sábado, 23 de maio de 2020

Uma sátira Sá de Miranda (Ensaio), Camilo Castelo Branco



UMA SÁTIRA DE SÁ DE MIRANDA
POR: CAMILO CASTELO BRANCO (1887)

Alguns jornais provincianos, quando o Sr. visconde de Lindoso, há dois meses, foi promovido a conde, disseram que na geração de sua excelência havia dezenove alcaides-mores de Lindoso, a contar desde o reinado de D. Diniz. Se há erro na contagem, não serei eu que o corrija. O leitor não há de, desta vez, exultar com a certeza de que o Sr. conde de Lindoso tem dezenove alcaides na sua árvore genealógica.
O meu propósito é averiguar se algum desses dezenove praticou façanha que o imortalizasse na crônica ou na epopeia.
Efetivamente, deparou-se-me um, cujo nome está identificado a uma poesia de Francisco de Sá de Miranda. Dos outros, por enquanto, apenas sei os nomes e as tradições prováveis dumas existências obscuramente e honradamente pacatas em Guimarães, no transcurso de quatro séculos.
A celebridade que Sá de Miranda, comendador das Duas Igrejas, deu ao alcaide seu contemporâneo e vizinho, não é nada épica.
Chamava-se o alcaide-mor de Lindoso, Cristóvão do Vale, e residia no seu castelo. Sá de Miranda morava na sua casa comendatária da Tapada, não longe de Lindoso. Tinha o poeta um criado galego que o alcaide, espécie de administrador de concelho e comissário de polícia do século XVI, prendeu por motivos insignificantes. Sá de Miranda, escrevendo em Redondilhas a seu cunhado Manuel Machado, Senhor de Entre-Homem e Cavado, conta-lhe a prisão do galego, lardeando a notícia de axiomas sentenciosos que muito lhe abonam a antonomásia de Sêneca português. Principia assim:
Inda que eu ria, e me cale,
Que me eu faça surdo e cego,
Bem vejo eu porque o do Vale
Correu tanto ao meu galego.
Enquanto o do Vale lhe corre o galego, diz ele que uns
Ladrões de seiscentas cores
Andam por aqui seguros,
Não lhe saem tais corredores.
E a causa dessa impunidade é que o alcaide não fazia caso dos malfeitores que lhe ameaçassem o físico:
Após quem torna a si
E primeiro mata ou morre
Não corre o do Vale assim,
Que após um tolo assim corre.
E vai nomeando uns patifes que andavam a salvo, um Bastião, um Ribeiro, personagens que se faziam respeitar pela valentia ou pelo dinheiro.
Depois de muitas máximas de sã moral, o poeta volta-se para o governo e exclama:
Executores da lei,
Havei vergonha algum dia!
Este chama: Aqui dei rei!
Este outro chama a valia.
Ora o fecho da sátira, que é o mais pungente dela, está deturpado na composição negligente das impressões que conheço, deste feitio:
Outro chama: Portugal!
De varas não há e míngua.
Desata a bolsa, que val.
Traze sempre alada a língua.
Com esta construção, assim aleijada, a sátira penetrante fica de todo desluzida e estragada. Para que os equívocos flageladores ressaltem do jogo das palavras de acepção dupla, a reconstrução deve ser esta:
Outro diz: em Portugal
De varas não há aí míngua;
Desata a bolsa, que Vale
Traz sempre atada a língua.
(Neste verso adotei uma variante que se encontra na última edição das poesias de Sá de Miranda).
É claro o intuito mordaz do poeta. Manda desatar a bolsa. Procede uns bons cinquenta anos o Put money in thy purse de Shakespeare. O poeta inglês, pela boca perversa do honest Iago, mandava encher a bolsa; o português manda desatá-la depois de cheia; é a mesma ideia. Desata a bolsa, diz ele, porque o Vale, o alcaide de Lindoso, quando o amordaçam com dinheiro,
Traz sempre atada a língua.
O verso é mau; mas Sá de Miranda visava principalmente a fazer boa filosofia, e contentava-se em alinhavar versos conceituosos em prosa chã; por isso mofava dele o Camacho, na Jornada do Parnaso, taxando-o de
Poeta até o umbigo, e os baixos prosa.
Seja como for, dos dezenove alcaides de Lindoso nenhum outro se gaba de ter o seu nome registado na obra do grande mestre da Renascença lírica da Península.
