sábado, 23 de maio de 2020

Sá de Miranda (Ensaio), de Antero de Quentão


 POESIAS DE SÁ DE MIRANDA
POR: ANTERO DE QUENTAL (1886)

Edição feita sobre cinco manuscritos inéditos e todas as edições impressas, acompanhada de um estudo sobre o Poeta, variantes, notas, glossário, e um retrato, por Carolina Michaelis de Vasconcelos; Halle, Max Niemeyer, 1885.

É esta a primeira edição crítica das Poesias de Francisco de Sá Miranda, o Horácio e o Sêneca português, como lhe chamaram os contemporâneos, o reformador do Parnaso português no século XVI.
Foi necessário que se passassem mais de 300 anos (Miranda morreu em 1558: a primeira impressão de parte das suas obras tem a data de 1595) para que aparecesse uma edição crítica, indispensável todavia desde o primeiro dia. E ainda assim não a devemos a nenhum dos nossos — como a nenhum dos nossos devemos a admirável edição do Cancioneiro de Garcia de Resende (de Stuttgard), a edição diplomática do Cancioneiro do Vaticano (publicada em Halle pelo italiano Monaci) e tantos outros valiosíssimos trabalhos sobre a nossa língua e literatura, publicados, no decurso dos últimos 50 anos, em Alemanha, Holanda e França. Uma senhora alemã, hoje portuguesa pelo casamento, pessoa tão modesta como inteligente e laboriosa, e a quem a história da língua e literatura portuguesas tinha já a agradecer trabalhos, que, por passarem desapercebidos nesta verdadeira Caverna do Esquecimento, que é o Portugal de hoje, nem por isso deixam de ser de primeira ordem, empreendeu e levou a cabo a restauração do texto do grande poeta moralista do século XVI, que até agora andava, mais do que o de nenhum outro dos seus contemporâneos, incerto, obscuro e deturpado. O trabalho corresponde plenamente ao muito que havia a esperar do saber e penetração da autora daquela notável série de Estudos camonianos, que começaram a lançar alguma luz sobre o estado caótico do texto do nosso grande lírico.
Dez anos de aturado trabalho; estudo comparativo escrupulosíssimo das edições impressas e dos manuscritos inéditos; conhecimento profundo e quase topográfico da época, dos costumes, dos personagens, da língua, das tendências intelectuais, uma extraordinária familiaridade com todas as fontes do grande século; um grande e seguro sentimento da realidade histórica; critério penetrante e elevado, ainda no meio das minudencias a que tem de descer — eis o que representa esta edição crítica, que não encarecerei chamando-lhe um modelo.
Não sei se entre os romanistas da Alemanha (penso sobretudo no sábio Storck) haverá algum que tivesse podido desempenhar-se do encargo, como se desempenhou a Sra. D. Carolina Michaelis: mas creio que afoitamente se pode afirmar que em Portugal, com exceção desta senhora, ninguém mais o poderia fazer, com igual êxito. Não é este um fato bem singular?
Hoje, são os estrangeiros que estudam e estimam a nossa antiga literatura: nós não. A crescente e hoje quase total desnacionalização do espírito público é o fato mais considerável da nossa psicologia coletiva, nos últimos 50 anos. Os da atual geração, pode dizer-se que, pelo pensar, pelo sentir, deixaram já de ser portugueses. Há por aí muito rapaz inteligente e, a seu modo, instruído, que conhece mais ou menos Molière, Racine, Voltaire e até Rabelais e Ronsard, e que nunca leu um auto de Gil Vicente, uma canção de Camões, uma égloga de Bernardim Ribeiro ou de Bernardes, uma carta de Ferreira ou de Sá de Miranda.
