sábado, 30 de maio de 2020

Newton (Poema), de José Agostinho de Macedo



PREFÁCIO
Um dos mais extraordinários escritores portugueses deste século, foi, sem dúvida, o padre José Agostinho de Macedo... Não nos pertence avaliar se foram sempre nobres os impulsos que lhe moveram a pena; se os seus escritos não ressumara, em grande parte, paixões más; ou se muitas de suas obras, traçadas em críticos períodos, não prejudicaram os bons princípios. Só queremos aqui ver nele o filólogo profundo, assombroso, erudito, o gênio variadíssimo, o escritor primoroso, o homem enfim cujo maior elogio está sintetizado numa reflexão frequentemente feita por juízes competentes, a saber, que muitos e mui notáveis pontos de contato se descobrem entre a sua inteligência e a do fenômeno do século, passado, Voltaire.
Não é por certo o poeta admirável como o prosador; mas ocupa um lugar mui distinto na nossa literatura. Entre as suas produções de vulto, é apontado, em primeira linha, o poema Newton, essa preferência, pelo próprio autor lhe era concedida, pois dele diz José Agostinho: "Os pais sempre têm predileção por algum dos filhos, sendo todos seus; outro tanto me sucede com o poema Newton: eu lhe dou a preferência entre todos os meus escritos, e lhe chamo a melhor e a mais perfeita das minhas composições."
Foi intuito do poeta, com esta obra, provar que a física podia ser digna matéria da poesia sublime; e aquele que no poema Oriente tinha dado um campeão para o exército da poesia épica, deu, no Newton, outro não somenos, para o da poesia didascálica, de que já tinha revelado brilhantes faíscas no poema Meditação.
Possuímos um inédito valiosíssimo, do próprio punho do poeta. O poema Newton, depois das suas edições de 1813 e 1815, está aqui alterado em centos de versos pelo seu próprio autor; o qual cortou, acrescentou e sobretudo mudou a maior parte da obra.
Como a nossa publicação, dirigindo-se a grande variedade de leitores, também pretende ser útil aos que se ocupam de poesia e letras pátrias, resolvemo-nos a nos desfazermos, em proveito do público, desta riqueza literária.

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JOSÉ FELICIANO DE CASTILHO BARRETO E NORONHA
Jornal Íris (1848)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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NEWTON
POEMA
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PROÊMIO

O Mundo deve aos Conquistadores desgraças, lágrimas e lutos; o Mundo deve a Newton verdades, ciência e luzes. Se inquietar os homens tem merecido tantas Epopeias, porque não merecerá um Poema que ilustra e que ensina os homens? Ah! se chegará o tempo de se conhecer, que uma pena é mais útil que uma espada! Canta-se com ênfase quem conquistou uma Província, e por que não há de ser cantado aquele de quem se pode dizer, que conquistara a Natureza, obrigando-a, à força de estudo, e engenho, a revelar seus mais recônditos arcanos? É preciso que conheçamos que o Império da Poesia tem limites muito mais extensos do que até agora se julgava; e eu creio que o seu melhor emprego é a contemplação, e a exposição deste sempre antigo, e sempre novo quadro, que se chama a Natureza. A simples intuição de seus prodígios, e o estudo destes mesmos prodígios, dilata e acende mais a imaginação do verdadeiro Poeta, que todas as chamadas grandes ações dos Conquistadores ou perturbadores da Terra. Se o homem só se deve chamar grande, quando é verdadeiramente útil aos outros homens, quem poderá pôr em dúvida que os descobrimentos e as mesmas hipóteses de Newton sejam mais úteis aos mortais do que as expedições da Cruzada, que deram a matéria ao Poema de Tasso? Quem ilustra a humanidade é maior que quem a diminui. Newton merecia um Poema, as Musas lho deviam, eu satisfiz esta dívida; se a satisfiz bem, a crítica o dirá; enquanto aos miseráveis reparos da escura Inveja, prepare-se esta, porque a mesma chama, que se me desprendeu na alma para cantar Newton, me obriga a consagrar igual tributo de louvor a Buffon.


CANTO I

Já da Aurora ao clarão suave, e puro
Cedia o campo azul do imenso espaço
Destrelas recamada a noite umbrosa;
Núncia do dia, às lúcidas esferas,
Da luz primeira ondulações mandava.
Das mãos de neve, e do purpúreo rosto
Brancas brilhantes pérolas caíam
No verde esmalte dos risonhos prados;
De ondas imensas de escarlata, e d'ouro
Era o Céu do Oriente envolto, e cheio;
E pelo espaço líquido dos ares
Os adejantes Zéfiros das asas
Da manhã fresca os hálitos soltavam;
E a vaga turba alígera nos bosques,
Dava o tributo dos primeiros hinos
Da Natureza ao renascente quadro.
Quase rompia o flamejante disco,
Que onde soberbo, e vívido fulgura,
Prazer espalha, e graças aviventa,
E mostra em luz envolto o Mundo ao Mundo.
 
Depondo o peso do voraz cuidado,
(Amargo peso da existência minha!)
Eu no prazer do esquecimento envolto,
E, à desgraça esquecido, então pousava.
Do doce sono em bálsamos imerso,
Sono em que meiga a Natureza furta
À existência mortal trabalho, e mágoa;
Eis que sinto levar-me... (e como, e onde
Eu não posso dizer). Voei nas asas
De arrebatados êxtases sublimes.
Sonho, sonho não foi; que mil confusas
Na fantasia imagens apresenta.
Êxtase foi somente, e arrebatado
Eu fui de um Gênio habitador do Olimpo,
Que ao pensamento do mortal que indaga
Abre do eterno arcano eternas portas,
E, num centro de luz, lhe mostra o imenso
Da Natureza o variante quadro.
Do Grande Sipião destarte à vista
Talvez num tempo se mostrasse a Glória,
Que a prosseguir na belicosa estrada
Lhe manda, e lhe descobre o alto destino,

Que aniquila Cartago, exalta Roma.
 Já piso o aéreo cume, e a luz brilhante
Auri-luzente se difunde, e espalha.
Como do meio do profundo Oceano
Costuma alçar-se desmedido escolho,
Que vê quebrar-se nas eternas bases,
Já lânguida, e sem força onda espumante:
Se olha do cume as voadoras nuvens,
E os ressonantes túmidos chuveiros,
Se ouve o horrendo fragor do aceso raio,
Sereno permanece, e sente apenas
Que a triste escuridão nas faldas pousa;
E onda, e vento debalde a base açoita.
Assim eu, levantado à imensa altura,
Um ar tranquilo e puro, e luz mais clara
Bebo em torrentes, e descubro apenas
Grossas nuvens pousar na Terra inerte.
Eis no grêmio da paz serena, e doce,
Se me antolha pisar de Heróis o alcáçar,
Extático bradando, ah! não, por certo,
Pode ser este o terreal assento!
Um céu sereno, e Primavera eterna
Celestes flores, e não vistas plantas,
E, cheios de prazer, bosques sombrios,
D'Águas mais puras borbulhantes fontes,
Não por certo não tem mesquinho Globo!
Sem véus aqui contemplo, aqui descubro
Essa invisível fluida substância,
Que em torno fecha, e que circunda a Terra;
Que em si nuvens contém, contém vapores;
Que em si tantos fenômenos acolhe;
Que é necessária tanto, aos sons, à vista,
Ao fogo, à vida, às árvores, às plantas!
Ó da Divina mão alto, infinito
Poder nunca entendido! Se a atmosfera
Não refrangesse a nós do Sol os raios,
Não se virão brilhar n'azul campina
Em distância infinita imensos astros:
Nem o doce crepúsculo se vira,
Ou quando o mesmo Sol se esconde, e foge,
Ou quando no horizonte inda não surge,
Mas débil raio matutino espalha.
 
Se volvo aos Céus extático meus olhos,
Vejo próximo o Sol, da luz origem;
O pélago de fogo, a ardente massa,
De que é composto o fulgurante corpo.
É ele o fixo, o luminoso ponto,
Ele o centro comum quem torno cercam,
Sem cessar gravitando, áureos Planetas,
A Lua já descubro, e vejo os mares,
Os largos, fundos, procelosos rios,
Que parecem, da terra, obscuras manchas,
Quando a vista de lá nos Céus espalho.
Ilhas descubro, altíssimas montanhas,
De cujas frentes escabrosas desce
A luz reflexa, que da Terra eu vejo,
Luz que lhe empresta o fulgurante globo,
Origem dela, e do calor origem.
Seu moto vario, e desigual contemplo
Com que mostra em seu giro incerto o rosto;
Talvez proceda da diversa, e forte
Visível atração do Sol, e Terra,
Do eixo oblíquo em que se agita, e move.

 Mais vivos que os Planetas, mais brilhantes
Em viva luz aos olhos se oferecem
Em sempre incerta, e variante forma
Tão vastos, tão excêntricos Cometas,
Tardios em mostrar-se, e sempre infaustos
À vil superstição do vulgo insano,
Agouro triste aos pálidos Tiranos!
São duráveis, e sólidas substâncias;
Da mão do Eterno Artífice são obras.
O Nada as produziu, quando na origem
Do Mundo lhe mandou, que fosse tudo.
Não quais ousou julgar rude ignorância
Ligeiros fogos de temor objetos,
Sem orbitas, sem leis, sem marcha, e centro.
 
Quantas contemplo lúcidas estrelas!
Quantos Astros centrais! Quão luminosos,
Quantos, quantos satélites velozes
Em torno deles caminhando eu vejo!
Em tão diversos, tão distantes corpos,
Tão vários entre si, tanta harmonia!
Minha alma se confunde, e se deslumbra
Débil vista mortal. Tudo me oprime,
Eu só prodígios, só milagres vejo!
Entro no abismo do silêncio, e fico!...

Qual o que sobe do Apenino ao cume,
E alonga os olhos pelo imenso plano,
Onde outrora se ergueu Latino Império,
Vastas Cidades vê, férteis campinas,
E os restos imortais do fasto, e glória,
Que inda em quebrados mármores avulta,
Vê longos rios retalhando os campos,
E do Tirreno mar, d'Ádria nas ondas
Vê naus altas rasgando o dorso a Tétis.
Depois que ávida vista em cenas tantas
Um pouco apascentou, turvado, absorto,
Dentro em si mesmo se concentra, e fica
Vastas ideias revolvendo, quantas
Da Natureza, e da Fortuna os quadros
A seus olhos atônitos mostraram:
Assim eu vejo em quantidade imensa
Surgir das águas, levantar-se aos ares,
Pelos raios Fébeos como atraídas,
As úmidas porções já rarefeitas;
Mais ligeiras que o ar, no ar flutuam;
Nelas a vida tem, nelas se formão
A nuvem densa, as nevoas importunas,
Que, com diversa reflexão de Apolo,
Que em seu seio refrange o aceso raio,
Variante espetáculo me amostram.
 
Dos rarefeitos ares eu descubro,
Que os ventos nascem, (portentoso arcano,
Por tantos, tantos séculos oculto!)
Os inconstantes milagrosos sopros,
(Da benfazeja Providência um grito!)
Pelo inquieto campo do Oceano
Levam de um Polo a outro ousados pinhos.
Equilibrado o fluido dos ares,
Não os ouço bramir!... Mas quem perturba
A dilatada calma, a paz tranquila?
Quem rouba ao ar pacífico equilíbrio?
Talvez, talvez, que, exalações rompendo
Do térreo globo, e tenebrosas furnas,
Ou sobre o eixo a rotação diurna
Da Terra seja do prodígio a fonte!

Eis com eles se agitam, se misturam,
As espalhadas flutuantes nuvens;
Do agudo frio comprimidas, tornam
A seu terreno, e primitivo berço.
Em chuva salutar desfeitas descem;
Ou, se o frio é maior, cândidos velos
Do brando vento conduzidos cobrem
No triste Inverno o campo amortecido;
Ou nas miúdas condensadas gotas,
Pelas douradas messes espargidas,
Ao desvelado Lavrador só trazem,
Depois de longo afã, tristeza, ou pranto.

Vejo o aceso relâmpago medonho,
Ouço o horrendo trovão, vejo o espantoso
Trilho abrasado do sulfúreo raio,
Nada a meus olhos se me esconde, nada!
E já de enxofre, de betume, e nitro
De ácido sal, de alcálicos diversos
Grosso vapor subindo eu vejo aos ares.
Foi do Sol atraído, o vento o leva;
Com violento impulso então fermenta,
Prestes se acende, súbito nos manda
Essa pálida luz sempre seguida
D'alto fragor, que faz tremer nos eixos
Tímido o Mundo, e precursora é sempre
Da chama rapidíssima, que desce
Com pavoroso estrépito, e que abate
Quanto voando na carreira encontra.

De aspecto muda do vapor a massa,
Nem sempre é raio estrepitoso; eu vejo
As agudas Pirâmides, as Traves,
A Seta aguda, o flamejante Drago
E as que se mostram lúcidas Estrelas,
Que acesos trilhos n'horizonte deixam;
E esse, usado a brilhar no algente Polo,
Sem calor vivo, sem substância um fogo,
Uns restos são maravilhosos, belos
Dessas de luz ondulações pasmosas,
Que detidas do ar no imenso seio
Formam brilhantes Boreais auroras;
Ao lúcido horizonte em paralela
Linha se mostram, se mais baixas correm
Ou, num centro comum, se unem subindo
Até que extintas as porções sulfúreas
Pouco a pouco do ar desaparecem,
Deixando apenas ao gelado Norte
Um suave crepúsculo brilhante.

 Se volvo a vista noutra parte, absorta
De multiforme cor descubro a núncia
Da sempiterna paz, Íris formosa,
Que a doce reflexão dos áureos raios,
Unida à refração sobre miúdas
Da fria chuva transparentes gotas,
A septiforme cor prontos lhe imprimem.

Quantos, quantos fenômenos pasmosos
A luz reflexa nos produz nos ares!
Em tanto objeto o pensamento fixo,
Em tanto objeto extáticos meus olhos
Grandes ideias me despertam n'alma!
Eu, de augusto silêncio em sombras fico!
E só do centro de meu peito exalo,
Não os ais da aflição, do assombro o grito.
Eu sinto, eu sinto um Deus; não foi do Acaso
A milagrosa produção do Mundo!
Obra só foi do Artífice supremo:
Um rio origem tem, o efeito causa.
Tantas estrelas lúcidas dispersas
Nesta estendida cúpula azulada,
Esta Lua, este Sol, o dia, a sombra,
(Constante alternativa;) a luz, e os ares
São cifras com que escreve a mão suprema
De um Ente Sumo, Sapiente, Imenso.
Na flor, na planta, no mimoso fruto,
Nos rostos vários, e animais diversos,
Nos sons, nas cores, na minha alma o vejo,
Almo tesouro da Clemência eterna.
Ela enriquece a Terra, e a vejo em tantas
Tão várias produções na espécie eternas:
D'alta grandeza sua eu sinto a prova
No fundo abismo dos extensos mares,
Nos Céus imensos, na pesada Terra
Seu Divino saber, tremendo adoro
N'alma beleza dos mortais objetos,
Nas leis eternas dos celestes corpos
Os caracteres luminosos vejo
Dum Concelho imortal que rege o Todo,
Na exata proporção dos fins, dos meios,
Que do visível Mundo o quadro ostenta
Tudo, tudo me diz que um Deus preside
Monarca imenso de infinito Império.
À luz ordena que me aclare, e manda
Ao ar que me sustente, e a vida aspiro.
Ele o calor produz, que o vital germe,
Em sucessivas gerações conserva:
Ele o dia formou, nele ao trabalho
O mesmo Rei da criação destina:
Ele a noite produz, com ela em sombras
Da fria Terra a máquina sepulta,
Em que o corpo mortal restaure a força,
Com que ao surgir da matutina Aurora,
Torne às fadigas, aos cuidados volva.
Porque discorro, existo, e eu sinto dentro
De mim que penso sensações diversas.
Quando o incorpóreo ser d'alma contemplo
Vejo uma imagem do Motor supremo,
Que quis que eu fosse a semelhança sua:
E não direi, que me sustenta, e rege
Um Ser universal, um Nume Eterno?
Ah! da matéria o movimento o mostra!
Ela inerte de si, da inercia sua
Não pudera sair sem braço Eterno,
De cujo impulso o movimento nasce.
 
