sábado, 30 de maio de 2020

A formosa das violetas (Conto), de Camilo Castelo Branco



A FORMOSA DAS VIOLETAS
Júlio Janin, no folhetim do Jornal dos Debates, de 30 de março do corrente ano, escreveu o seguinte:
“No ano da graça de 1836, o mês de abril correu aprazível e delicioso; e no mês de maio ressoaram canções que farte. Ora, a ponto de expirar o mavioso abril e nascer o maio, (apenas são volvidos vinte e sete anos e três revoluções!) as multidões afanadas e curiosas premiam-se contra o vestíbulo do teatro da Porte-Saint-Martin. O já popular e glorificado autor de “Henrique III”, de “Antony”, de “Ricardo de Arlington”, da “Torre de Nesle” e de “Ângelo” tinha, naquela noite, em cena um Mistério, em que figuravam anjos e demônios. Muitos mancebos daquele tempo, agrupados no pórtico do teatro, cediam o passo às turbas azafamadas, recreavam-se de vê-las assim entusiastas, e notavam a meia voz os homens conhecidos, os homens célebres, uns que começavam, outros que iam no termo da sua carreira. Senão quando, todos os olhares confluíram sobre um magnífico trem, uma berlinda de Erhler, arreada à Brune, e tirada por dois enormes urcos ingleses, saídos das cavalariças de madame la Dauphine. Um corpulento cocheiro, e um espadaúdo húngaro de sete palmos de altura, afora o penacho, todo broslado de galões doirados, completavam a equipagem que parou rápida à porta do teatro. E abrindo logo o keiduque a portinhola, e baixando com estrondo os degraus da carruagem, viu-se apear um elegante moço. Não tinha ainda trinta anos; trajava com apontado esmero; de gravata branca e luvas amarelas; estatura corpulenta e belamente conformada, cabeleira anelada, boca um tanto grande, mas graciosa, olhar ardente, e airosa compostura de semblante. No braço do mancebo apoiou-se a leve mão de uma dama, juvenil como ele, ansiosa de volitar por sobre o espaço interposto. Que formosa ela vinha com o seu vestir de Primavera! Violetas na mão, violetas por adorno do chapéu de palha, ondulante faixa a tiracolo, calçada à perfeição de botinhas mordorées, viçosa e linda a mais não ser! A impaciência tirava por ela, e ele caminhava pausado, com aquele ar de homem que escuta em si a fada benigna da suprema fortuna. Exornavam o peito do cavalheiro as mais peregrinas cores de pedraria das condecorações e dos ornatos. Era barão em França, marquês em Espanha, e membro do clube dos fidalgos em Florença. Dizia-se — e era verdade — que o mais somenos utensílio dos seus aposentos era de ouro, o seu lavatório de ouro armoreado, doirada a sua câmara. E contudo, crede-me, se vos apraz, a sensação que ele causou foi a da admiração simpática, a da inveja, não. Nesta França apontada e embevecida nas aparições de cada dia, tais como — de manhã, “As Orientais”; depois, “A Carnagem de Missolonghi” de Eugênio Delacroix; ao meio-dia, os discursos de Thiers; à noite, a ópera de Meyerbeer; no dia seguinte, um romance de Balzac, uma canção de Alfredo de Musset... entre nós aquele mancebo tinha de pouco revelado Hoffmann e os seus contos. Escrevia ele depressa, pouco, e bem. Sabia inglês como um diplomata, e alemão como um filósofo. Pertencia, naquele tempo, à nascente redação do Jornal dos Debates, e chamava-se LOCRE VEIMARS.”
Até aqui Júlio Janin.
***
Nos arrabaldes de Londres, em uma quinta de delícias, quantas pode imitar da natureza o artifício britânico, vivia, naquela época, um português, que a intolerância política expatriara em 1832.
A fortuna dava-lhe formosas mulheres para o coração, e desvelados amigos para o espírito e também para a mesa. O nosso patrício, encarreirado prosperamente no comércio, entendeu que ao emigrado pobre devia ele desvelos de irmão; e assim, quantos portugueses se socorriam do seu valimento encontravam franco e inexaurível aquele coração de ouro, e o ouro das gavetas, cujo quilate é superiormente apreciado. Os convivas habituais da sua mesa eram um jurisconsulto inglês dos mais afamados de Londres, e um português de excelentes qualidades, hoje nosso ministro na corte de Madrid.
