sábado, 30 de maio de 2020

César ou José Fernandes? (Conto), de Camilo Castelo Branco





CÉSAR OU JOÃO FERNANDES?

I - CÉSAR NA FOZ

Era César um quartanista de Matemática, moço mui bem posto, com uma testa significativa de talento, olhos grandes, negros e cismadores, bigode turco, lustrosos cabelos, luneta e outras muitas excelências fisionômicas muito de impressionarem damas.
Contava César vinte e quatro anos em 1856; e, nesse ano, a vinte e dois de agosto, pelas seis horas da tarde, estava ele no cais de Carreiros, em São João da Foz.

Sentado na rocha mais contígua ao mar, com a caçadeira a um lado, anediava a cabeça de Diana. Diana era uma cadela perdigueira, que, em desprezo da mitologia, recebera o nome da deusa venatória.
Nesta ocasião, o caçador não pensava na mitologia, nem afagava conscientemente a meiga cadela. Devaneava em enlevos amorosos, ia com olhos e espírito por esses mares e céus além, vendo e ouvindo a mística visão e o místico salmear dos que amam e cismam à beira-mar, se céu, mar, alma e ouvidos são os daquela idade. Aos vinte e quatro anos, todo o homem recebe do Criador a mercê de lhe mostrar a formosura da natureza, como ela seria sempre, se não fossem as paixões más; porque, aos vinte e quatro anos, todas as paixões são afetuosas e boas. Quem então as sente infames está a transformar-se de homem em fera.
Ora, César tinha visto, oito dias antes, na Cantareira, uma menina de vinte anos, mais que muito bela, iluminada da santa auréola da inocência, que é a poesia dos anjos, e da meiguice afável, que é a poesia dos homens. Também Clotilde vira César embelezado nela, com aquele ar de assombro, que a formosura incute, assombro que seria estúpido, se não fosse sublime.
Deste verem-se a procurarem ver-se de novo não mediou a mais leve operação do raciocínio. A razão, como entidade inútil naquele subitâneo ferver de duas almas, agachou-se a um canto com medo de ser atropelada pelo coração. Tenho para mim que esta importante coisa, chamada razão, com, respeito aos incêndios do amor, é uma espécie de bomba que chega, quando o melhor da casa tem sido devorado pelas chamas.
Veio, talvez intempestiva a figura analógica no presente caso: Clotilde e César não tinham ultrapassado os limites da honestidade, embora dessem na vista de algumas famílias com o seu fitarem-se de um modo tão penetrativo. Assim mesmo, nem a razão, nem a honestidade tinham de que malsinar os mudos colóquios dos quatro mais peregrinos olhos, que ainda conversaram na Cantareira, salvando os das pessoas que fazem favor de me ler.
Como anoitecesse, e a mãe de Clotilde espirrasse, o pai da menina espirrou também, e disse que a viração os estava constipando. Clotilde observou meigamente que a noite estava calmosa e sossegada: porém a encantarroada senhora espirrou novamente, e não houve remédio senão recolherem-se.
César seguiu de longe com infantil respeito e susto a família até àquela parte mais elevada da Foz, que chamam Monte. Viu-a entrar em casa, animou-se a convizinhar da porta, que se fechara com aquele estrondo, que é uma rija pancada em peitos de amantes, e por ali se deteve alguns minutos, contemplando as janelas, e dizendo entre si: “Ou me não ama, ou me aparece por detrás das vidraças, quando mais não seja.”
Este monólogo não me parece tão lírico nem puxado de linguagem quanto era de esperar. Eu achava muito mais interessante que César começasse o seu monólogo por estas ou equivalentes palavras exclamativas: “Ó teto abençoado, que cobres a mansão da minha amada! Ó receptáculo de um anjo! Ó pedaço do céu povoado por ela...” Et caetera.
Devia ser assim, e creio até que algumas vezes terá sucedido dizerem amantes coisas muito mais peitorais diante da pedra bruta que os separa do objeto amado; mas, a darem-se fatos semelhantes, isto é, a apóstrofe do homem à pedra, eu ficarei propenso a crer que a inteligência da pedra tem razão para rir da inteligência do homem. O mais ordinário e corrente é não dizer ninguém semelhantes palavreados em casos análogos; e, portanto, César não disse disparate nenhum, pelo qual desde já o encartemos na repartição dos namorados alarves.
O sucesso diz em crédito do moço. Dali a pouco, abriu-se subtilmente uma janela, rangeram gomas, ciciaram sedas, entre a compressão das mal abertas portadas, e Clotilde encostou-se ao banzo da varanda.
Neste ponto, César deu um testemunho indelével de seu puríssimo amor: é que não avançou um passo da sua postura estatuária, não proferiu um monossílabo, nem acreditou inventada a palavra própria da sua situação! Isto, leitor, é que é amar; isto é que é poesia. Creia vossa excelência que, se ele tivesse dito entre si: “Ó teto abençoado, que cobres a mansão da minha amada!”, também depois exclamaria umas parvoiçadas muito mais graúdas, com as quais, meninas incautas se deixam imbelicar, exceto aquelas que leram, ao saírem do colégio, histórias de tolos, e desde logo formaram em seu espírito uma espécie de estalão para lhes medirem a altura, quando a desgraça lhos deparar ao correr da vida.
A elas, e a nós, e a todos os que nos lerem, livre Deus de tolos, tolos à força de estilo, que são os mais daninhos herpes do corpo social.
Enfiando o conto, convém saber que Clotilde, passados quatro minutos, saiu da janela, fechou-a de mansinho, e foi dizendo consigo: “Que estará ele a fazer ali!? Não se mexeu!... Será ele outro, que tem por aqui namoro?!...”
