sexta-feira, 29 de maio de 2020

Napoleão no Kremlin (Poesia), de Mendes Leal



NAPOLEÃO NO KREMLIN
----------------------------------
 AO PRÍNCIPE DA LIRA
ANTÔNIO FELICIANO DE CASTILHO
Filósofo, poeta, obreiro do futuro,
Qual és, benigno aceita o canto que murmuro,
Ante as urnas da história, à minha solidão,
Da tua etérea luz à sombra estende a mão!
  
SIC FATA VOLUERUNT.

***

I
Era a colina santa, e em volta a gran-cidade!

Revolvera o cabeço uma audaz tempestade
De granito e de bronze, arremessando aos céus
Por ondas bastiões, por vagas coruchéus!
Era nova Babel, soberba e formidável;
Tudo o que é opressor; tudo o que é implacável;
Das impostas pendendo os anéis dos grilhões;
Seteiras nos jardins; nos eirados canhões;
Cem vigias de pedra em cada miradouro;
Ao rés grades de ferro; em cima tetos de ouro;
Uma pompa violenta, uma ansiosa mansão,
Que diríeis romper da boca dum vulcão!

A espaços, coroando a tétrica cerviz
Dum torreão firmado em rudes alcantis,
Metálico zimbório esplende ao astro esquivo,
Como o elmo que aperta a fronte de um cativo.
Emaranham-se à vista arcadas e quartéis,
E os grossos revelins, e os rendados mainéis.
A um tempo Europa e Ásia, opróbrio e maravilhas;
Num reduto um bazar; as aras nas bastilhas;
Abrolhando o recinto um selvoso espessor
De agudos campanis — e no todo o terror!

Era a suspeita armada, eterna sentinela,
Por dentro Panteão, por fora cidadela!
Era, ao dúbio alvorar que precede a manhã,
O poema de Igor em torno à cruz de Ivan;
Revolta construção dum Encelado novo;
Garra adunca e brutal sobre o peito dum povo;
Funesta alegoria, afronta da razão,
Que intenta dizer: glória! e diz: escravidão!
Era a ameaça feroz na túrbida grandeza;
Templo, ergástulo, paço, erário, e fortaleza!
Era o alcáçar do Norte, o seu santuário, enfim
A acrópole augural do Cita — era o Kremlin!

II
No mais alto mirante um vulto grave e mudo,
Todo nevoas o céu, na terra imóvel tudo,
Contempla vagamente as vagas solidões.
De força e de grandeza inda não satisfeito,
Aspira o espaço e a noite — a destra sobre o peito
Como para conter a fúria das paixões.

A metrópole imensa, adormecida ou morta,
O imenso pedestal, que rendido o suporta,
As planuras que ao longe ondulam como um mar,
As hostes, os troféus, a conquista, os portentos,
Nada disto já vê; tais são seus pensamentos,
Tão alta a mente foi, tão fundo é seu cismar.

Quem é ele? O que faz? Donde vem? Com que fito?
Incansável obreiro interroga o infinito;
Paz não tem; lei não quer; vai, vai; não conta os sóis;
E se instantes parou, quando a fortuna o prova,
É para meditar alguma audácia nova,
Na atitude que toca aos Numes e aos heróis!

Donde vem? Atentai. Correi; segui-lhe o rasto.
Nunca sulco mais fundo em terreno mais vasto!
Manda: o Ocidente aflui. — Que estrugir! Que avançar!
Que longo! Que voraz! Que enorme! Que terrível!
Esta chama? Ontem era um castelo invencível.
Esta cinza? Era há pouco arrogante solar.

O facho precursor alonga um ermo aberto.
Investe a legião, defende-se o deserto.
De Átila a grande sombra, ao ver os capitães
Violar da pátria selva os não cursados trilhos,
Pensativa procura, afastando seus filhos,
Um túmulo que sirva aos filhos dos Titãs

Quem é? O homem-cratera; emblema, esfinge, arcano;
Tanto como um profeta, e mais que um soberano.
Um dia o viu reinar mal outro o viu surgir.
São-lhe os povos degraus; o império foi-lhe ensaio;
Na larga fronte um Deus; nos olhos de águia um raio;
Pelas trevas se entranha, e elabora o porvir.

De Karl, o Invicto, o Magno, o Imperador espectro,
Tomou nas fortes mãos o gládio, o globo, o cetro;
Com a túnica viril das desprendidas greis
Tão amplo manto fez, que esconde, dilatado,
Dum lado os Pirenéus, os Alpes doutro lado,
E nas sobras talhou dez purpuras de reis.

