Filha do Doutor Negro”  (Resenha)
A filha do doutor negro foi o romance com que Camilo Castelo Branco mimoseou o seu público. Foi um verdadeiro mimo, porque poucas vezes o talento do grande escritor se mostrou tão esplêndido e vigoroso como nesta maravilhosa produção.
Tem sido e será ainda por muito tempo assunto de eternas discussões o saber se o romance deve analisar as pústulas do corpo social, mostrá-las em toda a sua hediondez, analisar friamente a vida, ser o observador implacável e descompassivo das misérias da existência, apresentar-nos tal, como ele é, o quadro da sociedade despido de todos os prestígios da pintura; ser como o explicador, que nos teatros, em cujo palco se desenrola um panorama diante dos expectadores, vai indicando, com a sua voz monótona e sem inflexões, as paisagens que vão aparecendo; ou se deve pôr antes em jogo as paixões do coração humano, deixar o estudo das feridas nojentas da sociedade a quem pode remediá-las, pintar e não fotografar, apresentar as cópias idealizadas e não os modelos prosaicos, contar com o fogo de um ator, e não recitar com a monotonia do ponto, ser em fim da escola idealista, e não da escola realista.
Confesso que todas as minhas predileções pertencem àquela e não a esta escola, que prefiro o livro cuja leitura me extasia, me enleva, e me comove, ao livro cujas páginas só me podem inspirar asco, tédio e ceticismo. Bem sei que me objetam que o romance deve ser a pintura da sociedade real, e não a de uma sociedade fictícia, que nada se lucra com a leitura de um livro onde não aprendamos a conhecer os homens, e onde pelo contrário sejamos levados a encará-los por um prisma enganador. Tudo isso será verdade, mas ah! neste século, em que vai sendo cada vez mais pronunciada a tendência materialista, onde se poderão refugiar as nobres aspirações da humanidade, se o santuário da literatura também for profanado, se lhe arrancarem de lá a estátua do ideal para a arrastarem pelos tremedais da sociedade, se obrigarem também a dar fruto as pobres florinhas desse jardim defeso, como se lhes não bastasse o aroma com que se tem deliciado os séculos, os eflúvios do bom, do belo, e do justo, que tem contribuído mais para a regeneração social do que esses frutos amargos produzidos pelas flores, enxertadas em árvores úteis, do pomar da escola de Balzac?
Qual é o fim da escola realista? Iniciar os moços nos mistérios da existência, precavê-los contra os perigos da sociedade, ensinar-lhes a conhecer o mal por baixo da camada brilhante que o esconde? A natureza não deixa raptar artificialmente os seus direitos, e mil Balzaques não hão de impedir que a experiência seja a única e verdadeira mestra da vida. E sabem, por fim de contas, o que essa literatura faz? Forma uma geração, como a geração juvenil que por aí campeia, geração materialista, sem fogo, sem ilusões, e sem experiência, homens de vinte anos com a devassidão torpe, com o egoísmo, com a secura de coração dos velhos, para quem as cãs não são diadema venerando mas coroa de orgia, geração que não encontra espinhos na vida, porque não quer colher nem uma flor só, geração de Rastignacs e de Rubemprés aperfeiçoados pelo estudo dos seus modelos.
Mas suponhamos que não é esse o fim da escola realista, e os mesmos que fazem parte dela zombam da influência exercida pela literatura sobre os costumes, e asseveram que ninguém se emenda dos seus vícios ou dos seus defeitos em atenção a um romance e a uma peça de teatro. Nesse caso qual é? Flagelar o crime e o ridículo, atá-los ao pelourinho, e expô-los à irrisão da posteridade? Falta-lhes para isso a nobre indignação, a ira sagrada! O escalpelo de Balzac está muito longe de ser o látego de Juvenal, e o pelourinho da Comédia Humana é um pigmeu ao pé da colossal coluna, a que Aristófanes atou a sociedade grega. Estes observadores do coração humano fariam melhor, se deixassem falar o seu. Estes frios analisadores, que não veem no vício senão um assunto, no espetáculo da sociedade corrupta um modelo que pacientemente copiam, são capazes de aparecerem no vale de Josafá com um aparelho fotográfico, para tirarem uma cópia fria e descorada do Juízo final, cópia que Miguel Ângelo contemplará com um sorriso de escárnio.
Mas então não será esse o seu fim, e terá unicamente o de retratar a sociedade, de apresentar um traslado fiel da época em que vivemos, sem nenhuma outra intenção? Ainda nesse caso não acho que os realistas preencham esse fim; tem um sistema de observação muito mesquinho, veem muito ao pé, procedem pela análise e não pela síntese, fazem laboriosamente o quadro, reunindo figura a figura, de onde resulta ficar uma tela verdadeira nas particularidades, falsa no todo, sem proporções, sem perspectiva, sem claro-escuro. Tal não pode ser o sistema da arte, tal não foi o sistema de Molière. Resulta daí que Molière apresentou um quadro luminoso, magnífico do seu tempo, em que a vista abrange de relance as glórias e os ridículos, as virtudes e os vícios do século de Luiz XIV, Alceste e Tartufo. Balzac não fez mais do que apresentar uma coleção de tipos, nada genéricos, um grupo de variedades de uma espécie, e, nem que vivesse dois mil anos, poderia, pelo sistema que adotava, completar a lista de forma que o futuro pudesse perceber finalmente quais eram as diferentes faces do século em que vivemos. Canalis pode resumir em si a literatura? Goriot pode-se considerar como o tipo genérico da paternidade no século XIX? Gobseck e Grandet bastam por si sós para a descrição do usurário atual?