Em tais ideias concentrado estava
Sem olhos despregar do quadro augusto;
Que sempre é novo, e belo, e sempre antigo;
Livro do estudo meu, delícias minhas;
Eis-que descubro no mais alto cume
Do fulgurante Olimpo erguido um Templo,
Cuja sublime estranha arquitetura
Nem alma a concebeu, nem olhos viram.
De lúcido cristal, alto esplendente
Se levantava altíssima fachada;
Arcos, colunas, arquitraves, tudo
De pedraria oriental se forma,
Onde uma luz celestial batendo
Derramava revérberos brilhantes:
A majestosa cúpula fulgura,
Qual de Narsinga o diamante fulge.
Quem da força a meu estro, e quem sustenta
Meus temerários sobre-humanos voos?
Como à Verdade franquear eu devo
Até agora as brônzeas ferrolhadas portas
De crença, a cuja luz não seja avara
A turba indócil do inconstante vulgo?
Longe, longe, ó profanos! Se tu reges,
Se tu mesma, ó Verdade, o canto animas.
Se me encordoas Citara toante,
Para o Templo celeste apresso o passo,
E não receio de mordazes línguas
O golpe fundo, o lívido veneno.
 
No peristílio majestoso, e vasto,
(Eu não distingo se é mulher, se é Deusa)
Então descubro, que volvendo os olhos,
Em mim pronta os fixou como se há muito
Naquela Estancia me aguardasse; estende
Formosos braços, e me aperta ao seio.
Soltando a voz angélica me exclama:
Escrito estava no volume arcano
Do imóvel Fado, que no Templo entrasses,
Que a Sapiência levantou no Olimpo.
Tu, separado dos mortais enganos
Da vaidade, que domina o Mundo,
E dando às Musas o fervente engenho,
Que à grata sombra dos sagrados louros
As horas ganhas da volúvel vida,
E o grão tesouro de profundo estudo
Buscas constante, e com trabalho ajuntas,
Sofrendo o longo afã até quando a sombra
No vasto seio envolve o inerte globo:
Hoje das mãos da Sapiência o prêmio
Tu deves receber, teu gênio enchendo
Não de verso suave, ou brandas rimas,
Com que do mar o vencedor tu cantas,
Que as portas abre do vedado Oriente,
Que a Pátria d'honra encheu, de glória o Mundo,
Mas de excelsa verdade ao vulgo ignota.
 
De seus olhos a Deusa amor respira;
Mas tal amor, que penetrava o peito
Sem perturbar do entendimento o lume,
Qual ser costuma entre os mortais, se é grande!
Eu tinha fitos no seu rosto os olhos,
Com celeste prazer toda a minha alma
Em doces chamas ondear sentia;
A Deusa o conheceu, quer mudo, e quase
Abstrata estava, e do sentido alheio.
Solta um sorriso dos purpúreos lábios
E assim começa a me falar benigna.

"Tens cheio o coração de ignoto fogo,
A quem mortais no Mundo amor chamaram,
E a quem puro prazer nos Céus se chama.
Este puro prazer do gozo alheio
Toma força, e princípio, e tudo a todos
Se apraz de ser, e se derrama inteiro.
Do privado interesse ignora a meta,
E, nem se muda, nem se altera, como
Tantas vezes no Mundo amor se muda.
O próprio amor aos corações inato,
Que a todas as paixões que o peito agitam
Se amolda sempre, e se transforma nelas.
É transvestido amor vossa esperança;
Amor é pertinácia, Amor é mágoa;
Amor são todos os prazeres vossos;
De Amor o movimento, os acidentes,
Considerados, são paixões diversas.
Na origem, quando nasce, Amor se chama;
Quando do peito sai, quando se expande,
E busca unir-se ao suspirado objeto,
Chama-se então desejo; e vigoroso,
Já seguro de si, firme em si mesmo,
Se as asas solta, e se remonta, e sobe,
O nome tem de vivida esperança.
É constância, se, obstáculos vencendo,
Na mesma oposição mais força adquire.
Quando aos duros rivais declara guerra,
É sempre Amor; mas chama-se ardimento,
Mil vezes a si mesmo ele se esconde;
Mas neste raro sacrifício é sempre
No altar do coração vítima, e fogo,
E Sacerdote Amor, que em si transforma
Quantas no Mundo vê paixões diversas.

 Mas tempo é já que teu desejo abaste,
E te descubra o portentoso Templo,
Onde benigno te conduz teu Fado.
Esta, que vez alçar-se, augusta mole
Encerra dentro em si Filosofia:
Altares ali tem, do monte excelso
Gênio a tem feito tutelar os Numes:
Sacerdotes são seus, são seus Ministros
Esses engenhos transcendentes, vastos,
Que tão raro entre vós asilo encontram,
Sustento, proteção, respeito, escudo.
A Fadiga sou eu; nome tremendo
A quem dum ócio torpe os braços busca,
E na mole indolência a vida exaure:
Mas é doce o meu nome a quem Virtude,
A quem Mérito apraz. Segue-me, ó filho,
Entra comigo os pórticos do Templo.

 Que gélido suor me banha a frente!
De veia em veia penetrante frio
O curso ao sangue fervido entorpece!
Tremi confuso, e vacilante o passo
Entre contrários pensamentos movo?
Vi que de Ícaro o voo, a acerba queda
Desse soberbo, e deslumbrado moço,
Que mal regera ignípedes Etontes,
Eu ia a renovar. Meu alto assombro
Descobre a Deusa, e se doeu de ver-me;
A mão benigna me estendeu, susteve
No meio já do pavimento augusto.

 Dentro era d'ouro o consagrado Alcáçar,
De azul celeste a cúpula esmaltada,
Onde brilhantes lúcidas estrelas,
Quais Safiras finíssimas, se engastam;
Oriental Piropo o chão lhe forma;
E nas paredes (mão divina!) expressas
Admira a vista insólitas pinturas,
Quais nunca Rafael, quais nunca ousara
Traçar pincel de Rubens portentoso.
Aqui se viam nos incultos bosques
Ir errando os mortais sem lei, sem freio,
E quase extinto o luminoso facho
Da celeste Razão, preza entre sombras.
Ali se admiram símplices viventes
Rudes choupanas levantar primeiro
De anosos troncos, e de secas folhas,
Onde, quais feras nos covis, se escondem
Das injurias do ar, do vento aos sopros.
Neste estado infeliz de um Mundo inculto
Se da princípio à sociedade humana:
A primeira família ali se ajunta
A rotear começa o campo agreste.
Nela o pai foi Monarca, até foi Nume,
Da sapiência, e da razão guiado,
Ali juntava Sacerdócio, e Reino.
Os Céus interpretando as leis promulga,
Que o bem comum da sociedade buscam,
Não era a Sapiência obscura, e arcana,
Destes primeiros pais, mas doce, e clara
Abria o Templo da vulgar Virtude.
Deste humilde princípio, e tão pequeno,
Surgiu de Roma o desmedido Império;
Dum a cabana se estendeu no Mundo.
Ali Rômulo, e Numa as leis ditavam,
Ao novo asilo universal chamando
Do antigo Lácio indígenas incultos.

 Além se via progressivamente
Multiplicar-se sempre a espécie humana:
Mas passou mui depressa a idade d'ouro!
A férrea começou, e além se via
Ir o robusto agricultor rasgando
Com férreo arado o seio à terra inculta;
Sobre ela se entornou suor primeiro.
De estranho tronco as árvores se enxertam:
Corta-lhe a foice os ressequidos ramos.
Se falta a Natureza, a indústria supre;
Pois quanto as plantas por seu próprio instinto
Ajudadas do Sol, férteis com a chuva
Nos espontâneos frutos produziam,
À humana precisam já não bastava.
Então das cultas, pampinosas vides,
Se tiraram primeiro os dons de Brômio:
Então luxo ensinou tingir por fausto
Com a preciosa púrpura de Tiro
Do verme industrioso a tênue baba.
Se a relva dava então tranquilos sonos,
À sombra que espalhava o Freixo anoso,
E se estancava a sede à linfa pura
Do serpeante límpido regato;
Velos se arrancam do inocente armento,
Que ao cansado mortal repousos prestam;
E o liquor salutífero se apura,
Que restaura o vigor no inerte corpo.
Por buscar novos, escondidos Mundos,
Da nativa montanha então se virão
Cortados abater-se o Chopo, a Faia:
Já vem nas ondas contrastar com os ventos.
Para ajuntar as peregrinas mercês,
Lá vai duro mortal soltando as velas,
No elemento não seu, do vento às iras;
Mortal até agora ingênuo, e que outras praias
Não tinha visto mais, que as do tranquilo
Regato que lhe corta os pátrios campos.
A guerra assoladora, a guerra infausta
Era ignota até ali, e em tristes cores
Ali se via a fervida peleja.
Na bigorna se bate a horrenda espada;
Em dura lança além se alonga o ferro
Mais avante se erguia o forte muro;
As torres iam topetar com as nuvens.
Gozava a antiga gente ócio tranquilo:
Ah! que Fúria infernal, que monstro horrendo
Trouxe do escuro Inferno o facho aceso?
Que nuvem se elevou sangue estilando?
A raiva, o ódio, a inveja o braço alçaram.
Primeiro a Ingratidão nas mãos levanta,
O ferro atroz, sanguinolenta espada;
E peito a peito, d'ambição levado,
Se combate o mortal; chamou-se glória
Esse furor brutal, que avilta as feras,
Que poupam por instinto a própria espécie:
Tudo foi sombra, e confusão no Mundo.
A raiva universal, honra se chama;
Tanto do humano coração se apossa
Que julga estado primitivo a guerra!
Aumentam-se as nações, o estrago cresce:
Sempre o furor de dominar triunfa.
O que era o pai, o Sacerdote, o Nume
Da primeira família, é já Tirano!
 
De fero aspecto debuxado estava
Sanguinário Nembrot que ergue seu trono
Sobre o pescoço das nações em ferros.
A Terra se povoa, o facho aceso
Não se extingue jamais nas mãos das Fúrias,
Se um trono se levanta, outro se abate.
Nos mais remotos ângulos do Mundo,
Onde existem nações, a guerra existe.

 Mas entre tantas retratadas gentes,
Que o ferro tem nas mãos, no aspecto as iras,
Eu vejo estar em solitário albergue
Pensativos mortais, longe, e mui longe,
Em doce paz, do estrépito, e tumulto.
Ao ar, ao portamento, à vista, ao moto,
Súbito conheci, que os sábios eram,
Que as sempiternas leis da Natureza
Em pró dos outros conhecer tentaram.
Com pertinaz estudo, e pronto engenho,
No grande livro do Universo estudam,
E com pasmosa distinção contemplam
Tão formoso espetáculo, tão vario.
Com os lábios semiabertos, os imóveis
Olhos pregados tem no etéreo assento,
Como que vão buscando o imenso, e certo
Eterno giro dos rotantes astros.
É esta a ocupação, este o deleite
Do cobiçoso pensamento altivo,
De assombro os enche maravilha tanta;
Curiosidade da ignorância é filha,
Tão própria, e tanto da mortal essência;
Somente ela produz sabedoria,
Quando o veloz entusiasmo ateia,
E quando observa desusado efeito
Da Natureza, ou Céu, corre anelante,
Corre pronta, interroga, observa, indaga,
E tenta descobrir quanto se oferece
A seu ouvido extático, a seus olhos:
Vai dos efeitos penetrando às causas.
Tal pressuposto foi de antigos Sábios,
Das coisas todas indagar as fontes.
Da ciência o amor, o amor do estudo,
Entre os Sábios se diz Filosofia.
Curiosidade, e ócio, à Deusa deram
(A quem é consagrado o Templo) a essência.
Às inda feras indomadas gentes,
Mal acolhidas na choupana humilde,
Comunicou seus raios luminosos.
Fez-lhes ver de si mesma a imagem pura,
Apenas observou que acesos olhos
Na abóbada dos Céus apascentavam,
Do sempiterno braço contemplando
Essas sem fim maravilhosas obras.
 
Depois que em tanto quadro a vista absorta
Acabei de deter, novos objetos,
Minha alma toda súbito me levam.
Eis esculpidas novas maravilhas,
Nos áureos muros assombrado vejo.
Sobre um turquino fundo auri-luzente
Fixas sempre num ponto estrelas brilham,
A cujos lumes, trêmulos, suspensos
Pelos bosques Caldeus vejo os pastores,
Imprimindo sinais na mole areia,
Da sabia Geometria as leis primeiras.
(Dura, afanosa sapiência, quanto
Tu sabes levantar o engenho humano!)
Com a frente envolta em sombra além correndo
Eu vejo o vasto flutuante Nilo
Do pingue Egito os campos retalhando,
Vejo-lhe em torno industriosa gente
Medindo-lhe a compasso às turvas ondas,
Esperando que o Céu constante, e meigo
O retorno anual decrete às águas;
E, enquanto o interesse, enquanto o Gênio
Dividem entre si fadiga, estudo,
Recebe nova luz Geometria.
Qual costuma romper d'alpestre rocha
Límpida fonte, e serpeando o campo
Por entre as pedras vai com doce, e grato
Continuo estrondo alimentando as flores;
Com uma fonte depois, depois com outra
Sempre aumentando a cristalina veia,
Que cresce, e passa a lúcido regato,
E, recebendo doutros mil tributo,
O fundo leito alarga, e já bramoso
Aqui começa a se fazer torrente,
Espuma, e freme, e se arrebata, e foge,
De tanto, e tanto feudo enriquecido,
E soberbo de si no fundo Oceano
Lá chega, lá confunde o nome, as águas:
Tal do seio da imensa Natureza,
Escuro seio, pouco a pouco trouxe
O humano entendimento a luz brilhante
E destarte raiou Filosofia,
Que foi por longos séculos juntando
D'alma ciência o perenal tesouro,
Suave fruto da inocência antiga,
Ah! tão buscada em vão na idade nossa!
Em que fogo maior, mais viva chama,
Que essa que a boca do Vesúvio exala,
No seio do mortal fomenta o crime.
Esse inquieto, e vil férreo desejo
De possuir incomodas riquezas,
Que partilha não são, por mau destino,
Do que apascenta o coração tranquilo.
Na posse ingênua das ciências todas:
Com pertinaz estudo se aumentaram;
E do existente Mundo as leis, e as bases
Foram continuo emprego à mente humana:
Mas nada lhe abastou desejo aceso,
Que tão vivo cresceu, qual cresce o vasto
De pequena faísca imenso incêndio.
Quando fixo encarou belezas tantas
Lançou-se aos Céus com generosos voos,
E dos astros o influxo, e o vario aspecto
Ousou descortinar, no eterno curso,
Pelos ermos do espaço os foi seguindo.
E soberbo de si, não satisfeito
A seu profundo, e vasto pensamento,
Com a tocha acesa da Razão diante,
Abre, pisa, franqueia ignota estrada,
Que mais, e mais se aplaina, e mais se estende
Com o porfiado estudo, e os homens leva
Ao Templo augusto da imortal Verdade,
Que escondido não é qual foi primeiro.
Ela pôde encantar Gênios sublimes
Cujas imagens em perenes bronzes
Em si conserva o majestoso Alcáçar:
Oh! mui feliz Entendimento humano:
Se em tais indagações, se em tais estudos
Aprende a conhecer, e amar o Eterno
Só de bens larga fonte, imenso Oceano!