Os que conhecem um pouco intimamente a história das revoluções portuguesas neste século (não falo só das políticas) e têm refletido sobre ela, acharão facilmente a explicação deste fato e, mais do que a explicação, a necessidade dele. Mas nem por isso deixa de ser coisa triste de considerar este abismo de esquecimento, que se abre cada vez mais largo, entre o pálido, anêmico e inexpressivo Portugal de hoje e aquele seu grande ascendente, o heroico, o pitoresco e inspirado século XVI. A falta de sentimento nacional poderia, até certo ponto (no que diz respeito ao estudo da nossa antiga literatura) ser suprimida pelo sentimento histórico, pela curiosidade crítica e filológica, como dizem os alemães: mas a decadência dos estudos históricos tem vindo acompanhando pari passu a decadência do sentimento nacional sem que um ponto de vista mais largo, puramente cientifico, viesse, como em França, por exemplo, substitui-lo eficazmente, para compensar aquela falta, pelo menos na esfera da inteligência e do gosto.
Esse sentimento filológico (geral, humano, crítico, não restrito e nacional) é o que caracteriza, entre todas as nações cultas, o espírito alemão. Na sua imparcial simpatia, tão vasta como a natureza humana, abraça ao mesmo tempo a antiguidade e os tempos modernos, as idades clássicas e os períodos bárbaros, o Oriente e o Ocidente, todas as raças e todas as culturas. Essa simpatia exige uma só condição: a originalidade. Tudo quanto foi realmente vivo, quanto manifestou uma maneira sui generis de ser e de sentir, tudo quanto revelou uma face distinta da complexa natureza humana, tem direito à sua atenção. E é por isso que a erudição alemã se distingue por uma feição única: é uma erudição viva. Houve erudição e eruditos: a curiosidade pelas coisas passadas é uma das funções da inteligência. Mas uma erudição que sente ao mesmo tempo que indaga, que crítica e juntamente simpatiza, minuciosa e entusiasta, indagadora e poética; uma erudição que revolve montanhas de textos, datas, documentos, para descobrir, não factos secos e mortos, mas a alma e a vida das coisas extintas; uma erudição, se assim se pode dizer, inspirada, tal como nos aparece nesses heróis da filologia, os Boeckh, Welcker, Herman, F. A. Wolf, Winckelmanm, Grimm, Niebuhr, Creuzer, Otfried Muller, Ritschl e tantos outros; uma tal erudição era coisa desusada, e sem precedentes. Ela transformou a compreensão da história, fazendo circular uma vida nova através dessas criptas dos séculos sepultos, onde a candeia fumosa da velha erudição acadêmica apenas espalha uma claridade fantástica, quase tão morta como as cinzas que ali repousam.
E aí está porque vemos uma senhora alemã publicar estudos magistrais sobre o texto de Camões, publicar uma edição crítica das Poesias de Sá de Miranda, preparando-se assim, durante anos, com toda a casta de subsídios linguísticos, históricos e arqueológicos, para nos dar (ou antes, para dar à Alemanha) uma história da literatura portuguesa. Outros lhe darão a história da literatura indiana, ou da chinesa, da grega, da hebraica, da poesia dos Trovadores, das epopeias da Idade Média, que sei eu? pois não há um canto do vasto mundo da história, que escape à curiosidade ardente e penetrante da erudição alemã. A Sra. D. Carolina Michaelis internou-se pelo reino semiclássico do Romanismo e aí conquistou para si uma província, bem mais famosa do que conhecida, ainda dos mesmos nacionais: a língua e literatura portuguesas.
Mas, dirão muitos, que necessidade havia de uma edição crítica de Sá de Miranda? pois não há por aí tantas edições dos poetas Quinhentistas, desses famosos clássicos, que pouquíssimos leem, é certo, mas que ninguém que se preze deve deixar de citar com veneração, e até pode romper no excesso de ter na sua biblioteca?
