quinta-feira, 21 de maio de 2020

Camilo Castelo Branco: A Vida (Biografia)



Camilo Castelo Branco: A Vida
Nasceu Camilo, em Lisboa, aos 16 de março de 1826, onde estudou as primeiras letras. Órfão de pai e mãe aos dez anos, foi enviado para Vila Real de Trás-os-Montes, em cujo termo habitava uma sua irmã casada com um médico. Seguiu de Lisboa, por mar, em direção ao Porto, mas um temporal obrigou o navio a arribar só em Vigo; daí veio Camilo, com uma criada que de Lisboa o acompanhava, a Braga, ao Bom Jesus, em cumprimento duma promessa daquela, seguindo depois a jornada aventurosa até Vilarinho de Samardã. Nesta pequena povoação sertaneja, oculta num desfiladeiro e sobranceira ao rio Córrego, passou Camilo boa parte da sua mocidade, mais de seis anos. Foi durante essa estância que recebeu de sua irmã alguma educação doméstica e do padre Antônio de Azevedo, cunhado de sua irmã, os rudimentos de latim e algumas informações literárias, muito irregulares. Ali viveu à solta uma vida de expansão do seu caráter, que ao formar-se claramente patenteava as feições dominantes que iriam imperar durante a vida. Embalde sua irmã opunha a essa soltura as pressões da sua autoridade. Camilo fugia de casa, obedecendo a uma iniludível necessidade de indisciplina e de variedade. Foi na Samardã que ele teve os seus primeiros amores.
Num desses devaneios, que ao despertar da puberdade, são imperiosos como realidades, teria avançado inconvenientemente, tendo os pães da namorada, uma camponesa de Friúme, recorrido ao matrimônio, como meio de legitimar alguma irreflexão. Ou por falta de elementos ou por melindre, e mais provavelmente por aquela do que por este, os biógrafos não têm pormenorizado esse ponto. Parece-nos que só pela força dos fatos a irmã de Camilo permitiria essa união entre pessoas de nascimento tão diferente, sendo Camilo tão novo ainda e não tendo nenhum modo de vida independente. Desses amores nascera um filho. Bem cedo Camilo se entediou da mulher e abandonou-a. Dão os biógrafos por causa da separação exigências dos sogros, que não permitiam que a filha saísse da sua companhia e que queriam que Camilo fosse estudar para o Porto, e ainda incompatibilidades locais por ele contraídas, por via duns versos satíricos, em que aludia a uma intriga muito falada na terra. O certo é que Camilo abandonou, a mulher e a filha, que morreram durante a sua ausência. E tão pequeno lugar ocupou na sua vida moral esse casamento que quase o esqueceu. Entretanto fez uma breve passagem pelo Porto, onde cursou os estudos preparatórios.
Foi também na Samardã que Camilo fez as suas estreias literárias, poesia lírica no gosto arcádico e versos satíricos de alusão às disputas entre dois irmãos nobres, a propósito do casamento dum deles, que pretendia ligar-se a uma rapariga, de condição inferior à sua linhagem. Esses versos, que obtiveram fácil êxito no povoado sabedor da discordância familiar, inimistaram-no com o alvejado, como não podia deixar de ser. Na perspectiva dum conflito, Camilo saiu para Lisboa, daqui para o Porto e regressou à Samardã, onde teve novos caprichos amorosos. Da aldeia voltou para o Porto, onde frequentou a Academia Politécnica, obtendo em 1844 e 1845 aprovação nas disciplinas de química e botânica, únicos estudos superiores de que teve diploma. Era sua intenção seguir o curso de medicina, para o que ainda frequentou anatomia, tendo transitado ao 2º ano, que perdeu por faltas. Abandonando as aulas, regressou a Vila Real.
Assistiu à revolução popular e consequente guerra civil da Maria da Fonte, presenciou alguns episódios e, levianamente, sentiu suas inclinações pelo cabralismo até ao dia, em que por motivo duns artigos adversos a José Cabral, foi por sua ordem fortemente sovado.
Em Vila Real travou relações amorosas com uma mulher, que o acompanhou a Coimbra, e de quem houve uma filha. No Porto, a requisição dum tio, que desejava coarctar essas relações, foi preso, e bem depressa perdeu o entusiasmo impulsivo de pouco antes, esquecendo esse romance. A filha internou-a num recolhimento, zelando pela sua educação até ao seu casamento. Breve e inaproveitada foi a sua estada em Coimbra. Voltou a Vila Real e estreou-se como autor dramático, na inauguração do teatro, com a peça, Agostinho de Ceuta.
É em 1849 que Camilo se estabelece no Porto, entrando de vez na vida literária e na boemia solta do tempo. Nesse ano, publica o Marquês de Torres Novas, drama histórico, e em 1851 o seu primeiro romance, O Anátema, aos 24 anos de idade.
Tinha encontrado a verdadeira via para a sua vocação e o meio próprio para a expansão da sua sentimentalidade romanesca. Pelo jornalismo, pela literatura e pela boemia se reparte então a sua vida. Poucos foram os escândalos da vida portuense, do Café Gruichard, dos Congregados, da Ponte de Pedra, do teatro de São João, em que Camilo não fosse protagonista, comparsa ou cronista. Ficaram na memória saudosa dos velhos desse tempo e nas alusões da literatura as loucuras da geração de poetas e estúrdios, a que Camilo pertenceu e em que foi figura muito representativa. A par dessa dispersão moral, o escritor não abandonava a arte, porque na maioria dos casos, essa arte, toda feita de alusões, era sugerida por esse borboletear amoroso e pela contemplação de muitas fantasias.
Um romance amoroso com uma senhora casada lançou-o na cadeia, onde jazeu um anuo. Resolvido o processo movido pelo marido ultrajado, e recuperada a liberdade pelos dois delinquentes, uniram-se ambos, Camilo e D. Ana Augusta Plácido, inseparavelmente até ao fim da vida. Começara esse amor em 1858, e só em 1888 se pôde legitimar pelo casamento.
Entretanto a obra literária ia prosseguindo, a consagração chegava. Os seus livros, lidos avidamente e discutidos com paixão, encomiástica ou detrativa, alcançavam ruidoso êxito de livraria. D. Luís em 1885 agraciava-o com o título de Visconde de Correia Botelho; o parlamento dispensava-o do pagamento dos direitos de mercê e arbitrava uma pensão a seu filho Jorge.
Envolvia-se em polemicas, que ficaram célebres pela violência e qualidade dos contendores, e era proclamado, com Garrett, Herculano e Castilho, um dos dirigentes do movimento literário.
Pela intimidade com D. Ana Plácido, compartilhara a posse da casa de São Miguel de Seide, que fora do marido dessa senhora. Ali passou o último período da sua vida, o mais fecundo literariamente. Entretanto a doença dos olhos e miopia, de que sempre sofrera, ia-se agravando com a idade e a fadiga do trabalho incessante. Cego incuravelmente, apesar das diligências, em Lisboa, junto dos melhores especialistas, suicidou-se em 1 de junho de 1890. O suicídio mais duma vez lhe tinha ocorrido, durante a vida, como solução a males amorosos, mas só a realidade duma grande desgraça irremediável o determinou a aceitar essa desesperada resolução.
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FIDELINO DE FIGUEIREDO
História da Literatura Romântica Portuguesa (1913)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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