CANTO II

Da Sapiência antigos amadores,
Os Sacerdotes do celeste Nume,
Ao sacrossanto Templo alto ornamento,
Com seus bustos em pórfido formavam
Do majestoso altar decoro ilustre;
Puro, inocente altar, onde a profana
Mão despiedada dos mortais infrenes
Nunca pusera vítimas de sangue,
De que tanto se apraz da guerra o Nume,
Que o cego Fanatismo, ah! tão frequente!
Nas torpes aras da Ambição degola.
São incensos aqui puros afetos,
E o remontado pensamento os votos;
São oferendas êxtases sublimes,
Voos da mente, que se eleva aos astros,
E corre o imenso espaço. Aquela Deusa,
Que o berço tem nos Céus, que é dom dos Numes,
Que é mãe das Artes, e inventora delas,
De majestade, e de beleza cheia,
Tais holocaustos no seu seio acolhe.

 Vi, (que assombro!) de luz cercado o vulto
Do primeiro mortal, puro, inocente,
Qual já das mãos do Criador dos Mundos
Saiu primeiro, e dominou na Terra.
Do Divino saber nasce ensinado,
Das coisas conhecia a essência própria,
Impôs o próprio nome aos seres todos.
E junto dele fulgurando estavam
Em menos viva luz seus tardos netos,
Que dele, como herança, alta doutrina
Numa idade de séculos colheram:
De lábio em lábio aos pósteros a mandão
Até que horroroso, universal Dilúvio
Fez que de todo agonizasse o Mundo.
 Via logo a Noé, que intato surge
Do lenho guardador da espécie humana:
Aos filhos seus dos fulgurantes astros
O aspecto, o moto, as posições ensina.
Sublime Sapiência, e douto estudo,
Que tão ilustres fez, depois da obscura
Confusão de Babel, nações diversas,
O inocente Caldeu, o Árabe experto,
Do Nilo o morador mistérios todo,
E o Persa audaz idólatra do fogo.

 Descubro a Prometeu, e o velho Atlante
Em que a verdade a Fabula reveste
Da Poesia com as brilhantes cores.
Hum, com fogo dos Céus, anima o barro;
Outro o peso sustem do excelso Olimpo.
Vejo o profundo Trimegisto, e vejo.
O sublime Cantor harmonioso,
Que de Troia a catástrofe nos pinta,
Que, em brando verso, imagens lisonjeiras,
Da Sapiência os penetrais nos abre;
A ideia em si contém das artes todas.

 Pelas margens do Indo, e turvo Ganges
Meditadores Brâmanes diviso,
Que em sombra muito espessa a luz envolvem,
E a verdade entre símbolos nos dizem.
A Confúcio Chinês descubro, admiro,
Que a voz escuta à sabia Natureza,
E firma o sumo bem só na virtude.
Três Zoroastros, que nas sombras plantão
Luminoso fanal, que à Pérsia, e Egito
Das Artes para o Templo a estrada aplaina.
Logo dois imortais cantores vejo,
É Lino, e o doce Orfeu, que a Lira d'ouro
Com tanta fez soar maga harmonia,
Que dosséis se tornou troncos, e penhas,
Que do caos no escuro horrendo centro,
Principio do Universo, Amor plantaram.
Pensativo Beroso ali contemplo,
A quem de Atenas a famosa escola
Estatua alevantou d'ouro mais puro.
A par dele é Chilon, que o dia extremo
Sem pena, sem temor contente encara.
Do tirânico sangue ali manchado
Pitaco à morte sobranceiro existe.
Legislador Sólon de brando aspecto,
Que com vasto saber enlaça Astreia,
E às leis soube juntar Filosofia;
Dos bons Monarcas o modelo é este!
Depois Zaleuco vi, depois Carondas,
Ambos com justas leis Sicília exaltam.

 No meio bem do taciturno albergue
De Pitágoras sábio o vulto admiro,
No rosto, e ar misterioso em tudo,
Que da Unidade, ou centro aos seres todos,
A origem fez sair, princípio, e causa.
Cléobulo descubro, ele a formosa,
Sabia filha gentil conserva ao lado,
Que da engraçada boca em áureo rio:
Eloquente entornou Filosofia:
Ah! nunca aos homens se mostrou tão bela!
Admiro mais além Biante o sábio,
Que digna só julgou de humano estudo
Moral, que na virtude a alma levanta,
Em sua mesma majestade oculta,
Deixando a Natureza, enigma escuro,
Indecifrável aos mortais mesquinhos
Em quanto em frágil barro a alma se prende.
Periandro ali vejo, e vejo o cita
Anácarsis, Filósofo profundo,
Cujo nome imortal matéria, e fama
Deu neste férreo tempo ao douto escrito,
Que a Grécia em si contém, com a Grécia tudo.
Vejo a Misson, que símbolo o distingue?

 O nobre, e nobre só profícuo arado,
Que o seio rasga à terra agradecida:
Dele se peja a estólida vaidade;
Do Filósofo à vista é mais que um Ceptro:
Na cultura do campo o sábio é grande;
Nem pode o estudo ter mais digno objeto;
E nunca outro mister, nunca outras artes,
Com mais afã buscasse o engenho humano!
Celeste Agricultura, oh digno emprego
Até do mortal primeiro inda inocente!

 Eu distingo Epimênides, que deixa
A escondida caverna em que medita,
Aos homens vem mostrar da luz os raios
Ferécides, Berício, e aquele observo,
Que a Frigia viu nascer sublime, e douto,
Que em lisonjeiras fabulas esconde
Quantas depois lições do justo, e honesto
O Pórtico sublime, a Estoa deram.
Tales descubro então, brasão da Jônia,
Que é da primeira escola excelso mestre,
Que à Grécia deu lições, deu luz, deu tudo
Quanto soube alcançar de Astronomia
Do portentoso vidro o olho despido.
Ele primeiro do Solstício o ponto
Sobre a Terra observou, e ele primeiro
Predisse aos homens pavoroso eclipse,
Que rouba a luz à Terra, e a paz ao peito,
Deste mistério assustador ignaro.
Ele o princípio assinalou do Todo,
O humor aquoso que circunda o globo.
Vejo Arquelau, Anaximandro admiro;
Este infinita julga a Natureza;
(Ó Português Hebreu, tal foi teu erro!)
Aquele julga que as primeiras causas
Só são da geração calor, e frio.
Anaxímenes do Orador Romano
Sempre admirado, ali contemplo, admiro,
No moto eterno da substância eterna
A essência pôs de um Árbitro supremo,
E deu ao Mundo por princípio imenso,
A substância do ar, vasto, infinito.
O profundo Anaxágoras diviso,
De fundos olhos, de enrugado aspecto
Prolixa barba, atenuado corpo,
Que ardente pedra incombustível julga
O luminoso Sol. Vai branco, e curvo,
Calva a rugosa frente, a tez sombria,
O portentoso Sócrates, o justo,
(Quanto o ser pode a Natureza impura)
Atento sempre ao movimento interno
Do humano coração, rejeita, e mofa
Dos vãos sistemas físicos do Mundo,
Que à mente dos mortais ignotos deixa,
E se apraz de deixar Motor Superno.
Só da austera moral segue as pisadas,
E avezado o mortal às vans ideias
Da vacilante Física o procura
A estudo reduzir da essência própria.
Só quando o homem se conhece é sábio!
 Vejo Arístipo, Antístenes descubro;
Um busca o sumo bem no inerte, e baixo
Prazer que encanta os corporais sentidos:
(Ó lisonjeiro do soberbo Augusto,
Teu sistema tal foi, teus áureos versos
Arístipo somente, e Amor respiram!)
Porém, mais sábio Antístenes encontra
Só d'alma no prazer, ventura extrema;
Este o primeiro da assisada turba
Do Cínico mordaz. Crates contemplo,
Que julga inútil peso a vã riqueza,
E no abismo do mar com ela esconde
O inquieto temor, voraz cuidado.
Ali Mônimo admiro, e Zeno, e Hiparco,
Vejo a vagante habitação do Sábio
Diógenes pasmoso, e ali defronte
Em pé contemplo o assolador do Mundo;
Da esquerda parte inclina um pouco a frente,
E a flutuante clâmide lhe arrastra;
Pende-lhe ao lado o ferro, e dele em torno
Calístenes contemplo, e mudo, e quedo
O grande Eféstio. Ele alça o braço
De quem Pérsia se teme, e teme o Ganges,
E ao pobre habitador da cuba oferece
Seus tesouros, seus dons; tranquilo, e grande,
Só lhe pede que ao Sol não vede as luzes,
Nem lhe tolha o calor que ao frio, inerte
Corpo negado tem Frugalidade.
Se houve grande Filósofo, é só este!
Com tais lições, já Menedemo é grande,
Que um só bem conheceu, e é só virtude.
Euclides vejo, e Pôntico, avezado
À contumaz contradição de tudo.
Vejo Estilpon magnânimo, que a intonsa
Cabeça traz, e descoberta sempre:
Pobre o vestido tem, e os pés descalços,
Com eles pisa a vaidade, o fausto,
E quanto pede o coração lhe nega.
Ó grande Preceptor do ingrato Nero,
Se isto não foi teu ânimo sublime,
Ah! são por certo teus escritos, isto!!
 
Diofantes, Apolônio, eu bem distingo,
Tem nas mãos o compasso, e tem na terra
Imóveis sempre os encovados olhos;
Ali descreve as trabalhosas curvas,
E além disto não mais surge esta idade;
Não foi mais Galileu, nem mais Descartes!
De Estoico rigor seguindo a trilha
Eu vejo envolto em seus possíveis Zeno.
De venerável rosto acesos olhos
Eu descubro a Platão, Platão que o Nume
Nos objetos que vê, contempla, adora;
Que a novo Amor da luz, e alegre espera
Que a seu astro natal sua alma torne.
Ó sublime doutrina, ah tu pudeste,
Dentro da Escola de Florença outrora,
O eloquente escutar Policiano;
Se as letras tem na Europa apreço, estima,
Se em seu amor se me embranquece a frente,
A tão sábio mortal, tão grande o devo!
Este o tributo, que meus versos pagam:
Que mais te posso dar? Teu nome é tudo.

 Vejo Espeuzipo imitador da grande
Virtude ilustre de Platão sublime:
Teve comum com ele, o estudo, o sangue;
E a base eterna lança à Academia,
A quem deu nome o milagroso Túlio.

 Da beleza inimigo, e da ternura
Xenócrates descubro austero, e triste,
Vergonhoso baldam da espécie humana,
Que, nem ao mago cintilar duns olhos
Nem ao sorriso de purpúreos lábios
E às áureas ondas de madeiras d'ouro,
Sente no peito a Natureza toda,
Que até do fundo abismo aos monstros feios,
E sanguinário Tigre, amar ensina.
O pertinaz Arcesilau na escola
O segue, duvidando, a alma suspensa
Entre a diversa opinião conserva.
A imagem de Carnéades descubro,
Da nova Academia é timbre, é glória
Cuja alma excelsa da verdade indaga,
Entre o provável sempre, a estrada incerta.
Piteias vejo que do antigo Sábio,
A quem Samo talvez já dera o berço,
Vai seguindo as pisadas, e se julga
Continuo habitador de corpos vários.
Este aos Céus proporção, este a medida
Primeiro assinalou; dos áureos astros
Para um centro comum conhece o moto
Naquele antigo símbolo mostrado
Da septicorde auri-sonante Lira,
Que Febo tem nas mãos, que o Vate inveja;
E se lhe antolha, que escutava ao perto
Sempiterna, multíplice harmonia,
Da Esfera portentosa alto-brilhante;
Talvez nele encontrasse o germe, a fonte
De seu sistema de atração, sublime,
Infatigado explorador Britano....
 
Meditador Empédocles já vejo,
Que julga (ó fraco dos mortais discurso!)
Suor do térreo globo o vasto Oceano;
Se este, se este não foi, Buffon facundo,
Esse teu vapor úmido, que a Terra,
Destacada do Sol, e ardendo em fogo
Ao mais subido d'atmosfera exala,
E caindo de lá se forma em mares!

 Do Itálico saber brasões sublimes
Tidas, e Arquitas fulgurando admiro;
Ambos julgavam cada estrela um Mundo.
Suspenso pelo ar alto infinito,
Onde um astro central preside a muitos
Rotantes globos, que em si mesmo opacos
Reverberante luz dele recebem:
E no globo gentil da argêntea Lua
Mares, selvas, montanhas supuseram,
E de ser pensador fecundo albergue.
Este nas margens do revolto Sena,
Que hoje escravos só vis, só ferros banha,
Teu pensamento foi, sublime engenho,
Quando dum Mundo noutro Mundo ignoto
Levaste a passear matrona imbele,
Do prazer filosófico em ligeiras
Azas de aceso entusiasmo ousado.
Tal foi a ideia de profundos sábios
Que tão soberba opinião vestiram
Das cores da razão, qual tu fizeste
Nessa pasmosa extática viagem
Com que, ó profundo Kepler, te lançaste
Por entre os astros aos confins do Todo.
Na escura tez Protágoras conheço,
Que entre sofismas envelhece, e nega,
Oh! sacrílega audácia! um Deus ao Mundo.
Nem vê na grande arquitetada mole
De um Ser eterno a mão reguladora!
 
Cheio de assombro, e maravilha fito
Na imagem de Demócrito meus olhos;
Abdera o viu nascer, e a mente excelsa
Na grande esfera da ciência entranha.
Vejo a par dele Heráclito, que chora
Ao triste aspecto da miséria humana,
Em quanto aquele no incessante rizo
Com soberba indiscreta o Mundo insulta:
Ambos no excesso oposto um erro abrange.
 
Vejo a Pirron que pertinaz duvida
Do que tem da verdade o cunho impresso;
Muda sempre de cor, muda de aspecto,
É duvidoso, e vacilante sempre;
Filosófico orgulho, e quanto, e quanto
Se fecundou teu germe em peito humano!
Teu ceticismo do erudito Baile
Os escritos manchou, que espalham sombras
Num ponto unindo o verdadeiro, o falso!
Entre guerreiras máquinas envolto,
Entre abrasadas naus vejo Arquimedes:
Cheio de palmas, de lauréis lhe chora
De Siracusa o vencedor, a morte;
Foi esta a vez primeira, ó grão Marcelo,
Que sobre a Terra fez Heróis o pranto!
Ilustre pranto, que aligeira ao Mundo
O férreo jugo do Latino Império!

