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11/08/2020

O pequeno (Conto), de Guy de Maupassant

 


O pequeno

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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O senhor Lemonnier ficara viúvo com um filhinho. Amara loucamente sua mulher, de um amor exaltado e terno, sem desfalecimentos, durante toda a vida em comum. Era um bom homem, um homem às direitas, simples, muito simples, sincero, sem desconfiança e sem malícia.

Enamorara-se de uma vizinha que era pobre, pedira-a em casamento e tornara-se o seu esposo.

Tinha um comércio de fazendas regularmente próspero, ganhava bastante e nem por um segundo passou-lhe pela cabeça que a rapariga fosse movida apenas pelo interesse.

Ela, aliás, o fez feliz. Ele, por sua vez, só via a mulher neste mundo, só pensava nela, olhava-a incessantemente como um adorador prosternado. Durante as refeições cometia mil descuidos para não desviar o seu olhar do rosto querido, derramava vinho no prato e água na toalha; depois, ria como uma criança, repetindo:  — Amo-te demais, vês, faço asneiras de todo o tamanho!

Ela sorria, com um ar calmo e resignado; depois desviava os olhos como que incomodada pela adoração do seu marido, e procurava mudar de conversa, falar de qualquer coisa; mas o esposo tomava-lhe a mão por cima da mesa e guardava-a entre as suas, murmurando:

— Minha Joana, minha querida Joana!

Ela, por fim, impacientava-se e respondia-lhe:

 — Fica quieto, come e deixa-me comer.

Ele suspirava desanimado, tomava um pedaço de pão e mastigava-o lentamente.

Durante cinco anos não tiveram filhos. Um belo dia, porém, ela ficou grávida. Foi um delírio de felicidade. O marido não a deixava mais, estava sempre ao seu lado, tanto que a sua velha criada que o vira nascer e dava ordens no lar, punha-o fora de casa às vezes e fechava a porta para obrigá-lo a tomar ar.

Travara relações profundamente amistosas com um rapaz que conhecia a sua mulher desde criança e era subchefe de uma repartição da Prefeitura. O senhor Duretour jantava três vezes por semana em casa de Lemonnier; trazia flores para a sua mulher, de vez em quando um camarote para o teatro e muitas vezes, na sobremesa, o simplório do Lemonnier, enternecido, virando-se para a esposa, dizia:

— Com uma companheira como tu e um amigo como ele, a gente pode considerar-se venturosa sobre a terra.

Ela morreu de parto; ele escapou por um triz de morrer de dor. A presença da pobre criancinha, porém, deu lhe ânimo.

Amou-a apaixonada e dolorosamente, de um amor doentio no qual sobrepujava a recordação da morta e sobrevivia alguma coisa da adoração pela esposa desaparecida. Era a carne da sua esposa, a continuação de seu ser, como a sua quintessência. Essa criança era a sua vida passada num outro corpo; ela desaparecera para que ela existisse. E o pai beijava-a com furor. Fora ele o causador de sua morte  — ele, o pequeno  — roubara aquela existência adorada, alimentara-se dela, sugara sua parte de vida. E Lemonnier punha o pequeno no berço e sentava-se ao lado para contemplá-lo. Ficava aí horas e horas, olhando-o, pensando em mil coisas tristes, em mil suaves recordações. Depois, como a criança adormecesse, curvava-se sobre o seu rosto e deixava cair copiosas lágrimas entre as rendas.

***

O pequeno desenvolveu-se. O pai não podia passar uma hora sem o ver, era quem o guiava, quem o levava a passeio, o vestia, o lavava, o fazia comer.

O seu amigo Duretour parecia igualmente querer bem ao menino e osculava-o com veemência, com frenesis de ternura que só os parentes têm. Fazia-o saltar nos seus braços, fazia-o montar a cavalo sobre uma das suas pernas, levantava a sua saiazinha e beijava-lhe as pernas gordinhas e rosadas.

Lemonnier, encantado, repetia:

 — Que mimo! que mimo!

Duretour apertava o pequeno contra o peito, fazendo-lhe cócegas com o bigode.

Só a Celeste, a velha criada, é que parecia não gostar do pequeno. Zangava-se com as suas travessuras e ficava exasperada com a meiguice dos homens, exclamando:

 — É possível criar uma criança assim! Vocês hão de fazer dele um belo mono!

O tempo correu e João completou nove anos. Sabia apenas ler, tal era a facilidade com que só deixavam fazer o que queria. Tinha vontades tenazes, resistências obstinadas, cóleras violentas. O pai cedia sempre, concedia tudo. Duretour comprava e trazia incessantemente os brinquedos cobiçados pelo pequeno e alimentava-o de doces e gulodices.

Celeste dava o desespero e gritava:

 — É uma vergonha, é uma vergonha! Você faz a infelicidade desta criança, percebe! Mas isto há de acabar, sim, há de acabar, garanto-lhe eu! Há de ver e não tarda!

Lemonnier respondia sorrindo:

 — Que queres, minha filha, amo-o demais, não sei resistir. Acabarás por te habituar!

***

João estava adoentado. O médico constatou que estava anêmico, receitou ferro, carne pouca assada e sopas gordurosas.

Ora, o pequeno só gostava de doces e recusava qualquer outro alimento e o pai, desesperado, enchia-o de tortas de creme e outras guloseimas.

Uma tarde, na ocasião em que Lemonnier sentava-se à mesa com o João, Celeste trouxe a sopeira com um ar de autoridade que não lhe era habitual. Descobriu a bruscamente e mergulhou a concha no meio e declarou:

 — Está aqui um caldo como ainda não fiz. E preciso que desta vez o pequeno o tome!

Lemonnier abaixou a cabeça, espantado. Viu que a situação ia-se tornar penosa.

Celeste tomou o prato, encheu-o e colocou-o diante dele.

Lemonnier provou o caldo e asseverou:

— Com efeito, excelente.

Então a criada apoderou-se do prato do pequeno e derramou uma concha cheia de sopa. Depois, recuou dois passos e esperou.

João cheirou, empurrou o prato e fez uma careta, como quem está enjoado. Celeste, pálida de raiva, aproximou-se bruscamente e agarrou na colher, enterrou à força, cheia de sopa, na boca entreaberta da criança.

O pequeno sufocou, tossiu, espirrou, cuspiu e berrando, pegou num copo e atirou-o sobre Celeste. Esta recebeu-o em cheio no ventre. Então, fora de si, pôs sob o braço a cabeça do pequeno e começou a despejar-lhe colheradas de sopa na garganta. Ele as vomitava uma por uma, retorcia-se, sacudia as mãos no ar, vermelho como se morresse sufocado. O pai no primeiro momento ficou tão surpreendido que não pôde fazer um só movimento. Depois, de repente, lançou-se com a raiva de um louco furioso, apertando a garganta da criada e atirou-a contra o muro. Ofegante de ódio, bramava:

 — Põe-te lá fora!... lá fora!... Bruta!

