sábado, 30 de maio de 2020

Tramoias (Conto), de Camilo Castelo Branco




TRAMOIAS DESTA VIDA
CONTO MORAL
Um tal Gastão de Mendonça, morgado de Pinhatel, requestou uma Balbina, natural de Esposende. Gastão era de linhagem tão antiga, que se apagava nas trevas da mitologia. Balbina era filha de uma viúva, que vivia de sua habilidade de fazer rede, e da sua indústria de taverneira, em dias santificados, e romarias circunvizinhas.
O morgado de Pinhatel era homem de quarenta anos, vicioso, dissipador e escalavrado pela libertinagem. Balbina tinha dezesseis anos, costumes irrepreensíveis, muita saúde e muita alegria. Parece que a natureza os desligava; mas o demônio, que é uma segunda natureza na condição tentadiça de cada qual, ligou-os! A gente pasma; a verdade, porém, é esta, que se baldeia de um poço de lama.
Uma noite, a filha única da mulher laboriosa fugiu de casa, e entrou no solar de Gastão. A mãe chorou até morrer, e poucas semanas chorou. Balbina, desde que vestiu luto por ela, sentiu trespassar-lhe carne e ossos e coração umas dores lancinantes as mil agulhas do remorso, que a não deixavam sossegar. A mãe sentava-se ao lado dela à mesa, seguia-lhe os passos à igreja deitava-se com ela, e, assim que o sono lha tirava das mãos pesava-lhe no peito em sonhos hórridos.
Nesta espécie de remorso há uma força que lhe desponta os espinhos: é o amor do homem a quem a filha sacrifica a honra ou a vida de seus pais.
Amor infando é esse; mas, por magia infernal que tem, é certo que prevalece ao remorso.
No entanto, Balbina, ainda que quisesse escudar-se do fantasma de sua mãe, com a audácia e despejo que dá a satisfação do crime, não podia, que, à hora em que a velha expirou, já não era amada.
Ora, depois de desamada, passou a aborrecida, porque chorava sempre; e, se há veneno que roa o último liame de coração enfastiado de um mau homem, são as lágrimas da mulher enfadonha.
Gastão de Mendonça pôs a mira a outro fito. Deixou-a a braços com o fantasma, e foi-se em demanda de realidades.
Andou por lá uns dois meses, ora no Porto, ora na Foz, amando em toda a parte, com aplauso de sua vaidade, inveja dos rapazes, e beneplácito de ilustres damas, menos mal comportadas, na impecável opinião pública.
Voltou a casa para vender umas propriedades, e tornar à Foz, onde perdera, jogando, o dinheiro de outras, que tinha vendido.
Quando chegou a casa, e não viu Balbina, perguntou por ela. Os criados disseram que se havia ido embora, um mês antes, a pé, mal enroupada, e sem dinheiro nem coisa que o valesse.
Mandou o morgado a Esposende averiguar se ela por lá estava, com a tenção de lhe dar algumas moedas para restabelecer a taverna. Bom homem!
Ninguém deu novas dela: todos a supunham em Pinhatel. De si para si, Gastão entendeu que a moça se havia atirado ao Cávado. Teve pena de Balbina, e um certo horror de si mesmo; todavia, como este horror o incomodasse, apressou a venda dos bens, e foi distrair-se.
Aconteceu ver ele uma dama deslumbrante, de família genealógica, maior de vinte e oito anos, galhofeira, fascinadora, amestrada e esperta, à custa dos logros da poesia; prosa, enfim, mas belíssima prosa. Amou-a; foi acolhido, e logo repelido; daí a pouco amado, e outra vez aborrecido; um dia, requestado, e, no seguinte, desfeiteado. A resulta disto foi casarem-se, com escrituras cavilosamente vantajosas para a noiva, que já sabia com quem as havia de ter. Fez-se dotar com o máximo da casa de seu marido, estimuladas as condições de modo que, em caso de divórcio, ela se levantasse com o dote.
Eles aí vão como dois pombos arrulhando finezas por aqueles bosques do Minho.
Ao oitavo dia de delícias conjugais, D. Perpétua abre a sua boca engraçada, espreguiça-se, e diz:
— Estou farta de aldeia, Gastão! Vamos nós para o Porto? Está cantando o Montemerli, que é um assombro!
— Muito me custa não te fazer a vontade, minha adorada Perpétua; mas sinceramente te digo que de finanças está isto mal.
— Ora, finanças! Arranja, menino, arranja dinheiro. Se tu quiseres, vamos.
— Não sei onde hei de ir bater, meu amor! Salvo se vender uma propriedade.
— Pois vende; lá por uma propriedade de menos também não ficamos pobres.
Vendeu-se a propriedade, e foram ouvir o Montemerli.
Ouvir o grande cantor era desejo inocente e louvavelmente artístico; porém, vender um pedaço da casa, em holocausto às orelhas, foi desatino; mas, enfim, passe, que a arte e cultivo dos ouvidos é um despotismo perdoável. O que de todo o ponto se não perdoa é que a senhora D. Perpétua aplicasse uma orelha a Montemerli, e a outra a um sujeito que a visitava no camarote, na sala e nas casas que ela visitava.
Gastão desconfiou, e sentiu dentro da alma podre uns rebates da alvorada do dia expiatório. Procedeu avisadamente: calou-se, e foi com a sua senhora para Pinhatel.
Era no coração do Inverno. A aldeia fez-se pavorosa. A carranca do céu só podia igualar-se à carranca de D. Perpétua.
Rompeu a desordem. Gladiaram-se de língua até se retirarem de punhos cerrados cada um para seu quarto. Não se viram oito dias; e, para se verem, foi mister que o vigário interviesse na reconciliação com o Evangelho em punho, posto que para o caso sujeito tanto valesse o Evangelho como o Alcorão. E tanto isto é verdade que, quinze dias passados, assanharam-se de novo, e o padre voltou com o Evangelho, e saiu corrido do que ouviu a respeito da religião. É que D. Perpétua, no acume do seu ódio à aldeia, negava Deus; e Gastão, se já não fosse ateu, nem houvesse ateus, inventava-se ateu por ter havido um Deus que fez semelhante mulher!