 Eis descubro Epicuro, o vulgo insano
Nele descobre um ímpio, eu vejo um sábio
Frugal, modesto, taciturno, humilde,
Que d'alma no prazer, puro, e sincero
Suprema quis constituir ventura.
Entre viçosas árvores se assenta
De um ameno jardim; medita, ou finge
Os infinitos átomos no vácuo,
Dum laço casual produz os Mundos.
D'alma foi erro, e da vontade engano
Não passa ao coração; tranquilo, e puro
Ama a virtude. Ó Sêneca, foi este
Teu pensamento quando instruis Lucílio.
Mas erraste; é quimérica a virtude
Em quem dela não vê num Deus a fonte:
Quem no acaso conhece o autor do Mundo,
Se não erra, e blasfema, então delira!

 Eis de Estagira o Gênio, eis o prodígio
Talvez, talvez maior que a Grécia vira.
Do Mundo é mestre, a Natureza é sua,
Não se confunde o Perípato, e ele:
Ele foi luz, o Perípato é sombra.
Não é seu mor brasão ter visto o Mundo
Do Mundo o vencedor posto a seu lado,
Pois de Alexandre, que conquista a Terra
Só devia Aristóteles ser mestre.
É seu timbre maior ter da ciência
Quase o infinito círculo corrido.
Inda em seus livros que a ignorância altera
(Ignorância dos Árabes soberba)
Saber enciclopédico descubro.
Se hoje tudo é Buffon, se Plínio é muito
Senão fora Aristóteles, não foram.
Bem como um Nume ao Mundo as bases lança
Quando no instante produtivo o manda
Sair do centro do confuso caos;
Assim das artes, das ciências todas,
Quase no caos da ignorância envoltas,
Lança o grande Aristóteles as bases.
Quando deixou de perseguir o Mundo
A Sapiência, o mérito, a virtude?
Tristes aves da noite a luz odeiam:
D'Atenas Aristóteles se esconde,
Em voluntaria morte asilo encontra.
 
Na sublime cadeira então se assenta
(E ali brilhando estava) o douto, o grave
Da Natureza intérprete Teofrasto;
Desgraçado Calístenes lhe escuta
As sublimes lições, e o grande Endemo,
E a respeitável multidão dos Sábios
Afeitos sempre a passear pensando.
 
Do Tibre a escravidão, do Tibre os ferros
Tornam de Atenas, e Corinto o fasto
Em pobre aldeia, ou lastimosas cinzas:
Eis se transplanta a Sapiência a Roma;
E, se da Glória o Templo as armas abrem
A seus grandes Heróis, também seus Sábios
No eterno Templo da ciência eu vejo.
Entre todos mais luz, talvez mais clara,
Que a que se espalha dos Argivos bustos,
O portentoso Cicero derrama!
Nenhum Sábio formou do Eterno Nume,
Entre as sombras Pagãs, mais alta ideia!
Ele incorpóreo, imenso o considera
De eterna Providência, Amor eterno.
Existente por si, e autor do Todo.
Por certo entre os mortais nenhum até agora.
Tão profundo saber juntou com a rica
D'áurea eloquência exuberante veia!
Do Epicureu Lucrécio então descubro
O pensativo, e descarnado aspecto:
O centro tira do Universo, e Mundos
Infinitos julgou no imenso espaço.
Ali vejo Epíteto humilde escravo,
Mas entre os sábios soberano, e livre;
Cuja frágil alampada um tesouro
Entre as joias valeu da antiga Roma.
Vejo o vulto de Sêneca, seus olhos,
De uma luz ardentíssima, levanta
Meditabundo ao luminoso assento;
Piza as salas fatais d'ébano, e d'ouro,
Onde o sangue materno um Nero entorna,
Onde jaz de Germânico o cadáver
Sêneca o monstro louva, e se entristece:
Dependência dum trono a quanto obrigas
Pequeno em obras é, grande em ciência
Ele a vida antepôs ao justo, ao pejo
Por ela perde de viver as causas:
Mas em seu grêmio o tem Filosofia,
Só porque disse que às ações internas
É presente um juiz, presente um Nume.
Roma nele acabou. Na foz do Nilo
Imperial Alexandria surge;
Ela produz o Eclético Pótamon
No Templo veio fulgurar seu rosto.
Da bela Hipácia a formosura brilha;
Eloquência, e saber da boca entorna
Entre suaves hálitos de rosas,
Que transportado Orígenes lhe escuta.
Em sua escola Próculo se exalta,
Amônio, Celso, Jâmblico, e Porfírio,
Que mal sabido Platonismo ilude.
Vejo num trono, sobranceiro a muitos,
O majestoso vulto auri-esplendente
Do novo Túlio, o fluido Lactâncio,
Talvez maior, que o Consular de Arpino.
Não era longe dele, em sombra envolto
Da prisão melancólica, Boécio;
Vai banhando os grilhões d'amargo pranto
Até que raiando viu Filosofia,
Que as sombras rompe, as lágrimas lhe enxuga.
 
Profunda escuridão, profundo luto
No vasto Império das ciências pousa;
Onde aparecem Vândalos, acabam.
Quais vemos entre nós do Sena os monstros,
Que vem das artes derrubando os Templos;
Vem do gelado, tenebroso Arcturo
Bando, de morte, e de ignorância armado,
Apenas ficam gárrulas escolas,
Que um só busto não tem no eterno Templo,
Até que dos gelos de Sarmácia surge
Copérnico imortal, este o primeiro
Que ali se manifesta, ali fulgura
Entre os astros envolto, entre as esferas:
Viu Sol imóvel, viu rodar a Terra,
E apenas o imortal pasmoso escrito,
Ao respeito dos séculos entrega,
O templo augusto da ciência todo
De portentosos sábios se povoa.
Eis se me amostra Galileu, dos astros
O novo Cidadão, tem curva a frente,
E descarnadas mãos com as vis cadeias.
Cinge-lhe Jove na enrugada testa
As que ele achara incógnitas estrelas.
Da antiga Résia veio o alto ornamento,
É Bernulli imortal. Na margem fria
Do discordante Báltico diviso
O grande autor das Mônadas, que encontra
No composto mortal maga harmonia
Entre a composta, e símplice substância.
Nascido a meditar, modesto, e mudo,
Da nebulosa Holanda em canto escuso,
Do grão Descartes majestoso vulto
Entre as sombras, e a luz plantado admiro.
Um globo tinha aos pés nas mãos um facho
Que ao globo espanca a treva da ignorância.
Legislador sublime além brilhava,
Verulâmio infeliz, primeiro as portas
Da recatada Natureza abria.
O desprezado à cinte, e ignoto a muitos,
O frugal Espinosa aqui surgia.
Errou que é homem, mas errou com ele
Toda a escola Eleática, e tu mesmo,
Ó Sêneca imortal, com ele erraste:
E Campanela, e Bruno, e a nós mais perto
Contraditório Mirabund, deliras.
Mas quem, profundo Hebreu, te nega engenho?
Em força d'alma é único entre todos
Dos que além penetrar julgam que é dado
Do que foi dado a pensamento humano.
Eu te posso impugnar, e outros te insultam.
Talvez eu sorte igual no Tejo alcanço
Não penetrando da ciência o Templo,
Porém no ingênuo dom de ingênuos versos,
Que a si por prêmio tem, por mata a Pátria:
Beja te deu teus pais, teu berço o Douro:
Alguma coisa tens comum comigo.
 
Ali d'Obérgio, Mallebranche, e Locke
Os áureos bustos luminosos via,
Que em transcendente fluido brilhante
Para um Mundo ideal seus passos guiam,
E, as sombras metafisicas rompendo,
Sem falar ao sentido as almas falam,
Abrindo o geométrico compasso
Quantos talentos assombrosos vejo!
Entre o Germano agudo, e ameno Franco
Do Itálico saber vejo os milagres.
O que Diofante, o que Apolônio excede,
Do grão Toscano a par, brilha Viviani.
Sexo, sexo gentil, na Itália é grande;
Nos Labirintos do profundo Euclides
A formosa Ardighelli, e Agnezzi entrarão
Outra Laura maior, que essa, que outrora
Do vate, todo amor, deu força à Lira,
Nos penetrais da Natureza entrando,
A Spalanzani explica altos mistérios.
Com ela Boscovich subiste aos astros.
Não te vence um Maraldi, e nem Cassini:
Talvez, talvez, que a formosura as graças
Me pareça que dão luz às ciências.

 Algaroti, teu vulto ali contemplo,
Tão grato foste ao Salomão do Norte;
Porém mais grato a mim, e às artes foste;
Entre o fulgor da púrpura mais brilha
Do grande Passionei a excelsa imagem;
Issócrates te cede, inda que venha
Do grão peso dos séculos seguido;
Não tem que opor-te, ou que igualar-te o Sena,
E menos tem que equiparar-te o Mundo
Encanto oníscio, universal Roberti:
Não me cega a paixão, que ao Tibre eu guardo,
Nem o clarão de Itálica ciência
Tanto me cega, e me deslumbra tanto,
Que não veja raiar no Templo augusto
D'Ânglia, e Germânia os portentosos sábios.
Ali d'Hobbes descubro a imagem triste;
Ali vejo Stanley das Artes Lívio;
E o que nasceu para ilustrar o Mundo
Desde o frio Danúbio, o grão Bruckero;
E Kant, a si clarão, e enigma a todos.
Ali brilhava Degerando ilustre,
Que em mui douto suor banha os escritos,
Que eterno fazem nos umbrais da Glória
De ti, Filosofia, ávido amante.
Meigos olhos lançou também no Tejo
(Quando há de, ó Tejo, conhecer-te o Mundo?)
E, entre inda sombras Árabes descobre
O profundo Vernei, o ameno, o rico:
E, que dissera se encontrara um Nunes;
Astros, astros do Céu, prendeu-vos ele
E, o sutil instrumento ao nauta entrega,
Ao nauta Português, senhor dos mares:
Sem ele Cook o globo ah! não cortara!
Mas lá foi Magalhães sem ele, e cerca,
Porque a si se levava, o mar, e o Mundo!
Tu nos meus versos mofarás do Letes,
E a glória que te nega a Pátria ingrata
Em suaves canções te outorga um vate.
Ah! permitira o Céu, que o preço humano
À morte não pagara alma tão grande!

 Eu não deprimo o mérito, o talento;
Naquele alcáçar resplendente estava
(Deposto um pouco o Trágico coturno,)
O florido Voltaire, cético ilustre,
Emília tinha ao lado, Emília o timbre
Talvez maior do feminil engenho;
Com ela corre a passear nos astros.
Eu lá vejo Nollet, Brisson descubro.
Salpicado Bailly de fresco sangue,
Indagador Sonnini a quem Fortuna
Se honras na vida deu, na morte as nega;
Vive em ciências, na pobreza expira.
Além dos mares a Franklin descubro,
Que o raio foi prender nas mãos de Jove.
De Prussos vejo o busto; o nome ignoro,
Ou bárbaro talvez não cabe em versos;
Aurea língua do Tejo em vão procura,
Em seus cadentes números suaves,
E na Lira ajustar, que a Grega imita,
Os acres sons dos Hiperbóreos nomes:
Mas não faz dura a métrica harmonia
O teu nome ó Lineu, tu sacerdote
Do Santuário d'alma Natureza;
Ali vejo teu busto, ali cercada
A frente tens de peregrinas plantas,
E tu, qual novo Adão, dás nome a todas.
Um ramalhete de purpúreas flores
A Europa, a Líbia, a América to oferece;
A Ásia de tantas maravilhas cheia
Das margens do Mecon, do Ganges, do Indo
Grinaldas te prepara, e lá tas manda,
Tão belas quais as pinta o China astuto:
Ceilão entre seus balsamos as tece.
E o suave vapor, que a Aurora exala,
Lá no berço onde nasce, e espalha rosas,
Em dourados turíbulos te ínvia.
Não tiveram os Reis, tributos destes!
Ao poder se negou, dá-se à ciência.
 
Maior glória me chama, um novo busto
Que entre todos maior, mais luz derrama.
Este é Buffon, que não mortal parece.
É seu louvor, universal silêncio:
Nem língua humana diz, nem mente abrange
Tudo o que foi Buffon; contemplo, e calo.
Se é mais que a Poesia, é mais que humano
Rafael com os pinceis, Buffon com a língua....
Só Natureza é mais, porque eles morrem,
Morre, não ela, tais rivais suplanta.
Só Newton é maior; que entrego a palma.
Não ao que pinta, ao que conhece as causas;
Se este é só venturoso, este é só grande.

 Com tanta luz atônito, e suspenso
Volvo os olhos de um lado, e bem no meio
Do majestoso Templo o altar estava.
Por argênteos degraus se avança e sobe,
Mas com trabalho, à base alabastrina.
Ali sentada — Experiência — estava.
Eu pronto a conheci no rosto antigo
Na longa veste, e diamantina tarja,
Em que esta li gravada, áurea sentença:

 "Das coisas mestra eu sou, dos homens mestra"
Num quadrado Geométrico se assenta
O sacrossanto altar, e em cima posto
Vi como um vaso de alabastro puro,
Que não de Fídias o cinzel abrira;
Teve artífices dois, Estudo, e Tempo.
Do seio lhe rompia etérea chama,
Que ante o Nume brilhando aos Céus subia
Inextinguível lâmpada, que os anos
Vão aumentando progressivamente.
Formam à Deusa os séculos um trono
Mais que os rubins precioso, e mais segura
Matéria tem, que o sólido diamante.
Tem cheio o rosto de Viveza, e graça,
Que amor no humano coração desperta,
Que encadeia a vontade, a alma levanta.
De estatura comum se me antolhava;
Mas logo a vi subida até com a frente
Ir topetar na abobada do Templo.
De fios sutilíssimos tecidas,
Mas de matéria indissolúvel, eram
As vestes que ela traja, e que formadas
Foram por ela mesma, obra pasmosa,
Que do cândido pé, ao colo ebúrneo
Forma diversos graus: um véu sombrio
(Por mão proterva lacerado em parte)
De negra antiguidade a envolve toda
Nas mãos tem livros de diversas línguas,
Onde eleva também dourado cetro.
 Pasmado, à quase onipotente Deusa
Todo me inclino, a majestade acato.
Titubeante, e trêmulo destarte,
Soltando a voz um pouco, à Deusa falo:

 "Ó tu do estudo emprego, ó Madre excelsa
Da inteligência dos arcanos todos
De que é fecundo o Céu, fecunda a Terra;
Tu da verdade indagadora, e facho
Luminoso da vida. Ó tu do vício,
Tu da ignorância ríspido flagelo,
Tu, que é tudo ao mortal, que é luz, que é vida,
Ante os teus olhos me conduz Fadiga:
Misero Vate eu sou, no peito acolho
Desejo de saber: sempre afanoso
Após a imagem da verdade eu corro;
Mas a alma envolta em sombra, em sombra os olhos,
Enigmas vejo só, eu palpo enigmas:
Sentir, gozar, não perceber, é esta
Da existência mortal partilha, e obra....
Mas qual te vejo, ó Deusa, e que orgulhosos
Amadores te cercam! Que ignorantes
Do acatamento que a teu lume imenso,
Deveu sempre guardar o engenho humano!
Deve, qual pobre, pequenino rio,
A quem água não deu caudal torrente,
Correr tranquilo, e murmurar nas pedras,
Ao Pastor inocente, à Ninfa ingênua
Objetos de prazer oferecendo.
Mas o desejo audaz, e o louco orgulho
O torna rio impetuoso, e bravo
Soberbo, ufano vai d’água não sua.
Eis se despenha, qual torrente Alpina,
E os campos cobre furioso, e turvo;
Leva consigo os troncos, leva os gados,
Leva o Pastor, e a mísera choupana,
Até que cesse do ar fecunda chuva:
E, serenado o Céu primeiro orgulho
Então depõe deixando a margem enxuta."

