domingo, 8 de novembro de 2020

O pequeno (Conto), de Guy de Maupassant

 


O pequeno

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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O senhor Lemonnier ficara viúvo com um filhinho. Amara loucamente sua mulher, de um amor exaltado e terno, sem desfalecimentos, durante toda a vida em comum. Era um bom homem, um homem às direitas, simples, muito simples, sincero, sem desconfiança e sem malícia.

Enamorara-se de uma vizinha que era pobre, pedira-a em casamento e tornara-se o seu esposo.

Tinha um comércio de fazendas regularmente próspero, ganhava bastante e nem por um segundo passou-lhe pela cabeça que a rapariga fosse movida apenas pelo interesse.

Ela, aliás, o fez feliz. Ele, por sua vez, só via a mulher neste mundo, só pensava nela, olhava-a incessantemente como um adorador prosternado. Durante as refeições cometia mil descuidos para não desviar o seu olhar do rosto querido, derramava vinho no prato e água na toalha; depois, ria como uma criança, repetindo:  — Amo-te demais, vês, faço asneiras de todo o tamanho!

Ela sorria, com um ar calmo e resignado; depois desviava os olhos como que incomodada pela adoração do seu marido, e procurava mudar de conversa, falar de qualquer coisa; mas o esposo tomava-lhe a mão por cima da mesa e guardava-a entre as suas, murmurando:

— Minha Joana, minha querida Joana!

Ela, por fim, impacientava-se e respondia-lhe:

 — Fica quieto, come e deixa-me comer.

Ele suspirava desanimado, tomava um pedaço de pão e mastigava-o lentamente.

Durante cinco anos não tiveram filhos. Um belo dia, porém, ela ficou grávida. Foi um delírio de felicidade. O marido não a deixava mais, estava sempre ao seu lado, tanto que a sua velha criada que o vira nascer e dava ordens no lar, punha-o fora de casa às vezes e fechava a porta para obrigá-lo a tomar ar.

Travara relações profundamente amistosas com um rapaz que conhecia a sua mulher desde criança e era subchefe de uma repartição da Prefeitura. O senhor Duretour jantava três vezes por semana em casa de Lemonnier; trazia flores para a sua mulher, de vez em quando um camarote para o teatro e muitas vezes, na sobremesa, o simplório do Lemonnier, enternecido, virando-se para a esposa, dizia:

— Com uma companheira como tu e um amigo como ele, a gente pode considerar-se venturosa sobre a terra.

Ela morreu de parto; ele escapou por um triz de morrer de dor. A presença da pobre criancinha, porém, deu lhe ânimo.

Amou-a apaixonada e dolorosamente, de um amor doentio no qual sobrepujava a recordação da morta e sobrevivia alguma coisa da adoração pela esposa desaparecida. Era a carne da sua esposa, a continuação de seu ser, como a sua quintessência. Essa criança era a sua vida passada num outro corpo; ela desaparecera para que ela existisse. E o pai beijava-a com furor. Fora ele o causador de sua morte  — ele, o pequeno  — roubara aquela existência adorada, alimentara-se dela, sugara sua parte de vida. E Lemonnier punha o pequeno no berço e sentava-se ao lado para contemplá-lo. Ficava aí horas e horas, olhando-o, pensando em mil coisas tristes, em mil suaves recordações. Depois, como a criança adormecesse, curvava-se sobre o seu rosto e deixava cair copiosas lágrimas entre as rendas.

***

O pequeno desenvolveu-se. O pai não podia passar uma hora sem o ver, era quem o guiava, quem o levava a passeio, o vestia, o lavava, o fazia comer.

O seu amigo Duretour parecia igualmente querer bem ao menino e osculava-o com veemência, com frenesis de ternura que só os parentes têm. Fazia-o saltar nos seus braços, fazia-o montar a cavalo sobre uma das suas pernas, levantava a sua saiazinha e beijava-lhe as pernas gordinhas e rosadas.

Lemonnier, encantado, repetia:

 — Que mimo! que mimo!

Duretour apertava o pequeno contra o peito, fazendo-lhe cócegas com o bigode.

Só a Celeste, a velha criada, é que parecia não gostar do pequeno. Zangava-se com as suas travessuras e ficava exasperada com a meiguice dos homens, exclamando:

 — É possível criar uma criança assim! Vocês hão de fazer dele um belo mono!

O tempo correu e João completou nove anos. Sabia apenas ler, tal era a facilidade com que só deixavam fazer o que queria. Tinha vontades tenazes, resistências obstinadas, cóleras violentas. O pai cedia sempre, concedia tudo. Duretour comprava e trazia incessantemente os brinquedos cobiçados pelo pequeno e alimentava-o de doces e gulodices.

Celeste dava o desespero e gritava:

 — É uma vergonha, é uma vergonha! Você faz a infelicidade desta criança, percebe! Mas isto há de acabar, sim, há de acabar, garanto-lhe eu! Há de ver e não tarda!

Lemonnier respondia sorrindo:

 — Que queres, minha filha, amo-o demais, não sei resistir. Acabarás por te habituar!

***

João estava adoentado. O médico constatou que estava anêmico, receitou ferro, carne pouca assada e sopas gordurosas.

Ora, o pequeno só gostava de doces e recusava qualquer outro alimento e o pai, desesperado, enchia-o de tortas de creme e outras guloseimas.