Perdida religião e vergonha, bateram-se mutuamente às punhadas. Perpétua escreveu a seus irmãos. Os irmãos requereram o depósito judicial da mana, para ação de divórcio. Gastão opôs-se. As leis eram por ele; mas os juízes foram por ela. Sentenciada a separação, executou-se o estipulado na escritura dotal. O morgado, que de vínculo apenas tinha uma torre e uns montados, ficou reduzido a bens que valeriam vinte mil cruzados escassos.
D. Perpétua, senhora de propriedades excedentes ao triplo daquela quantia, recolheu-se à família, e deu-se a viver regaladamente, prestando não já um só, senão ambos os ouvidos àquele sujeito que outrora compartira da honraria de Montemerli.
A ponto estamos de aparecer em Esposende um forasteiro que não dizia donde era, nem o que fazia ali.
Chegou o homem um dia, e parou defronte da casa da mãe de Balbina. A nova inquilina, cuidando que o viandante procurava a antiga taverneira para aí jantar, disse-lhe:
— Olhe que já não é venda aqui. A taverneira morreu há dois anos. Ainda que eu seja confiada, o senhor é brasileiro?
O sujeito resmungou uma resposta ininteligível, e perguntou:
— E a taverneira, que morreu, não deixou ninguém?
— Deixou uma filha, senhor; é a Balbina Rosa, que apareceu aqui há tempos, depois de lhe termos rezado por alma. Coitada!... castigo assim!
O suposto brasileiro sentou-se no banco de pedra da testada e escutou a história da fugida de Balbina e da morte da tia Serafina da tenda. A informadora, mais ou menos inventiva, rematou assim a notícia:
— Ninguém sabia de Balbina, nem já falava nela, quando um moço cá da terra, que é soldado, a topou na serra do Laboreiro a guardar cabras. Ela pegou a fugir assim que ele a chamou pelo nome; mas o moço já a não deixou sem ficar bem certo. Pelos modos, meu senhor, a rapariga parece desenterrada. Olhe vossemecê onde ela foi parar! À serra do Laboreiro que é daqui oito léguas! A tia Serafina bebia os ventos por ela. A Balbina tinha as mãos tão mimosas que eram mesmo dedos de fidalga. Não trabalhava senão em coisas finas; até sabia fazer crochete. O senhor há de saber o que é crochete?... Pois é verdade! Uma menina, assim criada, andar agora lá pelos montes a guardar cabras! Aperta-se-me o coração, quando penso nisto!... Tudo pr’amor daquele diabo do homem, Deus me perdoe, que, se é verdade o que se diz, não tardará que ele ande às esmolas! Ainda eu o veja a cair a pedaços, e tantas pragas o cubram como de lágrimas ele fez chorar à pobre velha, que era uma santa!... Então vossemecê, ainda que eu seja confiada, conhecia a tia Serafina?
O brasileiro, se era brasileiro, como vai conjecturar-se do capítulo seguinte, respondeu coisa mal percebida, e levantou-se, cortejando a sensível mulher, que estava enxugando as lágrimas.
Ela, porém, despeitada do laconismo do sujeito, ficou dizendo de si para si: “Parece atolambado o homem! Vai-se assim embora, sem dizer isto nem aquilo!”
Dali a pouco, voltou o mal-encarado perguntador, e disse:
— Faz-me o favor de me dizer como hei de eu encontrar o soldado que encontrou Balbina?
— Eu sei lá, senhor! Só se a família dele souber onde pára o regimento.
— Indague-me o que puder saber — tornou o sujeito, lançando ao regaço da mulher alguns cruzados novos. — Aí tem pelo seu trabalho, e outro tanto lhe darei pelo seu segredo. Não diga que falou comigo nem as perguntas que lhe fiz.
Articulou a mulher umas palavras de assombro e alegria, e saiu a executar discretamente o encargo.
Deteve-se pouco, e voltou afirmando que o José Torto estava em Valença, na quarta companhia do regimento.
O generoso remunerador da notícia despediu-se, prometendo redobrar-lhe a paga do segredo.
A mulher, assim que o homem saiu, pôs as mãos diante de uma imagem do Senhor de Matosinhos, e disse: — “O meu Pai do Céu, fazei que eu não diga nada do que se passou!”
A sincera criatura entendia que, só ajudada por Deus, poderia calar-se! E fez-se o milagre!
***
Este homem, que assim se empenha em descobrir Balbina, quer o leitor saber quem é, donde vem, e que tem ele que ver com a pastora da serra do Laboreiro?
Chama-se este homem João Moreira, e vem do Brasil, para onde foi menino. É natural de Esposende, e irmão da defunta Serafina da Tenda, tio, portanto, de Balbina Rosa.
Havia saído da terra natal cinquenta anos antes. Escreveu aos pais alguns anos. Depois, morreram os pais, ele casou, trabalhou, enriqueceu para os filhos, e esqueceu-se da Pátria e da irmã, que deixara. Serafina julgava-o morto, e os seus patrícios esqueceram-no.
Quando estava rico e velho, morreu-lhe a mulher, e, no breve termo de um ano, seus três filhos. Lembrou-se então de Esposende e da irmã. Estava só, amargurado, contemplador melancólico de sua inútil riqueza.
Veio, então, para Portugal em busca de família, e envergonhado de, só à hora do desamparo, procurar sua irmã.
Sabem o mais. Parou defronte da casa onde nascera; e, como visse uma mulher representando quarenta anos, pensou consigo que não podia ser aquela. “Morreu, certamente!”, disse João Moreira entre si, com dor, com um desapego mortal da vida, e arrependimento de se ter alongado dos ossos de seus filhos, que ao menos conhecia, para se avizinhar das cinzas deslembradas e desconhecidas de seus pais e irmã.
Nisto cismava o brasileiro, quando a inquilina, ou proprietária da casa paterna lhe disse que a taverneira tinha morrido.
Agora vamos em cata dele ao Alto Minho. Vai o leitor pasmar-se daquelas bem-aventuradas margens do Lima. Entra comigo em Viana, na louçã namorada do oceano, naquela esquiva formosa que vacila entre deixar-se amar das ondas, que lhe beijam os pés, ou dos arvoredos que lhe enramam a fronte. Agora, vamos neste barquinho rio acima até Ponte do Lima. Não se me fique arrobado neste ondear de esmeralda que a viração balança, que receio me deixe ir sozinho em procura do brasileiro. Aquilo são bosques, que escondem moitas arrelvadas, e meandros de fontes, e amores de aves, e amores de damas castelãs, que por ali se escondem mais conhecidas das estrelas que nossas, e mais conhecidas ainda dos faunos ilustrados do sítio que das estrelas.