 Mais quisera dizer eis que o grão Nume,
Fitos em cuja frente eu tinha os olhos,
Soltou dos lábios divinal sorriso,
E, doce voz alevantando, exclama:

Podem, meu filho, eternizar no Mundo
O mesquinho mortal meus dons sublimes,
E as ideias altíssimas, e claras,
Que eu com mão destra na sua alma imprimo;
Comigo, e o sentes tu, do peso humano
Se livra, se desfaz o entendimento;
Ao alto sobe, e se remonta, e chega
Comigo aos claros Céus, comigo entende
Mistérios profundíssimos, e entra
Da Natureza nos ocultos seios.
Essa Eterna Razão por mim conhece,
Que se difunde n'Universo inteiro,
A, que mora no germe, oculta força,
A que a tudo da forma, e da figura.
Por mim, por mim conhece a origem d'alma,
Qual tenha em corpo humano assento, e trono;
A que fim se encaminhe, e quais se encontrem
Ou desgraças, ou bens, na vida, e morte.
Eu torno belo o Mundo, os homens sábios
Se ingênuos querem vir seguir meus passos,
E contemplam por mim o alto princípio
Das coisas em si mesmo, os graus, e os tempos,
Que a tudo tem prescrito a mão do Eterno.
Eu os levanto a conhecer um Nume,
Obedecer-lhe, e venerá-lo sempre:
Dele, só dele a pressentirem tudo
A lei, e ordenação; eu só lhe ensino
A dar justo valor, dar justo apreço,
Ao que se mostra ou verdadeiro, ou falso.
Se o prazer, a que é misto o pranto, a mágoa,
E o pungente pesar, que é tardo sempre,
Os homens sabem condenar, eu mesma
Seu peito aclaro, o coração lhe inflamo;
É meu próprio este dom. Por mim descobrem
Que é só feliz na Terra, é só potente
Quem se domina a si: Guia incorrupta
São minhas luzes ao mortal na vida.
Eu primeiro lhe aceno, eu lhe preparo,
(Depois Religião, que é só, que é tudo)
Sede no Céu, que eternamente é bela.
Do Cristianismo um mestre, um sábio, um grande,
De Alexandria nas escolas doutas,
D'alta verdade, que dos Céus foi dada,
Pedagoga me chama, eu sou por certo
Quem da luz da Razão, da Natureza
Leva os mortais a acreditar mistérios
Que a razão não se opõe, mas são mais altos.

 Mas eu desço contigo ao Templo augusto;
Que inda que erguido o vez, não é distante
Da térrea habitação do engano, e minha.
Olha, admira, contempla a excelsa mole
Premio dum Grande que é brasão do Mundo:
Este é d'honra imortal o alto ornamento,
Que eu mesma à Glória consagrei, com ele
De um Pontífice meu prêmio as obras,
Ele as minhas expôs, dou prêmio às suas."

 A Deusa emudeceu, à destra eu volvo
(Nunca confuso assim) trementes olhos;
E no meio da luz brilhante, e pura
Soberbo alçar-se Mausoléu descubro.
De Newton vi gravado o nome excelso
Num pórfido imortal, que nem d'Augusto;
Ou no Tibre cobriu geladas cinzas,
Ou do Grande Pompeu fechou no Nilo
Restos chorados do implacável Júlio.
Depois que vezes mil no estranho, e grande,
Monumento fitei pasmados olhos,
Por longo tempo contemplando absorto
Aquela d'alto engenho obra estupenda,
Ao Britano imortal sagrei com votos
Inteiro o coração, minha alma inteira;
De estima este o tributo, o feudo é este,
Que eu primeiro paguei, Nação pasmosa
De quem o mar é todo, a Terra é quase.
Mas eu sou Português, e armas não podem
Alheias deslumbrar-me; eu vejo as Lusas,
Cuja glória tu vez no vasto Oriente,
E, onde levantas tríplice bandeira,
Primeiro o nome Português encontras.
Eu não te invejo a glória, nem tesouros;
Se de Safiras atulhados cofres,
Fios de brancas Pérolas, se finos
Luminosos Rubins d'Ásia recebes;
Já d'Ásia um Português trouxe mais que isso:
Do Indo, Hidaspe, e Ganges as Águas trouxe
Dentro em barro Chinês; e era Ataíde.
Será maior teu Rodnei, ou teu Nelson?
Nem teu Monk é maior, se o cetro enjeita,
Em Regia frente o Diadema pondo.
És grande para mim porque em teu seio
Bolingbrocke aparece, Adisson, Pope;
Aparece Bacon, Milton tateia
Arpa tocada só d'Hebreu Monarca;
Em ti tiveram berço, e Locke, e Thompson,
E o que os povos do Mundo inda baralha,
E a Gália fez tremer, Pit, é teu filho.
És grande para mim, porque um Senado
De Reis, mais que o de Roma em ti conservas,
Onde tantos Demóstenes, e tantos
Túlios sabem surgir, salvar a Pátria.
É esta a fonte do respeito, e estima;
Que eu Vate, que eu Filósofo consagro
A ti grande Nação, da Europa asilo.


CANTO III

Tinha ficado em êxtase profundo
Do portentoso Mausoléu com a vista:
Mas da pasmosa suspensão me chama
A Fadiga outra vez; eis abro os olhos,
Junto ao sepulcro vejo em ledo aspecto
Matronas duas de beleza estranha:
Humanos ombros veste argênteas asas,
Na destra mão sustenta argêntea tuba;
Vi que era a Fama, que imortais escritos
De Newton celebrou; era outra a Glória,
Que os sustenta nas mãos, defende, e guarda.
Da Fama, e Glória é obra, é maravilha
O imortal Cenotáfio: aos pés sentada
A Verdade admirei símplice, e nua:
Ela serve de base ao grande, ilustre
Monumento imortal onde a pressaga
Mente me diz, que saberão no Mundo,
Que eu no Mundo existi, tardios netos.
Do seio extratos da matéria prima
Dois pedestais estão, que no encendrado
Ouro conservam símbolos diversos,
E as bases são de lúcidas colunas.
No meio uma Pirâmide que mostra
No mui sutil triangular remate
Do fogo, e clara luz o trono; e assento,
Qual entre os Gregos o mais douto o mostra,
Crendo que deste fogo era alma cheia,
Que qual laço entre si sustenta, e prende
Inteligível Mundo ao Mundo inerte,
Incorpórea substância à sensitiva:
(Metafisico abismo, ou sombra é isto,
Que eu débil, que eu mortal romper não posso).
Daquele fogo interminável fonte
Vi d'átomos sair, que o Sol brilhante
Desde o seu seio luminoso espalha,
Donde o Imenso esplendor de alvez se forma.
Além do alcance do saber humano
É sua rapidez, correm velozes
Dos Céus o imenso espaço, em toda a parte
Se difundem no ar; destas pequenas
Partículas tem luz, tem lume os corpos;
Sempre impelido vai, vibrado sempre
(Continua ondulação) primeiro raio
Doutro, que dele após o Sol despede.
Diante da Pirâmide sublime
Entre as colunas se elevava ingente,
Firme, segura base; ordem Toscana
Com majestade seus adornos forma;
Nela esculpido teu grão nome eu leio,
Imortal Galileu, tu preço, e glória
Da Etrusca Sapiência, e timbre ilustre
D'alma Cidade quem seu grêmio ouvira
Os magos sons da Citara suave,
Que a Laura celebrou, que ouvira outrora
Da boca de Ficino auri-eloquente
Do excelso Platonismo expor mistérios;
Que dera o berço ao que descobre um Mundo,
Que o nome seu tomou; que inda hoje o guarda.
Imortal Galileu, devem-te os sábios,
Da Terra aos astros o caminho aberto;
Qual deve a Magalhães o nauta a estrada,
Que cerca todo o globo em mar profundo:
É teu brasão somente, é glória tua
Desta mesquinha, inerte escura Terra
Avizinhar as lúcidas estrelas;
E, se o Toscano Céu d'astros é rico,
Que ao trono Mediceu dossel formaram,
A ti se deve, a ti!... Memoria triste!
O trono Mediceu, é sombra, é cinzas,
Depois que o Tigre, ou Vândalo do Sena
Despreza a Sapiência, avilta os tronos!
O teu engenho inacessível abre
Nova estrada ao saber: Britano ilustre,
Com ela arquitetou obra estupenda,
Que, consagrada à lúcida verdade,
Da proterva ignorância o orgulho oprime.
Imortal Galileu, ao dia, às luzes
Que ao Mundo trouxe teu saber profundo,
Se opôs a cega audaz insipiência
E inda agora se opõe; que um véu sombrio
Tentou no Sena despregar-te em cima.
Ah! não se lembram que se a Itália culta
Não dera o berço a Galileu, não foram
Tão ufanas de si Gália, e Britânia,
Um Newton dando à luz, e à luz Descartes!

 Dos lados sobre a base alta, e segura
Eu vi dois globos da pesada, e dura
Magnete, que é mistério ao sábio, a todos:
Virtude de atração nela reside,
Se a mente a não conhece, a vista a sente:
Pegando, unindo a si (profundo arcano!)
Esse metal cruel, sagrado a Marte,
Que hoje a mísera Europa em sangue inunda,
E é dos mortais na mão rival do raio.
Esta ao sábio, esta ao vulgo ignota força,
Como em triunfo se descobre, e mostra.
De teu contínuo meditar foi obra,
Ó Gênio do Tamisa, este prodígio;
Mostra a tendência que entre si conservam
Alternativamente os corpos todos,
Que a um centro que é comum gravitam sempre.

 Ignoto nome aos séculos antigos,
Foi atração reciproca, e foi sempre,
Centrífuga, e centrípeta ignorada,
Com que estranhos fenômenos se explicam.
Em seu lugar as gárrulas escolas
Sonharam Nume oculto, oculta força,
D'ódio, e d'amor combate, ou guerra eterna,
Horror do vácuo, e qualidade ignota.

 Num dos globos está gravada em ouro
Por mãos de Ptolomeu etérea esfera,
À qual d'âmbito imenso a Terra é centro:
Acima dela brilha argêntea Lua,
Que o noturno clarão do Sol recebe.
O mensageiro dos celestes Numes
Muito acima fulgura; e essa, que teve,
Alma beleza, no Oceano o berço,
No que é terceiro Céu, resplende, e brilha;
Precede o dia; quando nasce, e surge
Quando o disco do Sol se encobre, ou morre!
D'áurea luz coroado, e ardentes raios
O Sol sucede: e se descobre Marte
Sanguíneo, e triste noutro Céu rodando.
De Júpiter o globo imenso, e claro,
Em mui remoto círculo se agita.
Inda além dele, vagaroso, e frio,
Vai do antigo Saturno o débil raio.
Imóveis pontos, lúcidas estrelas
Brilham no imóvel cristalino assento.
 
Obra do grão Copérnico descubro
Noutro globo esculpida, imensa esfera,
Dela, o Sol luminoso é centro, é foco,
Que mui próximo a si Mercúrio observa;
Vai num carro após ele a Cípria Deusa
Róseos freios batendo às alvas Pombas,
(Dos astros todos o mais belo, é este);
E noutro Céu mais alto a escura Terra,
Tornada astro rotante, o giro absolve;
Da Lua seu satélite seguida,
Da qual ao vario movimento é centro.
Das feras armas lúgubres o Nume
(A quem tanto tributo, incenso tanto,
Em lágrimas, em luto a Europa oferece!)
Segue-se após da terra; e após de Marte
O vivo, o claro, o desmedido Jove,
De brilhantes satélites cercado
Que tu, grão Galileu, primeiro achaste!
E do tardo Saturno a imensa, e vasta
Mole aparece, de Clientes muitos,
E variante anel cercado avança.

 Um longo estudo arquitetou tão bela,
Tão engenhosa máquina prestante,
Entre os gelos Sarmáticos levada
À maior perfeição, pois já n'antiga
Idade a viu sair absorto o Mundo
Das mãos do escravo do eloquente Túlio,
A quem, deposta a consular soberba,
Se dignou de escrever, chamar-lhe amigo.

 Sobre os dois globos se sustenta, e firma
A ilustre, sepulcral Urna estupenda;
Arquitetada, e repelida brilha
De Prisma em forma, e de matéria ignota;
Se o brilho é do diamante, inda mais brilha,
Se é solido o rubim, mais dura existe.
Nas folhagens de Acanto, ou de Cipreste
Ali pôs Escultura: em vez de adorno,
Em vez dos negros símbolos da morte,
Só gravou Matemático Instrumento,
Com que medir dos Céus a imensa estrada
Usa ideia Astronômica segura.
Do negro Paragon moldura observo,
Que em si contém de Isaac a ilustre imagem;
É relevada em solida Esmeralda,
Parece que inda volve, e que inda espalha
Filosófica vista em torno aos astros,
Que respirando está Filosofia.
E tanto ao vivo está, tal arte o forma,
Que, se meus olhos acredito, ainda
Cuido que solta a voz, que os lábios move.

 Este relevo portentoso, e raro
É sustido nas mãos dum Gênio ilustre,
A quem deu berço d'Ádria a grão Rainha,
(Hoje escrava também de escravos feros)
Gênio que objetos da terrena estima
Aos pés soube pisar, e além subindo
Onde o frágil mortal mui raro chega,
Teve ao lado Virtude, e teve o gosto,
Que o belo sabe achar nas artes belas,
Rival sublime, ou vencedor de Horácio,
Na mente sempre à Poesia dada
Seguro albergue achou Filosofia;
Pelas veredas da ciência segue
De Newton o farol brilhante e puro.
Caro ao Monarca, que juntou num laço
De Minerva, e Belona o gênio, e as artes,
Minerva n'alma tem, nas mãos tem Marte,
E a pacífica Oliva ao louro ajunta:
Monarca invicto, que estendeu vivendo
A mão benigna às Musas desvalidas,
E ao lado como amigo os vates senta,
E no Reino, onde agora a Guerra existe,
De Augusto, fez raiar dourados dias:
Foi-lhe caro Algaroti; oh fausto nome,
Tão doce e grato ao lisonjeiro sexo,
Que une mil vezes formosura, e letras!
Da nívea mão travando-lhe o dirige
Pelas agras do cálculo varedas,
E lhe ensina a não ver com medo, e pena
Os labirintos das traçadas linhas
Nos cubos, nos triângulos de Newton;
Este nas mãos sustem o Oval relevo,
Que ao vivo representa, ao vivo exprime
Do grande explorador da Natureza
O majestoso, e respirante vulto.
D'Ótica o Gênio na moldura estende,
Moldura superior, brilhantes asas:
Com setêmplice luz se expandem belas,
Que as cores todas primitivas guarda:
O corpo todo é nu, cercado apenas
Dum sendal claro azul que estrelas bordão;
Na destra mão sustenta, uma grinalda,
E acena de cingir com ela a frente,
De pedraria Oriental composta;
Na esquerda mão conserva os luminosos
Cristais, em lentes que afeiçoa e pule
Com as doutas mãos Filósofo tranquilo
O Português Hebreu na Holanda escura,
Que, a vil lisonja desprezando altivo,
Banha o pão com suor, trabalha, e vive.

