sábado, 6 de junho de 2020

Como Garcia Redondo encontrou Camilo (Relato)



Como Garcia Redondo encontrou Camilo

Garcia Redondo, no seu livro inteiramente esquecido "Através da Europa", conta-nos as circunstâncias muito originais e pitorescas em que veio travar relações com Camilo Castelo Branco. Foi isso em 1870. Vinha o escritor, então muito jovem e estudante em Coimbra, num vagão de segunda classe, com um grupo de colegas, que como ele haviam feito os exames e iam passar as férias no Porto. No mesmo vagão encontrava-se também um homem picado de bexigas, com "pince-nez" de vidros escuros, em companhia de um menino que poderia ter uns doze anos de idade. Nessa época acabava de ser publicado o romance de Camilo ''Retrato de Ricardina", do qual o jovem acadêmico levava consigo um exemplar para concluir a leitura em viagem ou na quinta da sua avó paterna, onde ia repousar.

Logo ao sair de Coimbra, os companheiros viram o romance e pediram-lhe a opinião sobre a obra. Com a ousadia dos seus verdes anos, Garcia Redondo desancou desapiedadamente o autor, citando uma  série de defeitos de que o romance estava inçado. E ia lendo trechos do livro para justificar as asserções.

Em dado momento, notou que o homem picado de bexigas havia abandonado o pequeno companheiro a um canto do vagão e viera sentar-se ao lado dos acadêmicos para ajudar o jovem nos ataques a Camilo. Logo, familiarmente, envolvendo-se na conversa, deu toda razão ao crítico. Também havia lido o romance e notado os mesmos defeitos citados, aos quais acrescentava ainda outros. Na sua opinião, Camilo estava evidentemente em decadência; já não não era mais o autor do "Amor de Perdição". Depois que se fizera polemista, descuidara do romance e tornara-se um verdadeiro industrial das letras.

Ao saltarem nas Devesas, a fim de tomarem a condução para o Porto, depois de um curioso incidente com o fisco que Garcia Redondo relata minuciosamente, o homem do "pince-nez" escuro perguntou ao seu jovem companheiro de viagem:

— E agora vai para o Porto?

— Ora! como hei de ir? — A pé? — volveu o rapaz, que consequência do referido incidente havia ficado sem condução.

— Não, vai no meu carro, porque tenho aí fora um carro, onde está o meu pequeno. Venha, vamos juntos.

Garcia Redondo acedeu ao convite e seguiu com o desconhecido para o Porto. Ali, ante a insistência dele, teve ainda de aceitar-lhe a hospitalidade. E acompanhava o homem à respectiva residência, quando este cruzou com alguns conhecidos que lhe perguntaram:

— Então, Camilo, já estás de volta?

Garcia Redondo olhou, aterrado para o companheiro que sorria, cofiando o bigode para disfarçar. Afinal, já não era possível mais disfarces. Camilo apresentava-o aos amigos nestes termos:

— Eis aqui o meu crítico; mais sincero que é, ao mesmo tempo, um rapaz cheio de graça e de boas ideias.

Garcia Redondo não sabia como desculpar-se.

— Não me fale mais nisso — dizia Camilo — fiz uma viagem deliciosa, a melhor que tenho feito de Coimbra ao Porto e quem me proporcionou o encanto dessa viagem foi o amiguinho.

O que disse do meu livro é a pura verdade; aquilo é um romance de fancaria, feito a vapor para satisfazer as exigências de um editor indomável. Na segunda edição, se a tiver, hei de corrigi-lo. Agora, o que eu preciso conhecer é o seu nome para saber a quem devo a fineza de algumas observações que me foram muito proveitosas.

O jovem disse quem era, e com espanto, Camilo exclamou:

— Redondo! mas você é tão magrinho! Veja como os nomes são paradoxais.

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Letras e Artes, 24 de abril de 1951.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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