Aqui estamos na velha Ponte. Iremos por terra a Valença, que é um ir sempre ao debaixo de abóbadas de verdura. Cá está a fortaleza, fazendo carrancas a Tuí, à decrépita Galiza, que o rio Minho separa de nós, como cordão de limpeza entre a orla do ridente Portugal e a testada dos nossos sujos vizinhos, sujos, como galegos que são. Sujos! e ladrões lá na sua cafraria? Isso então é coisa para tamanho espanto que só não há de espantar-se do que são lá, quem souber como eles são ladrões cá.
Aqui vamos na peugada de João Moreira, que procura o vinte e três da quarta companhia, José Torto de Esposende.
Declara José Torto que, indo a escoltar uns presos da vila dos Arcos para outro ponto, vira uma pastora no caminho, a tornar à manada uma cabra que se desgarrara, e cuidara ele ver Balbina; mas tendo ouvido dizer que ela se deitara ao rio Cávado, não acreditara os seus olhos. Ajuntou que se persuadira ser ela, vendo-a voltar o rosto, e apertar o pé a fugir por um outeirinho abaixo; e ele então a chamara pelo seu nome, e ela mais corria. Acrescentou que deu quatro pinchos no declive da serra, e a pilhara, obrigando-a a confessar que era Balbina, e não tivera tempo de lhe ouvir mais nada, porque o cabo da escolta o chamara, ameaçando-o, por cuidar que ele perseguia a moça desaustinadamente.
Ouvida a narrativa, João Moreira procurou o comandante do regimento, conversou largamente com ele, e obteve que o vinte e três da quarta o acompanhasse à serra do Laboreiro.
Chegaram ao romper da manhã do segundo dia de jornada aos montados de Entrime, e do píncaro mais levantado descortinaram em derredor os rebanhos que iam subindo das póvoas escondidas nas gargantas da serra. Foram à fala com o primeiro pastor, que avistaram, e descobriram que havia em Castro Laboreiro uma rapariga ao serviço de um lavrador, vinda de longe, e chamada Francisca. Os sinais desta Francisca exatamente condiziam com os de Balbina. Devia ser ela. Dali baixaram ao outeiro onde o soldado a topara, e, por felicidade de todos, ao dobrarem o cotovelo de um barrocal, entreviram, ao través da ramagem de uns carvalhos, a pastora, sentada à borda de um regato, que devia ser um braço da ribeira das Várzeas, a qual por ali se infiltra na aridez daqueles algares.
— É ela mesma! — disse o José Torto.
— Fique você aqui — ordenou o brasileiro.
João Moreira acercou-se de Balbina, que, ao vê-lo, se erguera surpreendida e timorata.
— Bons-dias, menina — disse o irmão de Serafina.
— Deus lhe dê os mesmos — balbuciou a pastora.
— Venho buscá-la.
— Buscar-me?! — exclamou apavorada a moça, relanceando os olhos como quem procurava socorro.
— Parece — tornou João Moreira — que a minha velhice é bastante para que a moça me não tema. Se quer quem lhe acuda, está ali o nosso patrício José Torto. Não o vê acolá?
Balbina reparou, e disse:
— O senhor é de Esposende?!
— Sou.
— Nunca o vi; ele sei que é; mas o senhor...
— Sou de Esposende, sou irmão de Serafina, sou tio de Balbina.
A rapariga deixou cair o fuso da mão, e abriu a boca, tingindo-se de um escarlate precursor da perda dos sentidos.
O brasileiro prosseguiu:
— É teu tio que te procura. Não tenhas pejo de mim, nem remorso da tua desgraça.
Tua mãe já deve ter-te perdoado. Beija a mão de teu tio. Serafina algumas vezes te falaria do irmão ingrato ou morto. Veio à hora que a Providência divina ordenou. Venho buscar-te, Balbina. Daqui irei a teu amo; ele mandará novo pastor ao seu rebanho, e tu não voltarás a casa dele.
Balbina ouvia; mas, querendo falar, sentia a língua soldada ao céu da boca.
— Então, minha sobrinha, responde: quem é teu amo? — volveu o brasileiro.
A moça disse o nome do dono do rebanho, e permaneceu no espasmo.
— Ensina-me o caminho mais perto — instou o tio.
A pastora deu alguns passos até assomar ao alto de um teso, donde se avistava o lugarejo, e disse:
— Aqui por este fojo abaixo vai mais depressa.
— Diz adeus às tuas cabrinhas, que eu volto já, filha.
E, acenando ao guia, desceram à aldeia, guiando-se pelo trilho dos rebanhos.
Correu assim grande parte do diálogo entre o brasileiro e o lavrador:
— Há quanto tempo é sua criada a moça que vossemecê diz chamar-se Francisca?
— Há quatro anos e três meses.
— Tem sido boa serva?
— Como não há outra em todo o Laboreiro; mas eu não sei donde ela é.
— Nem eu lho pergunto, amigo. A sua criada deixou de o ser. Vai retirar-se comigo. Mande vossemecê tomar conta do seu gado.
— Pois ela vai?! Evossemecê quem é?
— Sou o legítimo dono daquela rapariga.
— Dono? E ela quer ir?!... É o que vamos saber. Isso lavra mais fino cá, meu amiguinho. Eu vou lá à serra, e irá comigo um dos meus filhos.
— Pois, sim, convenho: isso é prova de que vossemecê é um amo honrado, e zelador de suas servas.
— Pudera, não! Eu sei cá se vossemecê a leva furtada!...
— Se a levasse furtada, não vinha aqui dizer-lhe que a furto. Acha vossemecê que um velho destes anos anda pela serra do Laboreiro a furtar pastoras?
— Enfim, nós lá vamos, e tenha paciência. Isto cá lavra mais fino.
O lavrador pegou da foice encavada, o filho pôs ao ombro uma caçadeira, e saíram, caminho do outeiro, em que Balbina, àquela hora, estava orando.
Chegaram à beira dela.
— Francisca — disse o velho -, este homem diz que tu queres ir com ele. Queres ou não?
— Sim, senhor — respondeu a moça.
— É teu parente ou adrente?
— É meu tio.
— Tio! — exclamou o José Torto.