Celeste, então, empurrou-o e, despenteada, a roupa amarrotada, os olhos injetados, exclamou:

 — Que é isto agora? Você quer me bater porque dou sopa a esta criança que...

Lemonnier repetia, tremendo da cabeça aos pés.

 — Vai te embora! sabe! bruta! bruta!

A criada, perdendo o tino, avançou para ele e fitando o insolentemente:

 — Então, você julga que vou me deixar tratar assim! eu! eu! Pois espera lá! E por quem? por este fedelho que nem é de você! Todos o sabem, com a breca, menos você! Pergunte ao vendeiro, ao açougueiro, ao padeiro, a todos, a todos!

Ela começava a engasgar-se, sufocada pela raiva; depois calou-se, olhando-o.

Lemonnier não se movia mais, lívido, os braços inertes. Passados alguns segundos, balbuciou com voz sumida, trêmulo, na qual palpitava uma formidável emoção:

 — O quê?... o quê?... o que disseste?

Ela conservava-se calada, apavorada diante da sinistra expressão do seu rosto. O pobre homem deu ainda um passo, repetindo:

 — O quê?... o que disseste?

 — Digo o que sei, o que todos sabem  respondeu a criada.

Lemonnier ergueu as duas mãos e precipitando-se sobre ela com ímpeto de fera, procurou derrubá-la. Ela era forte e ágil, apesar de velha. Escorregou-lhe entre os braços e correndo à roda da mesa, de novo raivosa, gritava:

 — Olha para ele, olha, estúpido que você é! É o rosto do senhor Duretour; olha bem o seu nariz e os seus olhos, você os tem assim, os olhos, o nariz, e os cabelos são os seus talvez? Todos sabem... menos você! Olha para ele!...

Celeste abriu a porta e desapareceu.

João, atemorizado, ficara imóvel diante do seu enorme prato de sopa.

***

No fim de uma hora, ela voltou, devagarzinho, para ver. O pequeno, depois de ter devorado os doces e a compoteira de creme, comia tranquilamente um resto de geleia com a colher da sopa.

O pai saíra.

Celeste tomou a criança, beijou-a e a passos abafados levou-o para o seu quarto e o deitou. Voltou em seguida à sala de jantar, tirou a mesa, arrumou tudo, muito inquieta.

Na casa não se ouvia ruído algum.

Ela foi grudar o ouvido à porta do patrão. Não havia movimento. Olhou pelo buraco da fechadura. Estava escrevendo e parecia tranquilo.

Então foi sentar-se na cozinha, pronta para qualquer eventualidade, pois desconfiava de qualquer coisa.

Adormeceu na sua cadeira e só acordou ao romper do dia.

Varreu, limpou os trastes, como era de costume e às oito horas preparou o café de Lemonnier.

Não ousou, porém, levá-lo ao patrão, não sabendo como seria recebida e esperou que a chamasse. Ele não a chamou. Nove horas, dez horas soaram.

Celeste, espantada, preparou a bandeja e dirigiu-se para o quarto de Lemonnier, com o coração aos pulos. Parou diante da porta; escutou. Reinava o mais profundo silêncio. Bateu na porta, não responderam. Então, criando coragem, abriu, entrou, depois, soltando um grito terrível, deixou cair a bandeja.

Lemonnier estava dependurado no meio do quarto, seguro pelo pescoço numa argola presa ao teto.

Uma cadeira derrubada rolara até a cama.

Celeste, transtornada de pavor, fugiu dando gritos lancinantes. Todos os vizinhos acudiram. O médico verificou que a morte devia ter-se dado à meia-noite.

Uma carta dirigida ao senhor Duretour foi encontrada sobre a mesa do suicida. Só continha esta linha:

“Deixo-vos e confio-vos o pequeno.”

Napoleão numa aventura na Córsega (Conto), de Guy de Maupassant

 


Napoleão numa aventura na Córsega

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Muito conhecida a frase de Pascal sobre o grão de areia que mudou a sorte do mundo, detendo a fortuna de Cromwel. Pois no acaso que governa os homens e o mundo, um fato insignificante, o gesto desesperado de certa mulher, decidiu da sorte da Europa, salvando a vida ao jovem Napoleão Bonaparte.

A narração seguinte é de todo autêntica. Seus detalhes me foram fornecidos diretamente pelo único homem que pode colhê-los na própria fonte e cujo testemunho dirigiu o inquérito feito em 1853 sobre aqueles fatos para assegurar a execução do testamento do Imperador em Santa Helena.

Com efeito, três dias antes de morrer, Napoleão acrescentou ao seu testamento um codicilo com estas disposições:

"Lego 20 mil francos ao morador de Bocognano que me arrancou às mãos dos bandidos que me queriam assassinar.

10 mil francos ao Sr. Vizzavona, o único dessa família que foi meu partidário.

100 mil francos ao Sr. Jerônimo Levi. 100 mil francos ao Sr. Costa de Bastelica.

20 mil francos ao padre Reccho.

Foi sem dúvida velha recordação da sua mocidade que, nos seus últimos momentos, veio ao seu espírito: a longínqua visão perseguiu-o quando resolveu deixar esses supremos dons ao devotado partidário cujo crime lhe escapava à memória enfraquecida e aos amigos que o ajudaram em momento terrível.

Luz XVI acabava de morrer. A Córsega era então governada pelo general Paoli, homem enérgico e violento, realista devotado, que odiava a Revolução, ao passo que Bonaparte, jovem oficial de artilharia, então de licença em Ajaccio, punha em jogo sua influência, e a da sua família, em favor das idéias novas.

Entre o jovem Bonaparte e o general havia velha animosidade, nascida quando Paoli, tendo recebido ordem de conquistar a ilha de Madalena, confiou essa missão ao coronel Cesari, recomendando-lhe, ao que se diz, fizesse malograr-se a empresa. Nomeado lugar-tenente-coronel da guarda nacional do regimento comandado pelo coronel Queuza, Napoleão tomou parte na expedição e ergueu-se violentamente contra o modo porque fora conduzida, acusando abertamente os chefes de a haverem perdido propositalmente.

Pouco tempo depois, comissários da República, entre eles Saliceti, foram enviados a Bastia. Sabedor da sua chegada, quis Napoleão reunir-se a eles e, para empreender essa viagem, fez vir de Bocognano seu homem de confiança, um dos seus partidários mais fiéis, Santo Bonelli, chamado Riccio, que 'lhe serviria de guia.

Partiram ambos a cavalo, dirigindo-se a Corte, onde se achava Paoli, a quem Bonaparte queria visitar de passagem. Diga-se que, ignorando ainda a participação do seu chefe na trama urdida contra a França, ele até o defendia contra as murmurações; a hostilidade crescente entre ambos não havia ainda explodido.