Quem é? Seu grande nome o espanto e o ardor espalha,
Como o som dum clarim num dia de batalha.
Há muito o Austro o aclama. Hoje o Setentrião
Atérrito o escutou no horror de Borodino...
A História escreverá: “chamava-se o Destino!”
À voz dos seus canhões troou: “Napoleão!”

No humilhado frontal das basílicas nuas
Levantam-se-lhe aos pés, velando, as águias suas,
As águias triunfais, as águias de Austerlitz.
Volve acaso o semblante. Olhou. Mira a vitória
Nos amados pendões, que inflama tanta glória,
E o coração trasborda, e rompe o verbo, e diz:

III
— “Eis-me. Cheguei. Mais fúlgido
Meu astro se alevanta:
No coração do Tártaro
Encosto o ferro e a planta.

Eis-me. O leão da Córsega
Enfim vos empolgou,
Ó capital das cúpulas,
Ó torres de Moscou!

Eu sou o Ajax autêntico,
A autentica epopeia,
Aurora após crepúsculo,
Espada feita ideia.

Fadou-me Arcole e Rívoli
Marengo, e Lodi, e as mais;
Rompi dum canto homérico
Em dias imortais.

O mesmo sou, que os séculos,
De tanto ousar pasmados,
No cimo das pirâmides
Mostrei aos meus soldados.

Fiz nessa terra, símbolo
De olímpicos avós,
Estremecer nos túmulos
Os velhos Faraós;

Nessa, ao potente estrépito
Do arrojo e das vitórias,
Cobri com as palmas ínclitas
As máximas memórias;

Nessa, mistério pávido
Onde o passado rui,
Nessa, de assombros prodiga,
Maior assombro eu fui.

Era Alexandre o prólogo.
Tentou-me. Em cem combates
Arremessei, seu émulo,
O Nilo sobre o Eufrates.

No turbilhão fantástico
Dos rápidos corcéis,
Ardentes vi cercarem-me
Os esquadrões dos Beis;

Vi mais — ceara horrífica
De alfanjes e trabucos! —
Os marciais Janízaros,
Os feros Mamelucos;

E a densa turba inúmera,
Ao breve aceno meu,
Sombra tornada, súbito
Às sombras se volveu.

No pó de heroicas épocas
Ficaram meus vestígios;
A par das lendas bíblicas
Tracei novos prodígios.

Aos vãos chegou do Líbano
Meu bélico trovão,
E do Tabor aos píncaros,
E às margens do Jordão.

Sobre os dispersos ídolos
Meus batalhões marcharam;
De feito a feito alçando-se,
Ovantes acamparam
De Tebas entre os pórticos,
Em Mênfis sem rival...
Fez-se às gigânteas fábulas
A minha história igual.

E o prosseguir esplêndido
Da triunfal carreira,
Quando a meus pés atônita
Prostrei a Europa inteira!

Quando, as coortes férvidas
Dispondo a meu sabor,
Ao fim de um dia trágico
De universal terror,

Em vindo a erguer-se o Vespeiro,
Surgia da metralha
Nas mãos trazendo, incólume,
Um reino e uma batalha!

Meu curso meteórico
Não para; a luta é vã:
Sucedem-se fatídicas
Iuna, Eylau, Wagram.

Sou vencedor, sou árbitro
Aos curvos hemisférios;
“Surgi” ordeno, e surgem-me,
Quais os desejo, impérios.

Triunfos e catástrofes,
Estados, leis, nações,
Os fulgurantes préstitos,
As bastas legiões,

Confundem-se, enovelam-se
Na cerração turbada
Dum caos, ao relâmpago
Que vibra a minha espada.

Quis Deus tornar-me o Gênesis,
Que em breve há de acender
Nos homens novo espírito,
Nas eras novo ser.

A evolução recôndita
Avança de hora em hora:
Trabalho sobre a incude
A humanidade agora.

O herdeiro dos Apóstolos
Ungiu-me entre os cristãos,
E eu mesmo a coroa altíssima
Cingi com estas mãos.

Deixei submisso, trêmulo
Como exorando as Parcas,
Aos meus umbrais um séquito
De pálidos monarcas.

Este diadema único
Destrelas constelei;
Em nova, suma Ilíada
Sou já de reis um rei.