***
Não sei se é notório em Portugal e nomeadamente no Chiado e Clérigos que uma senhora, nascida e educada na Alemanha, e residente não há muitos anos no Porto, publicou em 1885 uma edição das Poesias de Francisco de Sá de Miranda, impressa em Halle. É um volume de 1085 página, a saber CXXXVI que compreendem a biografia do poeta, a topografia de Carrazedo de Bouro, da quinta da Tapada, do solar de Crasto, e a notícia particularizada dos códices manuscritos e das edições impressas que a ilustre escritora manuseou. As 946 páginas restantes compreendem as poesias conhecidas e as inéditas colhidas de vários manuscritos, repartidas em quatro secções; e na seção ou parte 5ª encontram-se todos os poemas dedicados a Sá de Miranda. Na margem inferior de cada página inscreve a Sra. D. Carolina Michaelis de Vasconcelos as variantes dos códices conferidos, e nas Notas, que começam a página 739, entra sua excelência na parte crítica do seu valioso trabalho, desenvolvendo raros e copiosos conhecimentos da literatura portuguesa dos séculos XV e XVI, e da vida íntima dos seus poetas.
Referindo-se à sátira de Sá de Miranda, cujos fragmentos trasladei, escreve a ilustrada senhora à página 754: As alusões a um Da Vale... já não podem ser decifradas. Seria assombroso que sua excelência conseguisse exumar da poeira dos cartapácios genealógicos de Guimarães aquele Cristóvão do Vale, alcaide infesto ao serviçal do poeta. Quantas gerações de leitores da carta do comendador das Duas Igrejas terão passado inconscientes por sobre aquelas alusões!
Nas notas, porém, da Sra. D. Carolina de Vasconcelos há lances de investigação histórica tão penetrantes e intuitivos que dão muito a esperar, se os seus estudos nos baldios ingratos da arqueologia literária não desanimarem arrefecidos pelo desafeto que os portugueses manifestam pelo arcaísmo.
Aqui se me oferece um exemplo de lucida exploração investigadora no livro admirável desta senhora. Na Carta V de Sá de Miranda a Antônio Pereira (página 237), o poeta, referindo-se ao solar dos Pereiras, escreve:
Do qual irão há muitos anos
Um que aqui Braga regeu,
Pondo aparte os longos panos,
O passo dos castelhanos
À espada o defendeu.
Comentando estes versos, explana a Sra. D. Carolina de Vasconcelos: Julgamos que se trata do avô do grande condestável, isto é, de D. Gonçalo Pereira que regeu Braga como arcebispo no meado do século XIV. Quando o infante D. Pedro invadiu em 1354 as províncias de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes acompanhado de seus cunhados D. Rui de Castro e D. João de Castro foi ao seu encontro o arcebispo de Braga, que o havia advertido em tempo dos sinistros projetos de D. Afonso IV. O prelado apresentou-se como medianeiro para acalmar a contenda, e desviou o colérico infante do Porto...
Esta exposição tem equivocações. Sua excelência como logo veremos, corrige alguns enganos com muita boa crítica histórica; outros, porém, que não emenda, pedirei licença para os apontar. O infante D. Pedro não invadiu a província de Entre Douro e Minho em 1354. Inês de Castro foi assassinada em 7 de janeiro de 1355. A rebelião do filho contra o pai começou nesta última data e terminou em 6 de agosto do mesmo ano, pelas pazes feitas em Canavezes. Quanto aos irmãos de Inês: ela não teve algum que se chamasse João ou Rui. Teve dois: um, seu irmão inteiro, chamou-se D. Álvaro Pires de Castro, que foi conde de Arraiolos e condestável; o outro, seu meio irmão, chamou-se D. Fernando Rodriguis de Castro. Além destes irmãos, teve uma meia irmã, D. Joana de Castro, que, depois de viúva de D. Diogo, senhor de Biscaia, casou com D. Pedro, o Cruel, rei de Castela, depois da morte de Maria Padilha.
Quanto ao arcebispo D. Gonçalo Pereira, considerado por todos os escritores nacionais e estranhos que há mais de dois séculos tratam a história portuguesa no século XIV, pacificador na guerra civil consecutiva à morte de Inês de Castro, emenda a Sra. D. Carolina de Vasconcelos (página 882): O arcebispo de Braga, D. Gonçalo Pereira, jaz sepultado numa capela anexa à Sé de Braga, onde na inscrição tumular se lê ter ele morrido no ano de 1348. É, pois, impossível que a lenda sobre a sua intervenção nas lutas de D. Pedro, o Justiceiro, e de Afonso IV (1354) seja verídica.
Conjetura depois a reflexiva escritora se o poeta aludiria à intervenção do arcebispo nas pazes entre o infante D. Afonso IV e seu pai D. Diniz, ou à concórdia que o mesmo prelado restabeleceu entre Afonso XI de Castela e Afonso IV de Portugal.
