domingo, 7 de junho de 2020

Medeiros e Albuquerque, ícone da inteligência brasileira




Medeiros e Albuquerque, ícone da inteligência brasileira

Ainda tenho quente, palpitando na cordoalha íntima do meu coração, na viva saudade oriunda da gratidão e do respeito, o amigo e mestre que tanto amei e por quem sempre nutri profundíssima admiração.

Medeiros e Albuquerque foi homem raro; inteligentíssimo, arguto, lógico, transparente, culto, trabalhador, leal e desassombrado. Ainda são poucos os adjetivos que lhe coroam a personalidade, tal a abundância de luz que jorrava e que podia sempre emanar daquele espírito privilegiado, um dos maiores talentos da latinidade americana.

O seu convívio obrigava-nos a admirá-lo em progressão crescente, pois jamais foi trivial na palavra falada ou escrita, em assuntos leves ou em questões graves, porque sempre se mostrou atraente e original, sempre erudito e fecundo. O nosso saudoso companheiro possuía a alma de menestrel e o nervo de grande operário.

No pensamento, no sentimento e na ação era assinaladamente o mesmo homem, cheio de talento e coragem, amigo dedicado e companheiro fiel, advogado invulnerável e promotor perigoso, e habitualmente de armas na mão, ora com a pena, ora com a palavra fúlgida, sabia lutar e lutava até o fim, não se deixando vencer. A última palavra lhe pertencia, tal o fôlego, o raciocínio, a fluência do estilo, o brilho da inspiração, o encanto das irreverências, tais os jorrões da dialética indomável, o denodo em agredir e a destreza em defender-se.

Tenho conhecido, senhores, alguns homens de gênio, muitos homens de talento, porém nenhum até agora me deu a impressão de tão pronta inteligência e de tão rara curiosidade perscrutadora como Medeiros e Albuquerque.

Bom, presto, desprendido e amoroso, tirou sempre da vida a melhor essência, com impulsões aos trabalhos exaustivos e aclives para a boêmia jovial e franca.

Cultivei-lhe a amizade com especial carinho, porque era mais de trinta anos de convívio, nele só encontrei o amigo desinteressado e nobre.

Nesse voto de saudade quero-vos uma revelação: Medeiros e Albuquerque cultivava a medicina apaixonadamente e muitos dos seus escritos foram dedicados à neurologia e à psiquiatria.

Quando começaram a aparecer os murmúrios e os ecos longínquos da doutrina psicossexualista de Freud, Medeiros e Albuquerque foi o primeiro a ditar à Sociedade Brasileira de Neurologia, Psiquiatria e Medicina Legal, em 1900, a melhor súmula e a mais clara síntese acerca da doutrina do sábio vienense.

Comparou o consciente, o subconsciente e o inconsciente a prédio de dois andares com um porão. O andar superior é o consciente, onde à luz clara o eu se exprime pela lógica, pela vontade, pela força criadora da inteligência. No primeiro andar, que representa o subconsciente, as ideias estão em penumbra e nele residem o sentimento, a fantasia, as emoções e a fé. No porão, tão bem comparado por Medeiros ao inconsciente, se acham os papéis velhos da existência, o registro esquecido, os episódios obscuros do sentimento em que estão soterradas as emoções da infância e os instintos atávicos, semimortos, olvidados pela censura ou censor, durante a formação da personalidade, especialmente na segunda infância, ótimo comenos para a exaltação da libido.

Essa imagem é admirável de ensinamentos e claridade; todo o mundo logo compreende o principal enunciado de Freud com a metáfora de Medeiros e Albuquerque.

A face acentuadamente médica da sua personalidade mais se denunciou pela cultura científica e pela prática do hipnotismo. Curioso, cultíssimo, sagaz e brilhante, o nosso pranteado companheiro escreveu um livro acerca da matéria o qual obteve justo renome e êxito felicíssimo de livraria, pois várias edições se sucederam. Praticava frequentemente o hipnotismo e obtinha curas com as quais se entusiasmava e que lhe aumentavam a crença.

Nunca fui adepto do método da sugestão hipnótica, apesar de não lhe negar vantagens terapêuticas em casos especiais. O hipnotismo caiu da moda, diante de outros processos psicoterápicos; porém o entusiasmo de Medeiros era justificado, teórica e praticamente, pela pasmosa erudição e pelos êxitos felizes que conquistava na casuística clínica.

Talvez poucos médicos conhecessem tão de pronto como ele as novidades científicas que surdiam. Livros, revistas, aparelhos, tudo enfim que se referia à medicina mandava buscar e com isso gastava larga soma, muita vez acima das suas posses, para satisfazer a avidez do espírito.

Quando morreu o seu filho Paulo, no sexto ano médico, o alfanje da fatalidade retalhou-lhe indelevelmente o coração. Medeiros ficou meio ébrio, afogado na dor. Finara-se-lhe parte da carne e da alma, fração resplandecente do seu amor, porque assistiu à extinção de uma das suas melhores ânsias, que era ver o filho formado em medicina. Passado, mas não adormecido o doloroso advento, obrigou o filho mais moço a abandonar o curso de direito e seguir a medicina, porque esta carreira lhe constituíra o prazer do espírito e da inquietude filosófica.