Esta incerteza incomodou-a. Deteve-se instantes ao pé da mãe, que dialogava em espirros com o pai, e voltou à sala, a espreitar por detrás das vidraças. Lá estava ainda encostado ao cunhal da casa fronteira o moço dos olhos lânguidos. Clotilde reconheceu-lhe os olhos ao clarão de um fósforo com que César acendia o charuto, e disse, com alvoroço: “E o mesmo!” Foi buscar um castiçal com que, para ser vista, alumiou a sala; e encostou-se à vidraça.
O catarro da família cresceu de ponto. Os enfermos resolveram recolher mais cedo que o costume, e tomar chá de tília e laranjeira na cama. Clotilde recebeu a louvável ordem de também recolher-se antes, e esperar o chá no seu quarto. Ao sair da sala, a menina apagou o castiçal junto da janela. Era um sinal de ausência, e mais nada; César, porém, imaginativo e cismador, entendeu que o apagar-se subitamente a luz significava o sumir-se a estrela da sua vida.
Por horas altas daquela noite, quando ele se julgava sozinho com a Lua nos infinitos espaços da criação, falava com a Lua — vítima obrigada de todos os amantes infelizes e maçadores. Alvoreceu-lhe o dia nos pinhais de Nabogildel.
Dali voltou ao seu quarto no Hotel da Boa Vista. Escaldou o sistema nervoso com algumas chávenas de café, e foi para a praia do Caneiro. Sentou-se nos fraguedos a tragar a frescura úmida das ondas, que o borrifavam. Fumou charutos péssimos até sentir as ânsias do vômito. Ergueu-se azoado. Foi duas vezes a Carreiros, outras duas a casa. Encontrou amigos, que o saudaram, e ele não os viu. Tateava o pulso, e dizia-se: “cento e vinte pulsações!” Levava as mãos à fronte, e murmurava: “Uma paixão!”
Uma paixão deveras!
Vai agora dizer-se quem eram os pais da menina.
***

II - QUEM ERAM OS PAIS DA MENINA
A menina era filha do comendador Inácio José Leituga e de sua mulher a senhora D. Caetana Emília, residentes no concelho de Cinfães, pessoas abastadas, bons vizinhos, e de mui sãos costumes e notória cristandade.
Leituga, na mocidade, alinhavara-se mal com a sua vida.
O pai, serrador de madeira, quisera metê-lo ao ofício; mas o moço, empurrado a melhores destinos, fugiu para o Porto e por aqui andou em apuros desde 1823 até 1828, umas vezes empregado como adjunto ao cobrador das rendas dos frades da Serra, outras como vigia de armazéns em Vila Nova, e ultimamente, meses antes da tentativa revolucionária de 1828, entrara ele como guarda-barreira em Quebrantões.
Se o senhor Inácio, naquele tempo, era liberal, e já do fundo da sua obscuridade saudava a aurora da civilização, não sei, nem ele mesmo sabe dizer o que sentia a respeito dos direitos do homem. O que Leituga queria era melhorar de posição, ainda que para isso a posição de algum seu amigo piorasse: desejo este que não deve sujar a reputação do senhor Inácio, num tempo em que a família portuguesa, dividida em duas hostes inimigas, se ufanava em mutuamente se aniquilar, com o fim um pouquinho imoral de ficar a hoste vencedora com o espólio da hoste vencida. Isto é o que se figura à primeira vista; porém, quem souber alguma coisa de filosofia da história, e dos arcanos em que a civilização esconde o segredo das suas operações, desvia os olhos do espetáculo feio das nossas lutas fratricidas e remonta o espírito a certas alturas. Ora, a guerra, a orfandade, a viuvez, o sangue e a penúria são bugiarias que não impressionam as almas que lá das tais alturas da filosofia olham para isto, que se chama humanidade.
O senhor Leituga invejava o lugar do guarda-fiscal de Quebrantões: inveja, que já não pertence à dos sete pecados mortais, por ser uma inveja do emprego do amigo, coisa tão congenial da natureza humana, que os confessores já se abstêm de perguntar por isso. O guarda-fiscal era realista ferrenho. Inácio, com um olho no lugar do vizinho e outro na regeneração do país, fez-se liberal ferrenho também. Romperam-se as hostilidades no campo dos princípios, e dispararam na consequência final de se amolgarem os narizes os dois políticos. Inácio, acusado ao chefe, foi despedido; e, meses depois, emigrou para Espanha, passou a Inglaterra, e de lá à Terceira, donde veio expedicionário e já furriel.
Terminada a guerra, foi Inácio Leituga a Lisboa com o invariável propósito de requerer o lugar do vigia de Quebrantões. Melhor fada o esperava. Hospedara-se ele numa taberna da Ribeira Velha, denominada a Estalagem da Forçureira. A forçureira era uma mulher redonda e suja, que tinha uma filha esguia e limpa. Nunca tão desconcertada a natureza andara na dissemelhança de uma criatura desentranhada de outra criatura!
Inácio, benquisto da estalajadeira, entrou com os olhos no coração intacto da moça e viu-se amado. Sem averiguar dos teres e haveres de Caetana, pediu-a à mãe. A judiciosa velha, considerando os perigos a que estava sujeita uma rapariga bonita em época de tamanha desmoralização, aceitou a proposta, com a cláusula de que os casados ficariam em casa e o genro despiria a farda de 1º sargento para se entregar ao tráfego do negócio. Leituga conformou-se da melhor vontade, e desistiu do emprego, que lhe fora dado na alfândega do Porto.