Estes ignoram (nem admira) que esses veneráveis clássicos são, até certo ponto, um mito. Exceto o de Ferreira, nada há mais duvidoso do que o texto desses desgraçados poetas. Das suas obras, a maior parte só se imprimiram depois da morte dos autores, nalguns casos vinte, trinta, ou mais anos depois. Imprimiram-se sobre cópias manuscritas e geralmente cópias de cópias, e os editores não se esqueceram de juntar aos erros dos copistas, ou supostos erros, as suas próprias emendas. A mesma paternidade das obras é em muitos casos duvidosa. Dos sonetos atribuídos a Camões pelo seu mais recente editor, o Sr. Teófilo Braga, boa terça parte não lhe pertencem ou são duvidosos. Três églogas de Bernardes são dadas geralmente como de Camões. Há autos de Gil Vicente que pertencem muito provavelmente a outros autores. Poderiam multiplicar-se estes exemplos. Em geral, os poetas de maior nomeada absorveram pouco a pouco as composições dos menos famosos. E ainda se fosse só isso! Mas o próprio texto de cada uma das composições não oferece, em geral, a autenticidade suficiente: a linguagem foi retocada pelos copistas ou editores; muitos versos foram substituídos. Junte-se a isto a variedade de lições, de edição para edição, de manuscrito para manuscrito (dos que ainda existem, e são bastantes) e compreender-se-á o que quis dizer com a palavra mito. Quis dizer que quando cuidamos ler Camões, por exemplo, podemos muito bem estar lendo Bernardes, ou Caminha, ou Bernardim Ribeiro, ou vice versa podemos também estar lendo alguns daqueles minores, que foram absorvidos na aureola dos cinco ou seis astros de primeira grandeza — ou podemos simplesmente estar admirando o parto engenhoso do editor do século XVII.
Os antigos editores portugueses nunca primaram por críticos: se ainda é tão raro encontrar um que o seja! O editor português era, antes de tudo um devoto: ele saía à estacada, não para apurar um texto, o texto preciso, com as suas lacunas, defeitos ou erros, se os tinha, mas para levantar o seu poeta acima de todos os outros, atribuindo-lhe o maior número possível de composições e com a forma mais perfeita possível. Se encontrava um papel velho, no canto de alguma biblioteca devia ser do seu poeta: publicava-o. Se os versos eram maus, é porque a cópia estava errada: emendava-os. E é assim que, de edição para edição, foi crescendo o número de composições duvidosas, crescendo o número de interpretações e emendas, com que o texto cada vez mais se ia depurando.
Dos poetas do século XVI, os dois mais maltrados pela devoção impertinente dos editores são sem dúvida Sá de Miranda e Camões. Para este último não sabemos quando chegará o dia da justiça (da justiça filológica, entenda-se) mas deve estar longe, a avaliar pela maneira porque os seus dois mais recentes editores, aliás beneméritos pelo trabalho e grande amor ao poeta, os senhores Visconde de Juromenha e Teófilo Braga, se houveram nas suas edições, que, em pontos de crítica, correm parelhas com as dos mais devotos editores do século XVII. Talvez nunca chegue, a não ser que se meta nisso algum alemão. Sá de Miranda, ao menos, pode ler-se com segurança no texto crítico, admiravelmente discutido e apurado, da edição de Halle.
Sou pouco erudito, nem estou escrevendo um artigo para alguma Revista filológica, mas uma simples notícia para um jornal diário: por estas duas razões, não me posso alargar pela análise do trabalho da Sra. D. Carolina Michaelis, entrando pela parte técnica dele. Quero só observar ainda uma coisa: é que este volume de mais de 1000 páginas, e carregado de notas, é um livro interessantíssimo. Por quê? pelo que acima disse do caráter da filologia alemã. O sentimento histórico anima toda aquela erudição; a compreensão da época dá relevo e interesse às indagações aparentemente áridas de datas, genealogias, etc. A cada passo encontramos uma circunstância, um fato biográfico, pormenores de costumes, que abrem repentinamente uma nesga do horizonte sobre aquela vida extinta e a fazem ressurgir para a nossa imaginação. Quanto saber, mas saber inteligente, saber que diz e ensina, enterrado modestamente naquelas notas, que ocupam as últimas 200 páginas do volume! Essas notas, juntas com a magistral Introdução, constituem uma verdadeira monografia de Sá de Miranda. Com aqueles elementos poderia a autora ter feito propriamente um livro de literatura, que se contaria entre os melhores e seria lido, citado e festejado. Preferiu a essas vaidades o cumprimento quase religioso de um encargo, há três séculos por cumprir, fazendo ao velho Poeta o maior serviço que ele imploraria, se pudesse erguer a voz do seu túmulo: a restauração do texto das obras. O bom Sá (como lhe chamavam no século XVI e depois) encontrou afinal um nobre espírito, que piedosamente e quase filialmente escutou aquele queixume de uma pobre larva e consagrou dez anos da sua vida para a satisfazer. O bom Sá deve agora dormir descansado no seu túmulo.