O jovem Napoleão desceu do cavalo no pátio da casa de Paoli e, confiando o animal a Santo-Riccio, foi em procura do general. Ao subir as escadas, uma pessoa a quem se dirigiu informou-lhe que tinha havido ali um conselho dos principais chefes corsos, todos inimigos das idéias republicanas. Procurava Napoleão investigar quando um dos conspiradores saiu da casa.

Indo ao seu encontro, perguntou-lhe: "Então?". O outro, julgando-o um aliado. respondeu-lhe: "Resolvido! Vamos proclamar a independência e separarmo-nos da França, com o auxílio da Inglaterra".

Indignado, Napoleão exaltou-se e gritou: "Isso é uma traição, uma infâmia!" Atraídos pelo ruído, apareceram uns parentes afastados da família Bonaparte, que compreenderam o perigo em que se lançava o jovem oficial, porque Paoli era homem para se desembaraçar dele para sempre. Cercaram-no, pois, e fizeram-no descer e montar de novo a cavalo.

Chegados Napoleão e o guia à entrada da vila de Bocognano, separaram-se, combinando encontro no dia seguinte, na junção das duas estradas. Napoleão dirigiu se à aldeia, de Pagiola, a pedir hospitalidade ao seu partidário e parente Felix Tusoli.

Entrementes, Paoli soubera da visita do jovem Bonaparte, bem como das palavras violentas por ele proferidas ao descobrir a conspirata e encarregou Mário Peraldi de persegui-lo e impedir, a todo custo, sua chegada a Ajaccio ou a Bastia.

Peraldi chegou a Bocognano horas antes ele Bonaparte e foi à casa dos Morelli, família poderosa de partidários do general Paoli. Souberam estes que o jovem oficial chegara à vila e passaria a noite em casa de Tusoli. O chefe dos Morelli, homem enérgico e temível, sabedor dás ordens de Paoli, prometeu ao seu enviado que Napoleão não havia de escapar.

Mandou Jogo distribuir sua gente, fazendo ocupar todas as estradas e barrar todas as saídas. Bonaparte, acompanhado  de Tusoli, saiu em buscas de Santo-Riccio mas seu hospedeiro, adoentado, deixou-o logo depois.

Logo que o oficial se viu só, um homem apareceu-lhe, anunciando-lhe que num albergue vizinho, achavam-se alguns partidários do general que o eperavam, a ele, Napoleão, em Corte. O futuro imperador a eles se dirigiu e, quando os viu: "Ide procurar vosso chefe, estais a fazer uma grande e nobre ação!" Nesse momento, porém, os Morelli precipitaram-se sobre ele e o fizeram prisioneiro.

Santo-Riccio, que o esperava na encruzilhada, soube logo da prisão e correu à casa de um partidário de Bonaparte, Vizzavona, que ele sabia capaz, de ajudá-lo. Havia compreendido a extrema gravidade da situação: ou salvariam o jovem oficial ou ele seria morto dentro de duas horas. Vizzanova, à força de eloquência e de habilidade, conseguiu dos Morelli permissão para que Bonaparte fosse à sua casa tomar uma refeição, enquanto eles guardariam a casa.

Para ocultar seus desígnios, os Morelli concordaram e seu chefe, o único que conhecia a vontade do general Paoli, confiou-lhes a vigilância do lugar e foi preparar-se para a partida.

Foi essa ausência que alguns minutos mais tarde salvou a vida do prisioneiro. Santo-Riccio, com coragem e sangue frio, preparava entretanto a libertação do companheiro. Chamou dois jovens valentes e fiéis como ele e, ocultando-os atrás do muro dum jardim contíguo à casa de Vizzavona, apresentou-se tranquilamente aos Morelli, pedindo-lhes permissão para se despedir de Napoleão. Em presença deste e de Vizzavona, combinou a fuga. Penetraram então os três na estrebaria e fugiram para a mata. Percebendo-os, os Morelli saíram, aos gritos,  em sua perseguição.

De casa, soube o chefe Morelli do ocorrido e precipitou-se com cara tão feroz que a esposa, aliada aos Tusoli, lançou-se a seus pés, pedindo a vida para o jovem oficial. Ele repeliu-a, furioso, e ela, sempre de joelhos, enlaçou-o fortemente. Batida, derrubada ela acabou arrastando na queda o marido.

Sem a força e a coragem dessa mulher, era uma vez Napoleão!

Mas os Morelli atingiam os fugitivos. Santo-Riccio, intrépido, encostando-se a uma árvore, fez-lhes face, gritando aos dois companheiros de Bonaparte que o levassem. Como este se recusasse a abandoná-lo, gritou o guia: "Levem-no de qualquer modo! Amarrem-no de pés e mãos se for preciso!"

Os três foram afinal alcançados e um partidário dos Morelli, Honorato, pondo o cano do fuzil na testa de Napoleão, gritou-lhe: "Morte ao traidor à pátria!" Nesse momento, porém, Tusoli, prevenido por um emissário de Riccio, chegava com seus parentes armados. Vendo o perigo e reconhecendo seu cunhado no que ameaçava a vida do seu hóspede, gritou-lhe Tusoli, apontando-lhe a arma:

— Honorato! o caso agora é entre nós!

Surpreso, o outro hesitava em atirar, quando Riccio, aproveitando a confusão, agarrou Bonaparte, que resistia sempre, carregou-o e, com os dois outros rapazes meteu-se pela mata.

Através de mil dificuldades chegaram a Ucciani, à caba dos Pazzoli, partidários de Bonaparte. Daí seguiram para Ajaccio, onde Napoleão se refugiou em casa do administrador, Jean-Jerôme Lévi, que o escondeu num armário. Precaução excelente, porque no dia seguinte chegava a polícia e tudo vasculhava em vão.

Na mesma noite Napoleão embarcava numa gôndola e atravessava o golfo indo para a casa da família Costa de Bastelica e daí para esconderijo na mata.

Alguns dias após era proclamada a independência da Córsega. A casa dos Bonaparte foi incendiada e as três irmãs do fugitivo entregaram-na à guarda do padre Reccho.

Depois, uma fragata francesa, que recolhia na costa os últimos partidários da França, tomou Napoleão a seu bordo e reconduziu-o à pátria.

A aventura de Walter Schnaffs (Conto), de Guy de Maupassant

 


A aventura de Walter Schnaffs

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Desde o momento em que entrara na França com o exército invasor Walter Schnaffs considerava-se o mais infeliz dos mortais.

Ele era corpulento, caminhava a custo, arquejava, e doíam-lhe horrivelmente os pés largos e chatos.

Era pacífico e bonacheirão, de modo nenhum belicoso e sanguinário, pai de quatro filhos que adorava e marido de uma rapariga loura da qual todas as noites recordava choroso os beijos, os carinhos, as ternuras.