Em 1836 morreu a forçureira, momentos depois de ter revelado à filha onde tinha o dinheiro, ganhado em cinquenta anos.
Inácio nunca tinha visto nem sonhado tamanho cabedal em ouro! Passava de cem mil cruzados o tesouro acumulado.
De comum acordo os herdeiros trespassaram a taberna e cuidaram de empregar mais sossegada e limpamente o seu capital.
Caetana era dócil, modesta, boa esposa, desafeiçoada a festas, ignorante de todos os chamados prazeres da vida, amiga de dormir e de comer. Além disto, o seu grande amor era uma filhinha, nascida em 1836, o botão desta florentíssima Clotilde que, vinte anos depois nos vem espantar na Cantareira, com as suas graças aristocráticas, de modo que o leitor fica sinceramente persuadido de que a aristocracia de sangue tem umas graças especiais, infalíveis e intransmissíveis às raças plebeias. A maior parte das coisas humanas decidimo-las e definimo-las com tanta crítica e segurança como aconteceu com a fidalguia de Clotilde, inferida do adelgaçamento da cintura e mimo do pé.
Voltando a 1836, Inácio resolveu tornar para a terra do seu nascimento, comprar propriedades, edificar uma boa casa e melhorar a sorte da parentela pobre. Caetana gostou da ideia e começou desde logo a engordar com a perspectiva de comer muita castanha e chouriços de sangue, comestíveis de sua particular predileção.
Realizou Leituga o seu programa, com muita felicidade. Estavam em praça dois conventos de frades entre Douro e Minho, os quais, à falta de lançadores ele comprou ao desbarato. De um convento, reformado e afeiçoado profanamente, à vontade de seu dono, fez Leituga a sua residência pomposa, vastíssima e tamanha que D. Caetana tinha medo de andar em casa, e via fantasmas de frades a cada canto. Inácio tinha ilustração de sobra para espancar fantasmas e para convencer sua mulher de que os frades eram tão maus sujeitos que nem fantasticamente podiam aparecer a ninguém. D. Caetana, convencida, continuou a comer, a dormir, a encher e a doidejar de amores da sua Clotilde.
Dobrou em doze anos a fortuna do senhor Inácio; e a consideração pública no seu concelho tocou o apogeu. Foi juiz ordinário em 1841, administrador em 1844, presidente da Câmara em 1845, teve votos para representante do povo em 1849, foi comendador da Conceição em 1852, e eleito deputado por uma maioria, rara na história do nosso sistema representativo em 1854.
A sua individualidade no Parlamento acreditou-se pela modéstia e sisudeza do silêncio. O Ministério considerava-o bruto e homem de bem — qualidades excelentes, que, se acertam de se ajuntarem, levam um homem onde ele quer ir, e levam com o mesmo sujeito toda a gente, que ele quiser levar consigo.
O comendador Leituga, com admirável desprendimento e desinteresse de obséquios dos ministros, conseguiu empregar uns dezenove parentes, que tinha, em dezenove lugares. Virtude rara! Porque há deputados que fazem despachar dezenove parentes para trinta e oito lugares.
Clotilde e sua mãe acompanharam a Lisboa o deputado, D. Caetana queria ver a casa onde nasceu, e espreitar o recanto da taberna em que sua saudosa mãe costumava provar as forçuras e fazer as contas com os fregueses sentada num mocho vermelho. O comendador, porém, concedendo a sua mulher o prazer inocente de ir contemplar a taberna, proibiu-a de se acompanhar da filha, cujos espíritos atiravam voo para coisas mais levantadas, e o pai, sem saber como, nem porquê, simpatizava com a condição afidalgada da menina.
Como é de crer, Clotilde não passou despressentida na capital. Leituga tinha fama de rico, e a filha, só de per si, era um tesouro, maiormente para os bons apreciadores de uns olhos negros, de uns cabelos de ébano, de uns lábios e dentes cujo coral e marfim estalaram as consoantes dos cardumes de poetas, que se perfilavam ao perpassar a bela provinciana.
Honra seja feita aos poetas do Chiado! Cantaram-na, em trovas imortais, com raro desapego: que o poeta, digno deste nome, canta a mulher como canta a Lua, o oceano e outras coisas grandes: canta, adora, enleva-se no êxtase do grandioso, e não pede ao Criador a Lua, nem aos pais das meninas que canta, as meninas cantadas. Ser grande é isto! A poesia que não for isto é... a poesia que fazem todos os poetas.
***

III - CASO NOVO!

Consta do capítulo primeiro deste aranzel que o pensativo Castro estava em Carreiros, olhando contra o mar, oito dias depois que vira Clotilde.
Neste espaço de tempo, o acadêmico soubera que a menina era rica, e o pai ambicioso de um genro titular. Enquanto à qualidade de ser rica, nem por isso o desconsolou a informação: que as almas mais refinadas em poesia — almas empestadas e perdidas se não tomam tento no corpo — costumam conformar-se e resignar-se, quando a sorte as une a outras almas aleijadas com o peso de algumas dezenas de contos de réis. Porém, a cláusula do título desanimou-o, esfriando-lhe aquela ardileza temerária que, aos vinte e quatro anos, impele o mancebo a afrontar dificuldades.