 D'áurea madeixa o Gênio um raio expande,
Que, composto de mil, fulgura ao longe.
Resulta dele a cor cândida aos olhos:
Da Urna sepulcral no seio o raio
Se refrange instantâneo, em parte oposta
Quadrilongo se vê, posto que fosse
Esférico ao partir da origem sua.
Diversos graus, e proporção distinta
As cores entre si guardam, conservam;
O brilhante escarlate ocupa o fundo,
O laranjado o meio, e, qual no Goivo
O amarelo se mostra, ali campeia;
O verde então se vê, que enroupa as plantas;
Vegetação Rainha assim se veste,
Opa com que se adorna, e o Mundo enfeita:
Do azul, que forra os Céus, o Indico é perto,
E da saudade o símbolo tristonho,
Matiz da violeta; eis brilha o roxo.
Escala harmoniosa! Eis dela em torno
Dum a composta cor listões se estendem,
Que outros compostos gradativos formam,
Que adornos são do Mausoléu soberbo:
E, num Rubim profundamente expressas,
Estas palavras portentosas eram:
"Com suas Leis a vasta Natureza
Imersa estava em tenebrosa noite;
Surge, ó Newton, bradava a voz do Eterno;
Nasceu Newton no Mundo, e nasce o dia."

 Eis três figuras mais, do grão Sepulcro
Ornamento, diviso em torno postas;
Primeiro a de Ancião curvo, e rugoso,
Fontenele se diz, meditabundo,
Aos Céus aponta, e contemplando os astros,
Diz que habitados são, que a argêntea Lua
É do pensante, e do mortal morada;
Que existem Mundos mais no éter imenso.
De vórtices cingido, outro aparece,
Em cujo seio envolve o Sol brilhante;
Em seu giro assinala o moto aos astros.
Tem sobre o Cenotáfio os olhos fitos,
O simulacro observa, e mudo o adora.
Entre eles ambos Maupertuis descubro,
E sobre um globo estende áureo compasso,
E sem temer as cerrações do polo,
Geômetra sublime, os graus lhe mede.

 Eternidade sobre tudo existe,
De insuportável luz clarão difunde,
Onde se perde, e se deslumbra a vista,
Se ousa fitar-se ao seu seio imenso.
Mal contemplava o monumento augusto,
De homem tão grande consagrado à glória;
De tão sublimes êxtases me arranca
A Fadiga outra vez: "É tempo, ó filho.
Que o transportado espírito se torne
À habitação mortal, que desça à Terra:
Vai: quanto viste, aos homens anuncia;
Vai declarar insólitos protentos
Sobre esta mole sepulcral gravados.
O Mundo viverá: Newton sublime
Em quanto exista, existirá com ele.
Sobre as ruínas do acabado Mundo
A glória existirá faustosa, inteira,
Seu trono erguendo sobre imensa, e clara
Luz, que só Newton dividiu na Terra."

 Disse; eis foge a visão, eis foge o Templo.
Eu, não diferente dum mortal que voa,
Desço do cume do fadado monte.
O mesmo monte se escondeu: vapores
Levantados em torno à vista enferma
Sobre mim denso véu de nuvens formam,
Roubam-me ao claro Olimpo: a planta apenas
Se me antolhava que na Terra firmo,
Do novo dia sou chamado ao duro
Lagrimoso trabalho, herança minha,
Numa absoluta escuridade, inglório,
Somente a mim deixado, e à Natureza,
Sem murmurar do Céu que assim lhe aprouve,
Tranquilamente o túmulo esperando
(Pouco dista de mim!) repouso eterno.
Mas sem que a vil lisonja um pão mendigue;
Nem aos soberbos pórticos dos grandes
A dependência guiará meus passos,
Nem vergonhosa súplica, aos ouvidos
Dum homem meu igual levei até agora.
Falte em que ponha os pés mesquinha terra,
Injusta colisão d'almas obtusas,
Menos que vermes na ciência, em tudo,
Só grandes na ignorância, e na impostura,
Me procure azedar cadentes dias;
Nem duro, e negro pão banhado em pranto,
E obtido com suor me escore a vida;
Nem tenha onde evitar (paredes nuas)
Das estações a dura alternativa;
Nunca abatido o peito em males tantos,
Nem triste o rosto me verão no Mundo;
N'alma assentado o pressuposto tenho
De uma voz Filosófica, que brada:
"Dos males todos, o menor é morte."
Se é preciso morrer, sou grande, e livre,
Sou nobre, independente, e sou ditoso;
Do estudo, e da ciência o fruto é este.
Não é caduca vida um bem que valha
De um vício só, de uma vileza o preço,
Mas enquanto não finda este intervalo,
Breve entre o berço, e túmulo, desejo
Ó Pátria minha, engrandecer teu nome,
Dar-te, qual és, a conhecer ao Mundo.
Isto busco, isto quero, isto medito,
Neste século infausto à paz negado,
Em que tudo se esquece, exceto o sangue;
Em que é ciência o cálculo da morte;
Em que um Tigre feroz se chama um grande;
Em que amor do retiro, amor do estudo
Como fraqueza, e pedantismo é tido,
E a ciência maior lembrar-se o nome
Da terra em que os mortais seu sangue entornem.
Menos bárbaro foi por certo o tempo
Em que do polo aquilonar marchando
Fero Ataúlio, ou Genserico veio
É Teodorico bárbaro, mas teve
Ministro ao lado seu Cassiodoro:
Deu-se apreço ao saber, respeito às Musas.
Filósofo é Boécio; áurea eloquência
Apolinar, e Símaco sustentam,
E do Grego saber riqueza, e brilho
Nas escolas Ecléticas conserva
À foz do Nilo transplantada Atenas.
Mas agora!... ah com lágrimas aumento
Do pátrio rio a túrbida corrente!...
Porém eu torno a mim, que a mim me rouba:
Melancólico véu que alma me enluta.
Trago do Templo excelso inda gravadas
Na fantasia férvida as imagens,
Que eu ali descobrira, inda me lembro
De quanto ao grão Britano as Artes devem.
Cultas nações extáticas o louvam,
Nunca a língua mortal cansa em louvá-lo:
Único Gênio, cujo estudo, e fama,
Somente há de acabar quando se solte
A chama voracíssima do fogo,
Que a Terra, os astros lúcidos consuma,
Com que do Mundo a máquina vacile;
Como tu prometeste, e tu cantaste,
Ó dulcíssimo Vate, a quem por louros
Deu do Tibre o Tirano a cítia, e morte.

Newton; foste mortal; mas quase eu creio,
(Qual é crença de extático Poeta)
Que dum astro natal vieste ao Mundo
Mostrar prodígios aos mortais ignotos.
Tu, com o Prisma na mão mostraste a fonte
Da septiforme cor, que a luz encerra,
Qual seja a essência sua, e qual a vida.
A superfície dos terrenos corpos,
Em parte absorve os luminosos raios,
E, refletidos noutra parte, os manda
Aos olhos nossos com diversas cores.
Opaco eis aparece o corpo, quando
A luz não topa com diretos poros;
Na obliquidade a escuridão consiste,
Pois menor transparência a luz encontra:
Tu decifraste as primitivas cores,
Ó grande Gênio escrutador do Mundo!
Tu das mistas nos dás brilhante ideia,
Que efeitos são dos refletidos raios,
E qual seja o poder donde dimane
À refracção, e reflexão princípio.
Nem são de teu engenho obras supremas
As quem suave metro expus até agora.
Não só da luz as vibrações potentes
Refrangíveis mostrou nos corpos densos,
Que no incessante, moto encontram sempre;
Mas a mais progredindo, a mente excelsa,
Não se perdeu no cálculo infinito:
Abismos onde um novo ignoto brilho
Aos mortais pode abrir; saindo ovante
Do labirinto de infinitas curvas,
Quando a reta propôs, porque é finita;
Se um pouco só diverge, então se forma
Sempre em curva infinita. Ó sombra, as Musas
De ti se espantam, se intimidam, fogem:
Só lhe apraz terra donde brotem flores;
Só manejam pinceis, cálculo odeiam;
Ou é pequeno emprego à fantasia,
Que se escalda, se expande, e se remonta,
Juntar com sequidão cifras a cifras;
Outro quadro maior minha alma ocupa.
 
Bastava, ó Newton imortal; bastava
A dar-te um nome eterno, a luz, e as cores;
Mas tu, da clara luz transpondo o Império,
Foste os astros seguir no eterno moto.
A pestilenta Inveja em vão contrasta
A teu nome imortal memória, e honra.
Da Geometria nas valentes asas
Nunca tentado despregaste um voo,
E duma esfera noutra esfera foste
Viver entre mil sóis sem deslumbrar-te;
Lá tu foste encontrar, de lá revelas
Lei que a um centro comum chama os Planetas;
E a lei com que do centro os astros fogem.
O moto desigual da argêntea Lua
A teus profundos cálculos sujeitas.
Tu no moto anual, tu no diurno,
Vais passo a passo acompanhando a Terra.
Tu do grande fenômeno espantoso,
Exposto à nossa vista, e sempre ignoto,
Com que ora sobem na arenosa praia,
Ora descem na praia as turvas ondas,
A verossímil causa, ou certa apontas.
E teu profundo espírito em repouso,
Assombroso mortal, jamais deixaste.
Se, os tubos astronômicos depondo,
Deixas de ir ver os Céus, correndo os astros,
Não satisfeito de rasgar o obscuro,
Denso véu que encobria a Natureza,
Pelos sombrios penetrais entrando
Com luminoso facho, e nunca extinto,
Tu, nascido a dar luz, rasgas as sombras
Talvez mais densas, que no seio envolvem
Marcado já período dos tempos,
Vai correndo teu fio, e apenas paras
No momento em que à voz do Eterno o Mundo
Surge do caos, se organiza, e brilha.
Tu, da impostura oriental mofando,
E do falaz misterioso Egito,
Só da verdade oráculos respeitas.
Petávio, Ussério te contemplam mudos
Quando outras luzes contemplando mostras
Da Natureza na observada marcha
Tão remoto não ser da Terra o berço.
A base, as progressões, a glória, a queda
De Impérios vastos que ambição formara,
Interprete das leis dos Céus, dos astros,
Quiseste ser Legislador dos tempos.
Quem pode a glória recusar-te, ó Newton,
De dar ao Mundo a luz que ele não tinha?
A transcendente Geometria elevas
Ao ponto além do qual finda o perfeito.
Da Natureza sacerdote, aclaras
Mistérios que ignorara a Grécia, o Lácio.
Pelas sombras da História a luz derramas
Quando a base maior, Cronologia,
Tu deixas em teus cálculos segura.

 Se o profundo Varênio a terra, os mares
Com a régua Filosófica medindo,
Este, ai! tão triste! domicílio humano
Em quadro multiforme fornece à mente;
Tu te dignas polir, dar brilho, e preço
Talvez ao mor Geógrafo que exista;
A Newton por intérprete merece!
Nele a luz é brasão, que tu lhe emprestas;
Em ti timbre maior, sendo tu Newton,
Confessar, conhecer mérito estranho.

 Da Natureza expositor, quiseste
As asas despregar num Céu mais alto,
As cortinas fatídicas rasgando,
Com que a mão do Imortal cobre o futuro,
Foi teu maior estudo esse volume;
Onde as visões de extático Profeta
Em sombra impenetrável se sepultam,
Não vadeáveis, não, que os áureos selos
Só lhos deve romper momento extremo,
Quando de espanto agonizante o Mundo,
Vir das nuvens baixar do Eterno o filho.

 Não foste grande aqui; mas são pequenos
Quantos ousam rasgar contigo as sombras,
Em que Deus quis guardar mistérios tantos.
No Templo Filosófico destarte
Tu mereceste um túmulo sublime,
Que é seu mais nobre altar; não pompa infausta,
Qual ser dos Reis o mausoléu costuma;
Neste a glória se acaba, o nome expira;
O teu dali começa, e dali manda
Raios de luz a esclarecer o Mundo.

 Se tens a mente de ciência cheia,
Tens de virtude, o coração cercado:
É mais árduo ser bom, que douto, e sábio;
E uma Virtude só tem mais valia
Que o teu compasso d'ouro, as linhas tuas,
E as leis que dás, ou que supões nos astros.
Entre o fausto incivil entre a grandeza,
Pudeste ser Filósofo modesto.
Ah! sem virtude, a sapiência é nada!
A Inveja te assaltou, (e a quem perdoa
Este monstro o maior do escuro Inferno?)
Mas tu, qual no Oceano altivo escolho
Das negras ondas, que rebentam, zombas.
E, se um novo Palácio à Sapiência
Levantaram mortais no Tibre, e Sena,
Os enfeites são seus, e as bases tuas,
Ó feliz Albion, berço de tantos,
Magnânimos Heróis, que o Mundo ilustram,
Da honra e da virtude asilo, e Pátria,
Vê que há no Tejo quem conheça o grande
Aluno teu que legislou nos astros;
Quem seu saber adore, e seu profundo
Sistema vá seguindo em todo, em parte;
Quem possa ser maior, e igual ao menos.
Este dos versos meus, tributo aceita
Que eu consagro a teu nome, à glória tua:
Pendura-os em seu túmulo, e se tanto
Nem desejar, nem merecer eu devo,
Junto da pedra, que os despojos fecha
De Thompson teu Pintor, meus dons conserva:
Se ele traçou da Natureza o quadro,
Dos séculos até ali com a Lira intacta,
Eu do intérprete seu pinto em meus versos
O grande Gênio, e lhe eternizo a Fama.