Gostava de levantar-se tarde e deitar-se cedo, comer bem e tomar cerveja no botequim.

Além do mais pensava que tudo quanto têm de suave a vida desaparece com esta e no segredo de seu coração nutria um ódio intenso, profundo, contra canhões, carabinas, revólveres e espadas, mas em especial contra as baionetas sentindo-se incapaz de esgrimir com ligeireza aquela arma para defender seu grande ventre.

E quando vinha a noite e ele estendia-se sobre o solo enrolado no seu grosso capote junto dos camaradas que roncavam, pensava longamente nos entes queridos que deixara além, e nos perigos de que estava coalhada a estrada em que marchavam.

Se ele morresse que seria dos seus filhinhos? Quem lhes daria de comer? Quem os criaria? Eles nada tinham apesar das dívidas que contraíra para ao partir deixar-lhes algum dinheiro. E por vezes Walter Schnaffs chorava...

No início de um combate ele sentia tal fraqueza nas pernas que de bom grado deixar-se-ia cair ao chão se não fosse o temor de que sobre o seu corpo passasse todo o exército. O silvo das balas punha-lhe hirtos todos os pelos do corpo.

Meses e meses vivera ele assim mergulhado no terror e na angústia.

Seu corpo de exército avançava para a Normandia e um dia Walter Schnaffs foi enviado com um pequeno destacamento para fazer uma exploração em torno.

Tudo no vasto campo parecia tranquilo; nada fazia suspeitar uma resistência preparada.

Os prussianos chegavam tranquilos a um pequeno vale cheio de profundos socalcos quando foram surpreendidos por um violento fogo de fuzilaria que fez tombar uma vintena deles; e logo um grupo de francos atiradores saindo de um bosque pouco maior que uma mão aberta atirou-se sobre eles de baionetas calada.

Walter Schnaffs a princípio imobilizou-se tão surpreso e confuso que nem pensou em fugir. Depois veio-lhe um desejo enorme de correr; mais pensando que tinha a velocidade de uma tartaruga ao passo que aqueles franceses magricelas com três saltos apanhavam um rebanho de cabras, deixou-se cair em um fosso cheio de folhas secas cujo fundo ele não podia observar tão escuro era.

Passou como uma bala através das lianas e espinheiros bravos que cresciam nas bordas e que na passagem gratificaram-no com alguns arranhões, indo cair sobre um leito alastrado de pedras miúdas que lhe magoaram os pés.

Olhando para o alto viu o céu através do espaço que abrira com o seu corpo nutrido. Por aquele espaço poderia ele ser descoberto; arrastou-se com infinitas precauções, de gatas, para um canto em que os ramos entrecruzados nada deixavam ver, e começou de rastos mesmo a afastar-se do lugar do combate.

Depois deitou-se como um coelho medroso, enrodilhando-se, procurando ocupar o menor espaço possível. Ouviu por algum tempo ainda, gritos, detonações, lamentos. Depois os clamores enfraqueciam; cessavam por fim. Voltaram a tranquilidade e a solidão.

De súbito sentiu ele que uma coisa qualquer movia-se perto dele. Teve um sobressalto. Era um passarinho que numa árvore ao alto fazia caírem as folhas secas. Por espaço de uma hora o coração de Walter Schnaffs bateu acelerado. Chegava a noite enchendo o fosso de sombra. E o soldado pôs-se a pensar.

Que faria? Que deveria fazer? Reunir-se ao exército? De que maneira? Por que lugar? E recomeçaria aquela vida de terrores, de angústias, de espanto, de fadiga, de sofrimentos que ele suportava desde o princípio da guerra?

Nunca! Para tal ele não sentia coragem.

Faltar-lhe-ia a necessária coragem, a energia faltar-lhe-ia para suportar a marcha e afrontar novos perigos.

Mas que fazer então?

Não podia permanecer naquele buraco, escondido até o fim das hostilidades.

De certo que não podia.

Se não fosse a necessidade de alimentar-se aliás, a perspectiva não o aterraria demasiado; mas precisava comer, e comer todos os dias.

E encontrava-se ali, naquele lugar, solitário, armado, de uniforme, em território inimigo longe daqueles que podiam defendê-lo.

Calafrios frequentes corriam-lhe pelo corpo.

De súbito pensou: E se ficasse prisioneiro? — O coração tumultuou-lhe àquela ideia. Um desejo violento tomou-o, um desejo imoderado de constituir-se prisioneiro dos franceses.

Prisioneiro?

Estaria salvo, teria casa, comida; estaria livre das balas e das espadas, sem medo, em uma boa prisão bem guardada.

Prisioneiro! Que sonho!

E tomou logo uma resolução:

—Vou entregar-me à prisão.

Levantou-se decidido a executar aquele propósito, sem perda de um momento.

De súbito mobilizou-se assaltado por uma lembrança que provocou-lhe novos temores.

E a que lugar se dirigiria para entregar-se? De que maneira? E terríveis imagens, imagens da morte atravessaram-lhe o espírito.

Correria decerto perigos imensos aventurando-se sozinho com o seu capacete pontiagudo, pelo campo.

E se os camponeses o encontrassem?

Com certeza, vendo um prussiano perdido, um prussiano sem defesa, trucidá-lo-iam como um cachorro vagabundo; fá-lo-iam em pedaços com os seus forcados, com as suas foices, com os seus sachos! Reduzi-lo-iam a papas com o furor próprio dos vencidos.

E se encontrasse os franco-atiradores?

Os franco-atiradores, aquele bando de celerados, sem lei nem disciplina de certo fuzilá-lo-iam sem dó nem piedade só para passarem uma hora divertida.

E ele via-se já encostado a um muro, diante de doze espingardas cujas bocas negras e redondas pareciam mirá-lo fixamente.

E se encontrasse as tropas francesas?

Os soldados da vanguarda tomá-lo-iam por algum explorador, por qualquer soldado corajoso e audaz que andasse só a fazer algum reconhecimento, e atirariam contra ele. E chegava a ouvir os disparos dos tiros dentre as ramas das árvores ao passo que ele cabia para a frente, o rosto no pó, o corpo feito um crivo pelas balas.

Sentou-se de novo, desesperado.

A situação parecia-lhe gravemente embaraçosa.

A noite caíra de todo, a noite negra e silenciosa.

Ele já nem se movia estremecendo a cada rumor que lhe chegava ao ouvidos, os rumores misteriosos e leões das trevas.

Um coelho esbarrando em uma silva quase fez fugir Walter Schnaffs.

O cricri dos grilos ecoava-lhe na alma, estridente; imitando-o.

Ele arregalava o mais que podia seus olhos enormes, buscando ver na treva, a todo instante imaginava sentir os passos de algum dirigindo-se para ele.

Depois de algumas horas que lhe pareceram intermináveis e de terríveis angústias sem fim percebeu através dos ramos que o céu aclarava-se.

