domingo, 19 de julho de 2020

Resenha do livro "Por que me ufano de meu país", de Afonso Celso



Por: Paulo Marçaioli
Blog: esperandopaulo

Resenha do livro  “
Porque me ufano do meu país”, de Afonso Celso
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“Nestas condições, o Brasil é um país privilegiado, reunindo elementos que lhe conferem primazia sobre todos os mais. Importa ingratidão para com a Providência invejar outras nações, não nutrir a ufania de ter nascido brasileiro. Foi belo o quinhão que nos coube. Outros povos apenas se avantajam ao nosso naquilo que a idade secular lhes conquistou. O Brasil poderá tornar-se o que eles são. Eles nunca serão o que é o Brasil”.

Já foi dito que o Brasil é o país do futuro. Muito mais do que uma passagem de música do Legião Urbana, a assertiva é recorrente na história culminando até em política de Estado. Do Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek (1956/1961) constava a consigna: fazer o país crescer 50 anos em 5.

Mesmo antes, dentro do movimento modernista, de 1922 à geração de 1930, intelectuais e artistas voltaram-se ao nosso passado colonial com o intuito de criar as bases da nação, uma tarefa em aberto já que a nossa independência política antecedeu em muito à constituição da nossa nacionalidade. Autores como Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Hollanda e Gylberto Freire estavam olhando para o passado remoto do país com preocupações acerca do nosso futuro, buscando, de formas diferentes, aferir os sentidos do desenvolvimento histórico.

Se quisermos voltarmos ainda mais, verificamos uma característica frequentemente esquecida do nosso romantismo literário: no seu indianismo não foram poucos os artistas que buscaram atribuir as origens mais remotas dos nossos índios a grandes civilizações do passado, como a egípcia – nossos primitivos habitantes seriam o elo perdido de civilizações milenares do passado e, dentro de si, possuíam a potencialidade de promover grandes civilizações.

Afonso Celso, monarquista, filho do Visconde de Ouro Preto, este último presidente do último conselho de ministros do Império, também é tributário desta ideia de que o Brasil seria o país do futuro.

Nesta sua apologia do Brasil verifica-se por uma lado a ideia de que a nossa nação seria predestinada ao êxito, predestinação revelada em primeiro lugar por Deus que não nos outorgaria tantas belezas naturais para serem desperdiçadas esterilmente. Por outro lado, a história revela um país jovem, ao menos em face da velha Europa, de modo que o Brasil, ainda em sua aurora, teria diante de si um longo caminho em direção ao topo das nações.


SOBRE O AUTOR E A OBRA

Afonso Celso Assis Figueiredo Júnior, natural de Ouro Preto-MG, nasceu em 31 de Março de 1860 e veio a falecer no Rio de Janeiro em 1938. Cursou leis na Faculdade de Direito de São Paulo, na qual colou grau em 1880.

Ingressando na vida política, foi eleito quatro vezes deputado geral por Minas Gerais. Com a proclamação da República em 1889 abandonou a política e acompanhou o pai no exílio, que se seguiu à partida da família imperial para Portugal em novembro daquele ano.

Foi sócio do Instituto Geográfico Brasileiro e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras.

Este “Por que me ufano de meu país” foi publicado no ano de 1900 por ocasião das comemorações de 400 anos do descobrimento. Ele vale ser lido nem tanto pelos seus argumentos, alguns deles bastante discutíveis a luz da pesquisa histórica científica, mas pelo que ele revela no que se trata da história de nossas ideias.

Este otimismo quanto à nossa nação é bastante revelador do espírito da Belle Epóque que informa o período. Vivia-se um momento notadamente ambíguo na história do país em que o passado e o futuro coexistiam de maneira marcante: nos sertões a permanência da pobreza e seu messianismo expresso em Canudos e Contestado. Nas cidades grandes reformas urbanas voltadas a modernizar o país, com a ampliação de grandes avenidas, ao estilo europeu, e a expulsão dos extratos populares de seus cortiços para as periferias da cidade. 

Este pequeno ensaio é contemporâneo e um primo próximo do “Ilusões Americanas” de Eduardo Prado. Os dois autores são monarquistas e escrevem no contexto da transição do II Império para a Primeira República. O advento republicano se inspirava não só nas ideias iluministas francesas mas na concreta experiência histórica norte-americana: neste contexto, Eduardo Prado desenvolve uma crítica surpreendentemente atual aos EUA, rejeitando as propostas políticas que buscavam copiar as instituições norte americanas e já denunciando o que poderíamos chamar de imperialismo, revisitando por exemplo, a doutrina Monroe1

Afonso Celso, na sua apologia ao Brasil, não polemiza tanto com o sistema republicano, mas não deixa de suscitar os grandes políticos do império, incluindo os dois imperadores, como uma das fontes de engrandecimento nacional.

Qual é a razão para se ufanar do Brasil? Cada capítulo suscita temas que informam a grandeza do país: a sua natureza exuberante, da cachoeira de Paulo Afonso à Baía do Rio de Janeiro, por exemplo. As suas riquezas naturais, notadamente o ouro e diamante, além do seu clima relativamente ameno. O conhecido argumento da ausência de calamidades: no Brasil não há furacões, vulcões e pestes de longa duração. No que se refere à história existem pequenos capítulos dedicados aos jesuítas, aos bandeirantes, às guerras holandesas e palmares.

O livro, em sendo uma apologia do Brasil, incorre em algumas evidentes falsificações grosseiras. Palmares por exemplo é pintada quase como uma república romana. Os indígenas, dentro da tradição do romantismo, são pintados como afidalgados, sempre mantendo sua palavra de honra e possivelmente oriundos de grandes civilizações do passado. O brasileiro é pintado de acordo com um senso comum nitidamente conservador: ordeiro, hospitaleiro, respeitador de hierarquias.

Chega-se ao ponto de afirmar que no Brasil não existem preconceitos de raça e credo religioso!

Evidentemente, muitas das ideias suscitadas pelo autor estão há muito superadas. Ninguém acredita que a escravidão foi benevolente aqui no Brasil em que pese ter durado mais do que qualquer outro país nas américas.

Em todo o caso, a leitura do livro possibilita, quem sabe, uma reconciliação com o Brasil, um despertar sentimental por parte da esquerda que viu, neste último período, a extrema direita apropriar-se indevidamente das cores da bandeira nacional para propugnar um programa de total capitulação aos EUA – neste sentido, é interessante observar como este monarquista observava lá em 1900 que um dos perigos que o Brasil enfrentaria no futuro seria justamente a intervenção de potências estrangeiras nos nossos negócios.

O nacionalismo chauvinista, militarista, xenófobo ou ao menos preconceituoso em face de haitianos e bolivianos, mas não em face de norte americanos residentes na pátria é a face direitista do verde amarelo.

Existe uma outra face, a patriota, a anti-imperialista, a que defenda a soberania nacional, a ligada afetivamente à cultura popular e a internacionalista no que se refere à comunhão universal de interesses da classe trabalhadora: aqui poderia partir uma contraofensiva contra o sequestro de nossa bandeira. Não por causa de sua bandeira verde da casa de Brangança, mas pela efetiva e consequente defesa dos interesses nacionais.  


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1 - Resenha – “A Ilusão Americana” – Eduardo Prado.

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