— Balbina! — disse João Moreira comovido. — Quis ouvir essas palavras do teu coração. Foi tua mãe que tas disse. Senhor lavrador, estão esclarecidas as dúvidas. Podemos ir?
— Ainda não — respondeu o lavrador -, vamos fazer contas. Eu tenho cá as soldadas todas desta rapariga.
— Aplique-as aos pobres da sua aldeia. Adeus, amigo! — disse o brasileiro. — Se nos não tornarmos a ver, até ao Dia do Juízo.
O filho do montanhês sentou-se, atravessou a espingarda sobre as pernas, e baixou a cabeça a chorar.
João Moreira reparou; o velho também, e disse:
— O rapaz chora porque lhe tinha amor de dentro. Queria casar com a moça; e, se não é marido dela, foi porque a moça não quis, saberá vossemecê.
— Era outro o seu destino — disse o brasileiro, e voltando-se à sobrinha perguntou:
— Amavas este moço, Balbina?
Balbina abaixou os olhos, e disse:
— Não, senhor: era amiga dele, porque me tratava bem.
— Era outro o seu destino... — repetiu o tio. — Vamos; que o Sol aperta... Acharei nalguma destas povoações quem me venda uma cavalgadura?
— Eu não vendo; — disse o lavrador — mas aí está uma mula, sendo necessária. Vão vossemecês descendo até à estrada, que eu lha mando sair à bouça da tia Andresa. A rapariga sabe onde é.
— Obrigado, bom velho. Eu me farei lembrado pelo seu favor — concluiu o brasileiro.
E apartaram-se.
O ancião entregou a guarda do rebanho ao filho, dizendo-lhe:
— Não fiques agora aí a chorar, Bernardo! Um homem é um homem!
O moço empinou-se no viso de uma colina, e viu desaparecer a pastora.
Que alma de poeta sofreu já aí cruz de saudade tão dolorosa? Que lágrimas se secaram naquelas penedias broncas! O desventurado lançou-se por terra, e escondeu a face nas urzes. As tuas lágrimas, ó traspassada alma, podia vê-las o Céu, que eram puras!
Eles lá vão.
Ninguém mais falará de ti, pobre solitário das montanhas!
Vai chorar à margem desses regatos! As flores silvestres te dirão que as lágrimas de Balbina as fizeram reviçar em suas hastes ressequidas. Afaga esse cão que lhe lambia as mãos. Aí tens a rês que se aninhava no regaço dela. Longo tempo chorarás, amante cristão; e o suicídio nunca te há de lembrar; a luz do facho civilizador nunca te mostrará o boqueirão da caverna onde se abismam os cobardes!
Ela lá vai!... Se alguma vez a vires, dirás contigo:
— Parecia-se com esta fidalga uma pastorinha que eu amei, e ainda agora amo, nas minhas serras do Laboreiro!

***

João Moreira comprou casa no Porto, e estabeleceu aqui sua residência.
D. Balbina Rosa Moreira tinha criadas, que mal a conheciam, carruagem em que nunca saía, e ricos vestidos que nem sequer examinava.
O tio passava em conversação com ela o maior número das horas, bem que a história da sua desgraça quis ouvi-la uma só vez.
Tirá-la da solidão do seu quarto, fazê-la erguer mão da costura, levá-la a teatros e recreações é que nunca vingara. Balbina com a branda defesa das lágrimas, além de vencer, acareava a mais o amor do velho.
João Moreira, passado o primeiro mês de convivência com a sobrinha, saiu do Porto a Viana, e por lá se deteve alguns dias. Regressou a casa, e novamente digressou ao Minho.
Estas sortidas entendem com o nosso conto.
Planeou o velho uma traça de vingança incruenta sobre o descaroado desonrador de sua sobrinha. Na urdidura da trama é que ele anda.
Informou-se, e soube que o morgado de Pinhatel está hipotecando as suas propriedades, restantes da doação, que a consorte divorciada judicialmente levantou. Vai propriamente João Moreira a casa do morgado e propõe-lhe a venda de seu casal por um quinto superior à louvação. Por outra parte, obrigando-se ao pagamento das dívidas, instiga os credores particulares e as irmandades a demandarem-no. Gastão de Mendonça, deliberado a sair da Pátria e ir longe acabar em obscura miséria, assina a total alienação dos bens e embolsa uns doze mil cruzados, pagas as dívidas pelo comprador.
Sabe João Moreira que Mendonça intenta sair de Portugal. Dolorosa contrariedade que lhe frustra o plano! Mal sabe ele que a Providência colabora também na vingança exemplar e justa!
Gastão vai para Lisboa, e João Moreira entrega a José Torto a feitorização do seu casal de Pinhatel, obtida a baixa. Balbina Rosa tudo ignora.
O chamado ainda morgado está em Lisboa pensando no destino mais conducente ao seu fim, que é morrer ignorado, e raciocina cabalmente que Lisboa é excelente sítio para morrer ignorado quem morre pobre. Resolve, pois, ficar, e consoladoramente planeia suicidar-se, exaurido o pecúlio. Doze mil cruzados abrem-lhe a porta a muitos prazeres bons para aturdir-se, bestificar-se e morrer insensitivamente. Calcula viver assim dois anos e deixar apenas a pistola com que abrir na cabeça uma brecha oportuna à alma, cuja existência lhe é, de fora parte, a mais inaceitável das existências.
Quando tem desbaratado alguns milhares de cruzados, principia a sentir um vago  desejo de ir com a vida além dos dois anos aprazados. A Santa Casa da Misericórdia convida-o a ganhar quarenta contos com uma sorte de vinte mil réis. Gastão corresponde ao imoral convite da Santa Casa, e compra não um, mas doze bilhetes. São doze probabilidades baratas que ele compra de enriquecer-se.
Espanta-se de lhe saírem brancos de uma assentada os doze bilhetes, e na próxima lotaria compra vinte e quatro. A fortuna é por ele desta feita, concedendo-lhe a graça de lhe premiar um dos vinte e quatro bilhetes com o mesmo dinheiro. Que zombaria! Enfuria-se o jogador, e redobra as paradas. Ei-lo aí está antes de um ano a ponto de matar-se na suspirada obscuridade! Ali o está convidando a pistola e a miséria. Que faz ele? Vende o jogo das pistolas, vende o fato escusado, endivida-se com pessoas que o viam gastar a froixo e o consideram ainda abastado na sua terra. Afinal, descobre-se a indigência do morgado minhoto; cerram-no os credores e as injúrias; a fome sulca-lhe o rosto; e ele foge de Lisboa e vai ao Minho pedir as sopas de alguns parentes.