Andou o moço cismático a esquadrinhar que entrada lhe ofereceria a natureza das coisas para a classe dos titulares. Via ele muita gente esquisita com título, e pasmava de sua própria insuficiência para, na volta do correio, mandar vir de Lisboa um diploma. Parece que o amor o tinha algum tanto embrutecido! O homem, se tivesse normal o espírito, havia de ver que os títulos, quando não distinguem à primeira vista o merecimento do agraciado, mandam presumir que o merecimento existe. “Que fez aquele homem para ser visconde?” — usam perguntar os detratores e os ociosos. A sã razão responde que tal visconde tinha virtudes cívicas de que não fez praça diante do público. Os altos poderes, bem que ele modestamente escondesse o seu civismo, descobriram-no e agaloaram-no. Aí está porque é visconde a pessoa que a gente não sabe dizer porque o é. Os governos é que sabem. Quando a geração atual tiver passado, os curiosos da geração vindoura irão às secretarias averiguar o porquê de tanta fidalguia criada em tempo de tamanha paz e de vida tão ramerraneira, aprosada e plebeia. Bom é que averigúem para crédito dos nobilitados e dos nobilitantes. Então se há de ver, em recatada sombra, se a traça ou a manteiga os não tiver estragado, os requerimentos documentados, as justificações indubitáveis dos que, para incitamento de si mesmo e lustre da Nação, quiseram sair da mediania de seu nascimento. E assim o século vindouro fará justiça ao século ido, e aos homens que vão com ele a uma certa e benemérita imortalidade.
Lastimava-se o acadêmico de não ser titular. O coração a içar-se para a alta poesia e superfina natureza do amor, e os preconceitos sociais a puxarem-no para o vilíssimo barro. Que absurdo encontro de extremos! César, em ocasião de tanto espírito e desapego, desejava ser o que dias antes metia a riso na pessoa do barão da Penajoia, pai de um lorpa, seu vizinho, chamado João Fernandes, de quem faremos crônica logo adiante.
Em menos sensatas cogitações se engolfava César, quando enxergou duas damas, que os olhos mal discriminavam, mas o coração logo farejara com aquele nariz de coração namorado, nariz digno de um volume à conta dele, dele nariz, digo eu, e não me despeço de escrever eu o volume, e o leitor, se ama ou amou, tem de ficar pasmado quando souber o nariz do coração que teve ou tem.
Vinham as damas a apontar na saída da Foz para Carreiros, e eram Clotilde e sua mãe. Ergueu-se César e fitou a orelha da audição interior, orelha que merece ser descrita noutro volume, para emparelhar com o volume do nariz, obra de que também eu me encarrego, e dos mais que vierem a propósito, de modo que espero brindar o público respeitável com a descrição anatômica da segunda pessoa que cada homem namorado encerra em si.
Agora, vai César cogitando e ideando empresas arriscadas, feitos façanhudos, sucessos extraordinários, com os quais a sua boa estrela lhe azasse ocasião de cativar o coração de Clotilde e as simpatias do comendador Leituga e da consorte. Lembrou-se do Antony de Alexandre Dumas sustendo o ímpeto da desenfreada parelha, e escalavrado pela lança da carruagem em que se ia desmaiada de terror a querida da sua alma. Lembrou-lhe o Pedro do drama do Sr. Mendes Leal salvando das lavaredas a filha orgulhosa do fidalgo. Lembrou-se das eras felizes em que da bravura do campeador de castelãs resultava a conquista da menina refece, ou a perda da vida na passagem defesa, perda que vinha a ser um grande lucro, em comparação da esquivança da dama requestada.
“Que tempos estes de prosa férrea, prosa negra, vilã e esmagadora de toda a alma, que puxa a destinos extraordinários!” — exclamava César, ao longo da praia, com os olhos postos nas duas senhoras, que ele via acocoradas a apanharem seixinhos. “Não se ajeita caso nenhum”, continuava César, “em que um homem possa distinguir-se aos olhos da mulher, que ama!” Afora a distinção que dá um carro bem puxado de cavalos ajaezados lustrosamente e a outra distinção menos ruidosa de possuir ações nos bancos, uma só conheço eu que algumas vezes tem vingado: é a tolice desmedida, a tolice sem horizontes, a tolice que vence a razão, porque a razão do homem é limitada, e a razão da mulher é limitadíssima, e a tolice sem limites abrange o mundo moral e o físico, abrange os dois sexos, e há de abranger um terceiro, quando a civilização o tiver inventado!
Por esta grande tolice ia também já abrangido o coração do declamador desvariado, quando as duas senhoras Leitugas se levantaram da postura menineira, e seguiram seu caminho na direção de César.
O moço caminhou também para elas, a passo mesurado e cadencioso como usam andar os amantes tristes.
Clotilde avistara-o, e estremeceu nervosamente, porque era muito assustadiça a menina quando avistava homens mais ou menos parecidos com a imagem ideal que ela formara de um certo Agobar, seu simpático conhecido de não sei que novela de Arlincourt, a quem Deus perdoe o mal que fez às meninas do seu tempo, e ao senso comum de todos os tempos.
A vinte passos de um fosso enlameado por onde se escoa a sangueira do açougue da Foz, Clotilde e a mãe pararam, olhando contra um barco a vapor que aproava à barra.
César estugou o passo, e parou também a vinte passos para além do fosso, fingindo que observava a entrada do vapor.
A cadela, no entanto, para desencalmar-se na frescura da lama embebida em sangue, entrou pelo fosso dentro chapinando e agachando-se nas pocinhas em que a veia de água se represava mais cristalina.
Neste chafurdar andava Diana, quando uma enorme ratazana espavorida saltou de sua lura, e, acossada pela cadela, correu ao longo do barroco em direitura às duas senhoras, que se haviam chegado ao fosso para verem o prazer com que o quadrúpede encalmado se retouçava.
D. Caetana, ao dar tento da ratazana, cuja cauda eriçada e encaracolada fazia pavor à própria Diana, expediu um grito, e clamou:
— Olha, olha, Clotilde...