Sentiu então um grande conforto; seus membros distenderam-se, descansados por fim; seu coração pulsou tranquilo; seus olhos cerraram-se; adormeceu.

Quando despertou o sol estava quase no Zênite; devia ser meio-dia.

Nenhum rumor turbava a paz melancólica do campo; Walter Schnaffs lembrou-se de que estava com uma fome terrível. Bocejava, com água na boca pensando na salsicha, na magnífica salsicha dos soldados; e tinha terríveis câimbras no estômago.

Levantou-se, deu alguns passos e sentiu que as suas pernas fraquejavam. Sentou-se de novo para refletir.

Durante duas ou três horas esteve a pesar os prós e os contras, variando a cada instante de resolução, indecisamente.

Por fim uma ideia pareceu-lhe lógica e prática: aguardar a passagem de um camponês que estivesse sozinho e sem armas, nem mesmo as de lavoura, entregar-se entre suas mãos fazendo-lhe compreender que se entregava.

Tirou então o capacete cuja ponta poderia atraiçoá-lo e pôs, com precauções infinitas a cabeça fora do buraco.

Ninguém no horizonte!

Além, à esquerda, uma aldeota deixa subir para o céu o fumo de suas chaminés, o fumo de suas cozinhas. À direita viu um grande castelo flanqueado de torrinhas.

Esperou assim até à noite sofrendo horrivelmente, só atento aos surdos lamentos de suas vísceras vazias.

E de novo a noite caiu sobre ele.

Estendeu-se no fundo do seu refúgio, e adormeceu com um sono febril, povoado de sonhos estranhos, o sono do homem esfomeado.

A aurora surgiu de novo sobre sua cabeça.

Pôs-se de novo em observação. O campo estava solitário como na véspera. E um terror novo tomava-lhe o espírito — o terror de ter de morrer de fome.

Via-se agora no fundo do buraco de costas, os olhos fechados. Pouco a pouco animais de toda a sorte aproximavam-se de seu corpo para devorá-lo, metendo-se por baixo de sua roupa para morder-lhe a pele frigida. E um corvo enorme procurava furar-lhe os olhos, com o bico afiado.

Ficou quase louco então supondo que a sua fraqueza fá-lo-ia desmaiar, não o deixaria caminhar.

E preparava-se já para lançar-se a caminho da aldeia, resolvido a tentar tudo, a desafiar todos os perigos, quando percebeu três camponeses que caminhavam em sua direção com os forcados às costas; deixou-se cair de novo no buraco.

Mas quando a tarde começou a obscurecer a planície ele saiu com lentidão do fosso e pôs-se a caminho curvado, amedrontado, com o coração palpitante dirigindo-se para o longínquo castelo, preferindo ir para aquele lado de preferência à aldeia que lhe parecia ao longe um covil de tigres.

As janelas do pavimento térreo do castelo estavam iluminadas. Uma estava aberta. Um cheiro ativo de carne assada saía por ela, um perfume que entrou violentamente pelas narinas de Walter Schnaffs que sentiu-se logo animado por uma desusada coragem.

E imprevistamente, sem mesmo refletir no que fazia, surgiu com o capacete na cabeça diante da janela iluminada.

Oito criados estavam sentados em torno a uma mesa. De repente uma aia deu com os olhos nele e ficou de boca aberta, deixando cair o copo que fez-se em cacos. Os outros espantados seguiram a direção dos olhos dela.

Viram o inimigo.

Grande Deus! Os prussianos assaltavam o castelo!

Foi um grito só, um grito horrível de espanto partido de oito bocas, depois um tumulto. Levantaram-se todos e as carreiras, empurrando-se uns aos outros dispararam pelos fundos da sala.

As cadeiras voaram pelos ares; os homens jogavam por terra as mulheres e pisavam-nas na carreira.

Em menos de dois segundos estava a sala vazia, a mesa coberta de pratos apetitosos abandonada; diante da janela Walter Schnaffs continuava imóvel, estupefato...

Depois de alguns momentos de hesitação, saltou a janela e encaminhou-se para a mesa. Sua fome exasperada fazia-o tremer como um febricitante. Um receio entretanto paralisava-o ainda. Pôs-se à escuta. Toda a casa parecia tremer. Portas batiam, passos rápidos faziam-se sentir pelos corredores. O prussiano, confuso, prestava atenção a todos aqueles rumores. Ouviu por fim baques surdos como de corpos que caem sobre terra mole ao pé dos muros.

Cessaram todos os rumores, e o grande castelo ficou silencioso como um túmulo.

Walter Schnaffs sentou-se diante de um prato que nem iniciado fora e pôs-e a comer. Comia em grandes bocados como se temesse ser interrompido, antes de ter podido encher-se bastante. Empurrava com os dedos os pedaços para o fundo da goela, a boca aberta mostrando os largos dentes vorazes. Os bocados desciam-lhe pelas goelas e iam sem interrupção ter ao estômago, inchando o pescoço na passagem. Parava por vezes para não rebentar como um tubo cheio em demasia. E tomava então a garrafa de cidra e despejava-a pelo esôfago como para lavar um cano obstruído.

Esvaziou todos os pratos, esgotou todas as garrafas; depois saturado de líquido fermentado e dos alimentos, embrutecido, preso de soluços, o espírito perturbado e a boca engordurada, desabotoou o uniforme para respirar; incapaz de dar um só passo.

Os olhos cerravam-se-lhe, as suas ideias embaralhavam-se. Apoiou a cabeça pesada nos braços cruzados sobre a mesa e suavemente perdeu a noção das coisas e dos fatos.

***

O arco lunar aclarava vagamente as árvores do parque à altura do horizonte. Era a hora fria que precede o levantar do dia.

Numerosas sombras esgueiravam-se silenciosa, por entre as árvores.

Por vezes um raio de luar fazia cintilar uma lâmina de aço.

O castelo, tranquilo, ostentava recortado entre o céu o perfil enegrecido. Só duas Janelas no pavimento térreo continuavam iluminadas.

De súbito uma voz tonante trovejou:

— Avante! Ao assalto, rapazes!

Em um átomo as portas, as ancilas voaram feitas em pedaços diante de uma onda humana que invadia a casa.

Cinquenta soldados, armados até os dentes, irromperam na cozinha onde Walter Schnaffs dormia tranquilamente e apoiando-lhe ao peito cinquenta carabinas carregadas, atiraram-no ao chão, agarraram-no de pés e mãos.

Ele arquejava aturdido, embrutecido, mal desperto pelas pancadas, doido de pavor.

Um militar corpulento todo cheio de galões dourados pôs-lhe o pé sobre a barriga gritando.

 És meu prisioneiro! Rende-te!

O prussiano só compreendeu a palavra prisioneiro e gemeu: — ya, ya, ya!