Os parentes lançam-no de si, como vilipêndio dos Mendonças, e Gastão é agasalhado na pobre casa dos seus antigos caseiros.
José Torto avisa disto João Moreira que então viaja em França e Inglaterra com sua sobrinha.
Saíra ele e, como à força, levara Balbina, por preceitos dos médicos, que a supunham gravemente enferma de tristeza e carecedora de ação.
Entre gozar os recreios do Porto e ir viajar, Balbina escolheu, bem que obrigada, o ir onde a não conhecessem, e acabar por lá; que, em verdade, a vida pesava-lhe; a lembrança de sua mãe ainda lhe atormentava os sonhos. Organização débil, ou falta de luzes!
Inesperadamente para Balbina, seu tio, ao receber em Londres cartas do feitor, apressa a partida, sem esclarecer a sobrinha.
Balbina fica no Porto, e Moreira vai a Pinhatel.
Ali vê Gastão, que se está aquecendo a uma réstia de Sol na eira de um lavrador. O infeliz veste um capote desbotado de baetão, calça uns sapatos fendidos e dessolados e ampara entro as mãos o rosto cadaveroso quase escondido nas barbas e cabelos brancos, intonsos e esquálidos.
Reconhece o brasileiro, levanta-se e diz:
— Já me não conhece, senhor Moreira...
— Conheço: é o senhor Gastão.
— Cheguei a esta desgraça: vivo de esmolas.
— Pois, quando tiver fome, vá lá ao feitor que lhe dê de comer.
— Bem haja.
— E um quarto onde dormir.
— Seja por alma de suas obrigações, senhor Moreira.
— Sua mulher, que é feito dela?
— Não sei, senhor.
— Já se vê que lhe não faz bem nenhum...
— Escrevi-lhe, nunca me respondeu. Disseram-me que estava quase tão desgraçada como eu. Os irmãos gastaram-lhe tudo. A doação, que eu lhe fiz, está vendida. Tudo vai como vem. Deus é para todos. Eu estou a penar os meus pecados: ela há de penar os dela.
— Então, o senhor tem grandes pecados?
— Pois, se os não tivesse, eu chegava a isto?...
— Ainda bem que a consciência do crime lhe dá força para a expiação. Adeus. Já lhe disse: quando quiser, vá lá para casa. Terá que comer e uma cama.
João Moreira retirou a mão, que o mendigo lhe queria beijar, e voltou ao Porto.
Dias depois, disse à sobrinha que haviam de ir ao Minho ver uma quinta comprada para o passadio do Verão.
Saíram a horas calculadas por caminhos transversos para entrarem de noite em Pinhatel.
Balbina, reconhecendo o local, exclamou:
— Onde estamos nós, meu tio?!
— Na quinta que comprei.
— Oh! meu Deus! esta quinta...
— Bem sei o que queres dizer, minha sobrinha... Não te alvoroces... Estás em casa de teu tio. O antigo morador desta casa só por esmola poderá entrar nela.
E Balbina, com justo assombro do tio, rompeu em pranto desfeito.
João Moreira disse entre si: “É impossível que ela ainda tenha alma capaz de compaixão de tamanho infame!”
Gastão de Mendonça dormia num quarto ordinário da casa, junto das cavalariças, quando o brasileiro esmoler entrou.
Balbina, à vista da saleta onde fora o seu quarto, expediu um grito e desfaleceu. O tio confiou da criada o levar sua sobrinha à cama e passou uma cruelíssima noite. A presunção de que ela ainda o amava, horrorizava-o e embravecia-o.
“Que indigna mulher!”, murmurava ele.
Ao romper da manhã, a criada chamou João Moreira e disse-lhe ansiadamente que a menina o esperava na sala.
Foi o velho onde a sobrinha o esperava de joelhos.
— Tire-me já daqui, meu tio, senão morro! — clamou ela, abraçando-lhe os joelhos.
— Morres?!... De quê?... De vergonha?... — disse ele um tanto severo.
— De vergonha e de remorsos!... — replicou ela, erguendo-se e refugindo para a sua alcova.
Horas depois, João Moreira chamou a sobrinha, e disse-lhe brandamente:
— Vamos embora à noite, filha.
Balbina osculou-lhe a fronte com expansiva alegria.
— Mas... — tornou ele — não estejas metida no teu quarto. Vem um pouquinho à janela que está sobre a eira.
Balbina foi.
Abriu o tio a janela e, estendendo o braço fora, disse-lhe:
— Olha, Balbina.
— Que é?! — disse ela, encarando em Gastão de Mendonça, que, sentado num banco de pedra, tomava o Sol.
— Ali tens o sedutor. Estás vingada! É aquele velho mendigo, que ceou e dormiu no quarto onde se deitava o seu lacaio. Ali tens Gastão de Mendonça!
Balbina levou ambas as mãos ao rosto, desabafou um como grito de quem o expede da garganta com a alma, e caiu no sobrado em todo o peso e desamparo.
***
Não cifrava nisto a intencional vingança de João Moreira. Aguarentou-a a sensibilidade da sobrinha, e, porventura, a invisível mão do anjo da misericórdia. Desenhava o velho levar Balbina diante do indigente, apontar-lha como senhora daquela casa, e obrigá-lo a agradecer-lhe a ela a esmola do pão e da enxerga. Seria isto ótimo relanço de drama negro, melodrama chamado entre nós, onde se fala muito o grego. Dizem os adversários desta feição teatral que o melodrama está fora da verdade e da natureza: asserto falso. Pois aquele João Moreira, sujeito sobremodo iliterato, avisado inimigo da leitura, que era senão genuína e pura natureza? Se o melodrama fosse uma arte de paixões supositícias, o brasileiro não pensava tão de espaço e friamente um desenlace, que devia ser assaz espetaculoso.
Na noite daquele dia, Moreira e a sobrinha voltaram ao Porto; e, daí a breve tempo, recomeçaram a viajar na Europa.
