domingo, 7 de junho de 2020

Medeiros e Albuquerque, o inimitável (Resenha)



Medeiros e Albuquerque, o inimitável

O jornalismo foi o grande caminho literário de Medeiros e Albuquerque.

Espírito cintilante de observador, estilista que era fulgurante sem ser preciso, sabendo ir direito ao cerne das questões, sabendo abordar todos os assuntos com a mesma agilidade e com o mesmo proveito para os seus leitores, foi Medeiros e Albuquerque um os mais curiosos vultos da história literária brasileira deste começo de século, seja com seus livros sobre "O Hipnotismo" ou os "Graves e Fúteis", seja com as suas memórias, seja com os milhares de artigos e crônicas que espalhou por todos os jornais e por todas as revistas do Brasil.

Ninguém, como ele, soube ser curioso e sempre tão interessante. Não há uma única página de Medeiros e Albuquerque que não encerre uma quantidade imensa de informações, de conceitos e de pensamentos. Falando sobre os mais frívolos assuntos, Medeiros e Albuquerque encontrava sempre um jeito de torná-lo agradável e palpitante. Tinha um poder formidável: o seu estilo, que era simples e natural, espontâneo e atual. Este estilo lhe era próprio. Era um característico absolutamente pessoal, de sua figura de escritor. Por isso mesmo, Medeiros e Albuquerque não lembra nenhum outro escritor. Outros foram também simples e naturais. Mas a simplicidade e naturalidade do estilo de Medeiros foram únicas. Eram uma propriedade legítima sua. E onde teria Medeiros aprendido a ser assim? Em algum escritor? Sabemos que, na literatura, é comum aos escritores possuírem mestres, ou melhor, exemplos que gostam de seguir. Teria Medeiros sido discípulo de algum outro grande escritor, nacional ou estrangeiro? Creio que não. Aliás, o próprio Medeiros interrogado certa vez por um admirável jornalista (que no caso foi o conhecido João do Rio) disse o seguinte:

"Li muito, li gulosamente centenas de romances e de livros de poesias, mas não tenho ideia de que nenhum deles marcasse uma data na evolução de meu espírito".

Medeiros citou Zola, Maiseroy, Paulo Bourget, afirmando que, todos eles contaram com a sua admiração, principalmente Zola, cuja obra, "Germinal", admirou extraordinariamente e sempre considerou um "livro soberbo". Sobre Maupassant, todavia, Medeiros e Albuquerque asseverou o seguinte:

"Pierre et Jean", pelo seu estilo de uma limpidez sem igual, claro e simples, me parece a obra prima de Maupassant. Foi talvez relendo-o que eu tive mais pronunciadamente a sensação de que a ideal do
estilo é a clareza e a simplicidade".

Foi Maupassant, então, o seu mestre? Não. O próprio Medeiros afirma que foi relendo-o que teve "mais pronunciadamente" a sensação de que, no estilo, a clareza e a simplicidade é que eram o ideal. Quer dizer: mesmo antes de ler Maupassant, ele já possuía esta convicção...

Aliás, em matéria de estilo, a simplicidade é a qualidade mais difícil de imitar. Imita-se bem os estilos burilados. Mas os estilos simples não encontram imitadores. Os que não se dedicam à tarefa de imitá-los caem na mais odiosa banalidade. Não é o caso de Medeiros. Ele foi um privilégio magnífico que a própria natureza não lhe recuou.

Na realidade, Medeiros não recebeu nenhuma influência literária. Ele foi sempre... ele próprio!

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Revista "Vamos Ler!", 28 de maio de 1942.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes.

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