Estas hipóteses sugeriu-lhas o Nobiliário do Conde D. Pedro, editado por Alexandre Herculano. Não pode, todavia, prevalecer alguma dessas conjeturas da excelente comentarista; porquanto Sá de Miranda, nas suas trovas, não trata de pazes; é de guerra, e à ponta da espada com castelhanos:
Um que aqui Braga regeu
Pondo aparte os longos panos
O passo dos castelhanos
À espada o defendeu.
Daqui a pouco, espero conseguir que sua excelência aceite o fato histórico, desembaraçada de hipóteses, como ele se acha escrito nos antigos livros portugueses.
Quanto à morte de D. Gonçalo Pereira emendou sua excelência um descuido repetido por todos os historiadores desde Manuel de Faria e Sousa e D. Rodrigo da Cunha, que também faz D. Gonçalo contemporâneo de D. Pedro I, já reinante.
A data da morte do arcebispo em 1348 não era estranha para mim, quando em 1874 escrevi: "Em 1347 foi D. Gonçalo visitar a província transmontana. Chegando a Vila Flor com grande séquito, travaram-se ali os seus criados com os moradores da terra, e de ambas as partes beligerantes morreram quatro homens e saíram doze malferidos. Tangeram os sinos a rebate. Levantou-se a povoação armada. Cercaram a residência do arcebispo, mataram-lhe seis homens, e matariam o próprio prelado, se não fugisse, pendurando-se de uma corda, que lhe não evitou cair de costas no terreiro e contundir-se gravemente. Não contentes os de Vila Flor com a fuga do seu arcebispo, tomaram-lhe as malas, de envolta com parte dos capelães e seis criados. Protegido por atalhos, o contuso prelado chegou a Carrazeda de Anciães, povoação importante naquele tempo, fortificou-se no castelo, fez lavrar instrumento público, e enviou-o a D. Afonso IV. O rei, poucos dias depois, mandou a Vila Flor uma alçada com dois algozes bem escoltados, e fez enforcar os sacrílegos que pode colher na devassa. Esta vingança nem por isso aliviou os incômodos do arcebispo descadeirado na queda. Transferido a Braga, deitou-se para nunca mais se erguer. Quatro meses depois adormeceu no Senhor" (Noites de insônia).
Neste mesmo artigo, comemorando as proezas do avô do condestável D. Nuno Alvares, escrevi: Fora ele ainda quem acaudilhara a hoste de portugueses, quando uma invasão de espanhóis, em desapoderada fuga, deixou o sangue de trezentas vidas nas lanças dos alabardeiros do arcebispo. 
Aqui tem sua excelência a façanha que o Sá de Miranda celebrou na sua carta a um dos descendentes do prelado guerreiro; e para que a ilustre escritora a conheça de melhor autoridade que a minha, aqui lhe dou o traslado de cronista antigo: "Por estes anos, entraram por ordem de el-rei D. Afonso onzeno de Castela pelo reino de Portugal, com mão armada, D. Fernando Rodrigues de Castro e D. João de Castro seu irmão, capitães do reino de Galiza, roubando, desbaratando quanto achavam, com muita gente de armas, até chegarem à cidade do Porto, e fazendo todo estrago que podiam sem acharem resistência, estando juntos nela o bispo D. Vasco, e D. Gonçalo Pereira, arcebispo de Braga, que antes fora Deão do Porto, e o Mestre de Cristo D. Frei Estevão Gonçalves refizeram 1:400 homens entre infantes e cavalos, com os quais os contrários não quiseram cometer peleja; e voltando as costas se foram recolhendo com a preza que levavam; mas seguindo-lhe os portugueses o alcance lhe fizeram largar tudo, e custar a retirada mais do que cuidavam, até que com morte de D. João de Castro e outros muitos soldados se foram recolhendo a Galiza: foi isto na Era de 1374, ano de Cristo 1336..." (D. RODRIGO DA CUNHA, Catálogo dos B. do Porto)
Não nos restam, pois, incertezas quanto ao feito de armas encomiado por Sá de Miranda; e de todo em todo, à vista do ano em que faleceu o arcebispo, irrefutavelmente fixado pela Sra. D. Carolina Michaelis, é excluído aquele prelado da intervenção que os historiadores e até modernos dramaturgos lhe dão nos sucessos posteriores à morte de Inês de Castro.
Mas, donde procede essa confusão dos historiadores? Quem é o sacerdote Pereira que defendeu o Porto da invasão do infante D. Pedro em 1355? Vamos conhecê-lo.