Balbina, apesar do velho, estava sempre recolhida em apática introversão, saindo raro de si para simular prazer com a satisfação do tio. O viajar era-lhe já pena de corpo e alma. A palidez macerada, com que descera do agro Laboreiro às moles delícias de um palacete, era ainda a mesma, se não agravada por maiores tristezas íntimas. Enquanto pastora, ignorava o casamento de Gastão de Mendonça. Que esperava ela de Gastão solteiro? Deus sabe o que esperava a cândida alma da pobrezinha. Nós é que racional e glacialmente lhe diríamos: “Morre de dor, e desesperada de remédio, que o não há para ti, mulher perdida!” A Providência Divina não é assim: ampara, ilude, influi esperanças, instila ao coração chagado linimentos paliativos, e assim vai sustendo os infelizes, até que o tempo os transverta, ou a morte serenamente os acolha.
Disse-lhe o tio que o mau homem casara; e, para logo, lá muito no âmago do seu seio, quebrou o fio que o delir das lágrimas não rompera.
Depois, vê-lo assim, aquele que deveras amara, e, abandonada, esperara, nas rochas do monte; vê-lo assim roto, defecado, mendigo, aquecendo ao Sol as escamadas mãos, dormindo na tarimba dos seus lacaios, pagando tão duramente os vícios da idade e da abundância, desamparado da mulher que o roubou, de parentes que lhe fruíam os desperdícios, de amigos que se banqueteavam em sua casa!... A penitente senhora condoeu-se, perdoou-lhe; e, no sonhar febril daquela noite, afigurou-se-lhe que descia à eira, e tomava aos lábios a mão regélida daquele desgraçado, e lha aquecia com torrentes de lágrimas quentes ainda do fogo do coração!
E, por isso, a doença lhe anojava o andar de terra em terra, sem vontade, nem espírito para admirar, estranha a tudo que a rodeava, indiferente às decantadas magnificências do engenho humano e da majestosa natureza; sempre a suspirar pela quietação de um cubículo em algum ermo, onde, a orar e a trabalhar, se lhe fossem gastando os dias apagados de toda a alegria e fenecidos para sempre ao reverdejar de alguma flor.
Sondou-lhe o tio o ânimo, e, ao fim de seis meses, voltaram para Portugal.
Detiveram-se em Lisboa alguns dias.
No quarto do hotel, contíguo ao de Balbina, hospedava-se alguém que tocava piano a horas mortas, e as melodias eram pausadas e melancólicas como os hinos sagrados.
Um dia, o proprietário do hotel perguntou ao brasileiro ele quereria comprar um rico piano inglês de uma senhora, si. hóspede, que se retirava.
João Moreira disse que não precisava, e Balbina indago se a hóspede era a que tocava de noite.
À afirmativa resposta ajuntou o solicitador da venda do piano que a senhora, a seu ver, era infeliz; porquanto viera ter a sua casa, dois meses antes, em companhia do marido, ou que tal diziam ser, e que depois o sujeito desaparecera, e ela ficar, sem dinheiro, vendendo algumas joias de pouco valor; e agora para se ir para a província, se desfazia do piano.
— Donde é ela? — inquiriu distraidamente o brasileiro.
— Acho que é do Porto, ou desses sítios. Visto que vossa senhoria não quer, vou ver se algum armazém me fica com eh ao desbarato.
— Meu tio! — disse Balbina com maviosidade.
— Queres que eu compre o piano?...
— Queria... Se ela é assim infeliz...
— Pois bem: quanto quer ela?
— Vou saber — disse o estalajadeiro.
Volveu o homem, pedindo cinquenta libras, e afirmando que a vendedora perdia sessenta.
— Coitada! — murmurou Balbina.
— Venha vossa senhoria examiná-lo — continuou o agente.
— Vamos lá — disse o brasileiro —, vem tu também, Balbina. Tanto entendes tu como eu de pianos; mas vamos levar o dinheiro à mulher. Vá indo o senhor que lá vamos — acrescentou João Moreira, refletindo.
E disse à sobrinha:
— O piano não nos serve de nada, menina. Se o coração te disser que a mulher é digna de lástima, oferece-lho, e deixa-lhe o piano, depois que eu der as cinquenta libras.
Balbina, de contente, bateu as palmas, e as últimas deu-as na face do velho, à mistura com um beijo.
Saíram ao corredor comum para onde abria o quarto da vendedora do piano. Pediu licença o brasileiro, e viu a senhora, que se erguera a recebê-lo. João Moreira fitou-a com estranho olhar, hesitou na entrada, e, como quem vai por violência, entrou.
D. Balbina cortejou a dama, sem reparar no semblante demudado do tio.
— Aqui está o piano que se vende — disse o hospedeiro, que ia direito ao âmago dos negócios.
— Já sei — respondeu o brasileiro -, pode o senhor sair que eu cá fico para contratar.
E, na ausência do dono da casa, João Moreira continuou:
— A senhora é do Porto, creio eu.
— Sou do Porto. Vossa senhoria conhece-me?
— Penso que sim. É irmã dos senhores Leites Mascarenhas.
— Justamente. Eu também creio que já vi esta senhora no Porto...
— É possível. Ouvi dizer que vossa excelência viera com seu marido para Lisboa... Se bem me lembro, a senhora há cinco anos que se divorciou do seu marido.
Congraçaram-se depois?
— Não senhor. Eu estou ainda separada de meu marido..
— Ah! sim? Onde está ele, sabe?
— Creio que está em sua casa. Conhece-o?
— Se é o que eu conheço, seu marido não tem casa nenhuma, minha senhora.
— É que a dissipou — respondeu a dama.
— Diz bem, minha senhora: dissipou-a. E vossa excelência que fim deu à dotação? Desculpe o atrevimento da pergunta.
— Gastaram-ma meus irmãos.
— E está pobre, portanto, como seu marido?
— Estou mais desgraçada que ele porque sou mulher.
— Está, pois, claro que a sua vinda a Lisboa...
— A minha vinda a Lisboa é o remate dos meus infortúnios... mas quer vossa senhoria comprar-me o piano, sim?... O resto são desgraças, que não interessam a ninguém.
— Não é tanto assim; minha sobrinha é compadecida, e poderá ser-lhe útil.
E, voltando-se para Balbina, disse-lhe:
— Queres acudir à desgraçada situação da esposa de Gastão de Mendonça? Aqui a tens!