CANTO IV

Da luz que o Templo majestoso enchia
Nunca a meus olhos o clarão se extingue,
Com ele vejo doutra sorte a Terra:
Se era envolta até ali na sombra escura
Do caos da ignorância, eis fulge, eis brilha
De novos astros, nova luz banhada.
Era treva até ali quanto pousara,
Em Atenas outrora, outrora em Roma.
Era frouxa a impulsão de sábios tantos,
Que, mestres do Universo, aos homens davam
Lições de sapiência. Ah! nunca o Templo
Aos míseros mortais se abriu de todo!
Quando a barbárie Gótica domina
Por tantos, tantos séculos no Mundo,
Dos contínuos fenômenos a causa
Sempre ignorada foi. De espaço a espaço
Surgia um Gênio, forcejando apenas
Por quebrar os grilhões. Baldado intento!
Ia o volume universal fechado,
Com selos de Diamante, à força humana;
Qual no tristonho tenebroso Inverno,
Quando a densa, importuna, e grossa neve,
Abafa em torno o ar; se o Sol brilhante
Rasga com o vivo raio o manto espesso,
Súbito foge; súbito o negrume
Tapa de novo o fulgurante aspecto,
O Império estende da imperfeita noite.
Tal da Verdade, e Natureza estava
Envolto sempre o rosto em véu sombrio;
E, se um frouxo vislumbre um pouco a treva
Tentava dividir, mais carregada
Vinha caindo a sombra da ignorância:
Ou porque o cego Fanatismo as luzes
Demorava continuo, ou porque ainda
O marcado período não vinha
Na vasta, imensa sucessão dos tempos,
Que a mão que rege o todo às artes marca,
Quais os Impérios são que nascem quando
Do nada à vida a Providência os chama.
Quantos Gênios nutriu no seio a Itália
Antes que Newton fulgurasse ao Mundo?
Tilésio, Cisalpino, e Bruno, aquele
Que entre chamas fatais seu crime expia!
E Cardano, que entre Árabes ideias
Tantas centelhas luminosas lança!
Mas nunca rompe o dia, e o Mundo aclara.
Tu mesmo ó Galileu, teu passo apenas,
Ao Peristilo do grão Templo levas:
Não te foi dado os pórticos de todo
Aos homens franquear. Germânia um Sábio
Produz, que aos Céus se lance, os astros pese,
E ouse falar de perto à Natureza;
Kepler as leis universais sentia,
Que seguem na carreira etéreos corpos.
E Gália, então n'Aurora, então no berço,
Ou não escuta, ou não conhece o Sábio,
Que entre os gelos da Holanda um mundo finge
De turbilhões, de vórtices sonhados:
E de Epicuro nos jardins se assenta
Renovador dos átomos errantes
Pensativo Gassendi, e em treva envolto,
Corpuscular Filosofia ensina,
Onde engenho só brilha, e nunca um passo
A sempre douta experiência avança.
Ah! se mais à razão, que à fantasia
Desse o Germano ilustre a quem patente
O vasto Império foi das artes todas,
Se as primitivas mônadas, se aquela
Pré-existente enfática harmonia
Um pouco se esquecesse, e a voz ouvisse
Da contumaz observação das causas,
Mais cedo, e mais brilhante a luz raiara!
Do imenso livro do Universo os selos
Aos olhos dos mortais se espedaçaram!

 Mas Newton existiu, e a Terra é outra;
O que era só mistério, o que era sombra,
Foi tudo luz, e sapiência tudo,
Bem como é todo luz, e é dia o Mundo
Quando o disco do Sol do Ganges rompe,
De arcanos naturais expôs a cifra
Rasgou-se o manto a toda a Natureza!
Eis do infinito o cálculo profundo
Pôde abrir, e forçar cerradas portas
Da Sapiência o recatado Templo
Visto apenas ao longe entre inacesas
Rochas quebradas de escarpados montes
Se abriu de todo, e se mostrou qual era.
Oh! que cena espantosa, oh quadro augusto!
Entusiasmo que minha alma agita
Te abrange todo, te contempla, e pinta.
Em teu claro vastíssimo horizonte
As gradações da luz, da sombra eu sigo,
Empresa digna de espantar por certo
A rica fantasia, o fogo, a força
De Tintoreto, ou de Jordão pintando!
Eu não sei que ardimento interno eu sinto,
Irresistível violência aos versos
Me leva todo, e da memória eu tiro
Tesouros cuja posse eu mesmo ignoro:
Sobre mim me levanto, e alheio aos males,
Que outra vez tão de perto, em cópia tanta
Terrivelmente minha Pátria assombram,
A Lira Filosófica tátio,
E onde não chega estrépito da guerra
Eu vejo a luz que a Terra a Newton deve,
De antigos evos óptica ignorada
De Sarpi, e Porta aos imortais cuidados,
Ah! por certo deveu primeiros passos!
Porém com Prisma, a cálculos de Newton
Pode formar a análise das cores:
Do Gênio, timbre d'Ânglicos triunfos,
O volume doutíssimo propaga
A luz que em só vista, e ignota sempre.
Vãos sistemas até ali que o trono ocupam
Caem sem força, e vigor no abismo, e nada
A Experiência só, corrige, emenda
Quanto à moderna observação se opunha;
E a nova escola Eclética se eleva
Sobre a verdade, e cálculo somente.
Eis Euler, e Clairault, profundos gênios,
Sobre o problema dos três corpos lançam
A base ao grão saber, e altos progressos
Do majestoso símplice sistema,
Que La Place imortal do Mundo oferece.

 Quão gloriosas consequências vejo
De teus princípios, ó Britano ilustre!
A mutação do eixo em que se firma,
Em que rodando vai pesada Terra:
Do mar a exaltação, do mar a fuga,
(Que fluxo, e que refluxo a proza chama):
D'astros primários movimento eterno,
Dos satélites seus que ao centro tendem;
Dos cometas excêntricos, que o moto,
E sempre incerto, irregular conservam,
Os constantes períodos se marcam.
A libração da prateada Lua,
Astro próximo a nós, mas sempre ignoto,
E a causa achada dos bramosos ventos,
Do ar sonoro oscilações pasmosas;
Tudo é patente já. Método exato,
E de integrar, de aproximar se abraça,
E tudo, ó grande Inglês, tua glória aumenta!

 A longa duração de quase um cento
D'ânuas revoluções da Terra inerte
De teus princípios à cultura entrega
Fontenele dulcíssimo, que Mundos
Viu mais no espaço, e áridas ciências
De nova graça e formosura enfeita.
 
Da Germânia, que um tempo, e nua, e simples
À Historiador Filósofo se mostra,
Surge o grão Wolfio, e se oferece ao Mundo;
Segue o trilho de cálculos profundos:
Matemática luz lança no campo
De quanta a Terra viu Filosofia.
De ti, grão Newton, os vestígios pisa,
E da exata ciência entra o Sacrário,
Em sombras metafisicas se entranha;
Quadro bem digno da atenção do sábio,
Nunca em meus versos ficarás inglório!
A Inveja perseguiu gênio tão raro;
Entre agitadas borrascosas ondas
Em seu peito existiu tranquilidade,
E a cada tiro venenoso dava
A grão resposta de um volume douto
Com que da sapiência o erário aumenta.
Do Liceu de Berlin lá foge expulso
Vai com ele a Virtude, e vai ciência.
 
Da Holanda nebulosa os sábios surgem.
Ah! porque foge à magica harmonia
De meus versos seu nome! As Musas fogem,
E os alpes vendo, os Pireneus não passam.
Só do Tibre, ou do Tejo as Águas gostam
Depois que o Trace bárbaro, e que o Cita
Do Eurotas, de Hipocrene a margem pisam!
Mosckembroeke, Sgravesande ilustram
Da Física os confins. Conspícua em tudo,
Antes que ao jugo Vândalo dobrasse
O tão nobre até ali livre pescoço,
Nevosa Helvécia numa só família
Da ciência o deposito conserva.
Fadada para as letras Basileia
Tantos Bernullis dá, quantos os sábios.
 
Claro ornamento da ciência exata,
Onde um tempo foi Grécia, e Roma outrora
Onde em Sena mudado, eu via o Tibre,
Quanto a Física vale, quanto se avança!
À Luz de Newton nova luz empresta,
E não deixou que desejar à Terra.
Da grande Academia o Templo eu vejo,
Alcáçar da ciência ao Mundo aberto
Do grande Newton a memória, o nome,
Ali qual gênio tutelar preside
No vasto erário de imortais volumes
Encerra, e fecha a Natureza toda,
E a Natureza toda aos olhos abre.

 De luz tão clara não carece Itália;
País tão caro ao Céu, tão grato aos sábios,
Ah! nunca os Brenos te pisassem, nunca!
Devera em Cima de teus Alpes ver-se
A grau Minerva sobraçando a Égide
Com a angui-crinita frente de Medusa
Onde os Hidros fatais se enroscam, silvam,
Petrificar as Vândalas Coortes,
Qual já Perseu com o diamantino escudo
As iras suspendeu do equóreo monstro,
E Andrômeda livrou. Itália, Itália,
Beligeranres torreões nos mares
De contrarias nações, a Hespéria, a Gália,
E a soberba Albion, respeitam, guardam
Lenho que leva La Peyrouse, e marcha
Com as raras produções do oposto Mundo
A enriquecer a Europa armipotente:
Não é de uma nação, da Terra é todo
O sábio que a riqueza aumenta às artes.
Tal acatada ser, tal tu devias,
Ó domicílio do saber imenso,
E não irem turvar profanas armas
Teus sábios imortais, teus monumentos;
Tudo em ti tinha o Mundo, e as Musas todas
Tinham firmado em ti seu Templo, e trono.
De um vate aceita o pranto, aceita os votos,
Sabe que o Tejo te conhece toda
Entre as cultas nações, tu só me ilustras,
Eu nada tenho que invejar ao Mundo,
Quando em viva abstração te roubo ao Globo;
Sem Filicasa, eu Lírico me aclamo,
Ah! sem Tasso, o Cantor do aceso Oriente
Cedera a nenhum outro Épica tuba;
E meditando harmoniosamente
Eu só fora o Pintor da Natureza
Se Arrighi, e Conti com os pincéis não deram
A tão grande painel mais alma, e vida.

 A acesa fantasia um pouco, um pouco
Das Musas se lembrou deixando as linhas,
Os cubos, e os triângulos de Newton,
E a régua de marfim, compasso d'ouro
Com que ele mede a Natureza toda.
Com quanta glória te serviste dele,
Tu, que a tudo primeiro o exemplo deste!
Não cede, não, Bolonha ao grão Tamisa
Menos Florença, que, em jardins envolta,
Da Física ciência o Império estende;
De Newton ao clarão marcha Zanotti:
Curvo, e velho Ricatti, abstrato, e mudo
A seu sacrário te conduz, Urânia;
De Newton nas fluxões tu luz derramas.
Se teve crime a Sociedade extinta
Aos olhos da razão, tu lho desculpas,
E tu pedes por ela o pranto ao Mundo.
Manfredi, e Grandi, e Nicolai, de assombro
Enche do Neva, e do Danúbio os sábios;
Não mais, não mais a progredir se atreve
O grande Império da ciência exata.
Onde o claro Sébeto as Águas volve,
E ao perto ouve bramir, troar escuta
Do medonho Vesúvio o seio horrendo,
Chega de Newton a ciência, e chega
O desejo de abrir com áureas chaves
Da recatada Natureza o Templo,
Orlandi, e Galiani aos astros sobem,
O grão Maraldi lhes franqueia a estrada;
Com Cassini outra vez se exalta o Mundo.
Se muito a Galileu deveste, ó Newton,
Mais a Itália te deve, as Artes devem,
Na Hespéria à perfeição levadas sempre.

 Mecânica, aos mortais profícuo estudo,
Depois de Newton teu sacrário aberto
Eu vejo pela Europa, e mais se apura
Do maquinista Sículo o talento,
Que atalha os voos das Romanas Águias;
A força cede a força às artes sabias!
Quase vejo surgir Numes na Terra,
A Cujo aceno os corpos obedecem;
Não é a Lira de Anfião que os montes
Manda a Tebas chegar, são leis profundas,
Que às sombras arrancou da Natureza
O estudo da Mecânica pasmoso
Naus se suspendem, diques se apresentam
À fúria sempre indómita dos mares.
Sobe um rio em Marli, corre um penhasco
À ribeira do Neva, e a base forma
Da colossal, prodigiosa mole,
Que representa o criador de Império,
Que hoje a razão defende, o crime insulta.
 
Sem a Itália meu canto erguer não posso;
Se Império Matemático contemplo,
Musckembroecke, e Belidoro a guerra
(Guerra dos sábios são, que o sangue ignoram)
Acendem entre, si, disputam doutos
Do movimento de impelidos corpos,
Que a força perdem gradativamente,
Até que a resistência o moto acabe.
Do Sena, e do Tamisa os sábios todos
De Newton, de Amontons nas leis insistem;
Eis surge, eis brilha o Bolonhês Palcani,
E onde com as doutas maquinas não chega,
Mistérios da razão com a força abrange;
Traça um ramo hiperbólico engenhoso,
Assintótico o diz, com ele explica,
Com ele aclara o disputado arcano.
Se as leis dos corpos sólidos se mostram
Em soberana luz, quanto escondida
Guardava a Natureza a lei constante,
Que pôs desde o começo ao rio undoso,
Que ele na marcha acelerada observa!
Mil equações algébricas a escondem;
Vencem-se em fim misteriosas sombras.
Depois de quanto afã, de quanto estudo
Tu, Saladini, a teoria expunhas,
Que escolho da mecânica tu chamas,
Não superável quase a engenho humano!
Tu deste a Hidrodinâmica pasmosa;
Teu hemisfério hidráulico os louvores
Do taciturno pensador La-Grange
Te soube merecer. Ricatti o grande
Te abraça terno com silêncio augusto,
Sobre teu rosto lágrimas derrama;
Do Sábio velho a cândida ternura
Mais te explica, e te diz, que o louro, o prêmio
Que Berlin te mandou, promete o Sena.