Assim como leu a página 285 do Nobiliário do Conde D. Pedro, se a Sra. D. Carolina de Vasconcelos lesse a página 286, achava a decifração do enigma. Aí nos conta o continuador do conde de Barcelos (digo continuador, porque D. Pedro falecido em 1354, não podia referir factos ocorridos em 1355) que o defensor da Vila do Porto, não fortificada, foi D. Álvaro Gonçalves Pereira, filho do arcebispo D. Gonçalo. Não foi portanto, o pai; foi seu filho, o prior do Crato, pai do condestável D. Nuno. E porque o texto do Nobiliário tem uma concisão engraçada e pitoresca não será desagradável ao leitor conhecê-lo. Vai textualmente: Este Prior D. Álvaro foi o que pôs os pendões por muro, estando na vila do Porto para a guardar por mandado del-rei D. Afonso IV, porque o Infante D. Pedro andava alçado dele, queimando e destruindo muitos lugares do Reino, fazendo mal e danando a Diogo Lopes Pacheco, a D. Gil Vasques de Rezende e a Pero Coelho e a todos os que ele culpava que foram conselheiros na morte da infanta D. Inês de Castro, que citei seu padre matou, e a vila do Porto não era murada em aquele tempo, senão em poucos lugares de mau muro, e o Prior D. Álvaro fez muros de pendões das naus que aí estavam, chantando as hastes deles pelo campo a redor da vila, e percebendo (industriando) suas gentes como defendessem os pendões. O Infante D. Pedro esteve aí em cerca da vila 16 dias com grande poder de fidalgos portugueses e de Galiza. Estes fidalgos desejavam muito cobrar a vila por a riqueza dela. Isto durou até que chegou El-Rei D. Afonso IV, e o Prior D. Álvaro entregou-lhe sua vila, e alguns disseram que o Infante se sofreu de combater a vila por honra do Prior D. Álvaro. A verdade assim pareceu, que o Prior D. Álvaro, como entregou a vila a seu senhor El-Rei começou de andar em preitezias (negociações) entre El-Rei seu padre e aveu-os (avançou-os) e fez-lhe dar a sua quantia de maravedis que seu padre lhe tinha alçada (suspensa) e fez-lhe dar o condado ao Infante D. João seu filho, e outras muitas mercês... etc.
Aí está o fato histórico. A correção reconstituinte da Sra. D. Carolina de Vasconcelos e os esclarecimentos que ouso oferecer-lhe serão bastantes para expungir das histórias pátrias que por aí correm a intervenção lendária do arcebispo de Braga na guerra civil de 1355? Talvez não. Há erros enquistados que nenhum bisturi de crítica desarreiga.
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Recopilando as impressões que recebi do livro da ilustrada alemã: a biografia de Sá de Miranda, expurgada de inveterados erros, está primorosamente redigida. A minudenciosa visita de sua excelência ao Castro e à quinta da Tapada revelam o amor com que a autora estava possuída do seu assunto. As reflexões filológicas rescendem um sabor germânico de que em Portugal decerto não achou exemplos. A linguagem, a despeito de quase imperceptíveis incorreções, parece ter sido estudada nos melhores mestres desde os primeiros alvores da sua educação literária. Desata problemas envencilhados de genealogias; restitui a uns poetas obras atribuídas a outros; gradua o quilate dos diamantes que lapida sob o esmeril da crítica mais esclarecida. Coteja factos contemporâneos dos poemas, para lhes averiguar a ideia ou a alegoria. Prodigiosa paciência e rara vocação por tanta maneira divergente da nossa índole superficial em averiguações desta natureza!
Devemos, portanto, à insigne escritora a primeira edição digna do grande e quase olvidado poeta. Devemos-lhe além disso ter feito mais conhecido e apreciado do que era em Alemanha o grande luminar donde promanaram discípulos como Antônio Ferreira, Diogo Bernardes, Andrade Caminha, e a plêiade de seiscentistas que formam com Luís de Camões a idade áurea da literatura portuguesa.
Com o livro estimável da ilustrada escritora será mais lido em Portugal Sá de Miranda? Envergonho-me de confessar que não. Sua excelência achou-me exagerado quando eu disse, que na minha terra se conhecia o poeta Sá pelas charadas. "Sou poeta português-I. Poeta português com uma sílaba? É por força Sá."
Insisto em teimar, minha senhora, que, quando a transcendente idiotia das charadas cair no abismo do ridículo, apagar-se-á de todo o nome do poeta. E, quando isso suceder, folgará grandemente a alma rancorosa de Cristóvão do Vale, ex-alcaide de Lindoso, que está, pelo menos, no purgatório expiando a perseguição que fez ao inocente galego, vingado pela sátira do seu imortal patrão usurariamente.



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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