Balbina levantou-se impetuosamente, e retrocedeu para o corredor, sem consciência do movimento que fazia.
D. Perpétua, despercebida do lance, olhava estupefata o sorriso do brasileiro, e balbuciava monossílabos interrogatórios. João Moreira, com notável serenidade, contava cinquenta libras, que depôs sobre o teclado do piano, dizendo:
— Aquela menina dá o alimento e a cama a seu marido, minha senhora. Se ela é boa para o homem que a seduziu e abandonou, melhor deve ser para vossa excelência que nenhum mal lhe fez. Guarde as cinquenta libras e o piano.
João Moreira foi encontrar a sobrinha com a cabeça entre as travesseirinhas do leito para abafar os gritos. Achegou-a do peito com ternura, limpou-lhe o rosto lavado de lágrimas, e aquietou-lhe as ânsias com silenciosas carícias.
Daí a momentos, D. Perpétua entrou subitamente no quarto do brasileiro, e, com vivas mostras de aflição, exclamou:
— Eu não tenho culpa da sua desgraça, minha senhora. Enquanto vivi com meu marido, ignoro se ele amou alguém; e, quando casei com ele, não me constou que estivesse obrigado a alguma outra senhora. Soube que tivera em casa uma rapariga do povo, que se lançou ao rio; mas desse crime está tranquila a minha consciência. Muitas vezes lhe reprovei a ação indigna de abandonar a infeliz; porém, Gastão dizia-me que, se a tal mulher se deixasse estar em casa, havia de casar com ela. A mais desgraçada fui eu porque vivo. Aquele homem tinha crimes, que estamos ambos pagando...
— Minha senhora — atalhou João Moreira —, essas explicações são escusadas. Minha sobrinha, a filha do povo, a tal mulher, não se queixa de vossa excelência. Vá em paz e seja mais feliz do que ela.
Obedecendo ao gesto de urbana despedida, D. Perpétua saiu, sem ter compreendido que era aquela a filha do povo, suspeita de suicídio nas águas do rio Cávado. Vacilou entre aceitar ou rejeitar a esmola; mas a necessidade é tão suasória conselheira de tolerância e docilidade que nem os evangelistas e santos doutores lhe ganham. Guardou o dinheiro e o piano, que noutra hora venderá para acudir ao intervalo crítico da passagem de um para outro galanteador, nem mais amante, nem mais duradouro, que o último (último cronologicamente falando) que a deixara no hotel, e se fora a Espanha na peugada de uma bailarina de castanhetas.
***
Vãs esperanças alimentara João Moreira! O contentamento da vida íntima não podia dar-lho a sobrinha. Se ela, quantas horas lhe dispensava o Senhor eram todas escuras e mortificadas!
— Eras mais feliz na serra a guardar as cabras de teu amo... — lhe dizia o tio consternado.
— Esperava morrer, ignorando tudo; era mais feliz... — respondia Balbina.
— Se tu repeles a felicidade! — replicava o velho. — Porque te deixas vencer da tua extraordinária tristeza?
— Que hei de eu fazer, se Deus quer que eu sofra assim em castigo da minha culpa!
— Ora, filha, se todas as culpadas sofressem como tu, este mundo era um cárcere de condenadas e um mar de lágrimas! Queres tu viver, Balbina, e encontrar satisfação? Procura-a na estrada do esquecimento. Vem comigo aos teatros e aos bailes; recobra a tua saúde, que sem ela não há contentamento; e se o coração te pender a algum rapaz, diz-mo sem rebuço, que eu te...
— Por compaixão, cale-se, meu tio! — exclamou Balbina. — Eu nem por sonhos cuidei ainda em tal desatino!
— Chamas tu desatino...
— Pois não sabe a minha vida, meu bom tio?
— Ora!... a tua vida que tem!? Não sabes nada do mundo, nem queres saber, moça!... Queres tu ir casar ao Rio de Janeiro? Ninguém lá sabe que tu vives.
— E meu tio sem ter pena de mim!... — balbuciou ela.
— Tenho pena, tenho, menina; mas queria que tu a tivesses de mim também. Pois não te dói o coração de ver um velho a pedir-te as alegrias da tua idade para enganar as tristezas da minha; e tu, em vez de me suavizares a solidão da alma, mais ma amarguras com esse teu continuado chorar... de modo que hei de eu ainda ver-te morrer, como vi, um a um, em menos de um ano, irem-se-me à sepultura os meus três filhos... Que triste acabamento este, no meio de tanto ouro, que tanto me custou!... pois fiz eu mal a Deus em trabalhar sem tréguas, ganhando isto tudo, onde não há lágrimas de órfão nem de viúva, nem de escravo flagelado pela minha ambição!...
Balbina correu a abraçar o tio e clamou:
— Aqui estou, meu querido tio. Disponha de mim; eu farei tudo que possa dar-lhe satisfação.
O velho acariciou-a com tristeza, e disse soluçando:
— Que hás de tu fazer, se não podes fazer nada!... O coração não te deixa... Infeliz! tu amas ainda aquele teu algoz, que a Providência divina precipitou na miséria e no desprezo do mundo! Deus a vingar-te, e tu a reprovar a obra divina! Pois é isto acreditável?... Soluças e confirmas a minha desconfiança!... Tem pena de ti própria, moça, que esse teu amor é vergonhoso, e só, por grande castigo, Deus te empeçonhou a vida com ele!...
E Balbina, ouvindo estas e outras expressões cuja severidade ia além dos termos da justiça, arquejava em grande ansiamento, e, em verdade, se envergonhava de sua fraqueza, se não antes indignidade.
Condoeu-se dela o velho, e afastou-se, protestando entre si nunca mais levar o cautério à chaga insanável daquele fatal amor.
Há escritores acerbos, e praguentos importunos que nada escrevem, os quais não perdem vez de malsinar as santas do amor, as pobrezinhas, em que Deus anda repartido nestes lamaçais do mundo.