Uma tarde, na ocasião em que Lemonnier sentava-se à mesa com o João, Celeste trouxe a sopeira com um ar de autoridade que não lhe era habitual. Descobriu a bruscamente e mergulhou a concha no meio e declarou:

 — Está aqui um caldo como ainda não fiz. E preciso que desta vez o pequeno o tome!

Lemonnier abaixou a cabeça, espantado. Viu que a situação ia-se tornar penosa.

Celeste tomou o prato, encheu-o e colocou-o diante dele.

Lemonnier provou o caldo e asseverou:

— Com efeito, excelente.

Então a criada apoderou-se do prato do pequeno e derramou uma concha cheia de sopa. Depois, recuou dois passos e esperou.

João cheirou, empurrou o prato e fez uma careta, como quem está enjoado. Celeste, pálida de raiva, aproximou-se bruscamente e agarrou na colher, enterrou à força, cheia de sopa, na boca entreaberta da criança.

O pequeno sufocou, tossiu, espirrou, cuspiu e berrando, pegou num copo e atirou-o sobre Celeste. Esta recebeu-o em cheio no ventre. Então, fora de si, pôs sob o braço a cabeça do pequeno e começou a despejar-lhe colheradas de sopa na garganta. Ele as vomitava uma por uma, retorcia-se, sacudia as mãos no ar, vermelho como se morresse sufocado. O pai no primeiro momento ficou tão surpreendido que não pôde fazer um só movimento. Depois, de repente, lançou-se com a raiva de um louco furioso, apertando a garganta da criada e atirou-a contra o muro. Ofegante de ódio, bramava:

 — Põe-te lá fora!... lá fora!... Bruta!

Celeste, então, empurrou-o e, despenteada, a roupa amarrotada, os olhos injetados, exclamou:

 — Que é isto agora? Você quer me bater porque dou sopa a esta criança que...

Lemonnier repetia, tremendo da cabeça aos pés.

 — Vai te embora! sabe! bruta! bruta!

A criada, perdendo o tino, avançou para ele e fitando o insolentemente:

 — Então, você julga que vou me deixar tratar assim! eu! eu! Pois espera lá! E por quem? por este fedelho que nem é de você! Todos o sabem, com a breca, menos você! Pergunte ao vendeiro, ao açougueiro, ao padeiro, a todos, a todos!

Ela começava a engasgar-se, sufocada pela raiva; depois calou-se, olhando-o.

Lemonnier não se movia mais, lívido, os braços inertes. Passados alguns segundos, balbuciou com voz sumida, trêmulo, na qual palpitava uma formidável emoção:

 — O quê?... o quê?... o que disseste?

Ela conservava-se calada, apavorada diante da sinistra expressão do seu rosto. O pobre homem deu ainda um passo, repetindo:

 — O quê?... o que disseste?

 — Digo o que sei, o que todos sabem  respondeu a criada.

Lemonnier ergueu as duas mãos e precipitando-se sobre ela com ímpeto de fera, procurou derrubá-la. Ela era forte e ágil, apesar de velha. Escorregou-lhe entre os braços e correndo à roda da mesa, de novo raivosa, gritava:

 — Olha para ele, olha, estúpido que você é! É o rosto do senhor Duretour; olha bem o seu nariz e os seus olhos, você os tem assim, os olhos, o nariz, e os cabelos são os seus talvez? Todos sabem... menos você! Olha para ele!...

Celeste abriu a porta e desapareceu.

João, atemorizado, ficara imóvel diante do seu enorme prato de sopa.

***

No fim de uma hora, ela voltou, devagarzinho, para ver. O pequeno, depois de ter devorado os doces e a compoteira de creme, comia tranquilamente um resto de geleia com a colher da sopa.

O pai saíra.

Celeste tomou a criança, beijou-a e a passos abafados levou-o para o seu quarto e o deitou. Voltou em seguida à sala de jantar, tirou a mesa, arrumou tudo, muito inquieta.

Na casa não se ouvia ruído algum.

Ela foi grudar o ouvido à porta do patrão. Não havia movimento. Olhou pelo buraco da fechadura. Estava escrevendo e parecia tranquilo.

Então foi sentar-se na cozinha, pronta para qualquer eventualidade, pois desconfiava de qualquer coisa.

Adormeceu na sua cadeira e só acordou ao romper do dia.

Varreu, limpou os trastes, como era de costume e às oito horas preparou o café de Lemonnier.

Não ousou, porém, levá-lo ao patrão, não sabendo como seria recebida e esperou que a chamasse. Ele não a chamou. Nove horas, dez horas soaram.

Celeste, espantada, preparou a bandeja e dirigiu-se para o quarto de Lemonnier, com o coração aos pulos. Parou diante da porta; escutou. Reinava o mais profundo silêncio. Bateu na porta, não responderam. Então, criando coragem, abriu, entrou, depois, soltando um grito terrível, deixou cair a bandeja.

Lemonnier estava dependurado no meio do quarto, seguro pelo pescoço numa argola presa ao teto.

Uma cadeira derrubada rolara até a cama.

Celeste, transtornada de pavor, fugiu dando gritos lancinantes. Todos os vizinhos acudiram. O médico verificou que a morte devia ter-se dado à meia-noite.

Uma carta dirigida ao senhor Duretour foi encontrada sobre a mesa do suicida. Só continha esta linha:

“Deixo-vos e confio-vos o pequeno.”

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