Clotilde, apenas encarou no quadrúpede, estendeu os braços inteiriçados, abrindo e espalmando as mãos, e voltando o rosto como fazem todas as atrizes trágicas notáveis, quando acertam de verem perpassar pela lona do cenário lúgubre algum fantasma mais ou menos papelão; e depois destes e outros feitios e trejeitos e caretas estarrecidas, tirou da arca do peito um grito estrídulo de horror, e... ia desmaiar quando o estrondo de um tiro a fez soltar mais ingente brado e a espertou para abrir os olhos sobre um espetáculo digno de ser contado por pena melhor aparada!
César recebia dos dentes da cadela a ratazana agonizante, e levantando-a ao alto, disse:
— Está morta!
Clotilde respondeu com um vagido congratulatório à ovação do fino amante; porém, reparando que ele tinha entre os dedos a cauda do bicho repulsivo, exclamou:
— Largue isso!... Pois não tem nojo!... Cativa!
César, corrido da suja ação do seu entusiasmo, deixou cair o cadáver da ratazana, e desceu ao mar a lavar as mãos.
Quando voltou ao local em que praticara a façanha, as senhoras tinham desaparecido, no pinhal vizinho, para encurtarem o caminho de casa.
O amante, fino de mais para estes grossos tempos, entrou-se de uma convicção dura de tragar; e, pondo os olhos no corpo ensanguentado da ratazana, disse:
— Não valia a pena aniquilar-te, criatura do Senhor, nota do hino da criação, ente necessário à perfeição do Cosmos! Não valia a pena matar-te, para satisfação dos nervos de uma ingrata!
Disse, e deu com a coronha da arma na cadela que queria comer a rata! Que a faminta Diana, ia-se a pique de morrer de fome, todas as vezes que seu dono amava!
Nisto, chegou João Fernandes.
***

IV - JOÃO FERNANDES
Já se disse que o barão de Penajoia, antigo Manuel José Fernandes, o Chicha, de alcunha, era a máquina produtora de um filho único, que houve nome João, e se estava, ao tempo desta história, gozando das graças do diminutivo Joãozinho. As moças da Penajoia, Mesão Frio e Moledo amavam-no e perseguiam-no, sem embargo de ele ser vesgo e zambro das pernas o seu tanto ou quanto. Dizia-se que João Fernandes botara a perder algumas raparigas lá do Douro e casara outras com beneplácito e dinheiro do pai, no louvável intento de calar as famílias e calar o escândalo — o escândalo que é muito mais rebelde de acomodar que as famílias.
João Fernandes estivera no Porto, em rapaz, estudando francês na academia, e então conhecera César, seu condiscípulo. Fechado de cabeça como uma pedreira de mármore, o filho do barão da Penajoia não aprendeu nada, e gastou um ano e algumas dúzias de moedas a namoriscar as loiceiras dos sótãos da academia, e as fruteiras da praça do Anjo. Trajava com elegância, vestia luva gema de ovo todos os dias, e aos domingos alugava cavalo e, à falta de ruas e de espaço por onde passeasse o galope do cavalo e da alma desenfreada, batia as mesmas calçadas cinco vezes em cada dia de equitação. 
Fernandes ficou sobremodo alarve, e contente de si. Tudo lhe saía ao pintar. A fortuna ameigava-o com entranhas da mãe estúpida, que se endoidece de alegria ao ver-se escouceada pelo filho boçal. Parece que a natureza fora feita privativamente para regalo dele. As mulheres da Penajoia, como fica escrito e anunciado à posteridade, amavam-no a peito. Nenhum vesgo e zambro abusara mais a froixo das delícias deste globo, tão avaro delas para incalculável número de homens bem apessoados, escorreitos e até poetas! Aquele bestunto gizava prazeres, e para logo os mais dadivosos acasos confluíam a chover-lhe contentamentos ao molde e talho de sua soez fantasia. O amor, principalmente o amor, se é cego, como dizem, apertara sobre os olhos uma dupla venda com receio de ver o sandeu a quem servia humilimamente. Era coisa de fazer chorar uma pedra ver que donzelas, que sécias, que tafulas das mais cobiçáveis da freguesia, lhe saíam ao encontro do caminho, por sobre o qual um escritor de gosto e estilo diria que legiões de cupidos lhe avoejavam iriando-lhe a luz e enflorando-lhe as alfombras de sua passagem! Isto assim dito, a respeito de João Fernandes, seria bonito e digno. Agora penso eu que se está fabricando, pelo quilate daquela, uma linguagem para uso dos imortalizadores das pessoas distintas, como João e outros.
Achava-se Fernandes na Foz por causa da fidalga de Canelas, morgada de Encavalgados, filha única, criatura alegre, bonitota e bruta. Esta senhora, chamada Filipa, gostava dele e convidara-o a comer letria, uma vez que o vira numa festa de igreja, lá em Canelas. João comera a valer, sem dar fé de se lhe ir o coração e estourando de amor. Doutra vez, a fidalga foi à Penajoia, onde tem um casal, e, convidada pelo barão, foi comer arroz-doce vis à vis de João Fernandes. Desde esta saudosa comezaina, os dois corações ataram-se com tão cego nó que parecera ser aquele amor para disputar constância e duração com a eternidade. Eram dois azeméis talhados, vazados, fundidos da mesma forma. Se estes se não amam até à campa, não há nada certo, em matéria de amor, matéria materialíssima, e amor animal, amor fibroso, amor de osso e músculo, carne de carne, e para uma só carne, como o Evangelho diz que sejam marido e mulher.