Quando o livro pejado de calúnias cai abaixo dos olhos da mulher amante e atormentada, com que falecer de alma erguerá ela aos lábios o cálix que a sociedade, pela imaginativa do escritor, lhe oferece!... Que admira se ela arranca e lança de si a sua coroa de espinhos, e diz: “Se te injuriam, mártir, melhor é que te insultem, devassa!” E, depois, pode ser que os insultadores do rosto, coberto de lágrimas, se vão ajoelhar às faces carminadas da droga e da orgia! Pode ser que ainda a pena de ferro que rasgava no coração da penitente se amolente e desentranhe em blandícias épicas à Lais despejada, que vai por essas praças fora sacudindo lama da carruagem, lama dos olhos, lama do coração, aos Petrônios, que ontem se davam uns longes de censores severos em arremedo de Tácito. E eles, enlameados, virão fazer-nos praça da sujidade que os distingue! Oh! que grandes miseráveis criou Deus em plena luz, à proporção das grandes virtudes, que gemem e agonizam obscuramente!
Recolhamo-nos ao assunto, que isto não é globo onde se pregue com ares de quem já pregou na Lua.
Correram dois anos, depois do juramento que João Moreira fizera de nunca jamais entender com Balbina em questão de amor.
Ela, por sua parte, à custa de muito dissimular, revestiu-se de um ar de graça, que por ser em muito artificial, disparava em jeito por demasia infantil.
O velho conhecia o esforço; mas assim mesmo o aceitava.
Se ela não falava em teatros e passeios, ao menos, de portas a dentro, enquanto o tio estivesse em casa, era sempre a seu lado, ora afagando-o, ora incitando-o a falar de sua vida passada, de sua esposa e filhos, ou das criancices em Esposende.
No termo, pois, dos dois anos melhormente vividos, João Moreira, já de muito enfermiço, antevia avizinhar-se a morte, e fitou-a bem no rosto, como quem facilmente se despega dos pesados grilhões de ouro. Cuidou, desde logo, em dispor de seus haveres, que abastavam a muitos desígnios caritativos. Um terço deles legava a sua sobrinha, e outro à parentela pobre de Esposende, que o não julgava vivo, e o restante a estabelecimentos de caridade no império do Brasil, donde era sua mulher, e de cujos sogros, naturais da Baía, lhe adviera o máximo de seus cabedais.
Chamou ele a sobrinha ao leito para lhe dizer como dispusera dos seus bens.
— Aceito de joelhos a parte que me toca — disse ela -se meu tio me consentir que eu tome para mim o necessário e reparta o excedente pelos desgraçados.
— Sim, permito — disse o velho. —  E que destino segues, depois da minha morte, Balbina?
— Entrarei num convento, se essa for a vontade de meu tio.
— Faz a tua vontade, filha; nem eu te posso, ainda que pense, indicar melhor caminho. Vai, vai, Balbina; e a minha alma será melhor servida das tuas orações.
Morreu João Moreira.
Vários sujeitos do Porto, estimáveis a todos os respeitos, quando souberam, com o seu olfato de corvos inofensivos, que o brasileiro era cadáver, e deixara uma sobrinha muito rica, rodearam os testamenteiros, uns alegando que eram gentis-homens, outros mostrando que eram homens gentis, outros recenseando a “fortuna” que esperavam reunir depois da morte de quatro tias e sete tios decrépitos. Os testamenteiros respondiam que escassamente conheciam a sobrinha do defunto, e sabiam que ela ia recolher-se no mosteiro de Vila do Conde, Viana, ou Vairão. Estes galãs saíram atônitos da seráfica brutalidade da herdeira. E atribuíam a mania à influência dos fautores do Imaculado Coração de Maria, por não terem ainda os Lazaristas à sua disposição.
Encerrou-se Balbina Rosa num daqueles conventos, oito dias depois do enterro de seu tio, e dali fez suas disposições. Daremos relação de uma que tem diretamente com a nossa história. E vem a ser que mandou ela chamar o feitor do casal de Pinhatel, com o qual conversou breve espaço, entregando-lhe um papel, que parecia ser traslado de escritura.
Em seguimento disto, José Torto voltou a Pinhatel, e apresentou-se a Gastão de Mendonça, dizendo:
— Como faleceu meu amo e eu não sei se o dono destes bens me quererá para feitor, venho despedir-me do senhor Gastão.
— Mais essa desgraça! — disse o comensal do feitor. — Enquanto vossemecê aqui estivesse, bem me iria; mas Deus sabe se o feitor que vier me deixará aqui estar!... Pode ser que a herdeira o não mande embora, senhor José.
— Não é já herdeira.
— Não? Pois não foi herdeira a sobrinha?
— A sobrinha já passou o casal.
— Já?! A quem?
— Ao senhor morgado de Pinhatel.
— A quem?!
— A vossa senhoria.
— Vossemecê está a caçoar comigo!? — redarguiu Gastão com o triste sorriso de quem se dói de ser metido a riso.
José Torto abriu a carteira e deu o papel ao novo amo.
Gastão leu as palavras usuais de uma escritura de doação, quanto lho permitia a tremura do papel nas mãos convulsivas.
Quando chegou ao nome da doadora, exclamou:
— Quê?! Balbina Rosa?...
— Sim, senhor — disse o feitor. — Balbina Rosa, a filha da Serafina da tenda, de Esposende, irmã do meu patrão, que Deus haja.
O traslado da escritura caiu-lhe das mãos, e as lágrimas rebentavam a quatro. Curvou-se ele para levantar o papel; mas, quer as forças lhe faltassem, quer um calafrio de religiosidade o assaltasse, Gastão pousou sobre os joelhos, e, inclinando ao chão o rosto, beijou o papel, que as mãos pareciam não poder segurar. Depois, recresceu o palor de suas faces descarnadas, não de fome, mas de agonia lenta, e, levantando as mãos ao Céu, exclamou:
— Perdoai-me, Senhor, para que ela me perdoe!
***

Gastão de Mendonça vive ainda na sua casa de Pinhatel. Conserva as barbas intonsas que lhe cobrem o peito, como a alva mortalha das alegrias lá dentro mortas. Consta que ele fora, quatro vezes em cada ano, à portaria do mosteiro de*** perguntar pela saúde da secular Balbina Rosa Moreira.
Não a viu nunca.
Em 1855 foi Gastão no começo do ano, consoante costumava, perguntar por Balbina, e disseram-lhe que estava com Deus.
Desde então, apenas se vê o morgado de Pinhatel, ouvindo de joelhos, em cada dia, uma missa por alma da filha de Serafina.
Enquanto a D. Perpétua, é voz pública que se envenenara e morrera, quando o espelho lhe disse: “Mata-te, que estás velha”.

Lisboa, julho de 1863.



---
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...