Bom Sá! Diz o velho biografo que, nos seus últimos tempos, "com a magoa do que lhe revelava o espírito dos infortúnios da sua terra se afligia tanto, que muitas vezes se suspendia e derramava lágrimas sem o sentir." Tenho cismado muitas vezes nestas lágrimas do poeta humanista da Renascença. E, não sei como, a minha imaginação aproxima-as logo da trágica melancolia de Miguel Ângelo, da nobre tristeza de Vitoria Colona, da misantropia incurável de Machiavel, da nuvem de desgosto e desalento que envolveu a velhice de quase todos os grandes espíritos da Renascença. Tinha motivo de chorar o nosso Sá de Miranda, como tinham motivo de se entristecerem os seus ilustres congêneres. É que eles pressentiam todos, uma coisa sinistra: o abortamento da Renascença. Àquela imensa aurora sucedia, quase sem transição, o crepúsculo noturno: e eles, os videntes, divisavam naquele crepúsculo inquietador os movimentos de formas estranhas e sombrias, como de monstros desconhecidos, e ouviam passar vozes mais assustadoras ainda, vozes que cresciam formidáveis de todos os pontos do horizonte, sem se ver quem as soltava.
Aí por 1550, o abortamento da Renascença era já visível aos olhos dos que ainda restavam daquelas duas incomparáveis gerações dos promotores dela. O Concilio de Trento entrara já na sua 6ª sessão e era agora irremediável a cisão do mundo latino com a Reforma germânica. Começavam as guerras da religião, que iam durar, numa fúria crescente, perto de cem anos, destruindo nações inteiras. Os Jesuítas abriam os seus Colégios, onde o espírito da Renascença, sofismado, amesquinhado, pervertido, servia de capa à reação. Por toda a Península, fumavam e crepitavam as fogueiras da Inquisição. O Humanismo alado transformava-se em erudição plúmbea, inerte. A Arte caía da criação no amaneiramento. Um furor indescritível, furor de disputas, furor de matanças, apossava-se da Europa e o pensamento livre, os sentimentos largos e humanos, a alta cultura pareciam prestes a desaparecer da face da terra.
Tudo isto viam ou previam aqueles grandes espíritos. Tinham sonhado salvar o mundo pela razão, e a razão parecera impotente, e o mundo desesperado apelava definitivamente para a sem-razão. Daí aquelas incuráveis melancolias de uns, aquela desdenhosa misantropia de outros; daí as lágrimas do nosso Sá. Este antevia ainda outra coisa: a morte da pátria. Aquele ouro do Oriente parecia-lhe já (como depois se viu bem que era) um cáustico sobre o corpo da nação, que lhe queimava, que lhe roía as carnes, até a deixar seca de todo, um esqueleto. Tinha motivo sobejo de chorar, o pobre poeta!
Sim, lembram-me muitas vezes aquelas lágrimas. Descubro mais de uma analogia entre aquela idade e a nossa. A razão não morreu, afinal. Soterrada, respirando apenas, ressurgiu todavia. Somente mudou de trajo e de nome: já não é Humanismo, como no século XVI: chama-se agora Filosofia, mas é sempre a mesma, é sempre a razão. E nós também, filhos da Filosofia, sonhamos salvar o mundo pela razão, dar-lhe ordem e paz com as leis eternas por ela reveladas. Mas o mundo parece novamente atacado de vertigem, parece apelar mais uma vez para a sem-razão, para os instintos bestiais e para uma superstição mais monstruosa ainda do que as passadas: a superstição da força. A democracia à maneira que triunfa, perverte-se, parecendo preparar-se para marcar um despotismo sem nome, o despotismo anônimo da multidão, o achatamento universal.
Lembram-me as lágrimas de Sá de Miranda. Se teremos também de as chorar na nossa velhice? Esperemos que não, ou digamo-lo, pelo menos, para não desanimar ninguém — para não desanimarmos também nós.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)


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