D. Filipa Paiva e Pona foi a banhos de mar, à conta de flatos, e enchimentos de estômago, e outras doenças de má cara. O cirurgião mentira. A morgada de Encavalgados era sadia, nédia e oleosa como um chouriço de sangue. Fora João Fernandes que a induzira a queixar-se de uma dor da ilharga esquerda e a deitar-se da cama abaixo, ululando uns gritos histéricos e torcendo-se em trejeitos e esgares tão assustadores, que a gente de mais são critério de Canelas deu a fidalga como possessa do cão tinhoso, contra o qual se fariam exorcismos, se o demônio se não antecipasse a dizer, pela boca do cirurgião, que a morgada precisava de banhos de mar.
Em virtude do que desceram à Foz os Paivas e Ponas, em companhia de João Fernandes e de alguns presuntos, e vários foles de feijão, e outros legumes, e farináceos.
Agora tem o leitor a felicidade de encontrar o filho do barão da Penajoia a palestrar com César, no mesmo ponto em que ouvimos o raticida apostrofando o cadáver ensanguentado daquela mansa vítima imolada aos nervos de Clotilde. Mas, antes de aproximá-los, vejamos ainda brutezas novas de Fernandes.
Descia ele da parte do monte na ocasião em que as damas se iam de fugida por entre os pinheirais e tirava da algibeira um binóculo de teatro com que andava sempre prevenido. Assestou os vidros às damas fugitivas; e, como quer que uma silva prendesse o vestido de Clotilde, e indiscretamente lhe mostrasse da perna uma porção bastante a delatar maravilhosos mistérios, posto que a desvendar o segredo fosse bastante o pé, que assim o disse o poeta de Rola:
...................................................................
lors qu’on volt le pied, la jambe se devine
....................................................................
João Fernandes, vinha eu contando, como visse pelo óculo o quer que foi da perna e, como parvo que era, cuidasse que estava na Penajoia, expediu do peito alvar uma gargalhada e disse em vozeamento de cabreiro que fala ao rebanho: “Isso é que é perna! Viva quem é uma flor!”
Clotilde e a mãe olharam ao mesmo tempo e viram o atrevido cavalgando uma parede, com o binóculo assestado.
— Que petulante estúpido! — disse abafada de cólera a menina.
— Anda daí — acudiu a mãe -, faz de conta que o não ouviste. Apanha as saias!
E João Fernandes, sem desfitar o óculo, cantou na toada galhofeira da música popular, estes dois versos:
Ponha aqui o seu pezinho,
Ponha aqui ao pé do meu.

César subira então a um cômoro de areia, por ter ouvido o falaris do insolente, e avistou João Fernandes, que vinha em direitura dele, assoviando a moda do pezinho.
— Olé! — disse o da Penajoia. — César, condiscípulo, amigo, et caetera! Estavas também à espreita do pezinho da encantadora ninfa!?
— Cala-te, selvagem! — respondeu o acadêmico. — Tu és um grosseirão!
— Pertenciam-te as criaturinhas?! — redarguiu João Fernandes. — Perdoarás! Eu cuidei que não ofendia ninguém com isto! Vocês, os rapazes civilizados, andam atrás das senhoras nas salas para lhes dizerem em segredo que elas têm o pé muito galante; e vai depois, se acontece um homem franco dizer em voz alta a uma senhora que ela tem a perna bonita, porque ela deixou ver, vocês chamam grosseiro e bruto ao homem! Que dizem lá os teus autores a este respeito, meu doutor?
— Os meus autores dizem-me que tu és um asno; e como a asneira é a soberania do universo e a mãe de todos os heroísmos extraordinários, respeito-te, amigo Fernandes, descubro-me diante de ti, e vou meu caminho para me não convenceres de que eu sou um tolo superior a ti.
— Ouve cá, César! — replicou João Fernandes, metendo-lhe o braço. — Que diabo de mulher é uma mulher que tu estavas ontem a cocar ali na praia? Fez-me mossa a rapariga, e tive vontade de te dizer: “Anda para diante, se és homem; e, se não és homem, faz-te ao largo, e deixa-me fazer a esta ninfa dois dedos de namoro!”
— A mulher era aquela que tu apupaste agora, pedaço de maroto. É assim que tu amas as ninfas de Penajoia?
— É assim mesmo, digo-te que é assim, que se amam as mulheres de toda a parte. Agora, vou fazer contigo uma aposta. Dobrado contra singelo. Se ela me não aceitar o namoro, perco eu o meu cavalo ruço, e, se eu dentro de Oito dias te mostrar uma carta dela, perdes a tua cadela. Valeu?
— Estava capaz de experimentar... — respondeu César.
— Tens tudo a ganhar, rapaz! Ganhas a mulher e o cavalo. E tens pouco a perder, porque perdes a cadelita, que pouco vale, e a moça, que se é o que eu cuido, pouco vale também. Que dizes tu, homem?
— Apostei! — exclamou resolutamente o acadêmico. — Oito dias para ela te responder. Se te não responde...
— Mando-te o meu cavalo... palavra de cavalheiro!
César encostou mãos e face à coronha da espingarda, meditou, correu a mão pela fronte e disse:
— Pois o mundo estará assim organizado?
— Assim como?! — interpelou João Fernandes.
— Serás tu o homem destinado a impressionar aquela angélica criatura?
— Sou: tenho-as impressionado mais finas. Conheces a Filipa de Canelas?
— Isso é uma lavadeira! Com que seresma tu me vens argumentar!
— Pois faz-lhe tu a corte, que eu perco a minha fortuna se lhe apanhares uma piscadela de olho!...
— Qual de nós é o parvo?! — perguntou solenemente César.
— És tu! — respondeu solenemente João Fernandes.