E aqui!... aqui rodeiam-me,
Ativos serviçais,
Os meus ministros-príncipes,
Meus duques-marechais!

Fervem do Sena ao Vístula
Os arraiais em peso,
Como nas veias túmidas
Um sangue em febre aceso!
Olhai! Conduzo unânimes,
Mais fortes cada vez,
Germanos, francos, ítalos,
O próprio português;

O português, que intrépido
Sabe ir, honrando os lares,
Descortinar o incógnito
Vencendo terra e mares!

Quem há de pois com êxito
Meus planos impedir?
Aos orbes posso o âmbito,
Com braços tais medir!...

Moscou, teu solo as máculas
Descravo teve; apague-as:
Venci o repto altíssono
Das águias contra as águias.

E tu, rival marítimo,
Aqui te enfreio a ação!...
Ó Rússia, enfim pertences-me!
Enfim és meu, Bretão!”

IV
No ardor que o move, a mão comprime ao peito ingente,
 Absorto fica, e de repente
O tolhe, e todo o enleva, um êxtase sem par.
Encontrara no seio a leve miniatura,
Que o filho, o filho tenro, ao vivo lhe figura,
 E nele o amor, a esposa, o lar.

Humanou-se o colosso. O tênue quadro encara;
 Revê na mente a imagem cara;
Quer-lhe, apesar da sombra, o rosto distinguir;
Um rosto angelical, alvo, louro, rosado,
Cândido lírio em flor, de purpura orvalhado,
 Que estrela a noite, e a faz sorrir.

Foi prenda conjugal. Ao recebê-la o esposo,
 Rompia o choque pavoroso
Da batalha que abriu as portas de Moscou!
Com saudades talvez, talvez também com prantos,
O grão conquistador anseia afetos santos...
 É pai! — Depois continuou:

V
— “Ó filho, foi-te oráculo
O gênio meu profundo:
Ó filho, achaste um mundo
No berço imperial.
Que resplendor, que auréola
De glória, de tesouros,
De conquistados louros,
De pompa triunfal!

César, que vens de Césares,
Deus pôs-te, alma adorada,
A tradição, a espada
Nos braços infantis.
Nasceste rei. Teu título
Da mor grandeza assoma.
Nasceste rei de Roma,
E Roma o globo diz.

Com a herança conta. Alargo-ta.
A imensa monarquia
Apuro noite e dia
No paternal crisol.
Legar-te quero o círculo
Que os povos incorpora,
Desde onde surge a aurora,
Até onde baixa o sol.

Dissiparão no vórtice
Os diques derradeiros
Meus bravos granadeiros,
Meus esquadrões sem fim.
Da cúpula estelífera
Dominarás robusto,
Ó tu, futuro Augusto,
Que és hoje querubim.

Meu mando, egrégio e provido,
Cabal a terra invade.
Não mais que uma vontade,
Que um trono, e que um altar!
É tempo. Os fados cumprem-se.
Desvende-se o mistério...
Universal império
Começo hoje a fundar!...”

VI
Nisto uma chama, e outra, e cento, e centos
Brotam-lhe em torno, as trevas arraiando;
Abrasam-se os minados monumentos;
Cresce o mal, cresce o dano, desabando
No rubro chão os rotos pavimentos;
Negro e espesso vapor, de quando em quando,
O espaço tolda, golfa nas veredas.
É tudo em pouco um mar de labaredas!

Soprando sobre a ardente catarata,
Rijo aquilão o estrago faz mais breve,
E o inverno boreal, veloz, desata
Dos rócheos ombros o lençol de neve.
Triunfa a morte; o horror o horror dilata;
O espírito a medi-lo mal se atreve.
Que dor! Que fim! Que círculo medonho!...
Tal foi o despertar qual fora o sonho!

Inspira pátrio amor delírio intenso.
Do rude Cita a bárbara energia
Faz do seu Capitólio um facho imenso,
(Funérea tocha em lúgubre agonia!)
E brada ao vencedor torvo e suspenso:
— “Hospede vens: meu braço te alumia!”
Pressagio triste ao grande temerário!
O incêndio, ocaso! Os gelos, um sudário!

Desse lume ao revérbero inimigo
Vê-se, na encosta que inda o sangue inunda,
Descendo, só, quem só contou consigo;
E no extremo fatal (lição profunda!)
Como o padrão do Prometeu antigo,
Um rochedo surgir, que o mar circunda —
O mar, espelho azul da imensidade,
Cântico eterno à eterna liberdade!
---
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...