Levantaram-no, amarraram-no a uma cadeira e foi então examinado curiosamente pelos seus vencedores que resfolegavam corno baleias. Muitos mesmos, devido a emoção e à fadiga, sentaram-se.

Ele sorria agora, certo de estar finalmente prisioneiro.

Entrou um outro oficial e disse:

— Coronel, os inimigos fugiram. Parece que muitos foram feridos. Ficamos senhores da posição. 

O gordo militar enxugou a fronte suarenta e bradou:

 Vitória!

E escreveu sobre uma pequena agenda comercial que tirou da algibeira: "Depois de uma luta encarniçada os prussianos foram obrigados a bater em retirada levando consigo mortos e feridos; calcula-se que cinquenta homens ficaram fora de combate. Vários ficaram prisioneiros".

O oficial mais moço perguntou:

— Que devemos fazer agora, coronel?

O coronel respondeu:

— Agora devemos retirar-nos para evitar que o inimigo volte a atacar-nos com artilharia e forças superiores.

E deu a ordem de partida.

A coluna formou de novo à sombra dos muros do castelo e pôs-se em marcha levando ao centro Walter Schnaffs de mãos amarradas e contido em respeito por seis guerreiros de revólveres engatilhados.

Adiante marchavam alguns soldados explorando o terreno. Adiantaram-se com prudência, fazendo alto de quando em quando. Quando despontou o dia chegou à comuna de La Roche Dysel cuja guarda nacional fora a autora do brilhante feito de armas.

A população ansiosa e super-excitada esperava. Quando viram o capacete do prisioneiro estalaram formidáveis clamores. As mulheres levantavam os braços ao céu; as velhas choravam, um velho lançou um tamanco contra o prisioneiro ferindo no nariz um dos guardas.

O coronel berrava:

— Cuidado com o prisioneiro!

Chegavam por fim à casa da câmara. Abriram a prisão e meteram nela Walter Schnaffs tirando-lhe as cordas.

Duzentos homens armados montaram guarda em torno da prisão. Então, apesar dos sintomas de indigestão que o atormentavam havia alguns momentos o prussiano, doido de alegria pôs-se a dançar, a dançar perdidamente, levantando os braços e as pernas, dando risadas frenéticas até cair esgotado ao pé de uma parede.

Estava prisioneiro! Estava salvo! 

Foi assim que o castelo de Champiquet foi retomado ao inimigo depois de seis horas de ocupação.

O coronel Ratier, negociante de fazendas, que comandou aquela ação a frente da guarda nacional de La Roche Dysel foi condecorado.

O papá de Simão (Conto), de Guy de Maupassant

 


O papá de Simão

Tradução de Círio Luz
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

***

Acaba de dar meio-dia. A porta da escola abriu-se e os pequenos precipitaram-se, acotovelando-se, no afã de saírem mais depressa. Mas em vez de se dispersarem rapidamente à procura do jantar, como faziam diariamente, paravam a pouca distância, reuniam-se em grupos e punham-se a cochichar.

É que nessa manhã Simão, filho da Blanchotte, veio à classe pela primeira vez.

Todos já haviam ouvido falar, em suas casas, da Blanchotte; e ainda que se lhe fizesse, em público, bom acolhimento, as mães tratavam-na, intimamente, com certa compaixão e desprezo, sentimento que invadiu os meninos sem saberem porquê.

Quanto a Simão não o conheciam, porque jamais sabia, e não se esbofava com eles em correrias pelas ruas da aldeia ou sobre as praias do ribeirão. Não o estimavam, por isso mesmo, e era pois com sinais de alegria e de grande espanto, que ouviram, repetindo uns aos outros, o que disse um rapazote, de quatorze ou quinze anos, que parecia estar perfeitamente ao par do que dizia, tanto piscava maliciosamente os olhos.

— Vocês sabem... Simão... ora vejam... Simão não tem papá.

O filho da Blanchotte, por sua vez, apareceu no portal da escola.

Tinha sete ou oito anos. Era pálido, muito direitinho, de ar tímido, quase vesgo.

Preparava-se para voltar à casa materna quando os grupos de companheiros, cochichando sempre, e fitando-o com um olhar perverso de crianças que meditam uma troça se aproximaram aos poucos, acabando por envolvê-lo inteiramente. E Simão ali estava, firme, no meio deles, surpreso e embaraçado, sem compreender o que lhe preparavam. Mas o rapazote que trouxe a nova, orgulhoso do resultado que obteve, perguntou-lhe:

— Como te chamas?

O outro respondeu:  "Simão".

— Simão de quê? — tornou o primeiro.

A criança, toda confusa, repetiu:

— "Simão".

O rapazote gritou: "Chama-se Simão qualquer coisa... isso não é nome... Simão."

E a criança, quase chorando, respondeu pela terceira vez: — "Eu me chamo Simão."

Os peraltas puseram-se a rir. O rapazote, triunfante, elevou a voz: — "Vocês estão vendo, ele não tem papá."

Fez-se um grande silêncio. As crianças estavam estupefatas, por essa coisa extraordinária, impossível, monstruosa — um menino que não tem papá; e o olhavam como um fenômeno, um ser fora da natureza, e sentiam crescer, eles também agora, o desprezo até aí inexplicado que suas mães tinham pela Blanchotte.

Quanto a Simão, apoiou-se em uma árvore para não cair, e ficou sucumbido por um desastre como que irreparável.

Procurou explicar-se. Nada achou porém que desfizesse essa ideia terrível de não ter papá. Finalmente, lívido, gritou-lhes ao acaso: — "Sim, eu tenho papá."

— Onde está ele? — perguntou o rapaz.

Simão calou-se; não sabia. As crianças riam muito excitadas; e estes pequeninos camponeses, tão familiarizados com os irracionais sentiam a necessidade cruel que impele as galinhas, assim que veem uma companheira ferida, de acabar com ela a bicadas. Simão reparou, subitamente, o filho, de uma viúva, a quem sempre viu, como ele, a sós, com sua mãe.

— E tu também — disse a ele — não tens papá.

— Sim, respondeu o outro, como não tenho?

— Onde está? — perguntou Simão.

— Morreu, replicou-lhe o outro com um ar superior; está no cemitério o meu papá...

Um murmúrio de aprovação perpassou pelos tratantes, como se o fato de ter o pai morto, no cemitério, elevasse o seu camarada, para acachapar o outro que não conhecia o seu pai. E esses marotos cujos pais eram, na maior parte, bêbados, malcriados, grosseiros às mulheres, se apertavam cada vez mais, como se eles, os legítimos, quisessem esmagar, pela pressão, o que era ilegítimo.

Um subitamente tirou a língua e com um ar velhaco grita a Simão:

— Não tem papá, não tem papá.

Simão o agarrou com as duas mãos pelos cabelos e pôs-se a dar-lhe repetidos pontapés, enquanto o outro lhe mordia o rosto impiedosamente.