***

V - VITÓRIA DA TOLICE
No dia seguinte, estava o comendador Leituga em Sobreiras examinando um porco de raça inglesa, que recolhia de ser exposto e proposto a prêmio.
— Abençoado sejas tu que tão perfeito saíste! — exclamava o comendador coçando o cevado no focinho.
— E foi premiado! — disse um outro comendador circunstante.
— Premiado! — acudiu João Fernandes. — Pois cá premeiam-se os animais?
— E reprovam-se os vegetais que estudam francês — acrescentou César, que acertara de estar no círculo cujo centro era o porco premiado.
João Fernandes derramou o olho vesgo sobre o chacoteador, e disse:
— Cuidado com as ventas, Augusto César!... Olha que eu não desatendo ninguém. Fala bem que ninguém te fala mal. Eu falava com o porco.
— Para falares com quem te entenda... — redarguiu o acadêmico.
O comendador Leituga voltou a carranca contra César, e disse gravemente:
— A dizer a verdade, o senhor não tem razão. Eu conheço desde ontem à noite o filho do Sr. barão da Penajoia, e vou jurar que ele é incapaz de ofender pessoa alguma.
César respondeu sorrindo:
— Eu também conheço o senhor João Fernandes há nove anos, e por isso gracejei com ele, sem intenção de beliscar a sua vaidade de conhecedor da língua francesa...
Estourava de despeito e raiva o matador da ratazana. Sendo ele o único homem de talento e espírito, que estava no grupo, era ele por isso mesmo também o único ridículo e aparvalhado naquele momento. João Fernandes entortava a boca para morder o beiço inferior, exibindo a dentadura superior, suja até ao espanto. Esta careta simbolizava a alegria íntima, de se ver defendido por Inácio José Leituga, na presença do infausto amador da filha.
César dispensava esclarecimentos. Posto que se arreceasse de ser suplantado pelo da Penajoia, ainda assim não esperava tão rápida e sumária derrota. Cuidava ele que João Fernandes seguiria a trilha de todos os moços distintos em matéria de namoro, começando pelo princípio, que é a parte contemplativa, ou extática; depois, passando à seção epistolar; e daí às outras, que variam, consoante as pessoas e as circunstâncias. Neste pressuposto entendeu César que o parvoinho de Penajoia, antes de ousar oferecer uma carta a Clotilde, consumiria alguns dias em seguida do banho a casa com a pertinácia estúpida de um indiscreto, que apostara o cavalo ruço, e havia de pagar pontualmente a aposta, se, no prazo de oito dias, não apresentasse uma carta da menina de Cinfães.
Isto cuidava ele como homem de espírito e gênio, homem de alta poesia e profundo respeito pelas senhoras, homem que falava com asco da corrupção da espécie humana e supunha que nenhuma das pessoas que ele conhecia estivesse corrompida. As criaturas dotadas de espírito e gênio são assim boas, assim idiotas; e, se deixam de o ser nalguma hora, é quando lá do íntimo de sua consciência lhes rompe um gemido, gemido do orgulho castigado, dor sem igual e sem consolação, porque as desgraças e desenganos que esmagam as almas estremadas do vulgo são dores que o vulgo escarnece; e escárnio atroz é esse, porque vai nisso o vingar-se a canalha; e a canalha urra triunfante a cada homem distinto que sopesa e recalca no seu ester...
Vamos ao conto.
Saibamos de que modo João Fernandes se relacionou com o comendador Leituga.
Ao separar-se de Castro, no dia anterior, entrou em sua casa para pensar se devia pensar na maneira de começar namoro com Clotilde; porém, como lhe não acudisse de pronto pensamento nenhum, resolveu pelo melhor não pensar nada. Resolvido isto, saiu, e foi passear para o Monte.
Ora João Fernandes tinha a dose de velhacaria, que a natureza concede a cada tolo maior de marca. Ele já sabia quem era a menina quando pediu informações a César; sabia que ela tinha em Cinfães um casão, e outro casão em Canaveses; sabia que o seu condiscípulo a trazia de olho, e versejava por amor dela, e cruzava os braços sobre o peito, buscando-a no Céu, quando ela saía da praia, e ia para casa almoçar bolinhos de bacalhau; isto dos bolinhos de bacalhau sabia-o ele de ter ouvido dizer ao comendador Leituga que em sua casa todos os dias ao almoço e à ceia comia bacalhau em bolinhos. Tudo isto sabia o velhaco!
Chegou João Fernandes ao Monte, e a primeira pessoa que viu numa janela foi Clotilde. A menina, mal o enxergou e reconheceu, deu uma viravolta, e mostrou o costado elegante e as negras pastas de cabelo que se lhe amoldavam ao torneado das espáduas. João Fernandes tossiu e prolongou um som rouco, e feio, posto que em certos casos pareça linguagem do coração, e em outros um esforço que se faz para desembargar os gorgomilos de algum entulho incômodo.
Clotilde, azoada com esta plebeia e audaciosa demonstração de afeto, saiu da janela e bateu com as portadas na cara festival de João.
— Sempre é muito bruto! — monologava ela, mirando-se no espelhinho do toucador de cedreira. — Quem cuidará este homem que eu sou?!
Acabava de fazer esta pergunta a menina, quando a campainha da escada tilintou. A criada pergunta quem é e responde uma voz exterior:
— Está em casa o senhor Comendador?
— Não está: foi para a cidade. O senhor quem é?
— O filho do barão da Penajoia.
— Quem? — perguntou Clotilde. — Quem?! — e foi espreitar ao patamar da escada.
— Diz que é o filho do senhor barão da Penajoia — respondeu a criada.