Um dia, porém, os comensais saíram do aprazível abrigo do emigrado, porque eram de mais numas alegrias, cuja doce poesia está no resguardo e solidão de dois.
O português fora o preferido daquela formosa das violetas que Júlio Janin recorda no seu folhetim. Mademoiselle Loewe Weimars, a irmã do barão folhetinista, do marquês em Espanha, do fidalgo florentino, casara com o nosso patrício, que era, então, um moço alegre como a felicidade, descuidado do futuro como criança que brinca entre flores, todo expansibilidade em olhos e palavras de muito bem-querer que lhe exuberava do coração.
Coração e nome são ainda os mesmos naquele homem vinte e sete anos depois. Todavia, quem há de hoje reconhecer o festejado e amado noivo da irmã de Locre Veimars naqueles cabelos brancos e fronte avincada do jornalista portuense? Aqui vo-lo apresento agora: estendei a mão àquela mão liberal que beijaram muitos infelizes. Abraçai José Joaquim Gonçalves Basto, que sentireis bater o melhor e mais infeliz dos corações!
***
Infeliz! Com tão próspera monção ao entrar no bonançoso mar da vida?! Amado por aquela peregrina dama, cujos espíritos cultivados em Paris e Londres competiam com a distinção de sua beleza?
Infeliz, sim, por que não? A desgraça, quando assalta de ímpeto os seus prediletos, não respeita a virtude, nem os anjos, nem o amor. Os mais elevados espíritos, as mais generosas almas é que ela se compraz de humilhar e rasoirar pelo nível das baixas e estúpidas condições.
Gonçalves Basto, volvidos dois anos de felicidade santa na intimidade de esposa e filhos, achou-se pobre e vencido na luta com insuperáveis calamidades comerciais.
Deixou a Inglaterra, e voltou à Pátria com sua família.
De repente, os amigos todos o desampararam, os amigos que se desobrigaram do que deviam com a infâmia de esquecerem a dívida.
Permaneceu leal no infortúnio o que se mantivera desprendido na propriedade: era José Vieira de Carvalho, moço portuense, abastado, instruído, e de nobilíssima índole. Deliberara este fundar um jornal de camaradagem com o falecido Antônio Bernardo Ferreira, da Régua, e o atual deputado e insigne industrial, Faria Ribeiro Guimarães.
Fundou-se a Coalisão, jornal de que Gonçalves Basto aceitou a redação principal e a responsabilidade. Cada qual por sua vez, os proprietários retiraram-se, declinando sobre o redator o encargo de sustentar o periódico. Gonçalves Basto fundou o Nacional há dezoito anos, com os elementos da Coalisão extinta.
José Vieira de Carvalho, solteiro, rico e doente, antevendo o próximo termo da vida, anuncia que a sorte dos filhos do seu amigo está segura nos seus haveres. Morre em França, Vieira de Carvalho, e o testamento é subtraído.
Na contrarrevolução de 1846, Gonçalves Basto é nomeado comandante de um batalhão de artistas. Domina o descomedimento dos seus subordinados, e, no campo, dá-lhes o exemplo da coragem. Quando o exército espanhol transpôs as raias pelo Norte, as últimas espingardas que obedeceram às ordens da junta foram as dos artistas comandados por Gonçalves Basto.
E, neste entretanto, a família do jornalista, esposa, e três filhos, belos como anjos, viviam, da gratificação mensal do, comandante: DEZ MIL RÉIS!
Entrou, ao cabo de dez meses, o jornalista em mais perigosa e sanguenta batalha. Os caceteiros fardados enxameavam nas ruas do Porto; os partidários da Junta, que não emigravam, escondiam-se; a cada passo, os mais audazes eram assaltados nas praças e espancados. José Joaquim Gonçalves Basto está tranquilo à sua banca de trabalho, ouvindo gemer os prelos, que afrontam a cobardia das autoridades civis e militares, de cujas mãos os sicários recebem o cacete e o punhal.
O escritório do Nacional é assaltado por uma malta de sargentos e soldadesca ébria e furiosa. Gonçalves Basto, Sousa Reis e os tipógrafos defendem-se com os galeões, e os cobardes fogem a grandes brados invocando a guarnição.
Alguns amigos de Gonçalves Basto reduzem-no a dar-se à prisão, para evitar o incêndio da casa e a carnagem. O jornalista, com alguns dos seus cúmplices de defesa, entram na Relação.