Seja como for, e sem querer protrair mais este longa digressão, parece-me que a escola realista, sejam quais forem as suas intenções filosóficas, não produz em literatura senão as Fanis e as Madames Bovaris, que, permitam-me que o diga, não se pode dizer rigorosamente que tenham o mérito do Paulo e Virgínia de Bernardin de Saint Pierre, e da Átala de Chateaubriand.
Camilo Castelo Branco escreveu nas duas escolas. Em ambas deu provas do seu vasto e flexível talento, mas, parece-me, foi sempre mais feliz nos romances em que viveu a vida dos seus personagens, em que chorou, amou, sofreu com eles, do que nos outros em que se limitou a fazê-los aparecer em cena, como marionetes a quem faz mover o braço oculto do diretor.
Amor de perdição, Estrelas propicias, Romance de um homem rico, Amor de salvação, Filha do doutor negro, são, em quanto a mim, as suas obras primas. É possível que a minha predileção pelo gênero me obrigue a ser parcial. Forcejei porque assim não fosse, mas, se o não consegui, paciência.
A Filha do doutor negro é incontestavelmente um belíssimo romance, bem delineado, bem conduzido, admiravelmente escrito. Os diálogos estão perfeitamente travados, e são em geral de um vigor, de uma elevação de pensamentos, de uma poesia muito notáveis. Abro ao acaso, e leio o seguinte.
Duas palavras de explicação preliminar.
A heroína do romance, Albertina, filha de um advogado mulato, de grande inteligência e de grande reputação, amou extremosamente um escrevente de seu pai, com quem este a não deixa casar, cedendo aos assomos de vaidade naturais a todos os grandes democratas, que querem o nivelamento social tendo por base o plano em que estão colocados, e que bradam pelo derrubar dos andares superiores, protestando furiosos quando lhes chega a sua vez de descerem ao nível das lájeas térreas. Albertina, desesperada, fugiu com o escrevente, para casar com ele. Perseguiu-os o velho, incitado por uma ira que degenera em verdadeiro frenesi. A causa dessa perseguição era, mais do que a vaidade ofendida, o amor paternal, amor cioso como nenhum, tanto mais quanto se vê obrigado a comprimir os zelos implacáveis que o acompanham.
Querem que lhes diga o que penso? Parece-me que a escola idealista consegue, sem ter a isso pretensões, ser mais verdadeira do que a escola realista. A intuição vale mais do que a observação. Excomunguem-me embora os pontífices da crítica; compreendo o doutor negro, não compreendo le pére Goriot.
Imaginam facilmente quanto não sofreria o pobre advogado com os mesmos golpes, que feriam, vibrados por ele, sua filha estremecida. Antônio da Silveira, um amigo da família, alma generosa, coração nobre, vem procurá-lo e encontra-o prostrado no leito da dor, mas sempre implacável, sempre inacessível à misericórdia. É então que ele lhe diz estas admiráveis palavras:
Sr. doutor Alpedrinha, da borda do abismo, onde a mão da sua soberba o quer despenhar, levante os olhos para cima e veja Deus. Vossa senhoria lançou de si com desprezo uma tábua salvadora, quando as ondas amaríssimas da vida se cavaram em redor da sua alma desvigorizada pela irreligião. A piedade era o salvamento. A conformidade era o triunfo. A caridade era o anjo bom que o chamava a perdoar e a abençoar a união de sua filha. Vossa senhoria consultou os mestres do orgulho, folheou o seu Voltaire, e não encontrou lá o ditame do perdão da injúria, nem a bandeira da misericórdia com que devera cobrir a pureza de sua filha, manchada pela difamação. A soberba está aqui sentada à cabeceira desta cama, com um braço enroscado na sua garganta. Se do outro lado estivesse uma cruz, a vitória da honra seria certa. Não vejo um sinal do cristão enfermo em volta deste leito, é forçoso que as más paixões o dilacerem. Ali fora encontrei uma senhora chorando. Chora porque perdeu a filha. Chora porque vai perder seu marido. Chora porque há de sobreviver ao esteio que se lhe quebra para estender a mão à caridade pública. Valia bem a pena que vossa senhoria obrigasse o pai daquela desgraçada mulher a ceder-lha para um fim de vida tão desprezado!... Há de o senhor doutor acabar aí com este peso de remorso sobre o peito!
Francisco Simões sentou-se arrebatadamente na cama e bradou:
— Cale-se! cale-se que me abafai... Deixe-me morrer que eu não tenho já espírito que se levante a Deus!
— Pois Deus baixará até ao seu espírito! — redarguiu Antônio da Silveira. — Experimente, meu amigo. Chame a divina fé em seu socorro. Veja se pode apagar com lágrimas esse brasido que lhe requeima as entranhas. Peça ao Senhor a felicidade de sua filha. Perdoe-lhe a ela, perdoe ao homem que lha roubou.
Que alteza de pensamentos! Que elevação de estilo! Que nobre singeleza de linguagem!
E conservam-se sempre nessa altura as trezentas páginas desse admirável romance.
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PINHEIRO CHAGAS
Ensaios Críticos (1866)
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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