— Um criado de vossa excelência, minha Senhora — acrescentou João Fernandes.
D. Caetana Emília, que estava lendo uma novela intitulada O Menino da Selva, meteu as cangalhas de prata entre as duas páginas, e disse:
— Eu lá vou.
Saiu com efeito ao topo da escada e disse:
— Meu marido não está em casa; se é recado que lhe deixe...
— Eu vinha aqui de mando de meu pai cumprimentar o senhor Comendador, e saber da sua saúde e da sua estimável família.
— Mas eu não conheço o senhor barão, que me lembre — replicou D. Emília.
— Os fidalgos conhecem-se uns aos outros — redarguiu João Fernandes — e apolítica manda que eles se cumprimentem. Por isso é que eu vim cumprir os meus deveres; e, como o senhor Comendador já me conhece, aqui deixo o meu bilhete-de-visita.
João Fernandes tirou da carteira o seu bilhete, impresso de modo que depois do nome João estava uma coroa de barão metida numa grinalda, e depois seguia-se o apelido Fernandes, e, por baixo, em letras d’ouro: futuro barão de Penajoia, etc., etc., etc., e mais abaixo, à orla do papel, estas palavras escritas do punho do próprio tolo: criado venerador de vossas excelências.
Foi o bilhete para cima, e João Fernandes ia a sair quando o comendador apontava ao cimo da rua, defrontando com a sua residência.
Fez-lhe sensação o ver sair João Fernandes de sua casa; este, porém, com o mais sossegado ânimo, dirigiu-se ao Leituga e disse-lhe:
— Venho de deixar um bilhete a vossa excelência, porque tenho muita honra em fazer o seu conhecimento, e meu pai é da mesma opinião.
— Muito reconhecido ao seu favor — disse o de Cinfães. — Eu não tenho o gosto de conhecer pessoalmente o senhor barão; mas lá virá vez de nos conhecermos. Já agora faz favor de subir e descansar.
João Fernandes retrocedeu, entrou à sala, foi apresentado a D. Caetana, pouco depois à menina, que entrou grave e mal-assombrada na sala, e dali a pouco estava conversando com todos três, dizendo as suas baboseiras com bastante graça e elegância, falando da sua casa apalaçada na Penajoia, das suas quintas do Alto Douro, dos cevados que se matavam em sua casa, dos casamentos que lhe tinham sido propostos, da sua predileção pelo arroz-doce e do muito prazer que ele sentia em poder oferecer ao senhor comendador um presunto ainda inteiro de três que trouxera de casa.
A esta hora, Augusto César contemplava a estrela Vésper, e dizia: “Clotilde! palavra de magia, som que as harpas eólicas gemem, nota de hino que desferem os coros angelicais, talismã, bem-aventurança, Clotilde!
Como eu te amo, como o coração se me vai em incenso para ti!
Avoeja à flor dos meus cabelos, ó ave do Paraíso!... Os áditos do elísio abrem-se para nós, a natureza é nossa, e o mar suspira para nos embalar os sonhos, as auras ciciam nos pinhais para nos ensaiarem o murmúrio, a linguagem rumorosa e estremecida dos corações felizes!
Ó Clotilde...
Ó mariposa dileta,
Vem abrasar-te e viver
No coração do poeta,
Deixa-te amar e morrer!
Deixa-te amar e morrer
Õ mariposa dileta;
Vem abrasar-te e viver
No coração do poeta!”
                           
***

CONCLUSÃO

No fim da tarde do quinto dia depois daquela fatal tarde da aposta, César ia caminho de Carreiros, e viu descer dos pinhais em direção à praia um grupo de homens e damas. Esfregou três vezes os olhos, e três vezes comprimiu as fontes, que lhe estouravam batidas e inflamadas pelo vulcão do cérebro incendiado. O que ele vira fora uma visão das que Satanás reserva para os réprobos da última casta: João Fernandes vinha de braço dado com Clotilde e ela, de vez em quando, dava-lhe a cheirar um ramilhete de cravelinas!
Sabeis o que é o cair de um homem desamparado na areia?
Sabeis como cai todo o homem que não pode sustentar o equilíbrio?
Sabeis qual é a posição que um homem toma quando não pode sustentar a vertical que lhe decretou o criador?
Pois foi assim! César caiu na areia como todo o homem que cai.
E, quando tornou a si, ergueu-se, envergonhou-se na ideia de que o tinham visto e foi para casa.
E, na noite desse dia saiu com um par de pistolas em demanda de João Fernandes, que a essa hora se debatia nas angústias da morte entre as mãos de D. Filipa Paiva e Pona. A qual, como soubesse que era atraiçoada, saiu de capote e chapéu braguês, armada de uma tesoura, e surpreendeu João a dar o nó de uma gravata vermelha, que naquela noite ia estrear a casa do comendador. A morgada de Encavalgados travou-lhe do pescoço e pôs-lhe ao peito o duplo bico da tesoura. João, assombrado e fascinado por tamanho heroísmo de mulher apaixonada, pediu que lhe largasse a garganta e jurou abandonar Clotilde. E abandonou.
Mas no dia seguinte, que era o sétimo, receando que César mandasse buscar o cavalo ruço hipotecado na aposta, apresentou-se ao amanhecer em casa do condiscípulo e disse:
— Não venho buscar a cadela; mas venho trazer a carta. Conheces esta letra?
— Não — disse César — mas creio que é da infame.
— Se é infame, não sei; atolambada te juro eu que ela é. O que eu te digo é que se ela não serve para João Fernandes, menos servirá para César. Pergunta-me agora qual de nós é o parvo, amigo César!
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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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