Fez-se um sarilho enorme. Os contendores foram separados e Simão viu-se ferido, rasgado, pisado, rojado por terra, no meio dos marotos que aplaudiam. E quando se levantou, limpando, maquinalmente, com as mãos a sua pequenina blusa, toda suja de terra, alguém gritou:

— Vai contar a teu papá.

Ele sentiu, nesse momento, em seu coração, um fortíssimo abalo. Eram mais fortes do que ele. Tinham-no surrado, e nem podia responder-lhes porque via que era absolutamente verdade que não tinha papá. Cheio de amor próprio tentou, durante alguns segundos lutar contra as lágrimas que o sufocavam. Depois, sem gritar, pôs-se a chorar em grandes soluços que o sacudiam entrecortadamente. Uma alegria feroz espalhou-se entre os seus inimigos, e naturalmente, como os selvagens em seus terríveis festins, fizeram roda, agarrando-se pelas mãos, e puseram-se a dançar em volta de Simão, repetindo, como em estribilho:

— "Não tem papá, não tem papá."

Simão, porém, de súbito, deixou de soluçar. Uma raiva o possuía internamente. Tinha pedras sob os pés, juntou-as e jogou-as contra os seus algozes. Dois ou três foram atingidos, e fugiram gritando; e Simão tinha o semblante tão formidável que estabeleceu-se o pânico entre os outros. Covardes, como o é sempre a multidão diante de um homem exasperado, todos se debandaram. Ficando só, o pequeno que não tinha pai, pôs-se a correr pelos campos, porque uma lembrança lhe ocorreu que lhe trouxe ao espírito uma forte resolução. Ele lembrou-se, efetivamente, que oito dias antes, um pobre diabo que para sustentar-se recorria à caridade pública, afogou-se porque não tinha mais dinheiro. Simão estava presente quando o tiraram d'água, e o miserável, que lhe parecia de ordinário tão lastimável, maltrapilho e feio, o impressionou agora pelo seu ar tranquilo, as suas faces pálidas, a sua comprida barba molhada, e os seus olhos abertos, muito calmo. E alguém disse ao redor: — Morreu. Outro acrescentou: — É bem feliz agora. E Simão queria também se afogar porque não tinha pai, como aquele mendigo se havia afogado porque não tinha dinheiro. Chegou bem próximo à água e viu-a correr. Alguns peixes saltavam, rápidos, na corrente, e às vezes, em pequeninos arrancos, procuravam apanhar as moscas que esvoaçavam na superfície da água. Parou de chorar para observá-los, pois que aquilo o interessava sobremaneira. Mas, às vezes, como nas calmarias, que sucedem às tempestades, passam, rápidas, grandes rajadas de vento, que sacodem as árvores e se perdem na planície, este pensamento o aguilhoava com uma dor profunda: — "Vou me afogar porque não tenho papá."

Fazia um calor agradável. O sol aquecia suavemente a relva. A água brilhava como um espelho. E Simão tinha momentos de beatitude, deste langor que sucede ás lágrimas, em que lhe despertava um desejo ardente, de adormecer ali, sobre a relva, ao sol.

Uma pequenina rã verde saltou-lhe de sob os pés. Tentou apanhá-la. Escapou-lhe. Perseguiu-a e não o conseguiu por três vezes seguidas. Afinal apanhou-a pelas extremidades das patas traseiras, e pôs-se a rir por ver os esforços que o animalzinho fazia por escapar. Encolhia-se sobre as patas traseiras, e depois, subitamente, se distendia, como se as patas fossem estiletes, e com os seus olhos redondos, de círculo de ouro, agitava as patas dianteiras como se fossem mãos. Isso fez-lhe recordar-se das pequeninas tábuas, colocadas em ziguezague, que por um idêntico movimento fazia manobrar pequenos soldados colocados em cima. E pensou então em sua casa, em sua mãe, e possuído de grande tristeza recomeçou a chorar. Tremores lhe passavam pelos membros; pôs-se de joelhos e recitou a sua oração como antes de dormir. Mas. não a pôde acabar porque os soluços lhe vieram tão cerrados que o sucumbiam. Nada mais pensava, nada mais via ao seu redor, e em nada se ocupava senão em chorar.

Súbito, uma pesada mão apoiou-se sobre o seu ombro, e uma voz grossa lhe perguntou:

— O que te faz sofrer tanto, meu pequerrucho?

Simão voltou-se. Um robusto operário que tinha a barba e os cabelos pretos encaracolados o olhava de modo atencioso.

Respondeu-lhe com lágrimas nos olhos e a garganta atada:

— Surraram-me... porque eu... eu... não tenho papá.

— Como? — disse o outro sorrindo, todo o homem o tem.

A criança respondeu com tristeza, no meio de seus espasmos, e sua dor: — "Eu... eu... não tenho."

O operário, então, tornou-se sério; havia reconhecido o filho da Blanchotte, e ainda que morador de pouco no lugar, ele sabia vagamente a história de sua vida.

— Vamos — disse ele — consola-te, meu rapaz, e vem comigo à casa de tua mãe. Dar-se-te-á um papá.

Puseram-se a caminho, o homem conduzindo a criança pela mão, e sorrindo porque não desgostava-lhe ver essa Blanchotte, que era, dizia-se, uma das mais belas mulheres do lugar; ele pensava naturalmente, que quem, em começo de sua juventude, havia tido uma queda, podia, com o correr dos tempos, ter outra. Chegaram diante de uma casa pintada de branco, bem parecida.

— É ali — disse o menino — e gritou: "mamã!"

Apareceu uma mulher, e o operário cessou, bruscamente, de sorrir porque compreendeu imediatamente, que se não brincava com esta mulher alta e pálida, que ficava com tanta severidade à sua porta como para defender de um homem o umbral que já havia sido traído por outro.

Tímido, com o boné na mão balbuciava:

— Eis aí, senhora, trago-lhe o seu pequeno que se achava perdido nas imediações do rio.

Mas Simão saltou ao pescoço de sua mãe, e lhe disse, pondo-se a chorar: — "Não me perdi, mamã, eu queria me afogar porque os meus companheiros surraram-me... surraram-me... porque eu não tenho papá.

Uma vermelhidão afogueada cobriu a face da jovem senhora, e magoada, ao fundo d'alma, abraçou com fúria o seu filho, enquanto algumas lágrimas furtivas lhe corriam pelo rosto.. O homem, emudecido, ali se achava, não sabendo como sair. Simão, porém, num ímpeto, correu para ele, e lhe disse:

— Queres ser o meu papá?

Fez-se um grande silêncio. A Blanchotte, muda e torturada pela vergonha, apoiou-se contra a parede, com as duas mãos, sobre o coração.

A criança vendo que nada se lhe respondia, tornou:

— Se não queres, voltarei a afogar-me.

O operário levou a coisa em brincadeira e respondeu rindo: — "Quero — quero muito."