***
O duque de Saldanha voltou vitorioso de Lóbios.
Gonçalves Basto saudou o homem que apregoava a Regeneração. Eu fui convidado a colaborar no Nacional, e este foi o periódico mais veemente em apregoar as virtudes do velho general.
Ali, na casa pia, no salão donde desalojara o conde de Casal, o duque atirou às rebatinhas empregos, retribuições de serviços fabulosos, lugares diplomáticos, consulados, escrivaninhas, títulos; mas, a esse tempo, Gonçalves Basto, em vez de ir à casa pia, estava no escritório do Nacional encarecendo as virtudes políticas do marechal, e explicando a justiça de suas liberalidades. Os amigos diziam-lhe: “Vai, não percas a ocasião”; e ele respondia: “Se alguma coisa mereço, em vinte anos de serviço, a ocasião me virá procurar.”
Ora, aconteceu que a ocasião o não procurou. Todos os a amigos da Junta se levantaram; todos os talentos e capacidades se identificaram com a regeneração: triunfaram em 1851 as ideias de 1846; mas Gonçalves Basto, nomeado cônsul de Vigo pela Junta, e condecorado na ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa — graça não solicitada nem rejeitada — esqueceu maiorais da Junta que se bandearam com Saldanha, e esqueceu àquelas mãos-rotas do dadivoso duque, o qual alegremente lia as apologias do Nacional.
***
José Joaquim Gonçalves Basto envelheceu, curtido de lancinantes dores; lágrimas, porém, só duas vezes lhe vi o rosto lavado delas: foi ao fugirem-lhe dos braços para Deus dois dos seus filhos. A pobreza cerra-o de perto há quinze anos, e ele como que tem minas de ouro no coração. É sempre com um sorriso que vos ele diz: “Não tenho nada.” A desgraça tem estes sorrisos, que são dentro do peito unhas de ferro.
E ela, a formosa das violetas de 1836, a irmã do marquês em Espanha, do revelador de Hoffmann, do diplomata ilustre, há tantos anos morto, na opulência da vida, do nome, e das esperanças?
Elisa Loewe Weimars vai, de tempo a tempo, ao cemitério da Foz, onde estão umas flores plantadas por sua mão sobre as cinzas de um filho. Ali, decerto lhe esquecem as glórias de Paris e as glórias de Londres. Aquele cômoro de terra é um pregão contra as vaidades da formosura, flor de um dia requeimada pelo gear de uma noite e contra as vaidades do talento, flama brilhantíssima que mais escuras deixa as trevas em redor, quando se extingue.
Ó santa de todas as dores de mulher, de esposa e mãe! quem saberá contar as tuas horas excruciantes? Quais almas descerão do teu Calvário com o segredo dos teus suplícios?!
***
Meu caro Basto, releva ao teu amigo de dezesseis anos o vir ele falar de teus infortúnios em face do mundo, que os há de ler, por ser isto dito em folhetim, e ajeitado em forma de romance. Quando eu entrei nesta via dolorosa das letras, achei-me contigo. Por força devia ser um desgraçado quem me abrisse as portas deste inferno. Achei-o nesse tormento de Sísifo, e aí te vejo agora. Rolas o penedo ao píncaro da montanha, o penedo revolve-se ao fundo da precipitosa ladeira, e tu lá vais de novo costa acima limpando o suor e as lágrimas. Se às vezes paras um instante nesse trabalho de forçado, é para contemplares como a estupidez e a infâmia trazem avassalados os fiscais da república, e como eles sobem arreados de placas e fitas, enquanto tu vais descendo às margens do rio da morte, olhando em ti, e pensando que vem perto o dia em que não possa repartir um pão com a tua família.
Há trinta anos que sofres e trabalhas por amor da Pátria, meu pobre amigo. Deves ter quebrantos de angustioso desalento, quando em ti reparas, e não achas um só homem que te possa dizer: “Eu sofri e lidei tanto como tu, e recebi dos governos do meu país a retribuição vilipendiosa de tamanho desprezo!”
Luta, meu amigo; e, quando mais não puderes, pergunta à Providência Divina que mal fizeste à Pátria para tamanha ingratidão, ou que mal devias fazer aos homens para eles te recompensarem com benefícios.
Lisboa, 14 de julho de 1863.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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