Possuía e cultivava grandes e sinceras amizades entre os professores da Faculdade de Medicina, e conservava-as com especial carinho.

As nossas palestras íntimas versavam amiúde acerca dos temas da minha profissão ora meramente especulativos, ora clínicos. Aparelhos elétricos, esfigmomanômetros, estetoscópios, vários instrumentos técnicos da propedêutica médica possuía para manejo pessoal.

Estou certo, senhores, que o cristal do seu pensamento seria gema preciosíssima se em qualquer Universidade do país dissertasse como professor.

Repito: jamais vi homem mais inteligente no trato das coisas humanas. Sempre do pensamento lhe nasciam manhãs claras e da sua cultura evolavam-se destilações e essências magníficas e oportunas.

Porém, a grande página da sua vida estava no amor, grande luz, grande formosura, grande força que o conduzia para o entusiasmo da existência, para o trabalho, iterativo, sempre sorridente, destemido e leal, agnóstico e franco atirador; amigo dedicado e adversário feroz; construtor e iconoclasta, renovador insolente e dulcíssimo companheiro. Avesso às simulações, expunha a alma aos transeuntes, para que o conhecessem bem, porque gostava de pensar alto, de sentir abertamente; o amor era-lhe a suavíssima obsessão da vida, e a mulher aparecia-lhe como a maior expressão da energia universal, a realidade do seu sonho.

Ah! Frappes-toi le coeur, c'est là qu'est lê génie, disse-o Alfred Musset.

Creio bem que o gênio fulgurante de Medeiros e Albuquerque partiu-lhe do coração amoroso, e fido e humaníssimo.

Cor hominis disponit viam suam. Nenhuma frase é mais aplicável à existência desse homem superior. Cor cordium, deveria eu chamar-lhe, porque o eixo da vida do meu querido amigo estava no amor, a força eletiva da humanidade, o calor das almas, a luz dos crentes, o deus dos sonhadores, o guia dos agnósticos, o apuro das civilizações, a inquietude da mocidade, a dor luminosa dos poetas, a tortura dos gênios, o dinamismo criador, a rota da solidariedade humana, o estelário de Dante, a vida e a morte em ritmos oscilantes, ora tempestuosos, ora cheios de calmarias, a essência das ideias-forças, ou como definiu o próprio Medeiros e Albuquerque "a base de todas as artes, a arte fundamental".

O conceito acerca do amor era-lhe personal. Ouçamo-lo nos "Poemas sem versos": "Há quem fale no amor platônico, no amor puro, no amor imaculado. Mentira. Esses são os disfarces que o pecado toma. O que há para baixo deles ou é ignorância ou hipocrisia. O Amor, o Grande Amor, o Verdadeiro Amor, é o delírio da Carne que palpita, dos lábios que estuam, rubros, sob os beijos ardentes — das mãos trêmulas, crispadas, que cingem corpos divinos — dos olhos, que nos delíquios supremos, se cobrem de uma névoa que os cega para tudo que nesses instantes os rodeia".

Senhores. O amor não é só a epilepsia brevis como definiam os antigos, mas o conjunto de fenômenos fisiológicos, físicos, sensoriais e psíquicos, excitações, comoções e sentimentos que resultam da necessidade sexual, como acentua Sicard de Plauzoles.

Os gregos já haviam simbolizado em Vênus Afrodite os dois elementos dominantes no amor — Urânia, o amor celeste, vaporoso, ideal; Pandemos, o amor terreno, sexual, biológico, isto é, sonho e carne, romantismo e sexualidade, alma e corpo no conjunto humano.

Assim viveu o grande Medeiros e assim se finou, a odiar os preconceitos e a amar a verdade, nua e crua. As disposições que escreveu antes de morrer, deram-lhe a forma definitiva do filósofo estoico. O epicurismo nele era episódico; fora homem do seu tempo, cordial e sincero como os cavaleiros medievais, indiferente a interesses e coerente com as suas convicções e atitudes.

Homem excepcional! Figura única no cenário da inteligência brasileira. Poeta, romancista, político, jornalista, administrador, erudito, trabalhador, tudo foi nesta terra, e tudo desprezou, para viver dentro da liberdade do pensamento e nas expansões do sentimento, únicos princípios a que obedecia como o imperativo categórico da sua personalidade singular.

Bom ou mau, seguramente bom, ele foi único no Brasil; podemos consagrar-lhe o gênio, porque a ninguém imitou e a ninguém se rendeu; criou a beleza do pensamento, às vezes irônico e sorridente como um demônio; às vezes enérgico, desassombrado e construtor como um herói; franco e amoroso como um justo; luminoso e destruidor como um deus.


---
ANTÔNIO AUSTREGÉSILO
Revista Letras Brasileiras, fevereiro de 1944.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...