— Como te chamas — perguntou-lhe então o menino — para que eu responda aos outros quando perguntarem pelo teu nome?

— Filipe — respondeu o operário.

Simão calou-se um segundo para bem fazer penetrar esse nome em sua memória, depois estendeu-lhe os braços, consolado, dizendo:

— Pois bem, Filipe, tu és o meu papá.

O operário levantando-se do chão, abraçou-o bruscamente pela cabeça, e depois abalou rapidamente, a grandes passadas.

Quando o menino entrou na escola, no dia seguinte, foi acolhido com um riso hipócrita, e à saída, quando o rapazote quis recomeçar a troça, Simão lançou-lhe estas palavras à cara, como teria feito a uma pedra: — "chama-se Filipe o meu papá."

Urros de alegria partiram de todos os lados:

— Filipe de quê?... Filipe de quê?... Que é isso?... Filipe... Onde achaste esse Filipe?

Simão nada respondeu e inabalável na sua fé, desafiava-os com os olhos, dispostos a deixar-se antes se martirizar do que fugir deles. O mestre escola o livrou e o fez voltar para a casa.

Durante três meses o robusto operário passou pela casa da Blanchotte muitas vezes, e sempre se apressou em falar-lhe, quando a via, cosendo, à janela. Ela respondia-lhe delicadamente, sempre séria, nunca o convidando a entrar. Entretanto, um pouco fátuo, como todos os homens, ele a imaginava, muitas vezes, mais enrubescida que de costume, quando com ela conversava.

Mas uma reputação decaída é tão difícil de se levantar, e torna-se tão frágil, que apesar da reserva de Blanchotte, dava-se à língua, já, na vizinhança.

Simão é que já amava muito o seu novo papá e passeava com ele todas as tardes, logo que acabava o serviço. Ia assiduamente à escola, e passava pelos camaradas muito digno, sem nada lhe responder.

Um dia, todavia, o rapaz que primeiro havia criticado, lhe disse:

— Tu mentiste, não tens um papá que se chama Filipe.

— E por quê? — perguntou-lhe o outro embaraçado.

O rapaz, esfregando as mãos, replicou-lhe:

— Porque se o tivesses, ele seria o marido de tua mamã.

Simão perturbou-se diante da justeza do raciocínio. Entretanto, respondeu: — "Quer queiras, quer não, será sempre o meu papá."

— Isso sim, pode ser — disse o outro troçando — mas não será bem o teu papá...

O pequeno da Blanchotte curvou a cabeça e retirou-se pensativo, para o lado da forja do tio Loizon onde trabalhava Filipe.

Esta forja achava-se como que envolvida pelas árvores. Estas faziam-lhe muita sombra, e só a vermelhidão de um fogo formidável, aclarava, em grandes reflexos, cinco ferreiros de braços nus, que batiam sobre as suas bigornas com um tinido terrível. Trabalhavam de pé, inflamados como se fossem demônios, os olhos fixos sobre o ferro incandescente, que eles amolgavam, e as suas pesadas ideias alçavam e desciam como os seus pesados martelos.

Simão entrou cautelosamente e foi puxar o seu amigo pela manga. Este voltou-se. Súbito o trabalho Interrompeu-se e todos puseram-se a olhá-lo com atenção. Então, no meio do silêncio desacostumado, ouviu-se a fraca voz de Simão:

— Responde-me, Filipe, o rapaz da Michaud contou-me agora que tu não eras de forma alguma o meu papá.

— E por quê? — perguntou-lhe o operário.

O menino respondeu, com toda a sua estranheza:

— Porque tu não és o marido da mamã.

Ninguém riu. Filipe continuou de pé, apoiando a fronte sobre o dorso de suas grossas mãos que seguravam o cabo do malho, apoiada sobre a bigorna. Meditava. Seus quatro companheiros o olhavam, e pequenino entre estes gigantes, Simão ansioso esperava. De súbito, um dos ferreiros, interpretando o pensamento de todos, disse a Filipe:

— É sempre uma boa e agradável mulher a Blanchotte, merecedora e séria, apesar de sua desgraça, e seria uma digna esposa a qualquer homem bom.

— Isso é verdade — disseram os outros três.

O operário continuou:

— Será dela a falta, se ela a tem? Prometeu-lhe casamento, e eu conheço mais de uma a quem se respeita hoje e que fez a mesma coisa.

— Isso é verdade —  responderam em coro os outros.

O primeiro continuou: — "O que ela tem sofrido, a pobre, para criar o seu rapaz, sozinha, e o que ela tem chorado, depois que não sai senão para ir à Igreja, não há senão Deus que o sabe."

— É ainda verdade, disseram os outros.

E então nada se ouvia, a não ser o sopro que ativava o fogo da forja.

Filipe, bruscamente, inclinou-se para Simão:

— Vai dizer à mamã que irei falar-lhe hoje.

Voltou ao trabalho, e, em único golpe os cinco martelos caíram juntos sobre as bigornas. Bateram assim, ferro, até à noite, fortes, possantes, alegres, com os próprios martelos de ferreiros.

Da mesma maneira que o sino-mor de uma catedral ressoa, nos dias de festa, acima do som dos outros sinos, assim o malho de Filipe, dominando o ruído dos outros, batia, de segundo em segundo, com um barulho ensurdecedor. E ele, de olhos acesos, forjava apaixonadamente, no meio das fagulhas.

O céu já estava cheio de estrepas, quando ele foi bater à porta da Blanchotte. Vestia a blusa domingueira, uma camisa limpa, e tinha a barba feita. A jovem senhora, apareceu-lhe no limiar da porta e lhe disse com um ar triste: — "Fez mal em vir assim tão tarde, Sr. Filipe."

Ele quis responder, balbuciou algumas palavras e ficou confuso diante dela.

Ela continuou: — "O Sr. compreende, todavia, que é necessário que nada mais se fale de mim."

Então ele de súbito:

— Que mal pode haver, se a senhora quiser ser a minha esposa?

Nada ela respondeu, e afastou-se, e Filipe galgou rapidamente a porta. Simão que estava deitado, em um leito, a um canto, veio-lhe ao encontro, e sentiu-se alçado nas mãos de seu amigo, e este, segurando-o com os seus braços de Hércules, lhe gritou:

— Dirás aos teus camaradas que o teu papá é Filipe Remy, o ferreiro, e que ele arrancará as orelhas a todos os que te fizerem mal.

No dia seguinte a escola estava repleta, e quando o estudo começou, o pequeno Simão levantou-se, pálido e de lábios trêmulos: — "Meu papá — disse ele, com voz clara — é Filipe Remy, o ferreiro, e prometeu tirar as orelhas a todos os que me fizerem mal."

Desta vez ninguém riu, porque conhecia-se bem, esse Filipe Remy, o ferreiro, e era um papá este que poderia fazer o orgulho de qualquer pessoa.