 Mas teus cuidados, as vigílias tuas,
Ó tu de Urânia Sacerdote, e filho,
À ciência dão luz, que os Céus abrange,
Por ti seu Reino estende a Astronomia;
Desde o culto Caldeu, do douto Egípcio
Até quase ao berço teu jazia em sombras;
Nada avançado tinha Árabe estudo,
Guardador do deposito das letras,
Que à fúria se evadiu do Turco indouto
Depois que a sabia Grécia é cinza, ou nada:
Nem mesmo entre os de Dânia agrestes montes,
Onde Tíquico elevou seu tubo aos astros,
Solar sistema se aclarou de todo.
Mas apenas os Céus com a mente excelsa,
Sem te assustar o espaço indefinito,
Ousaste passear, como vencida
Da douta audácia a Madre Natureza,
Ou fez que o Céu, se aproximasse à Terra,
Ou que a Terra de perto os astros visse.
Leis ocultas até ali se patenteiam
E o que Newton expôs, Cassini indaga.
Seguindo a pisa ao fundador, ao mestre
Da ciência astronômica, empunhava
O Telescópio do sutil Campani;
De Saturno os satélites descobre
Quase todos então; busca as estrelas,
Que imortal Galileu Primeiro achara,
Luas de Jove são; fanal aos nautas;
O espantoso fenômeno nos mostra
Da luz Zodiacal, com a paralaxe
Do sanguíneo, medonho, aceso Marte
A distância marcou do Sol à Terra,
Distancia que confunde a mente humana,
E que a luz num momento abrange, e corre;
Sábio traçou Meridiana linha,
E por ela nos mostra o variante
Moto veloz da Terra ao Sol em torno.
Então mais claro no volume imenso,
Dos Céus, já quase aberto, os homens leram.
Foi-lhe sujeita a abóbada brilhante
A radio matemático, qual era
O mortal domicílio aos homens dado:
Paralaxe anual d'altas estrelas,
Que engastadas nos Céus fixas se amostram;
Ideia falsa se aniquila, e foge,
E a lei da aberração mostra a verdade.
 Peregrinando pelos Céus supremos
Vão sábios indagar da Terra a forma
Com a ciência astronômica se marca
Da nossa habitação figura, e termo.
Quase se amostra a longitude ignota
Sobre inconstante mar, onde em cavado
Pinho, avaro mortal circunda o globo.
 Incessante fadiga a luz derrama
No arcano pressentido, e ignoto ainda
Da obliquidade do angulo, que um pouco
Em cem anos na Eclíptica decresce!
Quase deixam seu tom da Lira as cordas
Quando destarte nos umbrais me entranho
Da linguagem dos cálculos, que é sombra,
Que estrema imensamente, e que divide
O frio Euclides do fervente Milton.
Ah! de Ariosto aos êxtases divinos
Calculador pousado em vão se ajusta.
 Como indignado das prescritas metas,
Achadas até ali no espaço imenso
Herschel sobe mais alto, além das tardas,
Luas, que escoltam frígido Saturno.
Lá corre a suspender na marcha Urano,
Leva consigo a Carolina, e ambos
Revolução contínua, e vária encontram,
No luminoso anel que o globo cinge,
Do nem remoto, ou último Saturno;
Quando com ele um Hercules comparo,
Que Olbers descobre, que a carreira imensa,
No giro de dois séculos absolve.
De mais perto se observa a argêntea Lua,
Gelados montes tem, gelados mares,
E tem Vesúvio que vomitam chamas.
É cidadão, e morador é quase
Na Terra inda o mortal do etéreo assento.
Desgraçado Bailly, fuma o teu sangue
No cadafalso vil: tua alma agora,
Já solta das prisões, lá vê nos astros
Se o grão discurso teu, falhou no Mundo.
Se a Terra, dizes tu, se outros Planetas
Por centro do seu giro o Sol conhecem,
Talvez, que o nosso Sol, que os Soes, que fixos
Parecem ser na abóbada azulada?
Tenham centro comum num Sol mais puro,
Mais vasto, e luminoso, e que descrevam
Em roda dele, essa orbita assombrosa,
Que mais remotos tem limite, e termo,
Que a fantasia fervida dum Vate!
La-Lande a imaginou, La-Lande a sente;
Mas, foge, foge aos cálculos, às cifras.
Virá talvez um tempo... ah! se na Terra
Não tiver duração Vândalo Império!
Em que outros vidros, outros tubos mostrem,
Que foi verdade, e luz tão grande ideia!
Depositada está no áureo volume,
Que sobranceiro ao cadafalso, ao sangue,
Não ferio com Bailly furor de Tigres,
Que ao Sena deram leis, e as dão na Europa,
Que os ferros beija voluntaria escrava:
Vileza, e corrupção, chegaste a tanto!
 Não foi sem fruto, não, ou foi deleite
A ciência Astronômica entre os homens!
Ah! quanta, e quanta luz se deve a Newton!
Só são dignas de apreço as artes úteis.
Quão profícuo aos mortais é nauta ousado!
Se tu, Lísia, tens glória, ao nauta o deves,
Que abriu primeiro do Oriente as portas:
E teu nome imortal soou na Terra,
Porque teu lenho undívago a cercara,
Nas Ilhas do Oceano, e mares todos,
Dos Lusos se conserva o nome, e a fama.
Muito pôde o valor, pouco a ciência
No século inda rude, alheio às artes!
Por que inda um Newton não subira aos astros,
Newton, ciência, cálculos, sistemas
Só Magalhães não necessita; basta
Que ao lado dele vão, vingança e honra;
Eis todo o Globo rodeado; é esta
A façanha maior da espécie humana.
Era extinto o fervor nos Lusos peitos
Depois que estranhas leis o Tejo ouvira,
Do mar o senhorio então transfere
Às mãos Britanas o Senhor dos Mundos.
De Vatênio a fadiga ilustra um Newton,
Correm Bretões o mar, e o globo cercam,
Não levados do sórdido, e terreno
Insaciável interesse de ouro;
Mas só por ilustrar, dar mor grandeza
À esfera imensa das ciências todas.
Vai Cook, e vai Byron cercando o Globo
Por inda não tentada, incerta via
Então suspendem generosa marcha
Quando em gelado mar, gelada terra
Da Natureza no decreto atentam,
Que atrás lhes manda bracear as velas;
Que onde a Terra acabou, findar se deve
O trabalho mortal, o amor da glória.
 Ó nome Lusitano, ó Pátria minha,
Eu culpo o teu silêncio, a uma virtude,
Que se apraz de esconder-se, eu chamo inercia.
Descreve Newton com o compasso d'ouro
O globo que Varênio exposto havia;
Foi Cook, e foi Byron, foi Bougainville,
Qual Anson foi guerreiro, e os mares giram.
Do Continente austral foge o fantasma,
Que avarento Holandês (nem hoje avaro;
Nem já por crimes se conhece a Holanda)
Julgou grande porção do globo, e sua.
Assombrado do gelo atrás voltaram,
Mas nunca um passo além com lenho ovante
Da Terra foram que tocara um Luso;
Magnânimo Queiroz, deste-lhe um nome
Para ti foi brasão, e é meta aos outros
Do nebuloso Sul perscrutadores:
E a glória de buscar no Mundo um Mundo,
Se ao pensativo Batavo pertence,
E ao pertinaz navegador Britano,
No Tejo as bases tem, no Tejo a fonte,
Mais além de Queiroz nenhum se avança.
Foi entre tantos Magalhães primeiro,
Todos de um centro os raios se derramam,
Que vem tocar dum círculo os extremos,
Tal do centro de luz, que acende um Newton
Se derrama ao grão círculo das artes
O perpétuo clarão com que hoje medram.
 Quanto a vetusta Física ignorava,
Sobre a essência do ar se mostra aos olhos;
Pisa-se a imensa fluida substância;
E já senhor do mar num curvo lenho
Não lhe basta do Globo o Império inteiro,
Se o domínio o mortal não tem dos ares;
Lá sobe, lá passeia, e vê seguro
Debaixo de seus pés cruzando os raios.
Do antigo Arquitas se escureça a Pomba;
Maior prodígio guarda a idade nossa.
Eu vejo pelo ar volantes carros,
Quais vão nas ondas os baixéis arfando;
E neles os mortais tranquilos vejo
Sem temer o despenho, e não lhes lembra,
Que afrontada destarte a Natureza,
Tire vingança da famosa injuria.
Eu vejo o golpe, e a vítima primeira
Em Rosier intrépido, que sobe;
Ele o primeiro foi, mas prestes passa,
Do regaço da glória às mãos da morte.
 Porém mais úteis os trabalhos vejo
Dos sábios, que o caminho a Newton seguem;
Eis a fonte de incógnitos arcanos
Aberta aos olhos dos mortais absortos;
Eis o elétrico fluido pasmoso
De fenômenos mil já causa ignota;
Do raio a pátria se conhece, e teme,
É das nuvens a elétrica peleja.
Se troa, se rebrama o escuro Inferno
Dentro do bojo de Vesúvio, e exala
O fumo que se expande, e o Céu nos rouba,
E traz ao dia de repente a noite,
E aquela chama, que entre estragos tanto,
Chora o Mundo o maior, de Plinio a morte;
Aqui descobre eletricismo o Sábio.
Sábios ilustres, que mistérios tantos
Descortinar, e conhecer pudestes;
Legislador Americano, os evos
Teu nome guardaram; Nolett, teu nome
Da sapiência nos anais gravado
Eternamente viverá; se as artes
Barbaridade, que extermina tudo,
Quiser poupar da aluviam de ultrajes,
Que às leis, à Natureza, e aos Céus tem feito.
 Da multiforme Boreal Aurora
Mairan, seguindo os cálculos de Newton,
Expôs a causa aos séculos ignota.
Da atmosfera solar porção tirada
Por veloz rotação do térreo globo.
Ao ar então se comunica espesso,
Que as tristes regiões do Polo abafa.
Tu, de Bérgamo o timbre, sábio ilustre,
Tu, Savioli, que na Lira d'ouro,
Cantaste os dons de Ereta, os dons d'Urânia,
Do Volga, e do Borístenes às margens
Foste observar de perto o aceso quadro,
Do Boreal Fenômeno, tu viste
Nos gelos que com os Céus quase confinam
A reflexão dos luminosos raios,
E tantos, tais listões formar nos ares,
Que pelas vastas regiões das sombras,
Ou da morte talvez, suprem um dia.
 Das Artes no progresso a glória vejo
Da indagadora Química, que tanto
Da Europa pelos ângulos se aclama
(Com tanto ardor, que entusiasmo é, certo!)
intérprete fiel se diz da vasta,
Até agora oculta Natureza toda.
Já de antigos delírios despojada,
Se ela analisa os símplices, não busca,
Lisonjeando sórdida avareza,
As pedras converter, (que insânia!) em ouro!
Até mãos Imperiais viste, ó Florença,
Depondo o cetro, tatear cadinhos,
Tanto o prestígio de tal arte pode!
Mas se deles a Purpura não foge,
Fogem por certo as Musas de espantadas:
Nega-se a Lira a bárbaros, e escuros
Termos, que juram sanguinosa guerra
Do metro Luso à mágica harmonia.
Morre-me a chama, que me ferve n'alma,
Se hidrogênio, se azote, ou se oxigênio,
Ousados vem barbarizar meus versos.
Não te negão porém lugar, nem glória,
Lavoisier ilustre, que um momento
Inda pediste ao bárbaro Tirano,
Da vida, ai dor! que despiedado corta,
Em que inda mais à Natureza abrisses,
Nunca de todo, o santuário, aberto!
Mas um Tigre quer sangue, e não ciência;
Tu não choras a vida, a perda choras,
De uma verdade, que contigo em sombra
Perpetuamente no sepulcro é posta.
 Nem do globo as recônditas entranhas
Da vista ao sábio indagador se ocultam;
Tal é o Império do brilhante facho,
Que Newton acendeu! Henckel, Bomare
Então das minas pela treva espessa
Perdem de vista o Sol, da vista o dia,
E à débil luz de pálida lanterna
O profundo vão ver Laboratório,
Em que os metais prepara a Natureza:
Dos homens os quis por, tão longe, e longe!
Viu que do ferro só, não curvo arado,
Mas lixa espada fabricar deviam,
E do bronze os canhões, que o raio imitam,
A tanta assolação chamando glória.
Mais o ouro escondeu no abismo, e sombra,
Devendo ser do mérito a coroa,
Quase sempre é do crime o prêmio, e causa.
 Mas eu duros metais deixo nas sombras:
Distem pouco do Inferno, eu busco o quadro,
Que em sua face a Natureza mostra.
Estudo imenso, dos mortais só digno,
Perene fonte das ciências todas,
Das mesmas Artes mãe que estende o Império
Por quanto abraça o ar, a terra, os mares
Desde o vasto Elefante, à vaga, e bela
Borboleta gentil, que beija as flores:
Da gigantesca, ou colossal Baleia
Ao pequenino lúcido te estaceu,
Que, igual ao grão de areia, à vista foge:
Desde o cedro soberbo, à relva humilde,
Que os gados tosão, que tapiza os prados.
Estudo liberal, que engenho humano
Descobre vasto, interminável campo,
Que o orgulho cientifico confunde
Com tanto, vario, e diferente objeto,
Que imperceptíveis relações conservam;
Quais anéis entre si ligados sempre,
Interminável a cadeia formam,
Que prende, e tem princípio em Ser Eterno.
Tão vasto estudo, glorioso, e belo,
Tanto mais se cultiva, e mais floresce,
Quanto é menos pesada, e menos densa
Nuvem que assombra o social estado
De Antiquário pedante, ou Vate inerte,
Vadio adorador d'alta beleza,
Cuja vida é desprezo, a morte é fome:
De hebdomadal efêmera caterva,
Que do nada surgiu, e ao nada torna
Depois que o povo no momento d'ócio
Escarneceu proféticas promessas.
Estudo augusto, que propaga e cresce
Onde menos o estólido Forense,
E impertinente Puritano existe,
Rico de frases só, de coisas pobre;
Onde menos a enfática Impostura
Precursora da morte, a morte apressa;
E o Quinhentista moedor, mistérios
Nos parece mostrar, se mudo, e triste
Pulverulento códice idolatra,
Que é rico só de antiguidade, e traça.
De insetos tais em ti não viste a praga,
Aviltada Germânia, ah! quando ao Mundo
O grande autor das mônadas oferece
A Protogea. Nem Britânia a sente
Quando Johnston, Derrham, e um Líster dava.
Nem com eles, Itália, então gemeste
Quando dava a Botânica Zanoni:
Quando um Morgagni teu, quando um Borelli,
Nos penetrais da Natureza entravam:
E quando Valisnéri a expunha toda;
Já limpa, e livre de pedantes eras,
Quando a tocha acendia Spalanzani,
E arranca de seu seio altos arcanos,
Quais desde o grande Perípato os evos,
Nunca até ali descortinar puderam.
Nem Gália (agora escrava em sangue, e ferros,
Qual de Piratas vis n'África Empório,
Que o mar Tirreno com as Galés infesta;)
E de rapina, e violência existe,
De Novelistas oprimida estava
Quando o grande Buffon num quadro imenso
A Natureza à Natureza mostra.
Se a tempestade das Novelas surge,
Se os Jornais a si mesmo, e os homens matam,
Se a militar, política mania
Começa de deixar tão ermo o Globo,
É pastor Daubenton, Soninni expira
(Inda feliz que ao cadafalso escapa)
Do esquecimento, e da penúria em braços.
Da Natureza não prospera o estudo,
Nem se conhece um Newton, se estes vermes
Da ciência os alcáçares maculam:
Nunca do Tejo às margens se aproximem,
Terá trono a ciência, as Artes preço:
Lusitânia terá Buffons, e Plínios;
E Vates, que estudando a Natureza,
Saibam dar justo emprego ao dom das Musas,
Se tem tal nome, o ingênito talento,
Que alta facúndia a números sujeita,
Que em grande tudo vê, que imagens fala,
E que, a razão ligando à fantasia,
Da força, da calor, da vida a tudo.
 Mas de tristeza um véu me envolve, e fecha
Tudo o que palpo, e que diviso, é sombra!
Dela vejo romper Fantasma horrendo;
Ao rosto atroz, às Sanguinosas vestes
Eu conheci, (que dor!) Barbaridade!
De Omar a férrea Cimitarra empunha,
Na esquerda, e negra mão fulgura a tocha,
E se me antolha já que um vasto incêndio
Das Artes o deposito consume:
Que já são pasto da estridente chama
Das Musas todas as vigílias doutas!
Nem teu mesmo volume escapa, ó Newton.
Oh perda!... Oh Albion, manda os teus raios
Eles podem vedar bárbaro incêndio.
Corre, e na Espanha pulveriza os monstros,
Que onde quer que do corpo a sombra espalham,
Turva se o ar, se esteriliza a terra,
Da vida, e da ciência amor expira.
Em quanto além do Vístula rompendo
D'honra, e valor o sufocado incêndio
Desfecha o raio, que talvez da Europa
De uma vez para sempre a injuria vingue.
Então do caos recuando o Império,
Um dia assomará que traga ao Mundo
A luz que a Grécia viu, quando na escola
O Gênio de Estagira absorta ouvia;
Quando aceso Demóstenes da boca
D'áurea eloquência as ondas entornava,
E além das nuvens Píndaro subia;
A luz já vista fulgurar em Roma
Quando Augusto a seu lado assenta Horácio,
Ou Túlio a dúbia liberdade escora:
Qual séculos depois raiou mais clara
Do Decimo Leão no Império exímio,
Quando o Segundo Júlio às Artes abre
O Templo, que até ali fechara o Godo:
A luz que a França mais ditosa vira
Do tão Grande Luís brilhar nos dias.
Então dos Céus descendo a Paz serena,
Da profícua Oliveira ao lado os Louros
Fará brotar, reverdecer, coroar-se
Com sua rama a majestosa frente
Do profundo Filósofo, e do Vate.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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